Municipais francesas – resultados finais

MunFrance2014

fonte: Le Monde

19 pensamentos sobre “Municipais francesas – resultados finais

  1. Luís Lavoura

    Constato que a França tem 930 municípios, cerca do triplo dos portugueses, enquanto que a população francesa é o quíntuplo da portuguesa (e a densidade populacional é a mesma).
    De onde deduzo que, para que a dimensão (em população e em área) dos municípios fosse a mesma, o número de municípios em Portugal deveria ser reduzido em 40%.
    (Contas feitas à pressa e de forma aproximada.)

  2. Miguel Noronha

    A estrutura municipal em França é diferente da portuguesa. Julgo que não fazem distinção entre municipios e freguesias. As unidades são descendentes directas das antigas paróquias. Os nº apresentados são para os municipios com mais de 10000 habitantes. As cidades maiores têm mais de um municipio.

  3. Fernando S

    A França (metropolitana) tem 36.552 “communes”. Relativamente a Portugal este numero pode ser comparado com as freguesias, que são 3.091.
    Talvez os municipios portugueses (308) possam ser comparados com as “communes” francesas com mais de 2.000 habitantes e que são 4.962.
    Portanto, em termos de população, a França tem um numero de unidades muito superior (uma média de 1.708 habitantes por “commune” contra 3.407 por freguesia).
    De resto, a nivel europeu, a Franca é de longe o pais que tem mais unidades (por exemplo, a Belgica tem uma média superior a 18 mil habitantes por “commune” !…).
    Ha inclusivamente “communes” que são tão pequenas em termos de população que se torna dificil ter candidatos para os orgãos municipais.
    A França precisaria de fazer uma grande reforma de todo o seu sistema municipal de modo a reduzir significativamente o numero de unidades, tanto as de base como as intercomunais (cantões, departamentos, regiões).
    Nada disto exclui que em Portugal o numero de unidades administrativas a varios niveis possa ser ainda diminuido, com um objectivo de economia e eficiencia.

  4. José

    Pois por cá precisamos de cortar nas câmaras municipais – concelhos- mas como conseguir tal objectivo quando estas são o viveiro dos partidos?
    Por lá passam em geral e aprendem a gastar o nosso dinheiro todos os grandes políticos do arco e também da flecha da governação. Aqui está um tema de amplo consenso nacional sendo notório o acordo nestas matérias entre o PSD o PS, o CDS e a CDU / PC

  5. Fernando S

    Os resultados mostram naturalmente uma subida da FN relativamente às eleições mais recentes.
    Mas não é nada de surpreendente, nada de novo, nem nada de verdadeiramente dramatico.
    A percentagem de votos na FN a nivel nacional é mesmo menos importante do que já foi noutras eleições (por exemplo, nas presidenciais de 1995 e 2002). O Partido Comunista e os seus aliados (Front de Gauche, etc) até ganharam agora muitas mais “communes” do que a FN.
    A tese de que existe uma ameaça da extrema-direita está errada e é sobretudo uma criação propagandistica da esquerda, sobretudo do PS, no sentido de limitar a possibilidade da direita “tradicional” poder ganhar eleições. Enquanto que o PS se pode aliar com todas as correntes à sua esquerda, incluindo comunistas e extrema-esquerda, não apenas no plano local mas até a nivel legislativo, presidencial e de maiorias de governo, a direita moderada é pressionada para recusar qualquer tipo de aliança com a FN e é condicionada no sentido de não abordar temas, como a imigração e a segurança, com o argumento de que a discussão destes temas faz o jogo e favorece a ascenção da extrema-direita.
    E o mais curioso, mas também inquietante, é que esta tese acaba por ser aceite e assumidas por quase todos os sectores de opinião, incluisivé na propria direita.

  6. António

    Caro Fernando S,
    a aliança entre as duas direitas em França, não é só indesejável, como também contra-natura. Como sabe, a direita – dita tradicional – é a herdeira de De Gaulle, enquanto a outra, a extrema direita da Frente Nacional é a herdeira de Pétain, a direita colaboracionista. Extravasando para Portugal, também temos uma direita colaboracionista que se pode coligar com a outra direita, já as alianças à esquerda estão, infelizmente, interditas e fora de qualquer horizonte, ao contrário do que diz acontecer em França.

  7. Fernando S

    Caro Antonio,
    Não sei o que entende por aliança “contra-natura” !…
    Não o vejo manifestar-se e preocupar-se a respeito das frequentes alianças entre os PSs e os Partidos Comunistas e de extrema esquerda, herdeiros do marxismo e do totalitarismo comunista !
    Quanto a Portugal, também não percebo onde é que ve a “direita colaboracionista” (já agora, “colaboracionista” com quem ?!…) aliada com a “outra direita” e a interdição de “alianças à esquerda” (por exemplo, a Camara Municipal de Lisboa não foi governada mais de uma vez por alianças entre o PS e o PCP (e o BE) ?!…) !
    De qualquer modo, eu não entrei sequer na questão concreta de saber se a direita francesa se deve ou não aliar com a FN para esta ou aquela eleição …
    Apenas chamei a atenção para o facto da esquerda francesa utilizar a tese velhissima e gastadissima do “anti-fascismo” para proibir à direita francesa aquilo que se autoriza a si própria : alianças “de Deus com o Diabo” !!

  8. arni

    Fernando S,houve,mas como deverá saber,foi uma vez irrepetivel,já que todos os partidos para o BE e PCP são de direita,incluindo o PS.
    Por sinal,julgo que em Loures,o PSD é membro do executivo chefiado pela CDU

  9. António

    Caro ‘Fernando S’,
    as alianças autárquicas, devido à escala e às competências, permite por vezes o exemplo que deu, o qual foi, como sabe, um momento único. É mais comum o exemplo que ‘arni’ referiu, as coligações “Vodka com laranja”.
    Quanto ao facto de não entender ser contra-natura uma aliança entre os herdeiros de De Gaulle e os herdeiros de Pétain, é pena, pois reside, em meu entender, numa palavra: liberdade! Uns defendem-na e lutaram por ela os outros não a querem e estiveram no outro lado!
    Quanto ao facto de não reconhecer em Portugal uma direita colaboracionista. Permita-me que, amigavelmente, lhe sugira que abra os olhos, pois deve andar com eles fechados! “Ir para além da troika!”, “Estamos numa situação de protetorado!”– diz-lhe alguma coisa? Logo se estamos numa situação de protetorado, quem são os colaboracionistas? Por certo que não é o povo!

  10. Fernando S

    arni,
    “Irrepetivel” é o que se verá !… Antes das ultimas eleições autarquicas Antonio Costa bem tentou convencer o PCP e o BE … Não chegaram a acordo, apenas isso.
    A verdade é que existiram e existem alianças politicas entre partidos com diferenças importantes em termos de historia, ideias, programas e praticas.
    Nomeadamente a nivel mais local (como os casos que refere) e em matérias especificas.
    Mas também a nivel nacional e de governação. Como foi e é o caso em Franca. Os comunistas franceses estiveram varias vezes associados a governos de esquerda. O actual Presidente frances foi eleito com o apoio na 2a volta dos comunistas e dos “verdes-vermelhos”. Estes ultimos teem feito parte da maioria de governo e teem ministros.
    O que não é aceitavel é que a esquerda, para ganhar eleições, por um lado se permita todo o tipo de alianças locais e nacionais com partidos extremistas, sem excluir os herdeiros e representantes directos de um dos piores totalitarismos da historia, e por outro lado pretenda que os partidos à direita não o possam fazer, nem sequer pontualmente e em eleições locais.
    Quero lembrar que a “Frente Nacional” francesa, embora seja claramente populista, como são os comunistas e marxistas franceses de diferentes matizes, ao contrario destes não se reclama de uma qualquer filiação directa com ideologias e regimes totalitários (incluindo aqui o “pétanismo” a que fez referencia o Antonio).
    A FN não deveria ser considerada à partida como menos frequentável do que os partidos comunistas e de extrema-esquerda em França.
    Em matéria de alianças com forças e partidos extremistas, a esquerda não tem moral nem legitimidade para dar lições.

  11. António

    Caro “Fernando S’,
    permita-me que fique admirado, quando diz:
    «Quero lembrar que a “Frente Nacional” francesa, embora seja claramente populista, como são os comunistas e marxistas franceses de diferentes matizes, ao contrario destes não se reclama de uma qualquer filiação directa com ideologias e regimes totalitários (incluindo aqui o “pétanismo” a que fez referencia o Antonio).»
    Lembro-lhe esta notícia, entre muitas outras, publicadas a este propósito:
    http://www.lemonde.fr/politique/article/2010/04/26/jean-marie-le-pen-derape-lors-de-la-journee-nationale-du-souvenir-des-victimes-et-des-heros-de-la-deportation_1342486_823448.html

  12. Fernando S

    Caro “Antonio”,
    O que diz aqui em cima sobre a frequencia das coligações “Vodka com laranja” em comparação com as alianças dos PSs com os partidos à esquerda, incluindo Portugal, é delirante e leva-me a pensar que o Antonio não está a argumentar de boa fé !…
    Por sinal, talvez sem dar por ela, o Antonio acabou por admitir que certas alianças “contra-natura” são aceitáveis a uma certa “escala” e relativamente a certas “competencias”. Afinal !!
    Quanto à palavra “liberdade” … é muitas vezes utilizada para a limitar. Neste caso a liberdade de constituir ou não alianças não pode ser apenas para uns e não para os outros. A liberdade ou é para todos ou não é.
    Como já referi anteriormente, a filiação da FN com o “pétanismo” é muito menos evidente e directa do que aquela que existe entre os partidos mais à esquerda e as multiplas experiencias comunistas por esse mundo fora.
    Quanto ao “pétanismo”, (1) quando de ve que, apenas duas décadas após a queda do muro de Berlin, e numa altura em que ainda existem no mundo regimes comunistas ou proto-comunistas, certos sectores procuram desvalorizar e mesmo esconder o que o comunismo foi e é verdadeiramente, (2) e depois de durante algum tempo a seguir à guerra ter dominado a ideia de que o “pétanismo” era um fenomeno limitado a uma infima minoria de “fascistas” franceses e que a generalidade da população apoiava o General De Gaulle, convém agora lembrar que a historiografia francesa das ultimas décadas evoluiu para um quadro menos maniqueista e que mostra que, por um lado, durante a ocupação alemã, existia um numero muito importante de franceses que considerava que a coexistencia com os alemães era inevitável e o menor dos males (até porque não se sabia na altura quanto tempo duraria a guerra), e que, por outro lado, a seguir ao fim da guerra, milhares de franceses foram injustamente acusados de colaboracionismo e duramente perseguidos.
    Isto para dizer que é sempre muito fácil acusar os outros de “colaboracionismo” com o estrangeiro ao mesmo tempo que se varre o próprio pó para debaixo do tapete !… A história está repleta de exemplos de “colaboração” de nacionais com estrangeiros, vistos por uns como amigos e libertadores e por outros como intrusos e ocupantes. Em particular, os comunistas de todos os costados destacaram-se sempre como fieis e eximios colaboradores de ideologias e regimes estrangeiros, muitas vezes até antes, durante e depois de ocupações militares (nomeadamente, no caso dos paises de Leste ocupados pelos soviéticos).
    Isto tudo para lembrar que, em termos de heranças ideologicas e politicas e em termos de colaborações e alianças, a realidade é muito mais complexa e complicada do que alguns, como o Antonio, pretendem por vezes fazer crer.
    O que o Antonio diz sobre a situação actual em Portugal e sobre os “colaboracionistas” portugueses com a Troika é a prova dos nove de que o Antonio é efectivamente um extremista. Pouco importa saber se de esquerda ou de direita, já que não há muitas diferenças entre os que uns e outros dizem a este respeito !

  13. Fernando S

    Caro Antonio,
    Jean-Marie Le Pen “derrapou” e fez afirmações no minimo discutiveis ?… Não foi sequer a primeira vez.
    Acontece que os comunistas não “derrapam” pura e simplesmente porque não se desviam um metro do seguidismo relativamente às ideologias e regimes totalitarios comunistas.
    Quando Bernardino Soares diz que a Coreia do Norte é uma verdadeira democracia, não “derrapa”, é coerente com as posições oficiais do seu partido.
    Quanto à “derrapagem” de Le Pen, e para quem não segue os links, vale a pena transcrever aqui uma parte das suas afirmações :
    “Ce qui est assez remarquable dans l’histoire des juifs d’Europe — il est mort, hélas, trop de juifs mais vingt-neuf mille juifs français et au total quatre-vingt mille morts ou disparus résidents — c’est que si on compare cela au traitement infligé aux communautés juives de Belgique, Hollande, Danemark… on s’aperçoit que les juifs français ont bénéficié, somme toute, d’une indulgence que leur a value l’action du gouvernement français.” (…) “Feindre de croire que le maréchal Pétain était responsable de la persécution des juifs pendant la guerre, c’est une pensée scandaleuse. Adolphe Hitler ne demandait pas l’autorisation à Philippe Pétain de faire ce qu’il voulait faire nous étions occupés et cette occupation faisait des troupes allemandes les responsables de la vie des Français.”
    Ou seja, Le Pen não faz uma apologia do “pétanismo” e muito menos da ocupação alemã e do nazismo hitleriano. O que diz, em poucas palavras, é que em França o numero de judeus que foi preso e deportado para a Alemanha foi bem menor do que noutros paises ocupados pelos alemães e que isso também se deveu à falta de zelo do regime de Vichy na execução de instruções impostas pelos ocupantes ao governo frances.
    Pode-se estar mais ou menos de acordo com esta análise e com as palavras e termos que são utilizados.
    Como já lembrei anteriormente, muitos historiadores insuspeitos já mostraram que nem tudo o que de pior se disse sobre o “pétanismo” correspondeu à verdade. E é em desacordo com alguns destes exageros, em parte fruto de mera propaganda ideologica e e politica, que Le Pen se manifesta.
    Também considero que o regime de Vichy teve mais responsabilidades e foi mais colaborante com os alemães do que Le Pen parece sugerir.
    Agora, não estar de acordo com Le Pen não significa necessariamente que a analise que ele faz não possa ser apresentada e defendida e ainda menos que o que ele diz seja completamente descabido e inaceitável.
    Como é evidente, não se trata aqui de dizer que tudo o que a FN faz ou diz é razoável. De modo nenhum. Do meu ponto de vista, a FN ainda é um partido extremista e, sendo eu liberal, tenho divergencias de fundo relativamente a uma corrente politica iliberal e até anti-liberal. Como já referi anteriormente, em muitos aspectos as posições da FN estão mais proximas do posicionamento das esquerdas e, em particular, das extremas-esquerdas, do que das direitas, quanto mais dos liberais. O maior obstaculo a uma hipotética convergencia politica com forças do tipo do FN actual são as teses economicas anti-liberais que defendem. A FN é pelo proteccionismo, pelo chamado “patriotismo économico”, contra a liberdade do comércio internacional, contra o mercado unico europeu, pelo intervencionismo do Estado na economia, contra a finança e os capitalistas, etc, etc. O unico ponto em que pode haver alguma aproximação com os liberais é a oposição a aumentos de impostos. Mas, mesmo aqui, esta vizinhança é apenas aparente, porque o resto do que o FN defende impediria na pratica qualquer baixa de impostos. O anti-ficalismo do FN é populista e demagogico, não é viável.

  14. Fernando S

    E continuo a não ver o Antonio preocupado em denunciar as alianças que os PSs, nomeadamente o frances, fazem com partidos de esquerda comprometidos com uma das piores ideologias totalitarias do século XX (e ainda existente nos nossos dias) ….
    Porque será ??!!

  15. António

    Caro ‘Fernando S’
    Ponto 1 – Referir que as coligações municipais Vodka com Laranja se trata de má fé. Basta sair do universo lisboeta percorrer o país e verificar se existem ou não!
    Ponto 2 – Admitir a aceitabilidade contra-natura destas coligações. Leia, p.f., o primeiro paragrafo do meu segundo comentário. Referi que, devido à escala – ou seu pelo universo ser mais pequeno – estes partidos em muitos casos coligam-se. Volto a insistir que é mais comum o PCP participar em executivos PSD e vice-versa, do estes fazerem parte de um executivo PS.
    Ponto 3 – FN ser, ou não, a herdeira de Pétain. Apesar da sua opinião, presumo que se consultar alguma da bibliografia sobre o tema, concluirá de outra forma – http://analisesocial.ics.ul.pt/documentos/1328742509O5kCE7xw4Qr70ON5.pdf ou http://www2.cndp.fr/archivage/valid/12466/12466-2238-2358.pdf .
    Ponto 4 – Apesar de não estar muito por dentro da realidade politica francesa, não deixa de ser verdade que, o PS francês apoiou Chirac face a Le Pen, o mesmo não aconteceu com a UMP nestas últimas eleições quando em confronto estavam o PSF e a FN.
    Ponto 5 – Colaboracionismo. Sim, a história está cheia de colaboracionistas! Recordo que num trabalho que tive necessidade de efectuar sobre a Campanha eleitoral de Humberto Delgado, encontrei num jornal da época, que em Coimbra, no comício deste candidato em representação dos estudantes falou António Arnaut e no comício outro candidato – Américo Tomás – efectuado no ginásio do Liceu D. João III –também em representação dos estudantes, falou uma personalidade que hoje é conotada, informalmente, com o Bloco (não interessa referir quem – para os curiosos, consultem a imprensa da época).
    Ponto 6 – Denunciar a aliança entre o PSF e as forças à sua esquerda. É pena que isso não possa acontecer em Portugal, pois não sendo eu comunista, reconheço que tal como um relógio parado está certo duas vezes ao dia, o discurso económico do PCP é que mais se adequa à realidade portuguesa!
    Ponto 7 – As afirmações do Bernardino Soares, sobre a Coreia do Norte. Compre-lhe, p.f. junto de José Luís Peixoto uma viagem a este país, pode ser que ele fique com uma opinião diferente.

  16. Fernando S

    Caro Antonio,
    Comento primeiro o seu Ponto 4, que me parece mais interessante e que tem mais a ver com o assunto principal da nossa discussão.
    Efectivamente, nas eleições presidenciais francesas de 2002, o candidato socialista, Lionel Jospin, foi eliminado na primeira volta, pelo que o confronto na 2a volta foi entre o candidado da direita, o Presidente Jacques Chirac, e o leader da FN, Jean-Marie Le Pen. A esquerda não tinha assim nenhum candidato na segunda volta e aproveitou a circunstancia para encenar a cena da “frente anti-fascista” apelando ao voto em Jacques Chirac. Na verdade, o resultado final da eleição nunca esteve em duvida. Mesmo que a esquerda não tivesse votado em Chirac os votos do eleitorado da direita “tradicional” eram mais do que suficientes para que Chirac ganhasse à vontade. Le Pen não tinha qualquer hipotese já que a sua votação na primeira volta foi de apenas 17% e não tinha qualquer reserva para a segunda volta (teve 18%, apenas mais 1 ponto). Para Le Pen poder eventualmente aspirar à vitoria teria de reunir a totalidade dos votos de toda a … esquerda. Mesmo que os partidos de esquerda não tivessem dado nenhuma orientação de voto ou até mesmo que, por absurdo, tivessem apelado os seus eleitores a votar em Le Pen, a verdade é que a esmagadora maioria dos eleitores de esquerda nunca teria seguido essas orientações e, quando muito, ter-se-ia abstido abrindo assim a porta a uma vitoria de Chirac que seria de qualquer modo suficientemente confortavel. Ou seja, Le Pen nunca poderia ter ganho estas eleições e a o apoio do PS a Chirac não era verdadeiramente necessário. Digamos que a “generosidade” do PS não lhe custou nada e serviu-lhe para promover a tese da “frente republicana” que tão util lhe é nas restantes eleições.
    Vejamos como.
    Por um lado, à esquerda, o PS apresenta-se quase sempre com acordos formais ou tácitos com os restantes partidos da esquerda, nalguns casos antes da primeira volta através de coligações, noutros casos entre as duas voltas de modo a que os menos votados na primera volta desistam na segunda volta a favor do mais votado.
    Por outro lado, à direita, a UMP (e os seus aliados do centro-direita) não fazem alianças com a FN, nem antes nem depois, pelo que há sempre uma divisão do eleitorado de direita.
    Deste modo, o PS e os restantes partidos de esquerda, através do sistema de coligações e desistencias, maximizam as suas possibilidades de ganho de mandatos, enquanto que a UMP e a FN apenas conseguem ganhar quando teem, um ou outro isoladamente, uma posição muito forte no circulo eleitoral. Como na maior parte dos casos a UMP teem um apoio eleitoral muito superior ao da FN acaba por ganhar a maior parte deste tipo de contendas. Mas quando não teem esta posição forte, o que acontece naturalmente em muitos circulos, a possibilidade da eleição ser ganha pelo PS ou outro dos partidos de esquerda, mesmo que o eleitorado de direita seja globalmente maioritário, é muito forte. Como se pode perceber, na prática poucas são as situações em que o PS e os seus parceiros ficam em terceira posição, atrás da UMP e da FN. Apenas nestas situações faria sentido falar numa “frente republicana”, anti FN, em que o PS ou a UMP, enfrentando na segunda volta a FN, desistiriam a favor do partido mais votado na primeira volta.
    Ou seja, o “contrato” que o PS propõe à UMP consiste em esta (1) aceitar a desistencia reciproca nalguns casos limitados de triangulares com a FN em troca do (2) compromisso em não fazer alianças com a FN, nem sequer pontuais, ao mesmo tempo que (3) o PS continuaria a poder fazer todo o tipo de alianças com os partidos à sua esquerda.
    Digamos que, com o sistema eleitoral existente e com este “contrato”, o PS “joga sempre em casa” !
    Até há algum tempo a direita tradicional foi aceitando este “contrato” sem qualquer reserva. Por diferentes razões. Desde logo receando que, se não fosse assim, o seu eleitorado potencial, sobretudo o mais “centrista”, pudesse ser sensivel ao argumento “anti-fascista” e votasse à esquerda. Depois acreditando que deste modo evitaria a progressão eleitoral dum partido à sua direita no pressuposto de que o eleitorado tenderia a desviar-se dum partido que não consegue conquistar lugares e a votar util. Mas a verdade é que esta estratégia não impediu que a FN crescesse. Antes pelo contrário, uma parte do voto de protesto anti-sistema valorizou positivamente o facto da FN ser marginalizada por todos os outros partidos. E, sobretudo, a UMP pagou um preço elevado em termos de mandatos perdidos para os partidos de esquerda. Muito embora uma parte significativa da classe politica de direita se tivesse mostrado reticente a uma mudança de estratégia a verdade é as sondagens mostram que uma maioria de eleitores à direita, tanto da UMP como da FN, é favorável a acordos pontuais entre candidatos das duas forças (sem que necessáriamente tenham de passar por coligações programáticas pré e post eleitorais e, sobretudo, tenham uma qualquer equivalencia a nivel nacional), que limitem os ganhos dos partidos de esquerda. Perante este quadro os leaders politicos da UMP evoluiram para uma posição a meio-caminho, dita do “ni ni” (“nem nem”), nem acordos com a FN nem “frente republicana” com o PS. O que na prática significa não fazer acordos nem com uns nem com outros e manter a respectiva candidatura até ao fim. Foi o que já aconteceu nestas ultimas eleições municipais com os resultados que se conhecem. Estes resultados mostram que, apesar da FN estar numa fase muito favorável, a não aplicação da regra da “frente republicana” pela UMP não fez com que a FN tivesse um sucesso estrondoso. O PS resolveu manter a indicação de desistencia dos seus candidatos nas situações em que estes cheagavam em 3a posição atrás da UMP e da FN. Mas estas situações não são frequentes e, tal como no caso das presidenciais, nalgumas delas a UMP (ou a FN) ganhariam mesmo que o PS se mantivesse na 2a volta. Foi de resto o que aconteceu na maior parte dos municipios onde a FN ganhou.
    No fim de contas, o “ni ni” não altera grande coisa em termos práticos. Sobretudo porque a desigualdade inicial entre o PS e a UMP se mantém : o PS continua a poder fazer (e a fazer) coligações com os partidos à sua esquerda ; a UMP continua a não fazer qualquer acordo com a FN.

  17. Fernando S

    Caro Antonio,
    Comentando o seu Ponto 1.
    Falando de Portugal, nas eleições municipais não houve nenhuma coligação entre o PSD e a CDU.
    O caso de Loures é um acordo de principio post-eleitoral para permitir a governabilidade da autarquia. O PS, que governara até então com a oposição da CDU e do PSD, também teria preferido entrar no acordo e na distribuição de pelouros mas foi preterido. O presidente da concelhia do PS disse então :
    “É um acordo estranho porque o PS nunca se pôs de parte. Houve algumas reuniões e propusémos à CDU um conjunto de áreas nas quais poderíamos dar o nosso contributo. Foi, pois, com espanto que fomos confrontados com esta decisão.”
    De um modo geral, toda a gente sabe que a possibilidade de existirem coligações e acordos entre o PS e os partidos à sua esquerda é muito maior do que entre o PSD e os partidos à esquerda do PS. De resto, o caso de Lisboa, no passado e no presente (Antonio Costa procurou fazer um acordo com a CDU e o BE), é o mais importante e sintomático nesta matéria.
    Mas o que mais interessa não é isto.
    Eu não considero uma anomalia, antes pelo contrário, que possam existir coligações e acordos dos partidos de governação, sejam eles quais forem, de direita como de esquerda, com outros partidos, incluindo os que se situam nos extremos do espectro politico, sobretudo quando tal pode ser necessário para assegurar a governabilidade e na base de acordos precisos e transparentes quanto a objectivos e politicas. Isto pode mesmo acontecer a nivel nacional e é ainda mais válido relativamente a realidades locais. Como, de resto, o Antonio também acabou por admitiu.
    O que eu não considero normal é que a esquerda socialista queira reservar-se o direito de fazer este tipo de coligações e alianças com a sua esquerda quando lhe convém para assim ganhar eleições e assegurar a governabilidade e pretenda ao mesmo tempo que a direita “tradicional” não o possa fazer com partidos à sua direita. “Liberdade para mim, proibição para ti !”
    Tanto mais que esta discussão apareceu não a proposito de Portugal mas sim da França onde o PS é useiro e vezeiro em fazer coligações e acordos à sua esquerda e onde a FN representa uma parte não desprezivel do eleitorado. Deste modo, com uma regra politica desigual, e com o pretexto de que a apenas extrema direita é inaceitável, o PS faz com que seja mais dificil a direita ganhar eleições e garante uma certa perpetuação no poder. A verdade é que, em França como em muitos outros paises, nomeadamente europeus, a extrema direita não é em principio menos frequentável do que a extrema esquerda.
    Vou ainda mais longe e acrescento que, se formos ver as heranças e os programas dos partidos dos extremos dos dois lados do espectro politico, constatamos que vários dos partidos ditos de extrema direita (nacionalistas, soberanistas, identitarios, etc), por mais discutiveis que sejam as suas posições, estão hoje menos comprometidos com ideologias e regimes totalitarios do que acontece com a maior parte dos partidos comunistas e ditos de extrema esquerda.
    Dito isto, eu também não pretendo a exclusão dos partidos comunistas e de extrema esquerda do jogo politico das alianças que podem justificar-se no quadro dos mecanismos institucionais de funcionamento das democracias.
    No fim de contas, a não exclusão dos partidos colocados nos extremos do quadro politico existente pode até ser, e tem-no sido muitas vezes, favorável a uma evolução em sentido mais moderado e responsável de muitos deles e, sobretudo, dos seus eleitores (poderia referir inumeros exemplos concretos na historia mais antiga e mais recente, à esquerda como à direita).

  18. Fernando S

    Caro Antonio,
    Comentando o seu Ponto 3.
    Não subestime nem menospreze os conhecimentos e as opiniões alheias … Não vou trocar aqui consigo referencias bibliográficas sobre a relação entre a FN e Pétain… Temos “leituras” diferentes, fiquemos por aqui.
    Mas, mais uma vez, não é esta questão das origens e do que representa hoje a FN que verdadeiramente interessa para o assunto emdiscussão.
    Mesmo admitindo que a FN seja uma herdeira assumida dos valores do “Pétanismo”, mesmo admitindo que a FN permanece um partido extremista (e é-o efectivamente a vários niveis, como já referi anteriormente), nada disto torna a FN menos frequentável do que os partidos comunistas e de extrema esquerda.
    O que o Antonio deveria fazer aqui em defesa do seu ponto de vista não é tanto apresentar factos que mostrem que a FN é efectivamete herdeira do “Pétanismo” mas antes explicar porque é que raciociona como se os partidos comunistas e de extrema esquerda não fossem os herdeiros de ideologias e regimes totalitários tão ou mais (eu penso que mais) execráveis do que o “Pétanismo” (que não se confunde com o “Nazismo”).
    De outro modo não vejo como é que pode justificar que alianças da esquerda socialista com estes partidos (que já existem) sejam mais aceitável do que eventuais (porque ainda não existem) alianças da direita moderada com forças como a FN.
    E não me venha outra vez com o argumento de que em Portugal o PS não se alia com a sua esquerda porque já o fez e nada obsta a que possa vir a faze-lo num futuro não muito distante (“suivez mon regard !…” 🙂 ).
    O que conta é que, tanto em Portugal como algures, existe este preconceito de que as alianças à esquerda são sempre legitimas enquanto que as alianças à direita podem não ser.
    E o que conta é ainda que na prática, mesmo abstraindo do caso português, se tem visto que algures, como em Franca mas também noutros paises, esta regra é invocada e aplicada sempre que dá jeito à esquerda.

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