Mais um Domingo silencioso e cinzento

O fenómeno que ocorrerá no próximo Domingo é tão surreal e absurdo que, embora possa parecer inútil e penoso falar acerca dele, é imperdoável não o tentar fazer. No dia 25 de Maio, alguns portugueses sairão de casa com o propósito de atribuir votos, concentrando-os em torno de duas ou três candidaturas frívolas e indistinguíveis entre si, com base em nenhum debate de ideias para a Europa – que, por sua vez, também não existem, ou talvez não se revelem à descarada – protagonizado por figuras políticas híbridas e insossas, como manda a liberal-democracia, figuras estas que não nos representam efectivamente mas que ambicionam somente distribuir-se pelos 21 lugares, materialmente afortunados, mas politicamente insignificantes para os destinos da nação.

O surreal e absurdo não é a previsível abstenção, mas sim o ainda considerável número de eleitores que se sente motivado a votar nas actuais circunstâncias. Considerando os níveis de abstenção, perto de uns abençoados 70%, é tentador acreditar que as eleições europeias, grosso modo, contam sobretudo com a participação dos assíduos filiados que vão participando nas tímidas patuscadas regionais e que seriam assombrados por um pesado sentimento de culpa se não acorressem às urnas para cumprir os preceitos desta manobra de entretenimento colectivo e de débil legitimação.

O que interessa sublinhar nesta campanha não é ausência de debates entre os candidatos partidos nos meios de comunicação. O que salta à vista é que a pobreza de ideias que varrem os programas dos principais partidos não justificaria a realização de debates, já que os candidatos ficariam expostos ao ridículo das concordâncias moldadas além-fronteiras, quando questionados relativamente a assuntos europeus, e ao ridículo da intriga quando procurassem ocupar o tempo de antena com falsos antagonismos engendrados pela agenda político-partidária nacional. Silenciar qualquer réstia de esperança num confronto de ideias é a forma mais confortável de livrar os partidos do arco da governação desse tormento que seria ter de enfrentar partidos pequenos com algumas ideias palpáveis que tocam em pontos sensíveis. É mais simples seguir a via de mostrar actividade, mobilizando as claques partidárias para arraiais de pouca adesão popular e de muita encenação popularucha, do que deixar os candidatos “entre a espada e a parede” em matérias como política monetária, imigração, referendos, harmonização fiscal, “inverno demográfico”, segurança interna e segurança externa, etc.

Enquanto os mais votados, em Portugal, dispensam a tarefa maçadora de se posicionarem claramente em relação a estes e outros assuntos, os irremediavelmente enjeitados, condenados à irrelevância gráfica na noite eleitoral, esforçam-se por criar uma imagem demarcada na defesa de causas concretas. Ainda assim, é um esforço em vão; é como tentar consertar um candeeiro avariado numa localidade sem acesso a rede eléctrica. Se queremos mais uma prova de que aqueles que vão a votos no Domingo não conseguem fazer da Europa nada mais do que uma simples central distribuidora de fundos, indutora de dependências e de vícios, basta ler a propaganda eleitoral que nos invade a caixa do correio. Neste caso, atente-se num folheto da coligação Aliança Portugal: “Alguns tentam fazer esquecer que as creches, os lares, os hospitais, as escolas, as bolsas de estudo, a formação profissional, as estradas, o saneamento e até a água que bebemos, têm na sua grande maioria, financiamento de fundos europeus. Também por isso precisamos de estar na Europa, por Portugal.”

Agradeço o esforço de enumeração saloia de tantas conquistas, certamente inspirados pela “Life of Brian” dos Monty Python. Generalidades repetidas como uma espécie de chantagem que pretende deixar qualquer eurocéptico consciencializado da sua ingratidão e imaturidade por revelar tão ousada resistência e fraca empatia para com o Império-Benevolente-dos-Almoços-Grátis. Esta publicidade enganadora que acena com recompensas, reflecte bem quão oca é a ideia da Europa destes senhores.

Um processo de integração internacional pressupõe alguma transferência de lealdade de um centro de poder para outro, o que, por sua vez, pressupõe existência de interacção entre as unidades cooperantes. Ora, aquilo que se verifica é uma confiança excessiva na força das vantagens económicas que tenta construir algo desprovido de uma matriz civilizacional comum, agregadora dos naturais particularismos nacionais. Como afirma Nye, a propósito da necessidade de um sentido de identidade enquanto força de apoio à integração regional: “Quanto mais forte for o sentimento de permanência e maior o apelo à identidade, menor será a disposição dos grupos de oposição de atacar, frontalmente, um determinado mecanismo de integração.” (Nye, 1971, p. 73) Para tristeza daqueles burocratas que se lamentam por ainda não terem encontrado a receita para o sucesso, a autêntica confiança dos povos europeus não é coisa que se decrete. Não se enfrenta com a mesma leviandade com que se regulam autoclismos, rótulos de alimentos ou com que se fabricam frágeis estabilidades sociais de subúrbio ou ilusórios igualitarismos de “género”. A lealdade conquista-se e alimenta-se não só de necessidades comuns como também de elementos culturais e religiosos agregadores.

Este trilho em que a Europa avança não é apelativo para o comum dos mortais europeus, não só pela propensão federal que se afigura e pelo carácter nebuloso e labiríntico dos processos. Não é apelativo porque tornou-nos num continente órfão de lealdades de longo prazo, dominado por uma atitude de “nothing to kill or die for, and no religion too”, transformando-nos em bobo da corte no palco internacional. Somos uma Europa subserviente, receptiva à mutilação da sua identidade para servir silenciosamente as exigências daqueles que a sujeitam a uma transfiguração que vai aumentando o desfasamento entre a legislação e aquilo que são os hábitos e expectativas dos povos europeus. Sem esquecer que a dissolução das fronteiras nacionais tem desafiado a especificidade de cada um dos seus membros em lugar de se limitar a potenciar a profícua aproximação dos cidadãos europeus e a abertura e cooperação económica.

A abstenção é uma opção bastante racional e compreensível, considerando, por exemplo, as barreiras inultrapassáveis entre os europeus e o processo decisório, a frieza com que os eleitos se empenham em apunhalar, dia após dia, a herança cultural europeia, e o obscurantismo que vai edificando uma Babel cercada por intenso e permanente lobbying imbatível. Apesar de a abstenção ser, por si só, um importante sinal de apatia e indiferença geradas por todo este processo democrático grotesco, julgo que seria menos inútil (não consigo dizer «útil”) optarmos por enviar sinais mais expressivos que não se prestem a ser objecto de interpretações dúbias e aproveitamentos ideológicos ou didácticos, em tom tutorial, por parte dos comentadores habituais. Sinais mais expressivos passam por votar em partidos que vão no sentido da reacção ao que a União Europeia tem vindo a promover.

pianddsnj

6 pensamentos sobre “Mais um Domingo silencioso e cinzento

  1. Marco

    Devia estar uma opção nos boletins de voto do tipo “nenhum destes artolas”.

    A política em Portugal é miserável e está cheia de actores miseráveis (daí o problema de falta de credibilidade), o que se passa devia envergonhar qualquer um nessa classe. O pior é que pela Europa a coisa repete-se. Daí que cada vez mais isto vá de mal a pior … falta alguém com punho, mas … não em demasia.

  2. E’ uma caracteristica deste sistema colectivista-coercivo chamado “democracia”. A atraccao pelo poder e’ mais forte nos piores elementos de uma sociedade. Qualquer pessoa produtiva e inteligente nao deseja ser “master” de outros seres humanos!

  3. José Silva vaz

    A mim tanto me faz ser Junckers ou Vulcano quero é água quente! Quanto ao schultz nem para inventar a água quente serve! Qual Europa? A dos tretas que lutam por ordenados milionários e prebendas sem fim pagas pelos contribuintes? Quanto aos indígenas era mandar os 101Dalmatas para Felgueiras juntamente com o Assis.

  4. Hugo Rego

    Cara Daniela, um conselho, não necessita de citar qualquer autor para fazer valer aquilo que, para mim, é uma das opiniões mais lúcidas e sérias que já li sobre a matéria.
    Infelizmente, o teor da esmagadora maioria dos comentários que pululam pelas páginas de blogs semelhantes ou de órgãos de comunicação social, poderão servir de chave para um entendimento de alguns porquês: o basismo, a ausência atroz de ideias, o nepotismo partidáriozinho é, no meu entender, um reflexo de uma fatia expressiva da populaça mais interventiva mas, nem por isso, mais consciente, séria, objectiva.

    Apesar de não me rever em qualquer uma das listas, também não considero a abstenção como razoável ou, sequer, aceitável. Democracia é responsabilidade. Ponto.

    Se a Europa Federal é um trilho nebuloso e labiríntico (não coloco em questão já que considero tal, inevitável, tendo em conta o contexto geopolítico interno e externo), a propensão para a mesma não é inevitável mas, no meu entender, é desejável. Por todas as razões.

    Não creio que sejemos uma Europa subserviente. Antes pelo contrário. Infelizmente, o que o núcleo duro Europeu tem como projecto, dificilmente será percepcionável (muito menos entendível) pelo comum dos cidadãos. Mas espero, com toda a sinceridade, que continue a ser conduzido com a mestria e capacidades reveladas até hoje. Porque tem sido brilhante. Daqui a umas décadas, o resultado estará à vista.

    Enquanto Português, lamento que o tempo tenha matado a Escola e a Memória da História. É triste, desolador, constatar que a nossa “ilustre elite” se resuma a uma cambada de parolos ignorantes e míopes. Salvaguardadas as devidas e raras excepções mas porque excepções e tão raras, se tornam inconsequentes, logo, irrelevantes no desenrolar do processo.

    Felicitações pelo artigo.

  5. Bento 2014

    Campanhas eleitorais, uma inutilidade para comer papalvos. Uma única frase servia para todos se apresentarem: Olhem para o que eu fiz e meçam bem como faço ou o que seria capaz de fazer se me dessem rédeas.
    Sai uma proposta:
    Que o parlamento europeu funcione com delegações dos parlamentos nacionais (de forma continuada ou não) na proporção dos votos recolhidos por cada agremiação politica nas legislativas caseiras. Eleições específicas para o parlamento europeu só se justificariam no caso de ser necessário recorrer a marcianos. Será preciso fazer um desenho?
    E outra:
    Reformular o conceito de abstenção, não a confundindo com insondáveis razões de ausência nas urnas. Criar um campo (X) para esse efeito em cada boletim de voto. Esta intransmissível , pessoal e inconfundível opção merece e deve exigir a dignidade de voto validamente expresso. Uma civilizada, consciente e ponderada escolha não pode ser obrigada a ficar na rua em vala comum de incertos. Os nossos deputados, na Assembleia da República, apesar da aviltante disciplina partidária a que se submetem, para se abster tem que marcar presença. Quero lá uma cruzinha para me abster, querendo.

  6. k.

    Precisamente porque não há um generalizado sentimento de pertença Europeu, a construção Europeia tem de ser feito numa perspectiva de ganhos mútuos – acho bem que a AP refira isso no seu manifesto.

    De resto, se o sentimento “Europeu” não é certamente generalizado, não é inexistente. Eu considero-me Europeu, e sinto-me tão confortável na presença de um Ingles, Alemão ou Polaco como na presença de uma pessoa do Porto. Somos essencialmente iguais. O sentimento de pertença, de irmandade, está lá – obviamente torço por equipas Portuguesas em qualquer competição, mas na ausência destas, torço por equipas Europeias. São.. cá da terra, por assim dizer.

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