25 de Abril – um resumo

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  1. Respeito e desejo os valores da liberdade da democracia, como qualquer liberal deve fazer. O regime do Estado Novo para além de anacrónico, é politicamente indefensável pela forma como atentava àqueles valores.
  2. Contesto a ligação directa entre o 25 de Abril e o triunfo desses valores. É falso que sem o processo revolucionário iniciado com o 25 de Abril esses valores não tivessem prevalecido de qualquer forma.
  3. A noção de que qualquer alternativa ao 25 de Abril teria sido mais sangrenta ou mais demorada também me parece falsa. Apesar de o 25 de abril em si ter resultado em poucos mortos, o período seguinte foi marcada por dezenas de mortes politicamente motivadas. Isto para além de roubos, invasões e outros atentados à liberdade perpetrados ou tolerados por aqueles que se acham pais da democracia e defensores da Liberdade. O processo iniciado com o 25 de Abril também não foi a forma mais rápida de instaurar em pleno os valores da democracia e liberdade. Apesar de a revolução ter acontecido em 1974, 12 anos depois ainda se matavam adversários políticos (de direita, claro) impunemente e a primeira vez que um governo terminou o seu mandato de 4 anos foi em 1991, 17 anos depois da revolução.
  4. É especialmente falaciosa a ideia de que o Partido Comunista contribuiu para a instauração dos valores da democracia e da liberdade. Como ficou bem claro nos meses seguintes à revolução, era o poder, e não a instauração da democracia ou a da liberdade, que motivou os comunistas a lutar contra o anterior regime
  5. A forma como acabou o regime (através de uma revolução de esquerda), deixou marcas bem visíveis no espectro político português que sobrevivem até hoje. O PCP, para além de ter resultados razoáveis nas urnas, tem uma forte presença autárquica, domina o poder sindical e tem uma forte presença na imprensa (esta última tem sido perdida para o Bloco de Esquerda e ala esquerda do PS). E consegue-o sem nunca ter largado a linha dura comunista. Este viés afecta mesmo os orgãos de soberania não eleitos, como é o caso do Tribunal Constitucional.
  6. Talvez por isto, o novo regime constitui-se num fracasso económico. O país travou a convergência com as economias mais ricas (como vinha a fazer desde os anos 60) em termos de PIBpc, estando hoje sensivelmente no mesmo ponto que em 1974. Mesmo na educação e saúde, a grandes bandeiras do regime para onde foram transferidos recursos como nunca antes, o novo regime não conseguiu mais do que continuar a tendência que vinha de trás nos principais indicadores. Pior do que isso, a estagnação foi atingida através do forte endividamento do país, colocando em causa o bem-estar futuro (como percebemos nos últimos 4 anos). Os equilíbrios políticos e sociais saídos do 25 de Abril terão contribuido em muito para esta estagnação económica.
  7. É a própria esquerda e os militares de Abril que colocam em causa a ligação entre o 25 de Abril e os valores da liberdade e democracia. Ano após ano, ao usarem a data para fazer política, para apelar à queda de governos eleitos democraticamente, colocando em causa a liberdade dos portugueses escolherem orientações políticas diferentes das suas, demonstram que nunca desejaram uma verdadeira democracia. Demonstram que na sua noção de democracia não existe a possibilidade do triunfo de ideologias diferentes. Como não param de repetir, ideologias diferentes das suas não cumprem os valores de Abril, deixando claro que nenhum desses valores era o da democracia

19 pensamentos sobre “25 de Abril – um resumo

  1. Maria João Marques

    Muito bem. (Ainda que não concorde com a parte económica. Se calhar porque estou convencida que o nosso, digamos, lugar natural, por várias circunstâncias, é a uma certa distância dos países mais ricos. Se eles forem crescendo e nós também, já me dou por satisfeita, que com a revolução e o status quo que deixou podia bem ser pior.)

  2. Vasco Silveira

    …” o periodo seguinte foi marcado por dezenas de mortes politicamente motivadas”… .
    Caro Carlos Guimarães Pinto
    Não gostaria que se esquecessem as mortes de Portugueses ,africanos e asiáticos, mais tarde Angolanoa, Moçambicanos, Guineenses, Timorenses,…, que terão sido na ordem dos milhões. Mesmo que os não consideremos Portugueses ( Os Judeus não eram considerados arianos) são seres humano cujas mortes políticamente motivadas, em chacinas ou guerras civis, decorreram do 25 de Abril.
    Não sei se teria sido possível fazer melhor, como de facto não fizeram os Europeus na sua saída de África e Ásia, mas pior seria difícil. Não devemos nunca esquecer essa multidão anónima quando vemos os festejos folclóricos da nossa revolução florida.

    Cumprimentos

    Vasco Silveira

  3. JS

    “… Demonstram que na sua noção de democracia não existe a possibilidade do triunfo de ideologias diferentes…”.
    Exactamente. Um problema do que se entende por “democracia”.

    Chamar “democracia” a um sistema em que a segunda figura do Estado “democrático”, (por vezes a primeira), NUNCA foi vencedora com o seu nome e rosto, contra outros candidatos, em sufrágio no todo eleitoral nacional, convenhamos que é uma definição de democracia discutível.

    Já nem se fale dos funcionários dos partidos, sem nome nem rosto em boletim de voto -portanto nominalmente, individualmente, insancionáveis no exercício (discutível) do cargo legislativo- que povoam o poder legislativo….

    É tudo uma questão do que queiramos denominar de “democracia”.
    Esta “democracia”, melhor, partidocracia, é evidente, não está a resisitir ao “comezinho” teste da prova dos frutos produzidos.
    Há muitos anos.

  4. João Martins

    JS, Partidocracia e Democracia são sinónimos, não existe um sem o outro.
    Vejamos, 2 partidos aliarem-se para formar uma maioria, não é um processo abrangido pela democracia?

    E em relação á segunda figura do estado, essa figura é eleita depois das legislativas, pelo novo parlamento que foi eleito. No mínimo, é indirectamente eleita por sufrágio universal.

  5. Vivendi

    Um dia que possa… escreva da relação do Dubai com a democracia. Se o que motiva a estar por lá é o acesso à democracia ou ao livre mercado.

    Portugal em 1974 tinha as 7ª maiores reservas de ouro do mundo. No mesmo plano de continuidade hoje estaríamos tranquilamente ao nível de uma Áustria.

  6. Vivendi

    A estrutura económica da Áustria:

    Principais setores econômicos: indústria, finanças e turismo.

    Moeda: Euro (símbolo €)

    PIB: US$ 332 bilhões (estimativa 2010)

    PIB per capita: US$ 40.400 (estimativa 2010)

    Taxa de crescimento do PIB: 2% (2010 – estimativa)

    Composição do PIB por setor da economia: serviços (69.1%), indústria (29.4%) e agricultura (1,5%) – (estimativa 2010)

    Força de trabalho (2010): 3,7 milhões de trabalhadores

    Taxa de desemprego: 4,5 % (2010)

    Investimentos: 21% do PIB (2010 estimativa)

    População abaixo da linha de pobreza: 6% (2001)

    Dívida Pública: 70,4% do PIB (2010 – estimativa)

    Taxa de Inflação: 1,9% (2010 – estimativa)

    Principais produtos agropecuários produzidos: grãos (cereais), batata, vinho, frutas, madeira, leite e derivados, corne bovina, suína e de aves.

    Principais produtos industrializados produzidos: máquinas, equipamentos, peças de veículos, produtos químicos, alimentos industrializados, veículos e metais.

    Principais produtos exportados: máquinas, motores, equipamentos para automóveis, produtos químicos, ferro e aço.

    Principais produtos importados: equipamentos e máquinas, produtos químicos, derivados de petróleo e produtos de metais.

    Principais parceiros econômicos (exportação): Alemanha, Itália, Suíça e Estados Unidos.

    Principais parceiros econômicos (importação): Alemanha, Holanda, Itália e Suíça.

    Exportações (2010 – estimativa): US$ 157,4 bilhões

    Importações (2010- estimativa): US$ 156 bilhões

    Nada que não estivesse ao alcance de Portugal senão tivesse sido contaminado pelo socialismo.

  7. campus

    A primeira vez que vejo a opinião que partilho á muito, de que o Estado Novo estava felizmente a agonizar e que iria cair mais dia menos dia, com ou sem militares, que não ansiavam a democracia mas sim melhores condições monetárias, além de que não quereriam continuar a lutar em África pois já tinham assumido a derrota. Foi o Povo Português que farto de opressão quis e votou a Democracia.

  8. Fernando S

    Concordo com o essencial do post do Carlos Guimarães Pinto. Um excelente resumo.
    Mas também concordo com os reparos que a Maria João Marques faz no seu comentário sobre a parte economica.
    Diria que uma transição para a democracia diferente da “revolução” do “25 de Abril”, por exemplo do género da que se verificou em Espanha em cerca de meio ano em 1976, teria evitado a perda de tanto tempo e o desperdicio de tantos recursos.
    De resto, mesmo que o “25 de Abril” não tivesse acontecido, a probalidade de que se verificasse um processo de “transição evolutiva” para a democracia num prazo relativamente curto, era então muito forte, tendo em conta o contexto interno e externo.
    O CGP tem razão quando diz que o “25 de Abril” deixou marcas negativas no sistema politico e economico (a Constituição “socialista”, mesmo revista ; uma legislação laboral demasiado rigida ; um sistema educativo, cultural e mediatico centrado à esquerda ; etc) que condicionaram a evolução da sociedade portuguesa, sobretudo na economia. Até hoje. por exemplo, nesta fase recente de reajustamento forçado da economia, esta hipoteca tem sido clara nas resistencias e bloqueios à reforma.
    Dito isto, e apesar disto, também considero que o efeito negativo do 25 de Abril não impediu que existisse algum progresso economico e social. Sobretudo em termos absolutos, o que não é de menosprezar. Grosso modo, a riqueza e o bem-estar material dos portugueses duplicou em termos absolutos nas ultimas décadas.
    É verdade que, como diz o CGP, em termos relativos não conseguimos diminuir a distancia para o conjunto dos paises desenvolvidos. Chegámos a convergir, a partir de meados dos anos 80 e até o final dos anos 90 (passamos dos 55% para os 65% da média europeia). Mas sabemos hoje que uma parte desta convergencia foi artificial, assente no endividamento, e não sustentada, sobretudo por ter estado associada a um peso excessivo do Estado que acabou por desequilibrar e fazer perder competitividae à economia. Tanto é assim que este ganho foi em grande parte perdido na década seguinte e com a crise financeira e economica dos ultimos anos.
    Temos portanto de reconhecer que o modelo economico das ultimas décadas falhou pelo menos no objectivo de fazer convergir Portugal com o resto da Europa. E, se porventura este modelo não for suficientemente e rápidamente revisto e voltarmos aos erros mais graves de um passado ainda recente, então corremos mesmo o risco de perder ainda mais terreno, e até em termos absolutos.
    A questão que se pode agora colocar é a de saber qual é o verdadeiro peso do “25 de Abril” neste modelo. Algum existe, como vimos anteriormente. Mas a minha ideia é a de que não é determinante. Dito de outro modo, mesmo sem o “25 de Abril”, o essencial das politicas despesistas e intervencionistas das ultimas décadas teria na mesma acontecido. Veja-se o que, no mesmo periodo, se passou noutros paises europeus, sobretudo da dita “periferia”, que, apesar de não terem passado por experiencias equivalentes, também cairam no mesmo tipo de erros. As razões mais de fundo devem ser procuradas noutros aspectos, provávelmente em parte comuns a este conjunto de paises.

  9. murphy

    O falhan…inconseguimento em termos de desenvolvimento económico, não pode ser dissociado da organização do Estado – não será antidemocrático o nível de centralismo a que o País chegou? Ter um punhado de burocratas que a partir de Lisboa decidem quais as escolas que funcionam e as que encerram, como se (re)organizam tribunais, centros de saúde e hospitais, etc., deve fazer-nos pensar: foi para isto que fizemos o 25 de Abril?

    http://jornalismoassim.blogspot.pt/2014/04/o-regime-centralista-foi-para-isto-que.html

  10. jo

    “1.Respeito e desejo os valores da liberdade da democracia, como qualquer liberal deve fazer. O regime do Estado Novo para além de anacrónico, é politicamente indefensável pela forma como atentava àqueles valores.
    2.Contesto a ligação directa entre o 25 de Abril e o triunfo desses valores. É falso que sem o processo revolucionário iniciado com o 25 de Abril esses valores não tivessem prevalecido de qualquer forma”
    Pretendia que esses valores fossem alterados de modo a que tudo ficasse na mesma.

    Tem um bom remédio: meta-se na máquina do tempo até 1973 e mude o regime.
    Houve bastantes atentados contra pessoas e bens de pessoas de esquerda em 74 e 75, também não foram julgados.
    Os responsáveis pela repressão e tortura de presos políticos não só não foram perseguidos como foram condecorados por uma nódoa que tivemos como primeiro ministro. Um sujeito que foi capaz de denunciar o sogro!

  11. Fernando S

    jo : “Pretendia que esses valores fossem alterados de modo a que tudo ficasse na mesma.”

    O que o Carlos Guimarães Pinto escreveu é clarissimo (e, de resto, está citado no próprio comentário do jo).
    O “25 de Abril”, e sobretudo muito do que se seguiu, não esteve apenas ligado aos valores da liberdade e da democracia. Como se sabe, alguns dos militares e civis que estiveram envolvidos no golpe militar, e outros que saltaram para a carroça, tinham como motivação e objectivo não tanto a liberdade e a democracia mas antes o aproveitar a confusão para fazer uma “revolução” impondo pela força um regime autoritário e totalitário de tipo comunista.
    Como é evidente, este “25 de Abril”, que teve o seu dia de glória no “11 de Março de 1975”, não tinha absolutamente nada a ver com o “25 de Abril” da liberdade e da democracia, que foi reposto com o “25 de Novembro de 1975”.
    Não se tratava de deixar tudo na mesma. Tratava-se de mudar mesmo, para a liberdade e para a democracia (pluralista e de tipo “ocidental”, para nos entendermos) e não para uma outra ditadura, muito pior do que a anterior (uma espécie de “democracia popular” à maneira cubana, para nos entendermos).

  12. JS

    João Martins. É a sua visão. Mas já pensou em como vai premiar, ou inibir, do exercício, um político?. Prefere mesmo esta irresponsabilidade colectiva, a molhe?. Não creio.

  13. José

    Esta coisa do 25 de Abril custa mesmo a engolir não custa? Mas não eram os que agora são do PPD e do CDS também de esquerda nessa altura? Quanto a Portugal ser uma Áustria era bom que o Vivendi estudasse um bocadinho de geopolitica para perceber o mundo em vez de andar a ouvir tretas e a pesar toneladas de ouro!

  14. Fernando S

    José : “Mas não eram os que agora são do PPD e do CDS também de esquerda nessa altura [a seguir ao 25 de Abril de 1974] ?”

    Não eram. Mas tiveram de fazer de conta para poderem existir, para não serem acusados de serem “da reacção” e correrem o risco de serem reprimidos ou mesmo proibidos (como foram então outros partidos considerados “de direita” e, “óbviamente”, afetos ao regime “fascista”).
    Mesmo dizendo-se do “Centro”, “Democrático” e “Social”, o CDS viu alguns dos seus comicios perturbados e impedidos por militantes “anti-fascistas”, normalmente com a tolerancia ou cumplicidade dos militares do MFA e do COPCON.
    Em muitos locais, instituições e organizações publicas, empresas, clubes e associações, espaços publicos em geral, as reuniões e comicios do PSD e do CDS eram sistemáticamente boicotados.
    Até o PS chegou a ser proibido de fazer encontros e comicios em certos locais controlados pelo PC ou pela extrema esquerda.
    Era assim “a liberdade e a democracia” no tempo do PREC !

  15. José,

    Excerto de uma entrevista:

    «Tomé Feteira: Em 1964 resolvi vender as minhas empresas. E depois pensei no melhor local para colocar o dinheiro. O dinheiro não tem pá­tria, vai para onde há melhores garantias. Qual era o país que me oferecia melhores garantias? Portugal, que tinha o orçamento equilibrado e a moeda mais forte do mundo. É por isso que hoje não me deixam falar. Portugal tinha a inflação a zero e 980 toneladas de ouro. O Financial Ti­mes escreveu: – Portugal, a continuar a sua ex­pansão económica, atingirá o terceiro milagre económico do mundo em 1980. O que ultrapassaria muitas vezes os outros dois milagres económicos: o japonês e o ale­mão.» (ênfase minha)

    Depois veio o 25 de Abril.

  16. Gustavo

    Acho que no pensamento geral aqui expresso, expõe com clareza que haviam outras soluções, para a mudança política em Portugal, sem ser o 25 de Abril, e continuo a acreditar que existiu mão do PCP no golpe militar, para criar uma constituição tal como está, que os tem feito quase uns donos do País, senão vejamos, a CGTP, 9% dos sindicalizados, mas e através do seu poder fazer greves, que são totalmente políticas, e que nos tem levado (em parte.) para a situação em que chegamos.

  17. lucklucky

    ” Apesar de o 25 de abril em si ter resultado em poucos mortos”

    Isso é visão da “metrópole”.
    Usando a bitola da Esquerda Marxista para estas coisas, o 25 de Abril provocou a morte de mais de 1 milhão de pessoas nas ex colónias portuguesas nos 15 anos seguintes.

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