O pântano

PantanoUma incompreensível excitação tomou conta do Largo do Rato. Durante a campanha eleitoral para as “europeias”, o PS sentiu-se suficientemente à vontade para resgatar José Sócrates do seu programa na RTP que só é visto pelo dr. Silva Pereira e o João Galamba, e exibi-lo como trunfo eleitoral num famoso restaurante (de fraca qualidade) da Baixa lisboeta. Ontem, após ter vencido as eleições europeias com 31,4% dos votos – contra os 27,7% da coligação governamental – António José Seguro apareceu aos portugueses que não estavam a ver o “Poder do Amor” ou o “Rising Star” afirmando, aparentemente sem qualquer sombra de hipocrisia, que “este governo chegou ao fim” e que a vitória socialista significa que “os portugueses” querem um governo “liderado pelo PS”. A crer nos jornais de hoje, ninguém – nem os militantes do PS – concorda com ele.

São várias as vozes que clamam por uma acalmia dos entusiasmos socialistas, e todas elas notam a escassa margem da vitória. Mas mais do que uma questão de quantidade de votos no PS, a fraqueza da vitória rosa é uma questão de qualidade desses mesmos votos: Seguro está muito enganado se pensa que as pessoas votaram no seu partido com uma grande convicção de que este mudará o país nos próximos anos, em vez de por mera repulsa contra a coligação governamental. E mais enganado estará se acreditar que não faz diferença.

Imaginemos que esta vitória do PS lançará, como Seguro deseja, o partido para uma vitória incontestável nas legislativas. Admitamos até que, quantitativamente, essa hipotética vitória venha a ser “estrondosa”. Será muito diferente tal vitória ser resultado de uma adesão convicta e forte ao programa do PS, de uma confiança de que os socialistas terão uma política que melhorará as circunstâncias do nosso país, ou ser resultado de uma mera rejeição do actual Governo. Não custa perceber porquê. Imaginemos que, por alguma razão, o PS, uma vez alçado a São Bento, se vê forçado a aplicar alguma medida de consequências difíceis e impopular junto do eleitorado: se a vitória socialista resultar dessa adesão ao programa do partido, essas eventuais medidas serão relativamente bem aceites, porque em certo sentido já o teriam sido anteriormente, com a identificação forte do eleitorado com a perspectiva de uma governação liderada por Seguro. Já se Seguro for parar a São Bento fruto do desprezo que o eleitorado parece sentir por PSD e CDS/PP, que ninguém duvide que à primeira medida impopular que prejudique de forma imediata as condições de vida de algum sector da sociedade portuguesa, logo o descontentamento contra o actual governo que pudesse ter conduzido Seguro ao poder se viraria contra ele.

Ora, se à apesar de tudo escassa votação no PS, ao excelente resultado da CDU, ao jubileu de “Márinho e Pinto” e à elevadíssima abstenção, juntarmos a incredulidade com que o triunfalismo da declaração de Seguro foi recebido pelos poucos que lhe prestam atenção, dificilmente restará alguma dúvida de que esta foi, qualitativamente ainda mais que quantitativamente, uma vitória fraca do PS, que talvez sirva para o lançar para o poder mas que nenhumas condições para o exercer lhe trará. Os partidos encararam estas “europeias” como uma espécie de jogo de pré-temporada para as legislativas. Mas o PS, se bem que tenha ganho o encontro, não jogou de jeito. Nada que devesse apoquentar o português comum, se o problema se ficasse por aí.

Resta que não fica. Ninguém contestará que a saúde de um sistema político se pode talvez medir pela capacidade que este tenha de gerar dentro de si uma alternativa a um poder que tenha perdido o favor popular. Estas eleições, e o clima político que as precedeu, parecem indicar que a confiança popular no actual Governo se perdeu. O que claramente não indicam é que o eleitorado veja uma clara alternativa no PS. Por isso 66,7% dos portugueses ficaram em casa, 12,6% votaram na CDU, 7,4% branco ou nulo, 7,1% no dr. “Márinho”, 4,5% no Bloco de Esquerda, 2,1% no Livre, e 6,8% nas mais ou menos folclóricas restantes agremiações que se apresentaram a concurso. À falência da governação de Passos Coelho não correspondeu – pelo menos por enquanto – uma afirmação do Partido Socialista com alternativa credível ao exercício do poder. Ficou apenas o “pântano” que um dia um antigo mentor de Seguro disse querer evitar.

Há, claro, uma “solução” óbvia para o problema, que muitas alminhas – algumas delas penadas – pedem insistentemente: aquilo a que noutros tempos se chamava de uma “fusão”, ou com menor benevolência, de “pastel”, a chamada à governação em simultâneo do poder decrépito e da alternativa ainda em gestação. Embora aparentemente engenhosa – e atractiva para quem queira aparecer como sua eminência parda e superficialmente neutral – a “solução” não solucionaria grande coisa. Em vez de produzir um poder forte, conseguiria apenas trazer duas fraquezas para a sua sede, que não juntariam outra coisa além do desprezo generalizado de uma população que já o nutre por ambas as partes, e que tenderia a acentuá-lo se fizessem um cozinhado deste género. Além de que, o que não é irrelevante, traria para dentro do governo um conflito político que deveria estar fora dele, no parlamento e na sociedade em geral. Esta “solução” seria assim apenas provisória, e com a agravante de degradar as já de si muito precárias condições de exercício do poder num país com cada vez maior desconfiança na classe política. O “Bloco Central” pode ter servido em 83/85, mas convém não esquecer que a seguir veio a adesão à CEE e os seus abençoados fundos, um verdadeiro maná caído dos céus berlinenses que permitiu camuflar os nossos males internos e as querelas insanáveis que eles tendem a produzir. Mas em 2016 ou 2017 não virão fundos, antes exigências de “austeridade” e de medidas impopulares.

O resultado das eleições de ontem, apesar da esfuziante celebração de Seguro, não deve alegrar ninguém. Não penso que seja exagero dizer que é o pior que podia acontecer. Ao PS, ao PSD e CDS/PP, e acima de tudo – pelo que põe a nu e deixa antever – a todo o país.

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5 pensamentos sobre “O pântano

  1. M. Miranda

    Basta ter em atenção o que aconteceu em França desde que François Hollande ganhou as presidenciais para ver o que acontecerá em Portugal nas próximas legislativas se o PS ganhar, aliás como preconizado pelos resultados das europeias de ontem.
    O grande problema é não se ver qualquer hipótese da sociedade civil ser capaz nos próximos anos de gerar uma alternativa política capaz de tirar o país do dito “pântano”. Daí até ao “quanto pior, melhor” vai um pequeno passo

  2. dervich

    O PS ganhou por 1-0 com um golo de penalti que o adversário ofereceu e com uma exibição miserável.

    O PSD passou o tempo todo a jogar duro, feio, a fazer fitas, a queimar tempo e a queixar-se do arbitro.

    A CDU manteve-se discretamente a cumprir a sua função de nº 6, cortando com eficácia qualquer bola mais perigosa.

    O MPT lançou no jogo uma arma secreta que espalha brasas por todo o lado mas que não defende nada nem joga para a equipa.

    O BE andou a jogar cheio de mazelas, a coxear e aflito para disfarçar as suas debilidades. Quase que pediu para ser substituído…

    O LIVRE entrou tarde na partida, fez uns arranques pelas extremas mas ainda lhe falta experiência para ser mais consequente.

  3. tina

    O que é estranho é que ninguém ainda reparou que estes eleições mostram que o socialismo está no fim. Em França, os socialistas ficaram por 14%!…. No Reino Unido, o Labour empatou com os Conservadores e estes, tal como o PSD aqui, têm estado a governar com medidas de austeridade. Em Portugal, também não foi um empate por pouco. Na Alemanha, Reino Unido, França e Austria os partidos de direita atingiram bastante representatividade. O voto na direita é um voto pró-nacional, contra emigrantes e contra a União Europeia. Vê-se que as populações dos países ricos estão fartas de ajudar os outros, que ainda por cima são uns mal agradecidos. Por outro lado, as pessoas comuns vão percebendo que o socialismo só representa má gestão, endividamento e bancarrota. Já não acreditam nas patranhas da esquerda e não estão dispostas a arriscar. Aqui em Portugal, o PS continua com uma linguagem que já não convence ninguém. Mesmo que mude de líder, nunca irão ganhar por muito. O socialismo já era.

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