Mais coisas abrilistas

cravos roxos

Pegando nas deixas do Bruno (grande texto, Bruno) e do Carlos, ainda venho aqui dizer mais umas coisas sobre o 25 de abril, as celebrações (aqui da minha janela, posso informar, oiço festa animada) e mais umas coisas. Percebo a posição do Carlos, mas parece-me bastante inútil discutir o que poderia ter sido, desde logo porque ninguém pode prever se a ditadura teria uma agonia lenta de umas décadas, se haveria transição inteligente e programada, se outro golpe (ou o que existiu) terminaria em combates violentos, com mortos, feridos, e tudo o mais a que fins violentos de regimes violentos têm direito. Por isso, para mim, faz sentido celebrar o 25 de abril como a data que findou uma ditadura que eu, felizmente, não vivi. Mas já não vejo razões para celebrar – e o Carlos tem razão, não se pode apagar as tentativas de assassinato à nossa sempre débil economia dos desvarios gonçalvistas e afins – a democracia que foi criada. Porque esta é, na minha opinião, disfuncional e doentia (e não apenas pelos párias políticos que são as pessoas de direita ou pela existência de donos da democracia).

E aqui viro-me para o texto do Bruno. Como referiu, têm saído nos jornais estudos de opinião que dão a conhecer a desilusão dos portugueses com a democracia. O Bruno diz que já não fica mal por dizer mal de quem lhe apetece, mas eu tendo a concordar com as percentagens de desiludidos. Claro que houve enormes melhorias no nível de vida desde 74, e só por má fé ou distração isso não é reconhecido. Mas tal como não foi devido aos bonitos olhos da política salazarista que Portugal cresceu durante anos do Estado Novo, também não é à democracia que se deve o crescimento pós 25 de abril; este ocorreria com qualquer regime. E é a prosperidade económica, não a CRP ou o conselho de revolução, que permitem o acesso da generalidade da população a cuidados de saúde ou a redução do analfabetismo e o alargamento da escolaridade. Também se agradece a este crescimento económico (diretamente e via o que está na frase anterior) uma maior mobilidade social. E foram o crescimento económico (mais uma vez) e a abertura de fronteiras e a entrada e saída de portugueses e estrangeiros que curou (mas não totalmente) o país do provicianismo. Aqui discordo novamente do Carlos: acho que Portugal, apesar de tudo e dos 3 resgates do FMI em 40 anos – mas lembremo-nos que antes da criatura socrática a dívida pública andava na casa dos 60% do PIB -, fez um bom progresso em termos de desenvolvimento económico. Já politicamente, acho que falhámos em grande.

Sim, cumprimos os mínimos: há eleições; os governos, depois de as perderem, não costumam fazer reféns no Palácio de São Bento e recusarem-se a abandoná-lo; há liberdade de expressão e pluralidade de opiniões (e para esta muito contribuiu a blogosfera). Mas para além de mínimos, é uma democracia deficiente. (Aqui aproveito para dizer que entendo ainda menos a direita que gosta de celebrar o 25 de Novembro, porque este apenas nos legou a tal da democracia disfuncional, enquanto o 25 de abril pelo menos acabou com um regime intragável.) Temos uma democracia montada para espoliar as gerações que nasceram nos anos 70 (mercado laboral blindado por tanta rigidez, segurança social para a qual contribuimos compulsivamente e em crescendo e da qual não usufruiremos,…) em benefício das gerações daqueles que eram jovens adultos no 25 de abril e gerações anteriores. Temos uma justiça (e os tribunais são um órgão de soberania) que é a todos os títulos uma vergonha nacional, com juízes que – protegidos pela constituição da nossa estimável democracia – teimam em atropelar a separação de poderes, decidindo desde traçados de estrada à política orçamental, passando pela venda de quadros de um pintor estrangeiro. Esta questão das ambições expansionistas de juízes e magistrados é preocupante, porque temos tido de facto pessoas a tomarem decisões políticas sem para isso terem sido eleitas e sem se submeterem ao escrutínio da AR, da comunicação social e dos eleitores. Cenário pouco democrático, não? Temos uma democracia que, além de nos oferecer partidos políticos e personalidades sombrias reclamando que as suas opiniões valem mais do que a contagem dos votos, nos brindou há poucos anos com um presidente da república que terminou uma legislatura de um governo apoiado por uma maioria absoluta no parlamento, pela razão pueril de não gostar do pm que havia empossado meses antes. (E logo a seguir veio a fava sócrates, voltemos a lembrar).

Não sei se nos anos seguintes a 74 se poderia ter feito muito melhor, que as transições para as democracias também não vêm com manual de instruções. Mas sei que muitas distorções da nossa democracia já poderiam ter sido corrigidas nestes 40 anos e não o foram devido à perniciosa influência política das personalidades que se fizeram politicamente com o 25 de abril (incluindo os militares). Sei também que a esquerda, mesmo a não totalmente lunática (o PS), tem sido um fator de perpetuação das disfunções da democracia.

Por isso, quem tem razão é o Vítor Cunha. O que de bom existe na democracia portuguesa deve-se aos cidadãos, a nós, não àqueles que quando fizeram o 25 de abril não perceberam que não teriam mais importância do que as eleições. Portanto: bom 25 de abril, o nosso, que eu também não faço questão nenhuma de celebrar com certas pessoas.

5 pensamentos sobre “Mais coisas abrilistas

  1. Fernanda

    De acordo. As revoluções não vêm com manuais. E em democracia há avanços e há erros, como temos visto e vivido ao longo destes 40 anos.

    Não posso deixar de discordar do seguinte:

    “Temos uma democracia montada para espoliar as gerações que nasceram nos anos 70”

    Argumenta-se que:

    – há rigidez no mercado laboral

    – contribui-se para a segurança social,para a qual não se irá usufruir.

    Parece-me que:

    – a rigidez laboral tem sido flexibilizada, a tal ponto que se pensa na diminuição de indemnização por despedimento ilegal;

    – a segurança social é uma das bases de um estado democrático, que tem custos. Se se irá usufruir ou não, cabe a nós enquando indivíduos e colectivo fazer com que se usufrua. Acrescente-se a este propósito o pânico transmitido sobre a insolvência deste sistema, após as várias reformas havidas. É um tema recorrente. E vem sempre com novas modalidades – ultimamente, com a tentativa de guerra entre novos e velhos (que dá direito a livro e tudo).

  2. Luís

    Falhámos na mobilidade social. Portugal é um dos países da Europa com mais desigualdades e com menos mobilidade. As cunhas, o compadrio, o pequeno tráfico de influências: tais maus hábitos «ancestrais» continuam em força na província e nos círculos do poder. Burocracias, impostos, má legislação, proteccionismo de grandes grupos e lobbies: tudo isso mata a iniciativa individual. A individualidade não tem acolhimento social e persistem as Ordens profissionais: um médico para exercer tem de ser inscrever, não há alternativa. Na Academia persistem rituais que sedimentam o espírito de matilha e que incutem a obediência à hierarquia: as praxes não desapareceram, e têm a benção velada das direcções de muitos estabelecimentos de Ensino Superior. O caminho rumo à Liberdade -social, económica, intelectual- ainda é longo.

  3. Carlos C.

    “As cunhas, o compadrio, o pequeno tráfico de influências: tais maus hábitos «ancestrais» continuam em força na província”… Tanto na província, como na Capital; tanto nas Juntas de Freguesia como nas Universidades. Concordo com o Luís na medida em que se reconheça na mobilidade social um efeito e não uma causa. Cada sociedade é como é e, infelizmente, não basta o desejo de mudar para se conseguir mudar.

  4. Bento 2014

    Sinto-me embraiado, o motor ronca mas a trotineta não se mexe. Não há respeito pelo 25 de Abril quando ainda hoje todos o querem cavalgar como sendo propriedade sua, mesmo o que lhe saltaram em cima á pressa. Por este andar nunca mais chega Maio

  5. José

    “mercado laboral blindado por tanta rigidez, segurança social para a qual contribuimos compulsivamente e em crescendo e da qual não usufruiremos,…).mas afinal o mercado laboral não está a ser democratizado pelo actual governo , incluindo a alteração da indemnização ao despedimento sem justa causa? O problema do mercado de trabalho é não haver trabalho … Quanto à contribuição compulsiva crescente e da qual não usufruirá, como vê o que se passa com aqueles que contribuíram durante longos anos e que também não usufruirão ?

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