Sobre Os Custos Do Trabalho E O Destino Do Seu Rendimento

Estando a terminar o prazo de entrega da primeira fase do IRS, as pessoas poderão facilmente fazer o balanço entre o que receberam e o que foi entregue ao estado em nome de um “contrato social” que nos é imposto à nascença.

Neste post, vou analisar o caso de um trabalhador que ganha um salário bruto de 1000 euros que não seja casado e que não tenha dependentes. Como as taxas de IRS em Portugal são progressivas (aqui não existe o princípio da igualdade) quem quiser pode fazer o exercício para salários maiores.

Do ponto de vista de custo do trabalho por parte do empregador, a este salário de 1000 euros há que acrescentar mensalmente o ajuste para 14 meses pagos para 11 meses trabalhados por ano (273 euros), assim como 23,75% para a Segurança Social (302 euros) o que corresponde a um custo efectivo mensal de 1575 euros (excluindo outros custos: seguro de trabalho, formação, espaço e equipamento de escritório, etc.).

Salario_1000euros

Do ponto de vista do destino destes 1575 euros (custo efectivo mensal), para a Segurança Social vão 11% pagos pelo trabalhador (140 euros) mais 23,75% pagos pela entidade patronal (302 euros), em retenção na fonte para IRS vão 13,5% (172 euros), e se assumirmos que o trabalhador gasta o valor líquido que recebe (881 euros) em consumo, 23% vão para IVA (221 euros).

Distribuicao_Salario_1000

Alguns comentários e conclusões:

  1. Um trabalhador com um salário de 1000 euros mensais só será contratado se produzir no mínimo um valor mensal equivalente a 1575 euros.
  2. Dos 1575 euros (custo efectivo mensal) e assumindo que o trabalhador gasta todo o salário em consumo, 835 euros (53%) vão para o estado, enquanto que para o trabalhador propriamente dito vão 740 euros (47%).
  3. No caso do trabalhador ser empregado de uma empresa privada, terão de sair de caixa da empresa efectivamente 1575 euros mensalmente. No caso do trabalhador ser um funcionário público, dos cofres do estado apenas terão que sair 961 euros.
  4. Um trabalhador que tenha que trabalhar em média mais de 5 meses para o estado todos os anos apenas para cumprir as suas obrigações fiscais, é uma pessoa livre?

17 pensamentos sobre “Sobre Os Custos Do Trabalho E O Destino Do Seu Rendimento

  1. rmg

    Caro João Cortez

    Sem prejuízo do conjunto estar explicado de forma correcta e simples (a retenção de IRS pode voltar em parte função de despesas várias apresentadas em sede de IRS) explique-me lá sff como é que aquele trabalhador gasta o valor líquido todo em consumos taxados a 23% em IVA .

    É que mesmo os que vivem em casa dos pais e têm um vasto conjunto de despesas asseguradas por essa forma , algumas coisas hão-de comprar a taxas de 6% e de 13% .

  2. Pedro Oliveira

    Devia ser 14/11 para descontar as férias em que o trabalhador naturalmente não produz. Dá 14*1000*1.2375/11=1575€.

  3. Alexandre Carvalho da Silveira

    O Pedro Oliveira tem razão: para um salário de 1000 euros, a empresa gasta 1575 euros por mês. O estado gasta pouco mais de metade com um funcionário público com o mesmo salário.
    O resto é conversa fiada!

  4. A. R

    Mas o Estado depois cria uns esquemas estranhos para o trabalhador ser pago! Um cartãozinho onde vai parar parte do salário que serve (quase) apenas para gastar nos hipermercados. Uma espécie de senha de racionamento chavista! Qq o Estado está a carimbar o bracinho de quem recebe alguma coisa numa fila de centenas de metros como faz o seguidor do “pajarito chiquitico” que faz aparições em túneis de metro e já foi beatificado pelo PCP e quejandos.

  5. Nuno

    É curioso que ninguém fala na emigração provocada por níveis de impostos demasiado altos para os trabalhadores com mais qualificações.

  6. jo

    Quando se fala em impostos temos de falar sempre de custo/benefício.
    Apesar de tudo o estado presta serviços de saúde, educação, segurança, justiça, forças armadas, estradas, etc e, neste momento, até paga ao Passos Coelho. Só será lógico considerar os impostos um custo absoluto se nada for devolvido.
    Estes serviços funcionam como um seguro obrigatório. Um individuo pode viver até aos 100 anos, analfabeto sem nunca estar doente e sem nunca ir a tribunal, neste caso sairá a perder. Também pode nascer com uma doença congénita e morrer sem nunca pagar impostos e provocando despesa, nesta lógica será um parasita ou uma sanguessuga.
    Claro que deste modo é feita alguma redistribuição. Como os impostos são progressivos os que ganham mais pagam mais e como, em princípio, os serviços são prestados por igual a quem deles necessita são os pobres quem mais tem a ganhar com eles.
    Claro que a ideia que a sociedade deve ser solidária e contrariar a excessiva concentração de capital não agrada a muitos.

  7. Carlos C.

    Nuno, não conheço assim tantos casos de trabalhadores qualificados que emigrem por causa dos impostos. Conheço, sim, inúmeros casos de trabalhadores qualificados que emigram apenas porque estão desempregados e não encontram trabalho neste país.

  8. Olá Pedro, sim – de facto, deveria ser 14/11 devido às férias. As conclusões não se alteram, mas os valores sim. Vou corrigir o post assim que puder. Obrigado!

  9. 7anaz

    Atenção que o JC calcula o IVA sobre os 881€ de rendimento disponível para consumo, mas esses (881€) é o valor que ele tem para consumir, já com IVA incluído. Assim, pela suas contas, ele teria que dispor de 881€+23%IVA(203€) = 1’084€, que não é o valor que ele tem disponível após descontos de IRS e SS, que são os 881€ líquidos para consumir. Ou sou eu que estou a fazer as contas mal?

  10. rmg

    João Cortez

    Agradeço a sua resposta que não é resposta nenhuma e por isso lhe respondo longamente , é a última vez que o faço , evitarei cuidadosamente os seus posts .
    Mas não fiquei desiludido consigo porque para isso tinha que ter ilusões .
    Como o conheço , não tenho .

    Eu gasto nisso também : bebo vinho tinto às refeições todas , um fundo de whisky todos os dias depois de jantar , tenho 2 carros cá em casa (um com 6 anos e o outro com 12) e andamos com eles .
    Também tenho télémóvel , Internet e TVCabo (sem canais de desporto) para além de almoçar fora há 44 anos porque nunca deu para almoçar em casa (mas nunca fumei) .

    Mais ainda : para além destas tenho tantas outras despesas taxadas a 23% que faz que no meu caso particular a média ponderada de IVA me permita aceitar de boa vontade que adopte aquele valor para mim (repito : média ponderada , um conceito interessante quando se faz trabalho sério) .

    O João Cortez deu um exemplo óptimo porque assim ficou claro como vê as coisas (e por isso mesmo o interpelei) e o tipo de despesas que aqueles que o cercam fazem .

    Mas eu conheço muito mais situações de gente que tem 1000€ (o que já não é mau nesta terra) e que tem que comer , dar de comer a um ou dois filhos e às vezes a uma mãe ou pai com pensões de miséria que precisam de remédios , do que conheço malta como esses que o João Cortez conhece (pela simples razão que são muitíssimos mais) .

    E esses não têem folga para muito consumo com álcool , tabaco , gasolina , automóveis , télémóveis da última geração e ipads a 23% e “bien malgré eux” até os 6% dos consumos básicos e os 13% de outros produtos “semi-básicos” para eles são muito (um caso bom para analisar , acho eu) .

    Foi só isso que eu quis dizer e mais nada : quando se faz um post como o seu (que eu até elogiei apesar de você nem ter dado por isso) não se pode pôr os 23.75% da taxa do patrão e os 13.50% da retenção na fonte e depois atirar com os 23% à balda .
    Tivesse o João Cortez escrito no post que assumia aquela taxa como simplificação do raciocínio e pronto , é o que se faz quando nos defrontamos com um número “incerto” e adoptamos um “padrão” para efeitos do raciocínio .

    Que o Estado nos leva muito lhe garanto que sou uma das pessoas mais indicadas para o afirmar , pode acreditar .

    Cumprimentos também (sem ponto de exclamação , claro)

  11. rmg

    Uma espécie de adenda / errata :

    O vinho tinto e o whisky não têem a mesma taxa de IVA , mas isso não altera nada a minha média ponderada …

  12. Alexandre Carvalho da Silveira

    Também não concordo com o argumento do IVA. Mas isso é o que menos importa no post. O que verdadeiramente importa é que as empresas privadas, mais de 90% são PMEs , criadoras de emprego e de riqueza, é que sustentam isto tudo, incluindo os 23,75% que a entidade patronal/estado não paga à Segurança Social, e que diz respeito aos descontos dos funcionários públicos. Por isso é que a CGA tem de ir buscar todos os anos mais de 4000 milhões ao OGE, ou seja aos impostos dos trabalhadores e das empresas do sector privado.
    É aquilo a que Bagão Félix chama de “solidariedade inter-geracional”.

  13. João Cortez, chamo a atenção para o seguinte: o valor do IVA são 164 euros e não 221.
    Concretamente, se compramos um produto a 100 euros, o Estado não recebe 23% desse valor mais sim 18,70 – este último valor corresponde a 23% do preço sem IVA.
    Ou seja:
    valor sem IVA = 81,30
    IVA = 18,70 (=81,30 x 1,23)
    Valor com IVA = 100 euros = valor gasto pelo consumidor

    Se o gasto for de 881 euros, então o valor sem IVA será de 881 x 0,8130 = 716,25 e o IVA é de 164,73 euros.

  14. Je

    Desafio a fazer as mesmas contas para um profissional liberal, daqueles que recebem o que trabalham, sem esquemas, 12 meses sem férias (pagas ou não) ou direito a benefícios (indemnizações subsídios). Por alto:

    Factura 1000€ mês – 23%IVA= 813 €
    813€ – 34%SS = 536 €
    536 € – (13%x813) IRS retido = 430,31 €
    Gastar os 430€ em consumo (Iva consumo médio 15%) = 365 €

    Neste caso aos 1000€ de actividade o estado saca 635€, dando pouco em troca (forget subsídio de desemprego). O profissional fica com 365€ para viver, pagar os Imis da vida e gerir o futuro. Um verdadeiro incentivo ao empreendedorismo e cidadania….

  15. Je

    Para os puristas: sim no regime simplificado pode deduzir 20% do IVA, considerado despeza da actividade. Fica então com 402,4 €. E não tem de se queixar…

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