A autonomia universitária explicada às crianças

old-russia-1Para destoar do frenesim de Costa, de Hollande e da decisão do Tribunal Constitucional, uma pequena reflexão sobre a (falta de) autonomia e o centralismo das universidades portuguesas.

“Pai quando for grande quero ser cientista para descobrir a solução para os problemas do mundo”. “Fico feliz filho, mas vais ter de ir para uma universidade estrangeira”. “Mas pai, porque é que tenho de ir para o estrangeiro? As universidades portuguesas não são boas?”. “Não filho, algumas das universidades que temos actualmente são boas, começam a ter algum reconhecimento internacional e poderiam vir a ser muito melhores. Mas sabes, se o que está a acontecer agora não parar, daqui a dez anos teremos voltado muitos anos atrás”. “Mas porquê pai? Eu queria estudar aqui, e queria que outros como eu, de outros países do mundo viessem para cá estudar, para o Sol e mar do nosso país. Não pode ser porque somos um país pobre não é?”. “Não filho, não é por causa disso. O maior problema das universidades portuguesas não é falta de dinheiro nem a falta de ambição e menos ainda a falta de capacidade de trabalho. O problema é apenas…o Estado não as deixar ser melhores.”. “Não percebo, o estado não quer que as nossas universidades sejam boas?”. “Não é bem isso. Simplesmente o Estado e o governo não tem coragem para dar às universidades a única coisa que as boas universidades precisam para serem ainda melhores. E não é de dinheiro que se trata, é uma coisa que se chama autonomia”. “Autonomia pai?”. “Vou tentar explicar-te. Imagina que és um professor numa universidade portuguesa e que tens verbas para comprar um determinado equipamento que poderá tornar a tua equipa numa das melhores do mundo, que permitirá aos teus alunos ter uma formação os tornará reconhecidos em toda a parte, e que esse equipamento servirá para criar conhecimento, para aumentar a competitividade de muitas empresas no teu país, para tornar o teu país conhecido no estrangeiro. Apesar de tudo isso, provavelmente não conseguirás comprar o tal equipamento, porque as leis que regulam a sua compra são tão complicadas e abstrusas que ninguém percebe como se aplicam. Mais, se o comprares mesmo assim (teimoso como és), muito provavelmente estarás a violar uma obscura alínea de um mais obscuro decreto-lei e um (ainda muitíssimo mais obscuro) auditor ir-te-á confrontar com isso no futuro. Por isso, se fores professor ou investigador numa das nossas universidades é melhor mesmo é não comprares o tal equipamento. Assim, a tua universidade não cresce e não cumpre o seu papel, é certo, mas tu também não arranjas sarilhos no futuro. Imagina agora que a tua universidade conseguiu verbas para contratar um prémio Nobel que virá cá desenvolver uma certa área científica (todas as grandes universidades do mundo o fazem): também é ilegal fazê-lo (fica quieto filho), e por isso nenhum Nobel existe em nenhuma universidade portuguesa. Imagina finalmente, que queres ir a uma conferência em determinado país e que determinada agência tem viagens a esse país quatro vezes mais baratas do que aquelas a que o estado te obriga a comprar: terás de comprar as mais caras, as da tal agência que tem o monopólio com o estado. Se não o fizeres, filho, como tu dizes “estarás feito” com o tal auditor, cuja função única é verificar se a Lei é cumprida (não vás à conferência filho, só vais arranjar é sarilhos). E podia continuar com exemplos destes”. “Mas pai, todas essas regras de certeza que permitem poupar dinheiro ao nosso país de outras maneiras”. “Não filho. A falta de autonomia (dei-te apenas alguns exemplos entre muitos de outros) não permite poupar um tostão ao nosso país. Pelo contrário: é um enorme desperdício de recursos financeiros e humanos, um imenso escoadouro de alento e motivação para muitos. Porque muito do tempo que devia ser consumido a fazer coisas – como resolver os problemas do mundo – é gastos pelas universidades a interpretar leis, despachos, portarias e pareceres esquizofrénicos, que a elas não se deviam aplicar, e que ninguém percebe qual o sentido”. “Ah então isso é que é a falta de autonomia universitária”. “É meu filho, e é por isso que vais ter de ir para o estrangeiro, se quiseres estudar numa grande universidade”.

Vice-Presidente do IST

Artigo original no iOnline.

3 pensamentos sobre “A autonomia universitária explicada às crianças

  1. A natureza contestadora da universidade, e principalmente, dos universitários preocupa os governos. Por isso em todo lugar existe este interesse em manter ela sob controle.

  2. A história é curta, seria necessário também explicar à criança qual seria a reação da Vice Presidência da universidade-que-poderia-ser-a-melhor-do-mundo-mas-que-não-pode-por-causa-do-maléfico-estado-de-que-também-fazem-parte, quando o acionista principal da universidade lhes dissesse que podiam contratar o prémio Nobel que entendessem mas teriam que ficar com o mesmo orçamento, ou que teriam que acompanhar os cortes a que o acionista principal, possivelmente já em pré-falência, estaria obrigado a fazer. Não tenho a menor dúvida, que a reação seria: “vamos para a frente, faríamos escolhas, possivelmente teríamos de dispensar pessoal noutras áreas não escolhidas, cortaríamos o orçamento em despesas não essenciais para que pudéssemos alocar os recursos às áreas fundamentais”. Tal e qual! Com todo o respeito, naturalmente.

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