No Fio da Navalha

O meu artigo desta semana no jornal i. O socialismo pressupõe consumismo e endividamento.

O socialismo e a dívida

É comum dizer-se que a crise se deveu às políticas neoliberais que desregulamentaram a actividade financeira. É certo que houve irresponsabilidade, e não apenas dos estados. Mas o erro desta concepção está na própria separação entre estado e mercados financeiros; entre dívida pública e dívida privada.

Nos anos 70, as democracias ocidentais estavam em crise. A estagnação económica e a inflação não ajudavam e as pressões sociais acentuavam-se. O que se fez nos anos 80 foi encontrar um meio de a economia voltar a crescer, sem pôr em causa o estado social. Foi assim nos EUA, no Reino Unido e até em França, com Mitterrand.

O discurso político maioritário é tão à esquerda que denomina de neoliberalismo aquilo que é neo-socialismo. Na verdade, a desregulamentação da actividade financeira, a dívida pública, a par com um aumento da dívida privada, foi o meio encontrado para se ter o crescimento económico indispensável para financiar o estado. O estado que se manteve presente, omitindo-se quando lhe covinha e continuando activo na concessão de monopólios e na aquisição do dinheiro necessário para o investimento público que garantia votos.

Como referiu o Ricardo Campelo Magalhães no blogue O Insurgente, o liberalismo defende a inexistência de dívida pública. Só assim se podem ter impostos baixos. Baixar impostos, incentivar o consumo, fazendo da dívida o motor da economia, não é liberalismo, mas neo-socialismo. Dada a dimensão do estado, o socialismo de hoje depende do endividamento.

19 pensamentos sobre “No Fio da Navalha

  1. Luís Lavoura

    o liberalismo defende a inexistência de dívida pública

    Isso é tão ridículo como defender a inexistência de dívida privada.

    É como defender que as famílias e as empresas deveriam estar proibdas de contrair dívida.

  2. Miguel Noronha

    “É como defender que as famílias e as empresas deveriam estar proibdas de contrair dívida”
    Há uma diferença substantiva. As dívidas privadas não são pagas por todos. Excepto no caso em que o estado, por alguma via, as assume. Mas será a meu ver a violação de um princípio ainda mais grave para qualquer liberal que se preze.

  3. M.

    «O discurso político maioritário é tão à esquerda que denomina de neoliberalismo aquilo que é neo-socialismo.»

    E não é só o discurso politico, são os mass media e, por sua vez, a maioria da sociedade. Os cursos superiores, que tanto se tentam impingir como única alternativa para sermos válidos no mercado de trabalho, não nos trouxeram pessoas mais atentas, mais críticas, apenas mais borregos atrás do rebanho. Há uma secreta teoria de que os «homens de bem» só podem ser de esquerda.

  4. k.

    Dois temas:
    A economia:
    A crise dos anos 70 é indissociável dos choques petroliferos.
    As economias tinham crescido acentuadamente nos anos 50-60, com uma regularização financeira pesada, e sem crises financeiras de maior.
    O crescimento que sucedeu nos anos 80 tem mais a ver com a adaptação das economias à nova realidade energética do que à desregularziação financeira.

    A dívida:
    Os estados comunistas também são anti-dívida; A Coreia do Norte não tem divida externa, e a Romenia de Cueasesco pagou-a toda. Por outro lado, os “socialistas estados europeus” têm perfis de dívida, e quantidade de dívida, completamente distintos.. pelo que o facto de “serem socialistas” não é certamente o que une os movimentos de dívida.

  5. Fernando S

    “o liberalismo defende a inexistência de dívida pública”
    Claro que é uma forma “choque” de expressão …
    O que o liberalismo defende é que a divida publica deve ser sustentavel e não deve pesar sobre a economia.
    O endividamento publico pode justificar-se, pontualmente, “técnicamente”, como um adiantamento relativamente a receitas futuras, normalmente e quase exclusivamente fiscais.
    Mas o critério importante é a sustentabilidade e a eficiencia economica da operação financeira. Se as receitas futuras são incertas ou improvaveis e/ou se a fiscalidade que as deve garantir pesar negativamente sobre a economia (o que, por sua vez, pode aumentar o grau de incerteza sobre os encaixes futuros), então os liberais teem de ser forçosamente contra esta divida publica.
    A este critério, mais “economico”, pode-se acrescentar ainda um critério mais de justiça “social” e que diz respeito à repartição do fardo do serviço da divida pelas sucessivas gerações. Por exemplo, o endividamento do Estado para financiar certos gastos supostamente de interesse geral mas que beneficiam sobretudo as gerações contemporaneas ficando para ser pagos pelas gerações futuras são no minimo de uma moralidade muito discutivel.
    De resto, independentemente do que possam defender os liberais relativamente à gestão das finanças do Estado, também numa empresa privada ou numa familia normal as regras da boa gestão financeira e do bom senso aconselham a não assentar a actividade ou a vida doméstica correntes num endividamento que se torne “estrutural”, dificilmente amortizavel e com custos financeiros que comprometem a competitividade da empresa ou o equilibrio do orçamento familiar.

  6. jo

    Se a dívida privada é sempre paga porque é que os bancos são financiados pelo Estado. O BPN não é dívida pública.
    Se a EDP ou a REN estivessem a falir quanto aposta que o estado intervinha? Tinha de intervir porque sendo empresas que dominam sectores chave não poderiam parar de fornecer serviços.
    Tanto um banco como a tasca do ti Zé são privados mas na hora de falirem não são tratados da mesma maneira.
    Na tasca do ti Zé, quem toma decisões, para o bem ou para o mal, é o dono. Num banco é um administrador que sabe que tem um para-quedas dourado. São situações muito diferentes.

  7. hustler

    O artigo estava a correr bem até à parte: “Baixar impostos, incentivar o consumo, fazendo da dívida o motor da economia, não é liberalismo, mas neo-socialismo.” , no entanto baixa de impostos e maior endividamento são incompatíveis, uma vez que cortes de impostos não se pagam por si próprios, eles reduzem a receita que entra nos cofres nacionais. E isso aumenta a dívida. Mais dívida significa custos de juros mais altos.
    Também não é pelo facto de se aumentar o consumo, que os impostos recolhidos por esse incremento, consigam compensar a baixa de impostos generalizada, até porque, os impostos directos são os mais efectivos e justos, em contraposição com os indirectos, que por vezes se revestem de taxas discriminatórias num qualquer processo burocrático.
    Obviamente que se se poderia ainda colocar outra questão, qual a dose óptima de impostos para o cidadão e para as empresas, ou melhor, qual a fatia do rendimento que se está disposto a entregar e qual a expectativa de retorno desse “investimento” pelo estado.

  8. Luís Lavoura

    As economias tinham crescido acentuadamente nos anos 50-60, com uma regularização financeira pesada, e sem crises financeiras de maior.
    O crescimento que sucedeu nos anos 80 tem mais a ver com a adaptação das economias à nova realidade energética do que à desregularziação financeira.

    k, excelente observação.

    Nos anos 70 o preço do petróleo aumentou brutalmente (o que se tornava necessário para pagar os crescentes custos de exploração e pesquisa). O preço do petróleo atua como um imposto sobre as economias avançadas: é dinheiro que continuamente sai delas, e quanto mais elas carburarem, mais têm que pagar. As grandes quantidades de dinheiro geradas pelas receitas do petróleo tinham que, de alguma forma, ser “recicladas”. Os países produtores de petróleo tinham escassas oportunidades de investimento produtivo. Tornou-se portanto necessário financeirizar a economia – desenvolver um complexo e muito grande sistema financeiro que, de alguma forma, assegurasse que o dinheiro que se acumulava nos países árabes (e outros produtores de petróleo) retornava aos países industrializados – os únicos que o conseguiam investir de forma produtiva.
    A origem da atual economia altamente financeirizada está aí. É uma consequência inevitável de o principal recurso da economia moderna – a energia fóssil – estar distribuído de forma muito desigual e, em particular, não estar todo nos países que dele mais necessitam.

  9. migas

    K., Luis Lavoura,

    A “realidade energética” foi resolvida graças às entranhas do senhor Paul Volcker? Foi?

    Assim que foi nomeado presidente da FED começou a jorrar petróleo pelas narinas, pelos ouvidos e outros buracos do corpo, aumentando assim a oferta de ouro negro e consequente queda do preço? Foi?

    Deixem-se de hipocrisias. A década de 70 foi o culminar do fracasso do keynesianismo clássico – inflação elevada e baixo crescimento, ou seja, empobrecimento.

  10. k.

    “migas em Abril 8, 2014 às 15:40 disse: ”

    A crise energética teve uma resposta monetária errada (um choque real respondido com aumento da massa monetária), dai a inflação – os bancos centrais pioraram a crise da economia real, o que apenas fortalece o argumento que a resposta monetária apropriada durante os anos 80 justifica o crescimento económico dessa década, não a “liberalização financeira”

  11. k., e porquê que teve essa resposta monetária errada? Porque os Keynesianos acreditavam piamente na curva de Phillips. E continuará a ter: nos modelos Keynesianos, um choque do lado da oferta é sempre respondido com uma deslocação da curva IS através de estímulos fiscais ou monetários, quando o que deveria ser feito era, literalmente, nada.

  12. Luís Lavoura

    migas

    K., Luis Lavoura, Deixem-se de hipocrisias.

    Não vejo onde você vê qualquer hipocrisia da minha parte. Ademais, não vejo o que o seu comentário tem a ver com o meu. Eu falei das origens da atual prepoderância da finança na economia. Não falei de keynesianismo nem de Paul Volcker.

    Parece-me que você está a arremeter contra um homem de palha…

  13. Luís Lavoura

    Miguel Noronha,

    Há uma diferença substantiva. As dívidas privadas não são pagas por todos.

    Claro que não. Mas, a partir do momento em que há uma entidade chamada Estado que tem o direito (bem ou mal) de gastar dinheiro, não se vê por que motivo não possa essa entidade, tal como qualquer outra, endividar-se (seja para investir, antecipando prováveis rendimentos futuros, seja para consumir, compensando inesperadas quebras de rendimento). Tal e qual como qualquer família ou empresa o faz.

  14. k.

    “Mário Amorim Lopes em Abril 8, 2014 às 18:02 disse: ”

    lol what?

    Yum kippur, wrings a bell?
    A sério, não tenho grandes problemas que ataque o “keynesianismo”, whatever that is, mas ao menos não brinque!!

  15. Falei estritamente num sentido económico. A reacção à subida dos preços do petróleo (isso sim, gerado pelos conflitos no Médio Oriente) foi errada, no sentido económico.

  16. Pingback: O socialismo e a dívida | Ricardo Campelo de Magalhães

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.