A minha reeducação está a dar frutos

O João Villalobos reagiu à bela prosa do presidente do sindicato dos estivadores. Obviamente o João, certamente eivado de contaminações empresariais, não foi capaz de apreciar o convincente argumentário do sindicalista. Dou alguns exemplos. Logo de início se entende bem que o sindicalista tem uma legitimidade democrática muito superior à do pm, afinal foi eleito diretamente pelos votos de 400 pessoas. Também é de cristalina evidência que, de facto, o pm ‘está agarrado ao poder’. Eu, antes da epifania provocada pela correspondência sindical aberta, estava convencida que o que atribuía legitimidade democrática a um governo era ser sustentado por uma maioria na AR democraticamente eleita. E que, nas democracias normais, um governo governa durante o tempo que intermeia entre eleições e que a vontade expressa em votos pelos eleitores conta mais do que, sei lá, birras de sindicalistas eleitos por 400 estivadores. Mas não. Claro que o pm está agarrado ao poder. Também me parece muito bonita a declaração de que o autor epistolar se preocupa com ‘as pessoas’, enquanto o malvado pm se preocupa com ‘as empresas’. Eu, no meu ser anterior não-esclarecido, pensava que ‘as pessoas’ viviam bastante mal nas sociedades onde não existem ‘as empresas’ e que, nas sociedades onde benevolentemente as empresas são deixadas existir, ‘as empresas’ são constituidas por ‘as pessoas’ (e, até ver, mesmo aqueles que contribuem para as empresas com o capital são também ‘pessoas’); em suma, costumava considerar que o bem de ‘as empresas’ e ‘as pessoas’ se interligava; que, por exemplo, a falência de uma empresa não costuma deixar deleitado de felicidade quem lá trabalhava. Mas agora, at long last, vejo que as duas realidades são mutuamente exclusivas.

Confesso que (talvez seja o mesmo mal que aflige o João) ainda me resta alguma desconfiança perante o sindicalista epistolar. Não é à toa que o discurso da falta de legitimidade do governo vem de setores afetos ao PCP. Ora pois; dos setores que têm um entendimento peculiar do que é uma democracia, o bem-comum ou a liberdade de expressão – que nos países onde a ideologia do sindicalista epistolar vigorou não se costumava tolerar estas saudáveis cartas abertas aos governantes. Ainda há um pedacinho não-esclarecido de mim que tem vontade de, segundo as palavras do filósofo sócrates, dizer ao sindicalista epistolar para ir dar lições de moral à tia.

18 pensamentos sobre “A minha reeducação está a dar frutos

  1. Pingback: Maria João Matos escuta… | L´obéissance est morte

  2. Nuno Cardoso da Silva

    O João Villalobos não deve ter lido a carta em questão. E se a leu devia ter os tais óculos desfocados e coloridos que impedem que se perceba o que se lê. O sindicalista vale de facto muito mais do que o primeiro-ministro – o que nem sequer é difícil e é reconhecido por um número crescente de pessoas da sua área ideológica. E não há nada na sua carta que não seja verdade e facilmente constatável. É rude o sindicalista? É. Mas não é estúpido nem desonesto. Nada mau. Daria um bom primeiro-ministro…

  3. Maria João Marques

    Interessa-me muito pouco a rudeza do sindicalista e aprecio muito pouco o atual pm. Já o conteúdo da carta do sindicalista apenas tem opiniōes imbecis, nenhuma delas verificável. E cada um tem os pm wannabes que merece.

  4. José

    O sindicalista vale o que vale e o primeiro ministro também vale o que vale e se calhar ambos não valem este post a menos a autora tenha fundadas expectativas desta empresa e do bem que dai resultaria para as pessoas! É claro que é tudo um bocadinho complicado nomeadamente aquela tirada sobre a interligação entre o bem das empresas e o bem das pessoas : acha que é verdade no caso BPN ? Claro que depende das pessoas… Por exemplo os acionistas da Plêiade têm uma opinião mas outros muito mais portugueses podem ter uma opinião radicalmente oposta….enfim o sindicalismo vale o que vale ( sobretudo se não for do nosso ..do bom) e as empresas são o que são ( mesmo quando não são nossas).
    Por enquanto é assim: Todos podem achar

  5. Rafael Iria

    A legitimidade democràtica de que fala foi conseguida através da maior mentira ilegítima nas eleições passadas sem esquecer a tão mal fadada “irrevogável” demissão.A sua analogia sobre as empresas é deveras de mau gosto,pois o problema não está nas empresas está em quem as gere,o problema é que os povos dessa sociedades arcam com os prejuízos dessas empresas e as benevolentes pessoas que gerem as mesmas empresas ficam com o lucro ou seja pra salvar temos que sacar a quem não pode fugir e premeia-se quem benevolamente tem a ardua tarefa de ficar com os lucros….

  6. Nuno Cardoso da Silva

    Maria João, a carta do sindicalista só tem opiniões imbecis? Podias exemplificar para eu perceber melhor?…

    [Desculpa o tratamento por tu, mas foi um hábito que apanhei à esquerda, e que acho simpático. Não tem nada de falta de respeito.]

  7. Nuno Cardoso da Silva,

    A esquerda só tem opiniões imbecis. E a prova disso está escarrapachada na comparação Coreia do Norte/Coreia do Sul, Cuba/República Dominicana pós 1996 ou Alemanha Democrática/Alemanha Ocidental. Mesmos povos, mesmas culturas, de um lado socialismo e do outro o malvadíssimo capitalismo. Num lado a grilheta, no outro liberdade. Num lado miséria, no outro prosperidade. Num lado constroem-se muros para que as pessoas não fujam, e as pessoas tentam fugir; e fazem-no. Em direcção ao malvado capitalismo.

    Ver um escarralhado a falar de direitos e de prosperidade ou o Adolf Hitler a falar de tolerância e de paz é a mesma coisa: suprema hipocrisia. Ver um sindicalista que não trabalha há anos falar de trabalho ou um quadro do PCP identificar-se como sindicalista ou um calhau de esquerda a dar a mão simultaneamente aos LGBT e aos terroristas islamistas é de rir às lagrimas. Ou sê-lo-ia, se o desfecho de a esquerda tomar o poder nunca deixasse de ter sido funesto.

    Fiquem os escarralhados com os seus sindicalistas e emigrem. Para bem longe. Para onde possam implantar as suas Lubiankas e os seus Tarrafal, para onde possam sofrer a fome eternamente revolucionária e lutar pelo ambiente poluindo tudo, à moda sovieto-chinesa. Onde possam lutar pela multiculturalidade, desde que seja russa na Rússia e chinesa na China, e que se lixem as minorias. O camarada lobo sabe sempre quem vai comer (anedota russa).

  8. José,

    «É claro que é tudo um bocadinho complicado nomeadamente aquela tirada sobre a interligação entre o bem das empresas e o bem das pessoas : acha que é verdade no caso BPN ?»

    Se vai falar no BPN, terá de se lembrar que quem o salvou foi o São José. Não o São Pedro.

  9. Maria João Marques

    Nuno, a carta tem apenas as banalidades do costume, o governo está agarrado ao poder, o pm nāo quer saber das pessoas e quer empobrecê-las, está a destruir o país,etc., etc., etc, além da reintegraçāo dos estivadores despedidos. Nāo vejo bem onde estejam os factos. O governo deve ser confrontado com aquilo que os seus partidos prometeram em campanha e com as consequências das suas políticas, mas dizer imbecilidades como o pm estar agarrado ao poder quando está a desempenhar o cargo para que foi eleito, no tempo para que foi eleito mostra logo que se quer tudo menos discutir seriamente.

  10. Nuno Cardoso da Silva

    Maria João, tu és uma alma boa! Com que então o pm não está agarrado ao poder? É uma espécie de Joana d’Arc que se está a imolar em nome do bem comum? Não está ao serviço de interesses que podem ser coincidentes com os dele, mas não com os nossos? Vê que se passa uma coisa extremamente curiosa. O pm sacrifica de forma selvagem os credores internos do estado português, para satisfazer os credores externos. Tira dinheiro aos pensionistas para pagar a banqueiros. Como se os pensionistas que ele rouba fossem devedores do que quer que fosse a quem quer que seja. Os pensionistas são credores do estado, e são credores privilegiados porque não têm outra fonte de rendimento ou de serviço, ao contrário dos banqueiros estrangeiros. Em nome de quê se opta por pagar a quem não precisa e não pagar a quem desesperadamente precisa? É isso a que chamas desempenhar o cargo para que foi eleito?

  11. Nuno Cradoso da Silva,

    «Com que então o pm não está agarrado ao poder? É uma espécie de Joana d’Arc que se está a imolar em nome do bem comum?»

    Aposto que o Fidel Castro (por interposta pessoa), na opinião da luminária Cardoso da Silva, não está agarrado ao poder. Está a fazer um serviço a Cuba, ao promover a bendita e fascienta revolução.

    Santa paciência!

  12. Maria João Marques

    O pm está a cumprir a legislatura, como disse que faria e para o que foi eleito. Estaria agarrado ao poder só sucederia se se recusasse a deixar de ser pm depois de perder as próximas eleiçōes. Se gosta ou nāo de exercer o poder no período em que democraticamente o exerce, é outra conversa que nāo me interssa nada, que tenho mais que fazer do que ocupar-me dos estados de alma do pm. Mas quem se agonia porque o pm exerce o cargo que democraticamente lhe cabe, com argumentos tolos como o gosto pelo poder, tem uma ideia de democracia que nāo é a minha. Quanto aos pensionistas, sāo credores do que descontaram, nāo sāo credores daquilo que outros coercivamente descontam, que é precisamenta o que reclamam ser seu. E quem emprestou dinheiro ao estado português nāo foram os banqueiros, mas sim os depositantes dos bancos, estrangeiros e portugueses.

  13. Nuno Cardoso da Silva

    Maria João, os pensionistas descontaram exactamente o que o estado lhes exigiu, e contra o qual lhes foi prometido que iriam receber uma determinada pensão. Terias alguma razão se fossem os pensionistas a decidirem o que iriam descontar, o que não foi o caso. Logo são credores da totalidade do que lhes foi prometido. O que eu continuo a não perceber é porque está o pm disposto a entrar em incumprimento com os credores internos, e não imagina sequer a possibilidade de reestruturar a dívida relativamente aos credores externos. Os estrangeiros, para o pm, são mais merecedores de respeito do que os portugueses. Provavelmente é porque ele é realmente o pm dos credores e não dos portugueses.

  14. Maria João Marques

    ‘Logo são credores da totalidade do que lhes foi prometido.’ Isto é uma opiniāo, nāo um facto verificável. Em minha opiniāo nāo têm crédito nenhum que seja pago às custas das minhas contribuiçōes e pensāo (que nāo vou ter). Da reestruturaçāo nem vou falar, porque nāo é assunto. De resto quem sugere a reestruturaçāo nāo quer nenhuma reestruturaçāo acordada com credores, quer a agitaçāo interna que se seguiria aos efeitos internos de um calote do estado, para dessa agitaçāo se aproveitar politicamente.

  15. Nuno Cardoso da Silva

    Maria João, não tens razão, sabes que não tens razão, e por isso evitas tocar nas questões fulcrais que coloquei, tais como o estado estar em incumprimento para com os credores internos (pensionistas) mas não considerar reestruturar a dívida externa; o governo falta ao que é devido aos portugueses para não faltar ao devido aos estrangeiros, numa discriminação aberrante e violadora do mandato recebido. E não te esqueças que se os teus descontos servem para pagar as pensões actuais foi porque o sistema foi assim montado. Os actuais reformados também pagaram para as reformas dos que os antecederam, quem sabe, talvez em benefício de algum familiar teu.

  16. rmg

    Nuno Cardoso da Silva

    Espera-se mais de um universitário como o meu caro do que debitar lugares comuns , já lhe dei razão suficientes vezes para agora lhe dizer com a mesma cara o que lhe digo .

    Claro que o Estado está em incumprimento mas talvez não tenha notado que cá dentro não se
    cria hoje a riqueza suficiente para tudo e tem que se viver de alguma boa vontade alheia .
    Como nas famílias , não é porque um casal fez asneiras e geriu mal o património que filhos e / ou netos vão continuar a ter tudo o que lhes tinha sido prometido .

    O casal está em incumprimento ? Decerto .
    Querem continuar a dar o mesmo ao descendentes ? Pois está bem .
    Mas para isso têm que ír pedir “fora” e só lhes emprestam enquanto acreditarem que eles paguem tudo um dia .
    O Nuno “ajuda” financeiramente estranhos à sua família só porque é um gajo porreiro (e eu acho que é ) ?

    Como é que com a sua formação lhe passa pela cabeça que seja uma boa ideia HOJE reestruturar a dívida externa (no entanto daqui a um ano pode ser que já seja) ?

    Quanto ao sistema ser assim montado também não compreendo pois por ser assim em quase toda a Europa é que está tudo à rasca (com excepções como a Suíça e a Espanha , pouca gente sabe que em Espanha as reformas pagas pelo estado estão plafonadas desde o tempo do Felipe González e hoje ninguém recebe mais de 2500€ do Estado) .
    Também aqui isso foi tentado há uns 20 anos e caíu o Carmo e a Trindade .
    E no entanto teria sido simpático pois eu teria uma renda vitalícia privada catita em vez dos cortes malucos que tenho …
    Mas sendo o sistema redistributivo e eu achando isso justo não seria ético .

    Portanto se todos os sistemas que foram montados estão bem não percebo porque é que se tem que reestruturar JÁ uns (os que não nos convem pessoalmente sustentar) e manter mais uns tempos outros sem reestruturar (os que nos convem pessoalmente sustentar) .

    Ora mesmo este é mais para as pessoas que o Nuno conhece porque a grande maioria dos seus concidadãos não o parece ralar e é por esses que eu gostava de o ver lutar :

    http://www.publico.pt/economia/noticia/cerca-de-80-dos-pensionistas-recebem-reforma-media-de-364-euros-1624499

    Uma boa tarde para si

  17. Nuno Cardoso da Silva

    rmg,

    O problema é a selectividade do estado: não cumpre para com os portugueses mas passará fome para cumprir com os estrangeiros. Ora se não há dinheiro que chegue, então não há nem para uns nem para outros. É a eterna subordinação aos estrangeiros que eu critiquei. Não consigo compreender que se deixe uma velhota sem dinheiro para medicamentos, para poder pagar a um agiota alemão ou americano. Mas obviamente quem não tem miolos para perceber sou eu…

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