Bem-aventurados os pobres de espírito, que deles será o Reino dos Céus. Ou: há gente tão previsível.

Já sabemos: andam por aí umas pessoas, que até tiveram responsabilidades no término da ditadura do estado novo e na instituição da democracia (democracia pálida e adoentada, mas é o que temos), que não fazem ideia do que é uma democracia. Isto é a nossa fava no plano político. No plano da comunicação social e blogues temos outras favas. Há liberdade de expressão, sim senhora, de resto amam de amor assolapado a liberdade de expressão e juram a pés juntos que toda a gente tem direito a expressar aquilo que pensa. Mas como a coerência não é um dom uniformemente distribuido, este amor todo concretiza-se em espernear sempre que alguém ousa sair dos limites ao discurso estabelecidos pelas pessoas boas que sabem que calamidade nos esmagará se se permitir às gentes de direita visibilidade igual à que têm as pessoas (boas) de esquerda, que o povo é burro e ainda comprava a xaropada. É chamar-lhes logo nazis, de extrema-direita, ladrões de rebuçados das criancinhas, saudosistas das câmaras de gás, antes que esta gente fique com a ideia que pode efetivamente dizer o que lhe apetece. Agora que infelizmente já não temos um pm que liga aos gritos para as redações para destratar jornalistas quando estes ousavam presumir-se mais independentes, nem insulta (novamente aos gritos) um jornalista hostil no meio de um restaurante cheio de gente, nem processa jornalistas a eito, que lá por perder os processos os jornalistas não deixam de ter chatices e gastar dinheiro com advogados (de resto em sintonia com o que se passa na saudável democracia de Singapura), cabe ao consciencioso cidadão sem responsbilidades políticas a luta pela liberdade de expressão responsável.

Isto, claro, a propósito das reações pavlovianas ao Observador. Não pode ser, um jornal com pessoas de direita, onde é que isto já se viu? Ontem as redes sociais andaram agitadas com o que se lia no Observador. Relatar o casamento de um criminoso, ao que chegámos. Está-se mesmo a ver que é tudo da mesma laia do tal Mário Machado. Como dizia o João Miranda ontem no twitter, agora só nos falta algum jornal abordar a vida amorosa de Otelo; senhor que, como se sabe, foi um santo de altar toda a sua vida.

Houve duas reações ao Observador que me parecem paradigmáticas. Uma é de Tiago Antunes e foi postada por Fernanda Câncio no Jugular (pelo que presumo, até porque não há disclaimer, que concorda e sanciona o que escreveu o autor do texto). Não faço ideia da razão de Tiago Antunes sobre as questões constitucionais, mas o pobre Tiago Antunes, e Fernanda Câncio, revelam dificuldades sérias na compreensão de textos, pelo que é avisado não seguir as suas opiniões sobre constitucionalismo. Ora bem, Tiago Antunes (e Fernanda Câncio) consideram que este texto de Helena Matos não é mais do que a ‘recauchutagem’ deste. No primeiro, a Helena Matos faz considerações sobre o que deseja para o Observador e refere em metade de um parágrafo, de entre uma série deles, exemplos que já havia referido no segundo texto, onde fala em todo o texto das causas e das modas do jornalismo. Mas como refere os mesmos exemplos nos dois textos, ora toma que são iguais, a Helena Matos nem se dá ao trabalho de escrever coisas originais para este jornal, está sempre a bater nos mesmo temas, vejam bem que nem os colaboradores acreditam naquilo, de tão mau que é. E o que tem mesmo muita piada nesto texto de Antunes e Câncio? É que Fernanda Câncio passa a vida a martelar em meia dúzia de temas que lhe interessam e se há pessoa repetitiva (e cansativa), na comunicação social e nos blogues, nos assuntos que aborda, é mesmo Fernanda Câncio. Fernanda Câncio postar – e mal – que outra pessoa se repete, e Tiago Antunes deixar que uma nota sobre repetição seja postada por Fernanda Câncio – bom, alguém dos vossos próximos devia ter sido bondoso e alertar-vos para o ridículo de que se cobriram.

Outra reação é esta. Como vem de alguém que escreve coisas como ‘[n]um país onde não há um único jornal de esquerda’, apenas digo o seguinte ao autor: se alguma vez se aproximar de si, na rua, um bichinho verde com antenas e forma vagamente humana e queira conversar consigo, vá por mim, dirija-se ao médico mais próximo e não fique a conversar com o dito bichinho.

E termino com o meu desejo para o Observador – além de ter muitos leitores, claro, e de se diferenciar dos outros. Desejo que não perca um minuto a cortejar e a prestar tributo a este grupo de pessoas que não suporta quem não pensa da mesma forma nem os corteja nem lhes presta tributo.

16 pensamentos sobre “Bem-aventurados os pobres de espírito, que deles será o Reino dos Céus. Ou: há gente tão previsível.

  1. k.

    Ena.
    Picaram-se.

    Não é agradável ser-se insultado, pois não?
    Eu não acho – mas estou contaminado com o “virus socialista” pelo que isso tornou-me, se calhar, um “idiota util”.

  2. Maria João Marques

    k, nem qualifico de ‘insultos’ os exemplos que dei. Só mesmo de estupidez e de incapacidade de viver com a liberdade de expressão de quem diz aquilo com que não concordamos. Não sei se é um ‘idiota útil, o k lá saberá de si, mas eu não falei em virús socialista nenhum nem tenho de responder por afirmações de outros (que nem apoio, mas se apoiasse não teria de responder na mesma).

  3. Comunista

    Por mim acho saudável que se critique generalizadamente um jornal com simpatias neo-nazis como é o Observador. Que fiquem você a elogiar. Cada um cultiva as simpatias que bem entende.

    Porque razão o Observador, feito de gente cheia de mania que os outros meios de comunicação não aprofundam nada, não confrontou a esposa (nem o leitor) do nazi com o seu próprio nazismo?

    E se acha que eu estou a usar o termo nazi (nacional-socialista) gratuitamente é só ver num artigo no DN palavras dela:

    “.”Depois de ter estado um pouco ausente, após os acontecimentos do dia 18 de Abril em que mais de 50 Nacionalistas foram detidos pela Polícia Judiciária entre os quais 4 mulheres sendo eu uma delas, aproveito agora já ter reunido forças para continuar a minha luta pelos meus ideais Nacionalistas para comentar as extraordinárias palavras do meu querido Mário. Sou testemunha após dois anos de relação da sua luta diária, em conjunto com os seus amigos mais chegados que fazem também parte deste Fórum e todos nós sabemos quem eles são, para que o Nacional-Socialismo tomasse uma dimensão muito maior em Portugal e todos que partilhassem as suas ideias se deixassem de sentir sós e desamparados (…) Logo espero que todos os Nacionalistas estejam tão gratos ao Mário e aos seus grandes amigos como eu estou por tudo aquilo que em conjunto com todos nós alcançaram!!!”

    http://www.dn.pt/politica/interior.aspx?content_id=3924811

    Parece que a sra.Susana encontrou no Observador um amigo daqueles de que parece necessitar para a sua causa.

  4. k.

    “Maria João Marques em Maio 21, 2014 às 14:04 disse: ”

    a) Liberdade de Expressão significa (também) que podemos discordar e criticar o que outros dizem e escrevem. Ora no Observador estão plasmados artigos de opinião. Noutros foruns, estão críticas e discordâncias com as opiniões do Observador. Aqui, criticam-se as críticas. Se isso significa “incapacidade de viver com a liberdade de expressão “, então certamente que os seus posts traduzem a mesma incapacidade. Ou então, pelo contrário, os seus posts traduzem liberdade de expressão – mas então também traduzem liberdade de expressão os posts que critica no outro blog.

    b) “idiota útil” é o titulo que você dá a quem concorda com uma opinião diferente da sua.
    Eu sei bem de mim, você pelos vistos também.
    https://oinsurgente.org/2014/03/18/esta-gente-gives-me-the-creeps/

    c) Relativamente ao “virus socialista”, pode não ter de responder pelos outros, mas claramente foi o que o fez:
    https://oinsurgente.org/2014/05/21/a-literatura-da-nos-sempre-umas-pistas/

  5. Maria João Marques

    Comunista, nada contra chamar neonazi ao Mário Machado. Tudo contra chamar nazi ou de extrema-direita às pessoas do Observador, como se percebe do meu texto. Diga-me lá, quando fizeram a reportagem da vida amorosa polifacetada de Otelo, também esperneou por nāo terem perguntado às suas senhoras o que achavam das mortes resultantes da ação das FP 25 de abril? Se nāo esperneou, bem pode tentar ir dar lições para outro lado. A sua opinião das simpatias do Observador é a sua e, na minha humilde opinião, tão perspicaz quanto o que por aqui costuma mostrar.

  6. Comunista

    A relevância da sua avaliação da minha perspicácia depende de sua própria perspicácia que, há que dizê-lo, não tenho em grande conta. Como eu disse, cada um cultiva as simpatias políticas que quer e é você, e não eu, que simpatiza com um jornal que faz questão de nos fazer chegar a mensagem de quão simpático e romântico é um profanador de campas judias,

    Quanto ao Otelo não me importo nada de ficar com a sua crítica só para que você não se desmarque da sua.

    E ainda não entendo bem como você compara a falta de isenção do Observador com a falta de isenção de outros meios de comunicação – porque eu pensei (estou a ser irónico, nunca pensaria isso) que vocês vinham com um jornal sem comparação no que respeita ao tratamento isento das matérias. Por mim, dado o vosso auto-conceito, no facto de colocar o Observador no mesmo plano dos outros meios que tanto criticam está não só a vossa hipocrisia como o falhanço redondo do Observador.

    E só levou um dia para se notar.

  7. Comunista,

    O facto de repetidamente os jornalistas que escreveram as peças n’O Observador considerarem o Mário machado neo-nazi e de não terem deixado de o referir repetidamente diz que talvez não haja tanta simpatia assim.

    Há outros que se consideram «patrióticos e de esquerda».. Nacionalistas e socialistas? Nacionais-socialistas?

  8. Comunista

    Francisco,

    “Há outros que se consideram «patrióticos e de esquerda».. Nacionalistas e socialistas? Nacionais-socialistas?”

    Eu considero-me patriótico e de esquerda e como tal não considero parte da minha identidade política a ideia de superioridade ou inferioridade de raça, nem considero a profanação de campas judias uma acção política de rua.

    Depois, quem recebeu a mais alta condecoração dos nazis para um estrangeiro foi um dos fundadores do capitalismo moderno: Henry Ford.

  9. K.,

    Há opiniões idiotas e opiniões de idiotas. E há opiniões idiotas de idiotas. São coisas completamente diferentes.

    A esquerda gostaria de me impedir de emitir opinião. Eu não deixo de achar que a Esquerda deve emitir opinião, mesmo se forem opiniões idiotas de idiotas.

    Aprecio isso. Não gostaria de pensar que não haveria (num mundo sem pessoas de esquerda) maiores imbecis do que eu a fazer opinião. Quero pelo menos ficar no percentil 80 ou 90 da inteligência, e, dado o campo fértil de imbecilidade que aí se evidencia, tenho a certeza de que até uma pessoa como eu consegue exceder os noventa e muitos.

  10. k.

    “Francisco Miguel Colaço em Maio 21, 2014 às 16:11 disse: ”

    A “esquerda” gostaria de impedir que você tivesse opinião? Ora eu posso dizer exactamente o mesmo da “direita”. Afirmação generalistas são muito fáceis de fazer.

    Opiniões, sendo subjectivas, são impossiveis de quantificar (o argumento pode estar bem ou mal construido, é claro).

    Enfim. Parece-me que discordo de si. E já agora sou de Esquerda. Devo assumir que me considera idiota por isso?

  11. António

    Meus caros,
    felizmente Abril abriu-nos muitas portas e a mais importante delas foi a da liberdade, a liberdade em todas as suas valências e não condicionada. Confesso que ainda não «folhei» o novo jornal, mas mesmo acreditando que a sua tendência é de direita, pergunto eu que me sinto de esquerda: que mal tem isso! Só o lê que quer, assim como só bem a este blog, que quer – aqui posso acrescentar – quem eles deixam!

  12. Maria João Marques

    Comunista, quem passa a vida a comentar textos meus é V.. Se comenta coisas que acha irrelevantes e de pessoas cuja opinião não considera grandemente, que quer que lhe diga? Olhe, que tenho pena que não tenha coisas mais interessantes para fazer com o seu tempo livre. Mas não se preocupe, eu respondo-lhe por boa educação sempre que tiver tempo.

  13. Maria João Marques

    k, não seja mentiroso. chamei – e chamo – idiotas úteis no contexto do meu post que linkou, nunca chamei idiota útil a alguém só por ter uma opinião diferente da minha. Quanto às outras alíneas, nem vale a pena comentar as suas elaborações alucinatórias sobre a realidade.

  14. António

    Oops, há que troque os vês pelos bês e não é do Porto, obviamente onde está «como só bem» será «só vem».

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