Sobre a desigualdade

O Observatório das Desigualdades e outras intermináveis instituições costumam dar uma perspectiva incompleta da questão da desigualdade na distribuição de rendimentos em Portugal. Dado que uma vez mais se fala do tema e se conclui em auto-de-fé que os ricos são os déspotas do flagelo, talvez seja interessante dar uma outra abordagem ao tema.

Recuperando este artigo de Nuno Alves do Banco de Portugal (2012), que recorre a dados da EU-SILC 2010 e não inclui as sobretaxas de solidariedade, algumas estatísticas que ficam sempre por apresentar:

1) O último decil de rendimento bruto (os 10% “mais ricos” em rendimento auferido) pagam 43% do total dos impostos, o valor mais elevado da União Europeia. A progressividade apresenta um enviesamento mais acentuado que a média da UE, incidindo especialmente sobre os que obtêm maior rendimento:

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2) No panorama europeu, só existe um país em toda a União Europeia onde a fracção de imposto sobre o rendimento paga pelos dois últimos decis do rendimento bruto é superior à de Portugal, o Reino Unido. Para todos os outros países, incluindo a social-democracia nórdica, os ricos pagam bem menos. Na Suécia, os últimos dois decis pagam 43.6%, significativamente menos do que os 61.2% de Portugal.

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Posto isto, talvez seja necessário rever o julgamento popular anti-rico, a típica ostracização dos “ricos” e o discurso trauliteiro contra este ou aquele. Discurso este que vem dos idos ancestrais e que Almeida Garrett, para não citar nenhuma das centenas de opinadores que o fazem diariamente, tão bem sintetiza:

“E eu pergunto aos economistas políticos, aos moralistas, se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar à miséria, ao trabalho desproporcionado, à desmoralização, à infâmia, à ignorância crapulosa, à desgraça invencível, à penúria absoluta, para produzir um rico?”
— Almeida Garrett

Perceber que não é preciso condenar indivíduos à miséria ou ao trabalho desproporcionado para produzir um rico talvez seja um bom começo. Aqueles que produzem riqueza para o país não são a causa do problema, são parte da solução.

105 pensamentos sobre “Sobre a desigualdade

  1. O discurso contra os ricos, sobre o aumento da desigualdade, tem que existir sempre! Caso contrário, quem irá para a rua protestar? Quem votará na esquerda? O risco é grande nos dias que correm. O PS já há muito devia ter descolado nas sondagens; em França é o que se vê. É preciso não enfraquecer a propaganda!

  2. PeSilva

    “Aqueles que produzem riqueza para o país não são a causa do problema, são parte da solução.”

    “Aqueles que produzem riqueza para o país” não são necessáriamente os “ricos”, nem os “ricos” produzem necessáriamente riqueza para o país.

  3. dervich

    Somos o país mais desigual da Europa, MESMO tendo a 2ª política fiscal mais agressiva de todas, o que não deixa de ser bizarro.
    Portugal representa uma tragédia num grau superlativo: Um local onde ser pobre é um calvário e onde ser rico é uma angustia..

  4. PeSilva, excluindo os casos de roubo, os ricos ficaram ricos porque eles, ou quem os antecedeu, produziu para isso. E mesmo que tenham deixado de o fazer, a riqueza deles possibilita que outros invistam.

  5. Marco

    A questão que se impõe, é para que é preciso um “observatório” para criar uns gráficos de excel, quando se constata o óbvio num par de horas? Não vejo outra utilidade senão para encher mais umas ocupações à malta partidária, seja de uns ou outros, pois no fim de tudo é tudo o mesmo e só querem é mama.

  6. PRIMEIRO: … verdade, temos um problema com “os ricos”. Ser rico é “pecado” em Portugal. Temos um “trauma” qualquer, misto de desejo, inveja e punição do sucesso alheio. Falta-nos “a tal” cultura do mérito… SEGUNDO: Ninguém produz riqueza “para o país”. Esse é apenas um efeito “colateral”. Não sejamos ingénuos. TERCEIRO: Portugal é um país “fdp” para gerações e gerações de “pobres”. Neste caso não se venha com a treta do “somos periféricos, etc”. Somos simplesmente mal governados ou governados por elites que se perpetuam na pobreza de espírito, falta de criatividade, iniciativa e um permanente gosto pela “moda” das ideias “pronto a vestir” (como os diversos “ismos”…). Falta-nos pragmatismo lúcido e integrador. Essa coisa que se “marimba” para os “ismos” e se alicerça no bom senso, na disciplina, no rigor, e na procura (genuína) do “bem comum”.

  7. António

    Caro Mário,
    concordo plenamente com o que escreve, nomeadamente quando diz: «talvez seja necessário rever o julgamento popular anti-rico, a típica ostracização dos “ricos” e o discurso trauliteiro contra este ou aquele. Discurso este que vem dos idos ancestrais…».
    Uma vez que nos Evangelhos, também aparece esse discurso trauliteiro, pois é dito que «é mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha, do que entrar um rico no reino de Deus» (Marcos10:25), proponho que o Mário faça, à semelhança do que já fez, um manifesto para propor à Sociedade Bíblica Internacional, à Igreja Católica, etc., que estas barbaridades sejam retiradas do texto bíblico. Porque efectivamente, a fazer crer no texto que escreve, Jesus não percebia nada do assunto!

  8. António, as interpretações teológicas que são dadas à riqueza material pouco me interessam, mas estou certo que outros mais informados do que eu no que concerne a estes assuntos terão todo o gosto em lhe responder.

  9. rmg

    Não conheço país da Europa onde o discurso geral “anti-rico” seja tão forte .
    E não conheço país da Europa onde se gaste tanto dinheiro per capita no Euromilhões .

    Em resumo : todos querem ser o que odeiam quando se trata desse “lixo” que é o dinheiro .

  10. k.

    Essa de “Portugal ser um pais anti ricos” é treta.
    O dono da Delta é rico. Alguém é contra ele?
    O que muitos Portugueses se questionam é a legitimadade de muitos “ricos”.
    Por um lado, a maioria dos mais ricos de Portugal não são self made men, mas sim herdeiros. Por outro, o próprio discurso destes mais ricos é miserabilista para o resto dos Portugueses – o “consumir acima das suas possibilidades”, e o “precisamos de ser um pais de mão de obra barata” é consistente com uma lógica não de criação de riqueza por superioridade das suas ideias e investimentos, mas simplesmente por exploração dos mais desprotegidos.

    Relativamente ao post; Bem, se os rendimentos à partida são brutalmente desiguais, é expectável que os mais ricos paguem uma percentagem mais elevada de impostos em termos brutos.

    É alias, o que está escrito na página de onde a tabela foi retirada:
    “A desproporção relativa na fração de ompostos paga pelos decis de rendimento mais elevados em Portugal parece assim traduzir essencialmente a elevada desigualdade de rendimento prevalecente na economia portuguesa.”

  11. rmg

    k.

    Péssimo exemplo que V. escolheu , acertou logo em alguém que conheço pessoalmente , que não tem peneiras de espécie alguma , trata todos da mesma maneira e fez mais por toda a região onde está que todos os governos e todas as oposições dos últimos 40 anos .

    Portanto , trate lá de identificar mais alguém em vez de meter tudo no saco dos herdeiros , que essa já deu o que tinha dar .

    De resto o “viver acima das possibilidades” é dito pela dívida privada e pelo olhar á sua volta : atravesse a fronteira para Espanha , depois para França e depois para Itália e veja se algum desses países tem um parque automóvel ao nível do nosso , mesmo agora um pouco envelhecido .
    Não me refiro ao centro das grandes cidades , que é o único sítio onde onde os turistas da treta vão , refiro-me ao país como um todo .

  12. A. R

    A esquerda anda de cabeça perdida e completamente radicalizada. Depois de dizer que o consumo interno é que movia a economia e os cortes matavam a procura interna agora queixam-se do aumento da procura interna e dizem que as exportações falharam. Correm sempre atrás do prejuizo: não acertam uma previsão. Pobres diabos.

  13. lucklucky

    Mais uma evidência de como a Constituição que diz que ninguém pode ser discriminado devido à sua capaciadade económica é violada pelo próprio Estado.
    Demonstrando mais uma vez que o propósito do Tribunal Constitucional é definir que normas da Constituição devem ser violadas.

  14. rmg

    arni

    Agradeço a sua contribuição .
    Não é essa a minha visão mas óbviamente que respeito a sua .
    No entanto há-de notar que pus um enfoque claro no país como um todo e não só nos grandes centros , fruto do facto de eu passar 2/3 do mês entre o Alentejo e a Beira Interior (e o outro 1/3 em Lisboa , onde nasci e está a minha família toda) .

    Gostaria ainda de acrescentar que em 2012 havia 4.873.137 veículos ligeiros (de passageiros) seguros segundo o Instituto de Seguros de Portugal , o que estatísticamente é um carro em cada 2 portugueses .
    Como isto não é a história do frango em que um come dois e o outro não come nenhum mas em média os dois comeram um , não vou por aí .

    Mas se considerarmos que 20% da população é muito carenciada , outros tantos por cento ou ainda são muito novos ou já são muito velhos , fácilmente chegaremos a um consenso em que há muita família com 1 , 2 ou 3 carros (aliàs basta olhar à volta) , o que não se percebe muito bem como se está tudo de tanga .
    Compraram-nos quando podiam ? Sem dúvida .
    Mas aquilo custa a manter , eu sei porque aqui em casa eu tenho um (8 anos) e a minha mulher outro (16 anos) .(*)
    Mas eu não digo que sou um desgraçadinho .

    (*) Não , não é um ambiente machista , é que fazemos 1500 kms por mês por razões que não vêm ao caso e o meu é que vai a todas …

  15. David Calão

    De facto, numa altura destas impõe-se que alguém defenda os ricos das injustiças desta sociedade. Eu vejo o seu sofrimento diariamente, a suar as estopinhas e a investir enquanto os pobres vivem alegres e felizes neste paraíso socialista que é Portugal. Eu proponho uma fundação de apoio ao rico para colmatar esta falha do nosso sistema social.

  16. Já o Otelo o dizia na altura do PREC (perante Olof Palme): o objectivo dele era acabar com os ricos (retorquíram-lhe, sabiamente, que, na Suécia, queriam era acabar com os pobres). A ladainha é sempre a mesma…

    Quanto ao Observatório das Desigualdades. é uma coutada do ISCTE – acho que não é preciso dizer mais nada.

  17. lucklucky

    Entretanto…o que é que Cuba Comunista pensa hoje do lucro:

    HAVANA (Reuters) – Cuba is proposing a new Cuban foreign investment law that would cut the profits tax in half to 15 percent and exempt most investors from paying it for at least eight years, official media said on Wednesday.

    The National Assembly will meet on Saturday to approve the legislation that the communist country hopes will lure overseas capital and help further integrate the Caribbean island in the global economy. (…)

    http://news.yahoo.com/cuba-plans-big-tax-breaks-lure-foreign-investors-134630175–business.html;_ylt=AwrTWfyL_TJTS2kA3ArQtDMD

  18. rmg

    David Calão

    Numa altura destas ?
    Já lhe passou pela cabeça que tipos com mais de 65 anos como eu já passaram por TRÊS alturas destas nos últimos 40 anos ?

  19. lucklucky

    “Eu proponho uma fundação de apoio ao rico para colmatar esta falha do nosso sistema social.”

    Já existe e você no seu soci@lismo apoia, comece pelo próprio observatório das desigualdades…depois vá às corporações, monopolios, subsídios etc…

  20. A. R

    “Eu proponho uma fundação de apoio ao rico para colmatar esta falha do nosso sistema social.” Eu vejo que onde perseguem os ricos acabam sempre com mais pobres e menos ricos ou antes, os ricos passam a ser quem não produz riqueza e explora os pobres.

  21. arni

    RMG,mesmo encarando o pais como um todo,isso é apenas um mito sem correspondência real,e é uma generalização barata.E eu digo que os carros nos outros países são mais e mais modernos.

  22. David Calão, tem toda a razão. A verdade e a justeza dos factos deve ser criteriosamente filtrada caso não cumpra a ditadura do politicamente correcto e apresentada a cada ano bissexto. Ou, em alternativa, nunca. Confesso a minha inaptidão de empregar o lápis azul como Stalin fazia no Pravda. Nunca tive muito jeito para censura.

  23. hustler

    A interpretação da tabela está completamente errada. É óbvio que Portugal tem uma fracção de imposto total sobre o rendimento paga pelos dois últimos decis do rendimento bruto bem acima da Suécia, pois aqui na tugalândia os 20% mais ricos auferem 6 vezes mais que os 20% mais pobres. Não é de espantar portanto que haja mais ricos em Portugal que em outro qualquer país, especialmente quando comparamos com os escandinavos. Se existe um nº elevado de ricos então é óbvio que o imposto TOTAL (dos dois últimos decis) é muito maior que na Suécia. Se verificarmos na tabela, tanto a Suécia, como a Dinamarca, como a Islândia, o imposto TOTAL arrecadado está nos ~43%, os valores mais baixos de toda a Europa. Conclusão, o imposto total (últimos decis) na Suécia é mais baixo que em Portugal, pois o primeiro tem poucos ricos (em termos relativos e absolutos) e o segundo tem-nos com fartura. O autor do post inverteu o estudo sobre as desigualdades para se queixar dos impostos, quando isto tem a ver com a distribuição do rendimento, que é muito mais assimétrica em Portugal que em qualquer outro país europeu.

  24. António

    Caro ‘rmg’,
    não o querendo retirar da “pesca”, permita-me que comente o que escreveu, particularmente quando diz que não conhece «país da Europa onde o discurso geral “anti-rico” seja tão forte». Presumo que esteja correcto na avaliação, um pouco exagerado, Terá a ver com a nossa atitude enquanto povo, relacionada com a nossa matriz católica.
    Os «ricos» neste nosso país, antes e depois do fim da monarquia, sempre foram «ricos» aristocratas, algo distantes do resto da população. Lembramo-nos como a comunidade judaica foi tratado na segunda dinastia, um grupo que fez riqueza de uma outra forma, não tendo por base os privilégios senhoriais, e que sempre foi tratada com desdém, acabando por ser expulsa e os seus bens confiscados pela coroa.
    O exemplo que dá, no seu (outro) comentário, retrata um outro tipo. O do empresário que veio do povo e que, teve a fortuna de fazer fortuna pelo seu trabalho e é reconhecido pela população da sua terra pelo contributo que a ela dá.
    Vejamos agora um outro exemplo vindo dos EUA. O exemplo de filantropia dado Bill Gates e Warren Buffett. Esse exemplo teria paralelo neste nosso país?
    Recordo a posição de alguns (http://www.jornaldenegocios.pt/empresas/detalhe/quoteu_natildeo_me_considero_ricoquot_diz_amorim.html ) e a origem das suas fortunas (http://www.donosdeportugal.net/ ).
    Contudo, tudo isto é desviar as atenções. Estando o país na situação em que está, onde a miséria galopa, onde muitos pequenos empresários têm que fechar portas, onde muitos casais estão os dois desempregados, este texto, vindo do MAL (acrónimo do nome do autor do texto) é de uma insensibilidade atroz!

  25. David Calão

    Há uma escolha política entre o que se escreve e o que não se escreve. Ao optar por escrever esta calimerice acerca desta “injustiça” sofrida pelos ricos enquanto a pobreza grassa de forma dramática, está a escolher uma fileira política, é óbvio. E há referências tão locais ao lápis azul, tão portuguesinhas e tão mais amigas dos ricos, que não percebo para que é que foi buscar o Estaline.

  26. Para escrever o costume contra o sítio do costume à hora do costume existe uma panóplia de comentadores e opinadores. Eu prefiro ocupar a franja daqueles que falam do que não é falado mas, ainda assim, é verdade e deve ser tido em conta.

  27. hustler

    Pode-se e deve-se falar daquilo que não é falado, mas como as interpretações e conclusões deste estudo aqui no Oinsurgente não são correctas, não se pode ter muito em conta.

  28. hustler, o que refere, embora altere a distribuição amostral, não altera minimamente a verdade dos factos: os 20% mais ricos pagam 61.2% do imposto sobre o rendimento. Muito próximo do Princípio de Pareto (a distribuição é uma cauda longa). Não obstante a assimetria entre ricos e pobres (o problema não está no que os ricos ganham mas no que os pobres não ganham), esta é a demonstração de que os mais ricos fazem a sua devida contribuição. E, se reparar, a única coisa que concluo é que o discurso anti-riqueza tem de acabar.

  29. mycmoon

    Isto é surreal! “a massa salarial corresponde a 50% do PIB mas paga 75% dos impostos” in “Quem Paga o Estado Social em Portugal?” (Bertrand), obra que reúne ensaios de 18 especialistas de diferentes áreas e nacionalidades.

  30. hustler

    A distribuição amostral do estudo pode indicar que Portugal se aproxima do Príncipio de Pareto, enquanto que na Suécia não se verifica! A conclusão é esta, quanto maior a diferença de rendimento maior será a aproximação à curva de pareto.
    Uma forma engraçada de colocar as coisas é dizer que o problema não está no que os ricos ganham, mas no que os pobres não ganham. Essa é engenhosa, então o PIB de um país não é a soma dos salários de toda a população dividido pelo número de habitantes? Então para um dado PIB (constante) existem fatias variáveis de rendimento, que somadas é igual ao PIB. É a mesma coisa que ter um bolo e cortá-lo em quatro fatias grandes e dezasseis minúsculas, ou alternativamente, cortá-lo em oito médias e doze pequenas. A conclusão deste post deveria ser, como há muitos ricos e em contraste, muitos pobres, é natural que os ricos entrem com a fatia de leão no que toca a impostos! Se não fosse assim é que era para admirar!

  31. PeSilva

    Mário Amorim Lopes
    “PeSilva, excluindo os casos de roubo, os ricos ficaram ricos porque eles, ou quem os antecedeu, produziu para isso. E mesmo que tenham deixado de o fazer, a riqueza deles possibilita que outros invistam.”

    Tente perceber quem são os que estão nos dois últimos escalões do IRS e pode ser que tenha uma grande surpresa.

  32. Caro Mário Lopes,

    1) A percentagem de impostos que é paga pelo último decil está do valor de rendimento a partir do qual se inicia. Não é justo comparar Portugal com a Suécia nesse domínio, uma vez que, por exemplo, o nosso primeiro decil tem valores que estão muito próximos do limiar da pobreza, situação que impede qualquer cobrança de impostos – uma situação que seguramente não se verifica na Suécia.

    2) Em que baseia a sua conclusão de que os ricos são os que produzem riqueza para o país? Os pobres não a produzem? E os ricos não a produzem à custa de muitos pobres?

  33. hustler, reitero o que disse: o problema não é os ricos ganharem muito (ou seja, a long tail estar inquinada), é os pobres e classe média ganharem pouco. Num país estatizado pela carga fiscal, em que para mexer uma perna é preciso um requerimento, um aval, um carimbo e ainda uma acreditação, tudo isto depois dos impostos terem sido devidamente pagos, como poderia ser de outra forma?

    Alguém que abra uma empresa em Portugal é um verdadeiro herói.

  34. Caro Pedro Morgado,

    1) Isso é tudo verdade. O que mostra, claramente, que os “ricos” têm pago a sua fair share. Este artigo não é um manifesto para a redução da taxa marginal de imposto, mas sim uma constatação que o discurso populista anti-rico é demagógico e injusto;

    2) A conclusão que retiro não é de que os ricos geram riqueza e os pobres não. É apenas uma constatação económica, até porque não seria possível concluir isso destes dados. Não é necessário condenar terceiros à pobreza para gerar ricos — muito pelo contrário. O salário é uma transação em que as duas partes saem beneficiadas, quem contrata e quem paga. Logo, quando alguém abre uma empresa, emprega e vende produtos, beneficiam mutuamente os trabalhadores que prestam o serviço e são remunerados por isso e os consumidores que compram esse serviço. O bolo cresce. Almeida Garrett estava errado.

  35. k.

    “Mário Amorim Lopes em Março 27, 2014 às 09:45 disse: ”

    Portugal não é o único Pais assim – isso é comum em toda a UE. Aliás, estou certo que é mais fácil abrir um negócio no Ruanda que em Portugal, e não é por isso que são mais desenvolvidos.

    Falemos de iniciativa empresarial, acesso a capital, proteção legal. O resto soa-me sempre a um bocadinho de desculpa.

  36. BGracio

    “A conclusão deste post deveria ser, como há muitos ricos e em contraste, muitos pobres, é natural que os ricos entrem com a fatia de leão no que toca a impostos! Se não fosse assim é que era para admirar!”

    Não é segredo para ninguém que Portugal tem uma distribuição de rendimento mais desigual do que a maior parte dos países da UE. Mas não me parece que seja o objectivo do post provar o contrário.

    A questão é que por cá é frequente ouvirmos acusações aos mais ricos de que não são solidários, não querem pagar a crise, pagam poucos impostos, etc. Estes mitos urbanos são graves porque muita gente tende a acreditar neles e a ir em cantigas da extrema esquerda (e de alguma esquerda) como as que defendem que, em nome da “justiça social”, se deveriam criar impostos específicos sobre a riqueza (sendo que muitos dos proponentes destas ideias nem entendem as condições de liquidez associadas a essa riqueza ou a elevada variabilidade a que está sujeita). Mesmo ideias menos extremas, como as que defendem maior progressividade na tributação, assentam nestes preconceitos de que os ricos pagam poucos impostos. A verdade é que em Portugal e na generalidade da UE já existe uma acentuada correcção do índice de Gini pelo efeito da tributação, pelo que não me parece que a solução dos problemas económicos seja apontar o dedo aos mais ricos.

  37. dervich

    “A questão é que por cá é frequente ouvirmos acusações aos mais ricos de que não são solidários, não querem pagar a crise, pagam poucos impostos, etc.”

    Isto é verdade, não porque os ricos que pagam impostos paguem poucos impostos, mas sim porque há muitos ricos a pagar zero (0) impostos (à exceção do IVA).

    Por isso essa ideia não é mito e também por isso temos pobres desesperados e ricos (contribuintes) descontentes e desmotivados.

  38. Manuel Costa Guimarães

    61, 2%?! Sou o único a achar este valor criminoso? Depois admirem-se que quem (supostamente!) tem não invista em nada.
    223 dias por ano a trabalhar para o Estado. Vendo bem as coisas, acho que os ricos são funcionários públicos, mas sem as benesses.

  39. Manuel Costa Guimarães

    David Calão,

    Está a ir pelo caminho errado. Ninguém está a ser demagógico ou populista, onde esse seu discurso claramente se enquadra.
    O que o Mário está a dizer (parece-me!) é que o discurso anti-rico existente em Portugal não encaixa com a realidade, onde 61,2% do que os mais ricos ganham vai directamente para o Estado, que equivale a 43% dos impostos totais arrecadados.
    Se as pessoas passassem mais tempo a ser anti-quem-lhes-fica-com-o-dinheiro e menos anti-rico talvez pudéssemos ser um país com um pouco mais de igualdade, onde toda a gente tinha mais dinheiro.
    Isso faz-me lembrar a história em que estão um português e um americano num café e chega um um homem num Ferrari. O português olha e diz: “um dia hás-de andar a pé, como eu!”. Ao que o americano responde: “um dia hei-de ter um destes!”.
    Mentalidade vencedora e de conquista precisa-se por estas bandas. E trabalho. Muito trabalho.

  40. David Calão

    Manuel, o meu comentário dirigia-se ao seu comentário e não ao post, que já tinha comentado acima (sendo que posteriormente expliquei o comentário, que mantenho). Se acha que isso que diz não é demagógico, devia rever os conceitos. Achar que o problema dos pobres é falta de mentalidade vencedora só o qualifica a si e, com todo o respeito, devia ter vergonha de o dizer.

  41. hustler

    “reitero o que disse: o problema não é os ricos ganharem muito (ou seja, a long tail estar inquinada), é os pobres e classe média ganharem pouco”. Mais uma vez, isto não está correcto. Se para um determinado momento, a soma dos salários é uma constante, facilmente se constata nesta equação, que aumentando a parcela dos rendimentos mais altos implica que a parcela dos rendimentos mais baixos diminuam. Não obstante o PIB aumentar num horizonte temporal e, em termos relativos, a pobreza diminuir de uma época para a outra (isso é uma história completamente diferente).

    É relativamente fácil perceber porque os pobres são muitos, a falta de formação académica e a falta de competências, não permite que esta classe possa aspirar a empregos especializados com uma boa remuneração; acresce ainda o facto, em virtude dessa débil escolaridade, o grosso da indústria portuguesa não ser especializada ou indústria de valor acrescentado, hi-tech como lhe chamam, e sendo assim há uma pressão para que os salários mais baixos não subam muito, uma vez que estamos a competir directamente com a Ásia.

    Por outro lado, também é fácil de entender porque os ricos são cada vez mais ricos, a maior parte destes são “self made man” ou profissionais liberais, médicos, advogados, dentistas, traders, micro empresários com escolaridade proprietários consultórios de consultoria, contabilidade e outro tipo de prestação de serviços especializada, e espante-se, quadros superiores da função pública (lol).
    Não tendo nada contra os mais abastados, é também fácil constatar como esta classe social em Portugal é tão rica, começando pelo estado, este não pratica salários de eficiência, mas sim salários em função dos sindicatos e da clientela eleitoral. Nos privados a história é outra, estes aproveitam todas as falhas de mercado (regulação defeituosa ou falta de concorrência) e o excesso de regulação e burocracia. É fácil perceber como os escritórios de advogados enriquecem exponencialmente, o emaranhado das leis e a burocracia permite-lhes facturar um excesso de horas só em expedientes para “encher chouriços”. Com os médicos a coisa não é muito diferente, com uma forte limitação ao acesso da profissão, bem como uma “perninha” no público (sem prestação de trabalho efectivo na totalidade para um mês de salário) e outra no privado, é fácil encher o bolso.
    A massificação da escolaridade na Escandinávia permitiu uma forte concorrência entre os profissionais liberais, com consequência na qualidade de serviços oferecidos bem como nos preços praticados. Aliado a isto, a ausência de burocracia e falhas de mercado, não permite que se explore o sistema. Obviamente que estes factores, juntamente com os impostos mais progressivos do mundo (basta pensar que as multas de trânsito na Finlândia são pagas em função do rendimento individual) são as causas que permitem que haja uma verdadeira mobilidade social.

  42. Não percebo aquela história de que não existem ricos na Suécia, quando dois dos homens mais ricos do mundo são suecos. Por outro lado, uma pessoa que viva no limiar da pobreza não pode pagar impostos em Portugal mas já pode na Suécia? tendo em conta que a classificação de pobreza é relativa, acaso não haverão pobres na Suécia?

  43. David Calão

    Emanuel Lopes, a pobreza geralmente mede-se em relação ao rendimento mediano. Tendo a Suécia um rendimento médio que é para aí o dobro do nosso, é normal que o rendimento mediano de lá (que se aproxima mais do médio que o nosso, ainda por cima) seja mais tributável que o nosso. É que num está a taxar os bifes e no outro está a taxar a sobremesa ou o café.

  44. hustler

    Então lá porque há uma dúzia de ricos na Suécia faz com que esta seja um país de ricos? Essa agora….
    E desde quando é que na Suécia os mais pobres pagam impostos? (os 5% por cento de impostos é desprezável até porque devem haver dois decis de escalões de rendimento nos 20% mais pobres)
    ” Facts about income distribution in Sweden

    • The highest 20% income earners in Sweden pay nearly half (47%) of all taxes.

    • The same 20% of the population consumes just over a tenth (12%) of all public services.

    • The bottom 20% income earners pay only 5% of all taxes.

    • The same group of the population consume over a quarter (27%) of all public services.

    • Comparing individual and household groups divided into 20 income levels shows that in Sweden:

    – Individuals earning the most pay nearly nine times more tax than those who earn least.

    – This tax is paid from a gross income that is approximately six times greater than those who earn the least.

    – Disposable income (after tax and benefits) for the highest earning individuals ends up barely three times higher than the disposable income of the lowest earning group. “http://www.svensktnaringsliv.se/…/swedens-income…

    A questão não é haver ou não haver pobres na Suécia, mas sim haver um número absoluto de pobres nesse país muito pequeno, o que contrasta descaradamente com Portugal.

  45. Manuel Costa Guimarães

    David Calão,

    “Achar que o problema dos pobres é falta de mentalidade vencedora só o qualifica a si e, com todo o respeito, devia ter vergonha de o dizer.”

    Em algum momento eu escrevo isso?!
    O problema dos pobres, em particular, é não terem dinheiro. O problema das pessoas (portugueses) em geral é, na minha opinião, não terem mentalidade vencedora e de conquista. Isto é facilmente observável pelo estudo que diz que a maior parte das pessoas preferem trabalhar para outros do que ter negócio próprio.

    Portanto, o único que deveria ter vergonha é você, mas por deturpar as minhas palavras para a sua carroça demagógica.

    Ninguém aqui está a desvalorizar os pobres, nem a evangelizar os ricos. Está-se a pôr a realidade na mesa.
    Não é preciso pôr os ricos e os pobres em lados diferentes da barricada. Isso só interessa a quem vive à custa do trabalho dos outros.

  46. David Calão

    A realidade é que existe um sistema, defendido por quem tem esse discurso, que perpetua os pobres na pobreza e os ricos na riqueza porque acha que os pobres só o são porque: ou os pobres não querem sair da pobreza; ou o Estado, esse malvado, não deixa os ricos tirar os pobres da pobreza, criando empregos e investindo. E acha que não existe nenhum papel das classes dominantes na perpetuação desse sistema. Essa conversa da mentalidade vencedora é muito bonita mas não cola, porque os mais ricos da nossa praça, fora honrosas excepções, têm a mentalidade vencedora no bolso dos pais e em favores passados e presentes do poder político.

  47. Ninguém ganha nada em ter pobres. Têm menos rendimento e, logo, consomem/investem menos. Todos perdemos com isso. Esse mito de que o que é bom é ter um avalanche de pobres talvez seja verdade algures no Rwanda. Ou na sua imaginação. Em qualquer outro sítio, pessoas qualificadas e bem remuneradas são mais produtivas para qualquer empresa.

  48. David Calão

    Já agora, se os abastados fizessem uma leitura tão completa do plano macro da sociedade não estávamos metidos nesta crise. Por isso é que Keynes tinha razão.

  49. Manuel Costa Guimarães

    David Calão,

    Você foi possuído pelo Jerónimo de Sousa?!
    Deixe ver se eu entendo: você acha que os ricos produtivos querem que os pobres permaneçam pobres?
    Quem é que depois compra as coisas que os ricos vendem, se os pobres se mantêm pobres?
    Essa sua conversa é a balela que o PS e companhia andam martelar desde sempre, mas o único sistema que existe é o mantido por essa gente que, para sobreviver, precisa que haja muitos pobres para poderem vir com a história do rico/bicho papão. É a única forma de ganharem dinheiro, porque nunca vão trabalhar como os ricos e pobres deste país.
    Os ricos, nem que seja por uma questão de sobrevivência e criação de mais riqueza, querem que toda a gente tenha mais dinheiro. Quando entender isso, fica a perceber quem é o inimigo.
    “Essa conversa da mentalidade vencedora é muito bonita mas não cola, porque os mais ricos da nossa praça, fora honrosas excepções, têm a mentalidade vencedora no bolso dos pais e em favores passados e presentes do poder político.” Isso é conversa de quem conhece a realidade ou conversa do português a olhar para o Ferrari?

  50. Fernando S

    David Calão : “E acha que não existe nenhum papel das classes dominantes na perpetuação desse sistema [?]”

    Pois eu até acho que existe algum …
    Mas é preciso ver bem quais são essas “classes dominantes” e qual é o “sistema” que procuram “perpetuar”.
    Concretamente, actualmente em Portugal, uma parte muito significativa das “elites” portuguesas faz resistencia e oposição à reforma de um modelo économico que, para além de ter levado o pais à quase bancarrota, com as consequencias sociais que se conhecem, consistiu na utilização do Estado por parte dessas mesmas “elites” no seu principal interesse e à custa da condição de grande parte da restante população, em particular dos sectores mais desfavorecidos e vulneraveis (recorde-se que este modelo provocou um aumento progressivo do desemprego estrutural e um agravamento das desigualdades sociais).
    Estas “elites”, que em resultado do falhanço flagrante do modelo em que apostaram, se encontraram (temporariamente ?…) numa posição menos “dominante”, pelo menos no que se refere à capacidade de condicionamento das politicas publicas, não querem naturalmente qualquer mudança de fundo.
    Raramente em Portugal uma parte tão importante e influente das “elites” desempenhou um papel tão conservador na defesa de “interesses de classe” instalados (utilizando a terminologia caracteristica da ideologia que, consciente ou inconscientemente, serve muitas vezes de inspiração ao discurso dos que, como o David Calão, com maior ou menor dose de ingenuidade bem intencionada ou de cinismo oportunista, “fintam” a realidade arvorando-se em protectores dos pobres e matadores dos ricos !!….).

  51. David Calão

    Keynes tinha razão, e tem, na parte em que o capitalismo só funciona se o Estado salvar o capital e os capitalistas de si próprios.

    Quanto ao resto, sim, sim, foram os Estados que criaram a crise, está-se mesmo a ver.

  52. Muito interessante esse comentário de Keynes. Resta saber a que país verdadeiramente capitalista sem forte interferência do Estado via BC, política monetária ou fiscal a que ele se referia. Porque eu desconheço um.

    Ele referia-se, como certamente sabe, à Grande Depressão (o General Theory of Employment, Interest and Money foi publicado 7 anos depois). Grande Depressão essa que foi causada, vale a pena ler Milton Friedman sobre isso, pela contração da oferta de moeda do Fed, que decidiu aumentar as taxas de juro e retirar liquidez da economia. Numa altura em que as pessoas foram ao banco levantar dinheiro, o Fed, em vez de garantir liquidez, fecha a torneira e espalha o caos. Brilhante. Aqui está, falha do capitalismo.

  53. David Calão

    E porque é que se gerou o pânico que fez as pessoas correrem aos bancos? A crise não é do capitalismo porque o BC reagiu mal à crise? Eu conheço a versão do Friedman, mas dados os dados da crise japonesa e mesmo da crise europeia, conseguimos observar claramente que não chega a política monetária, sobretudo em períodos de taxas de juro muito baixas. Independentemente disso, há um processo de boom/bust que, irá dizer que também é criado pelos BC’s, mas não se pode ignorar que o séc XIX é um dos períodos com mais frequência de crises bancárias nos EUA (isto está no Reinhardt e Rogoff 2009, julgo eu), sem Fed. É claro que invariavelmente a culpa cai sempre no Estado, ou porque fez ou porque não fez, mas quem enriquece sempre no boom e normalmente se safa sempre no bust são sempre os mesmos. E após o bust, se não é o Estado, não são os investidores sozinhos que vão a lado nenhum, como já foi demonstrado à saciedade.

  54. Fernando S

    Keynes não tinha razão …
    Algumas décadas de aplicação repetida das suas teorias e politicas, que levaram ao aumento do peso e do intervencionismo do Etado na Economia, as crises e o desemprego não desapareceram.
    A crise de 2008 foi efectivamente criada pelas politicas publicas que favoreceram artificialmente o aparecimento de uma enorme bolha imobiliaria que acabou por rebentar e provocar os efeitos que tinham necessariamente que acontecer.
    Na Europa, e endividamento e a rigidez das economias em varios paises, também eles uma consequencia de politicas publicas despesistas e estatalistas, multiplicou o impacto financeiro inicial e limitou fortemente a possibilidade de uma recuperação economica mais rapida.
    Ou seja, as receitas keynesianas não serviram nem para evitar as crises nem para sair delas mais rapidamente. Antes pelo contrario, agravaram-nas ainda mais quando foram irresponsavelmente aplicadas.
    O que vimos assistindo nos ultimos anos, e que começa a dar alguns resultados em termos da estabilização das situações financeiras e da retoma sustentada do crescimento nas economias desenvolvidas, é antes o contrario do que o keynesianismo defende : cortes nos gastos publicos e reformas liberais na economia.

  55. “Keynes tinha razão, e tem, na parte em que o capitalismo só funciona se o Estado salvar o capital e os capitalistas de si próprios.

    Quanto ao resto, sim, sim, foram os Estados que criaram a crise, está-se mesmo a ver.”

    Os agentes económicos reagem a estímulos: e os estímulos dados pelo Governo Americano e pela FED (entre outros) foram os errados. Bem sei que o sistema financeiro entrou numa demência infrene mas actos legislativos como o Community Reinvestment Act ou a fixação de taxas directoras artificialmente baixas (que basicamente implicavam VAL > 0 para todo e qualquer projecto de investimento) são a raiz do colapso financeiro subsequente.

  56. k.

    “Fernando S em Março 27, 2014 às 18:43 disse: ”

    Exacto. É por isso que os EUA, que adoptaram politicas expansionistas durante esta crise já sairam dela (devagarinho, é certo), enquanto a Europa continua em modo “zombie”.

  57. Fernando S

    K,
    Também a Europa aumentou as despesas publicas a seguir à crise de 2008 e recuperou taxas de crescimento positivas a partir de 2010. Por sinal, ao contrario dos EUA, a Europa fe-lo sem adoptar politicas monetarias expansionistas.
    A divergencia nas taxas de crescimento começa apenas em 2012. Numa altura em que tanto a Europa como os EUA, embora em graus diferentes, ja faziam um esforço de contenção ou redução das despesas publicas.
    É verdade que esse esforço tem sido maior na Europa e que os EUA prolongaram até mais tarde a politica monetaria expansionista.
    Mas os EUA também não escapam à necessidade de controlar as suas despesas publicas e de alterar a sua politica monetaria. Relativamente às despesas publicas, os EUA ja aplicam medidas “automaticas” de contenção e apenas ainda não foram mais longe devido ao conflito politico entre Democratas e Republicanos. Tanto uns como outros propõem planos de redução significativa de despesas para os proximos anos. No que se refere à politica monetaria, é conhecido que a perspectiva é a de acabar progressivamente com o “quantitative easing”.
    A Europa viu-se confrontada com a necessidade de resolver rapidamente a crise das dividas soberanas de alguns dos seus membros e que punha em risco a sobrevivencia do Euro. Tem-no feito sem ceder à tentação de aumentar as despesas publicas nos paises ditos “virtuosos” e de aumentar a liquidez na Zona Euro para além do que é compativel com a estabilidade dos preços. Assim sendo, a Europa pagou até agora um preço adicional em termos do crescimento a curto prazo. Sobretudo em 2012 e 2013 . Mas as previsões são de uma retoma ja a partir de 2014. Sempre continuando a controlar a despesa e sem expansionismo monetario e apostando mais na redução do peso do Estado na economia.
    Dito isto, para além das politicas publicas e monetarias conjunturais em cada uma das duas grandes zonas economicas dos paises desenvolvidos, ha uma diferença importante que permite explicar uma certa vantagem dos EUA em termos do crescimento économico : os EUA teem uma economia mais livre do que a Europa. Os indices de liberdade economica dos EUA são em geral melhores do que os dos principais paises europeus. Em particular, o peso das despesas publicas e da carga fiscal no Pib é ainda bem superior na Europa. Por esta razão, os EUA teem uma margem de manobra orçamental e fiscal superior à da Europa e, ao contrario desta, até se podem dar ao luxo de serem temporariamente mais expansionistas nas despesas e na gestão da moeada. Mas se não corrigirem estes desvios correm o risco de ir perdendo alguma desta vantagem economica e financeira. O que é certo é que enquanto a Europa não for mais longe nas reformas economicas de orientação liberal vai continuar a ser dificil uma aproximação aos actuais niveis de crescimento dos EUA.

  58. k.,

    Marcarar uma crise não é sair da crise. E tome isto como testemunho: os Estados Unidos vão levar um trambolhão magistral quando os russos, com pouco a perder, fizerem o dumping dos títulos de tesouro. Basta que os chineses alinhem, o que não aconteceu em 2008. E são mesmo capazes de alinhar esta vez, pelo que tenho discutido lá pelo Império de Jade.

    Ah, pois!, em Maio de 2008 os russos atiraram para o mercado Fannie Mae e fannie Mac e Kaboom!, uma crise feita à medida. Em 2013, os chineses podem alinhar. Em 2008 não alinharam.

    Veja a Bloomberg, em 2010 e a BBC em 2014. Estes dois artigos servem de fonte, mas tenho-as mais certas e fundas, e que confirmam uma concertação entre a Rússia e a China para talvez ainda este ano.

  59. David Calão

    Fernando S, para além das explicações que deu, existe outra: os EUA têm um banco central funcional, união bancária e federalismo fiscal. A Europa não. Nenhum estado nos EUA vai à falência porque um banco com sede nesse Estado vai à falência.

  60. Pingback: Sobre a desigualdade | obsessivamente.

  61. Fernando S

    k,

    É verdade que os EUA beneficiam do afluxo de poupanças externas, com destaque para as provenientes da China e de outros paises emergentes, e que são aplicadas em titulos de divida publica.
    Mas importa não perder de vista que tal não acontece por acaso ou por qualquer razão politica. Os investidores, essencialmente privados, procuram segurança e rentabilidade e a força e o dinamismo da economia dos EUA dá-lhes precisamente essa garantia.
    Não se trata de um processo que possa ser politicamente determinado pelos governos da China ou da Russia, ou quaisquer outros, mesmo admitindo que pudesse ser essa a vontade e a estratégia dos mesmos. A China e a Russia, embora tenham naturalmente as suas proprias agendas geo-politicas internacionais, estão hoje já muito integradas na economia mundial e não teem nem interesse nem os meios de desencadear uma crise de pagamentos internacional.
    Em contrapartida, uma evolução das economias destes paises e da percepção e estratégias dos investidores podem naturalmente alterar no futuro este estado de coisas. Por isso mesmo (e por outras razões até mais importantes) é que os governos americanos fariam bem em controlar as respectivas finanças publicas. Quanto mais não seja para o pais não ficar excessivamente dependente e à mercê destas fontes de financiamento.
    De qualquer modo, qualquer evolução será mediada por mecanismos economicos que permitem ajustamentos ao longo do tempo. Não vejo nem razões nem factos para qualquer “trambulhão magistral” dos EUA.

    (Não duvido que os artigos que linka possam ser interessantes mas não os li e por isso não os comento.)

  62. Fernando S

    David Calão,

    É verdade que os EUA teem ainda a vantagem sobre a Europa de serem uma zona economica e monetaria mais homogénia e integrada. A União Europeia e a Zona Euro, para além de nem sequer coincidirem territorialmente, seguem processos integrativos longos, complexos e complicados. De resto, a UE será sempre mais hetrogénea na medida em que assenta em Estados-Nação muito diferentes e fortemente identitarios.
    Mas atenção, o que em certos aspectos é agora um ponto fraco da Europa, a pluralidade nacional, poderá no futuro vir a ser uma vantagem competitiva sistémica relativamente aos EUA. Não me admiraria se um dia os EUA viessem a reformar o seu sistema federal descentralizando ainda mais poderes e funções do governo central.

    No que se refere ao Banco Central, eu penso que o modelo do BCE é preferivel ao do FED. A vantagem do BCE relativamente ao FED é precisamente o que para alguns, como o David Calão, aparece como uma fraqueza : a não utilização do instrumento monetario como meio de estimulo do crescimento économico. O BCE deve continuar com uma missão exclusivamente centrada na estabilidade monetaria (o controlo da inflacção). Também aqui penso que as vantagens deste modelo farão com que a seu tempo seja o FED a evoluir para um estatuto mais proximo do do BCE.

    Quanto à União Bancaria nada obsta a que a Europa se dote de mecanismos mais integrados que permitam que a fiscalização e o seguro dos Bancos sejam feitos a partir de estruturas e meios dos proprios Bancos (incluindo o BCE) e a nivel europeu. De resto, trata-se de um processo que já está em curso e é apenas uma questão de tempo.

    A questão do “federalismo fiscal” é mais problematica. Se se entende por “federalismo fiscal” o nivelamento dos impostos em todos os paises membros … então eu penso que é um enorme erro seguir por este caminho. De resto, este nivelamento não existe sequer em cada Estado-Nação na medida em que os impostos ditos locais são normalmente diferentes e uma certa descentralização fiscal faz com que as receitas de cada unidade territorial sejam também elas diferentes. Cada pais e cada territorio com alguma autonomia administrativa no seio de cada pais devem poder ter a possibilidade de ter impostos e niveis de fiscalidade diferentes. Trata-se de um factor de autonomia, de responsabilidade, de concorrencia. Os paises e territorios mais disciplinados e que melhor gerem os seus recursos devem poder ter niveis de fiscalidade mais baixos. Diga-se a este respeito que, ao contrario do que muitos pensam e dizem, esta possibilidade é do maior interesse para os paises ditos “periféricos”, em particular os da Europa do Sul (mas também os do Leste). Estes paises são menos desenvolvidos, teem menos recursos produtivos, menos capital e menos trabalho qualificado, pelo que precisam de poder propor condições fiscais mais favoraveis para poderem atrair mais e melhores recursos. Isto não obsta a que possa inclusivamente existir um sistema fiscal unico, que define principios, regras e limites de aplicação geral, mas que não fixa impostos e taxas iguais em todo o lado.

    Outro aspecto, que o David Calão, não refere, é o da “solidariedade orçamental”, que tem a ver com eventuais mecanismos de perequação de receitas e mutualização de dividas entre paises e territorios. Também aqui eu penso que, a bem da solidez e eficiencia da União, o principio de responsabilidade deve prevalecer sobre qualquer forma de Estado centralizado ou de “eu decido no que e quanto gasto e em quanto me endivido e a União paga e responsabiliza-se”. A qualquer eventual tipo de transferencia devem corresponder condições e obrigações por parte dos beneficiarios e livremente aceites pelos contribuintes. Concretamente, se quizermos que o nosso orçamento nacional possa beneficiar de receitas provenientes da União então temos de aceitar que as nossas escolhas e decisões sejam sujeitas ao escrutinio e à aprovação final ao nivel dessa mesma União. Não podemos é querer ter ao mesmo tempo chuva no nabal e sol na eira. O que parece evidente é que e o sistema federal americano actual não pode sequer servir de modelo na medida em que os Estados americanos não são propriamente “Nações” como acontece na Europa.

  63. k.,

    Os Estados Unidos estão falidos, a viver do cartão de crédito. O Burrobama duplicou a dívida depois de o Bushas Junior o haver por si mesmo feito. A dívida de hoje é quatro vezes maior que em 2001. Não há hipótese de pagar as dívidas, e o défice continua rampante, embora escondido em tricas contabilísticas. O Obama condenou os Estados Unidos ou à falência ou a um reviver da Alemanha de Weimar.

    Estão de qualquer forma bem mais lixados do que o Portugal pós-Sócros, com a agravante de não haver quem os possa resgatar. A China sabe disso e vai sacando tanto quanto puder. Quando achar (e, segundo os meus correspondentes, já está a achar) que ai tudo destrambelhar DENTRO da China, arranja uma guerra económica e lá vai o Dólar, e com ele o Obama. Veja que o PM chinês alertou para uma vaga de falências na China e, enquanto escrevo, há uma corrida ao maior banco rural na China.

    Segundo o Pavel Popov (informe-se quem é e se souber saberá que falo do que sei) a China iniciará nas próximas SEMANAS a guerra com o Japão (ou com as Filipinas, não pude descortinar se ele falava de uns ou de outros). Enquanto uma mão do mágico prende a atenção, o mágico vai preparando o truque com a outra. A Crimeia é uma das mãos. Descubra qual.

    Para que a Rússia e a China consigam mão livre, terão que ocupar os Estados Unidos com um vespeiro. Fá-lo-ão, e pelo que parece, juntas. Com o castelo de cartas qe é a economia americana, um abanão da asa de uma borboleta fará lá um furacão.

    (Incidentalmente, vão mais pessoas à igreja na China todos os domingos que no conjunto da Europa Ocidental e Central. Igreja cristã. Aposto que não sabia disto.)

  64. hustler

    Caro Mário Amorim, tal como o Pedro Morgado escreve no seu blog, com ajuda de mais uns gráficos, corrobora tudo o que eu já tinha dito! Não só há uma diferença enorme entre os rendimentos dos mais ricos e dos mais pobres em Portugal, bem como os ricos portugueses são bem mais ricos que os seus congéneres nórdicos (em termos relativos se tivermos em conta a paridade do poder de compra)!

  65. David Calão

    Caro Fernando S., levanta pontos interessantes, acerca de alguns discordo, de outros nem tanto. Quanto à parte da “solidariedade orçamental”, isso faz parte do federalismo fiscal, no que se refere à partilha de receitas fiscais. É o facto de, na ausência de política cambial, haver um sistema que ajude a acomodar choques assimétricos em regiões diferentes de uma zona monetária. Uma vez que a desvalorização interna dificilmente resulta, sobretudo com um target de inflação para a UEM de apenas 2%. Isto não é novo, nos anos 90 muito se especulou acerca da capacidade de a ZE aguentar choques assimétricos sem um mecanismo destes. E, a verdade é que durante algum tempo os aguentou por aquilo que eu acredito ter sido uma falha do mercado, que foi o facto de os mercados financeiros terem eliminado o “risco-país” da sua avaliação, e terem sido estes a fazer, se me permitem o abuso da expressão, política keynesiana. Isto é, a suster a procura apesar dos choques de competitividade nos países periféricos. Isso revela-se, claro, pela dimensão que os défices de balança corrente dos países periféricos tinham antes da crise. E a reversão desses fluxos de capital, tal como os famosos sudden stops que criaram as famosas crises cambiais asiáticas, rebentaram com os sistemas bancários destes países. E sem união bancária, os países periféricos tiveram que tomar responsabilidade por problemas de bancos que não os afectavam apenas a si, e criou-se aquilo a que Jay Shambaugh chamou o elo entre a crise bancária e a crise das dívidas soberanas (que se reforçam mutuamente).

    A questão do BCE abandonar a política restritiva não serve simplesmente para “estimular crescimento”, até porque isso é o que tem tentado fazer desde o “whatever it takes”. É que a inflação é a única forma de se conseguir aquilo a que se chama a desvalorização interna, uma vez que são raríssimos os casos em que um exercício deste género foi conseguido em períodos de baixa inflação. Ou seja, é a única forma de a austeridade ter forma de ser minimamente produtiva. Além disso, desvalorizar o Euro é a única forma de alguns países, como Portugal, ganharem competitividade no curto-prazo. Não estou a falar de produtividade, nem de mudança estrutural, isso como diz o Tolstoi, é TEMPO e PACIÈNCIA, e não é em 3 anos, ou em 4 ou 5 que vai acontecer. E o nosso problema mais urgente é de curto prazo!

    Quanto às críticas ao federalismo fiscal em si. Num espaço federal com elevada mobilidade de factores, como é cada vez mais a UE, há uma tendência crescente para a existência de spill-overs da política orçamental que obrigam sempre a um determinado nível de federalização. Por exemplo, uma política orçamental expansionista na Alemanha não tem efeitos apenas na economia alemã, mas em toda a UE. Uma política ambiental num país isolado pode levar à deslocalização da indústria para um país ao lado, tornando-se ineficaz e, pior, criar uma race to the bottom em termos de níveis de exigência ambiental. Quem diz a questão ambiental diz a questão dos serviços públicos que, entendo que aqui não colha muita adesão, mas é uma escolha democrática dos europeus.

    Ainda, aquilo que refere acerca da diversidade da Europa eu concordo e não creio que seja uma maior integração orçamental que a vá destruir. É aliás curioso que o refira, uma vez que uma área de estudo do federalismo, “Laboratory Federalism”, refere a possibilidade de experimentar políticas localmente, em determinadas regiões, antes de a levar para o plano central, sendo que ajuda a perceber quais funcionam e a minorizar os seus efeitos quando não funcionam. Quanto a homogeneidade, em termos económicos, também não é garantido que os EUA a tivessem antes de se federalizarem, e existe bastante teoria a apontar para o facto de as zonas monetárias óptimas terem um certo nível de endogeneidade, ou seja, à medida que o tempo passa os business cycles coordenam-se.

    Finalizando, eu não tenho problema algum com o rigor orçamental. Mas ele tem que ser colocado no tempo certo e na dose certa. E, mais do que isso, ele não pode implicar a destruição dos países periféricos para salvar o Euro. Os problemas estão bem estudados e os desequilibrios macroeconómicos são causados por uma deficiente arquitectura do Euro, por isso esta tónica nas dívidas públicas como meio de corrigir esses desequilíbrios é, na minha opinião, suicida. O que não quer dizer que eu defenda défices orçamentais crónicos, obviamente.

  66. Fernando S

    Caro David,
    Obrigado pela sua resposta.
    A nossa discordancia é efectivamente de fundo quanto ao que deve ser feito para por as economias a crescer.
    O David acredita na inflação (expansionismo monetario) e no subsidio estatal (transferencias de dinheiros publicos cobrados nos paises disciplinados para financiar déficits e dividas nos paises mal comportados). Eu penso pelo contrario que este tipo de crescimento é artificial e não é sustentavel. O crescimento, a acontecer, seria apenas numa primeira fase, no curto prazo keynesiano, e não resultaria de qualquer mudança estrutural na economia com impacto na produtividade. Como, de resto, o proprio David reconhece. Mas este tipo de crescimento é algo que, como se sabe por experiencias passadas, ao fim de algum tempo desequilibra a economia e limita o crescimento da produtividade. O David diz que até concorda com o rigor orçamental e com mudanças estruturais que influam sobre a produtividade. Mas apenas a longo prazo. Manda o essencial para as calendas gregas (sem trocadilho !… 🙂 ). Para já conta com uma passagem rapida para o “federalismo europeu”. Mas este tipo de federalismo que propõe, assente no facilitismo monetario e no assistencialismo orçamental, tenderia antes a acentuar e a perpetuar as causas dos atrasos e dos desequilibrios nas economias dos paises periféricos. Ou seja, algo que é mais do mesmo, agora com ainda mais fundos “perdidos” e com crédito ainda mais barato e ilimitado. Já se viu que este modelo não funcionou. Foi este modelo que levou os paises periféricos para a falencia e que, para utulizar a sua expressão, quase que os “destruiu”. A sua solução não é a que convém aos paises periféricos. Também não é aquela que permite salvar o Euro. Os paises periféricos estão a voltar a crescer e o Euro saiu da crise graças a politicas que são o oposto do que o David propõe. De qualquer modo, mesmo que não fosse assim, a verdade é que os contribuintes dos paises europeus “virtuosos” não querem de modo nenhum este modelo institucionalizado e potenciado ao nivel da União e da Eurozona. E comprende-se que assim seja : não querem pagar pelos desmandos e pela irresponsabilidade dos outros. Quanto mais não fosse, esta razão deveria ser já mais do que suficiente para não se continuar a apostar num caminho que o resto da Europa tem mostrado não querer seguir.
    Eu penso que o crescimento sustentado é aquele que se consegue com economias equilibradas, com menos Estado e menor carga fiscal, com estabilidade monetaria. Os paises periféricos teem de fazer desde já, rápidamente e ao longo dos proximos anos, os ajustamentos a curto prazo e as mudanças estruturais necessárias para que os desequilibrios se atenuem e para que a produtividade e a competividade melhorem. Sem subterfugios e ilusões (monetarias). A melhor forma de ajustar, desvalorizando em termos reais o que for necessario, é com preços nominais não inflacionados, que reflectem exactamente a evolução da economia real, e que permitem aos agentes economicos fazerem as suas escolhas e tomarem as suas decisões sem ilusões e incertezas relativamente ao futuro. Os paises periféricos precisam da UE e da sua ajuda para fazerem as mudanças necessárias e não para as adiarem ou, o que é o mais certo, para não as fazerem nunca. São estas mudanças que podem reduzir progressivamente os verdadeiros desequilibrios entre paises dentro da Zona Euro. Deste modo, não apenas se consolidam os requisitos de existencia e do bom funcionamento da moeda unica, como se criam condições mais favoraveis para uma maior e mais rapida integração economica e financeira dos paises da UE. Eu não tenho nada contra o “federalismo europeu”, antes pelo contrario, desde que se faça num quadro em que cada cidadão, cada pais (que mais não é que um conjunto de cidadãos), seja responsavel e assuma plenamente as consequencias das suas escolhas e decisões. Como portugues, como europeista, não desejo que o meu pais viva sobretudo e eternamente da esmola dos restantes cidadãos europeus.

  67. David Calão

    Caro Fernando S, antes de uma resposta mais extensiva (que já não são horas para isso), queria só reafirmar uma coisa. A minha defesa da inflação não se prende com uma perspectiva de crescimento via expansão monetária. Prende-se com a simples evidência de que, como Keynes disse e aqui penso que praticamente toda a gente concordará, os salários nominais serem rígidos à baixa. Isto é até reafirmado por novas descobertas da economia experimental, o que também daria uma conversa interessante. E mesmo Friedman, no seu artigo de 1953 em defesa das taxas de câmbio flexíveis, afirma algo do género, que o ajustamento pela via nominal é muito difícil e moroso. Isto tudo para dizer o quê? Que se os países do norte tiverem uma inflação de 4% e os do sul de 1 ou 2% (normal, dado estarem em crise e a apertar os orçamentos), eventualmente consegue-se uma desvalorização real muito mais eficazmente do que pela via das “reformas estruturais” e da austeridade. E repare, isto seria só alterar o target de inflação do BCE para 4%. por exemplo, algo que o próprio FMI já defendeu.

    Já reparou que a nossa retoma não ocorreu pela via do crescimento da procura externa, mas antes no momento em que a procura interna recuperou qualquer coisa? E, por acaso, num ano em que o governo foi forçado a não fazer tantos cortes, e a ter um défice orçamental de facto superior? Vamos ser sérios, a economia não se ajustou nestes três anos. Não houve uma mudança radical no perfil do nosso tecido empresarial. Está tudo praticamente igual, mas mais pobre. Na quarta feira, na Culturgest, Silva Lopes falava da decisão de António Borges de aderir ao ERM e disse que, nessa altura, o argumento era exactamente o mesmo. Que assim a economia era forçada a realizar uma mudança estrutural, a competir pelo aumento da produtividade. Feitas as contas, e passados 20 anos, onde está a competitividade? Só desemprego e desindustrialização.

  68. David Calão

    O problema fundamental da desvalorização que propõe, é que no caso de uma desvalorização cambial tanto a procura externa como a procura interna se dirigem aos produtos nacionais. No caso da desvalorização interna, apenas estamos a comprimir os nossos preços, o que significa que aumentamos a procura externa mas, ao mesmo tempo, estamos a comprimir a procura interna. E, para além disso, continua a ser indiferente consumir um produto fabricado internamente como um produto importado: em vez de reduzir importações para consumir nacional, reduz importações porque não pode consumir nada.

  69. David,

    «A retoma dos próximos três anos ficará quase toda assente na procura interna (consumo privado e investimento), como aliás aconteceu no passado; o comércio externo (medido pelas exportações líquidas) dará um contributo marginal à recuperação, mostra o Banco de Portugal, no cenário macro, ontem divulgado.» (a href=”http://www.dinheirovivo.pt/Economia/Artigo/CIECO332624.html”>aqui.

  70. O que quero dizer, David, é que a procura interna está absolutamente incólome. A recuperação tem sido feita por via não das exportações, mas da compra de coisas portuguesas em vez de estrangeiras, por causa das ditas exportações.

    Ao criar estrutura para exportar, criamos outrossim estrutura para satisfazer a procura interna. Concomitantemente, criamos procura interna (devido a salários pagos e a VAB gerado). O motor da retoma é na verdade o comércio externo, mas pela externalidade que a capacitação da função produtiva perseguida nos últimos tempos permite.

    Logo, quero exportar para ter dinheiro por cá. E para isso é necessário 1) manter um nível de impostos baixo (o que não acontece), 2) manter os fatores de produção exógenos (energia, combustíveis, matérias primas) baixo, 3) criar, criar, criar.

    Portugal, dado a ação perversa dos diversos governos, com ênfase nos socialistas, faz os possíveis e os inusitados por impedir as condições 1 e 2. Apenas a extrema perícia dos portugueses mantém os portugueses a recuperar em tempos de crise. O Estado não é parte do problema. Presentemente o Estado É O PROBLEMA.

  71. Fernando S

    Caro David,
    Os seus comentarios abordam naturalmente varios assuntos que merecem alguma discussão.
    Começando pelo final do seu penultimo comentario … de que “passados 20 anos … [] só desemprego e desindustrialização.”
    O David parece fazer parte daqueles que acham que foi a nossa entrada no Euro que determinou a nossa desindustrialização e o aumento do desemprego.
    Acontece que não foi.
    A entrada no Euro até foi uma oportunidade. Desperdiçada, sem duvida, mas uma oportunidade.
    O que aconteceu é que seguimos internamente uma via politica que consistiu em aumentar o peso do Estado na economia (grosso modo duplicou !…). Com o que isto implica em termos de desequilibrios sectoriais (a famigerada relação entre os sectores transaccionaveis e não transaccionaveis … foi isto a “desindustrialização”), macro-economico (contas externas, contas publicas, etc … a quase bancarrota), e micro-economicos (empresas organizadas em função de um mercado interno cativo e em crescimento artificial … recursos mal aplicados e perda de competitividade externa).
    O nosso problema não foi o Euro, foi a politica que seguimos internamente. Eventualmente com algum descuido por parte das instancias europeias que não nos chamaram à pedra em tempo oportuno para que esta evolução fosse invertida … Mas as falhas dos outros não nos desculpam das nossas proprias responsabilidades. Tenhamos agora a lucidez e a coragem de as assumir e de tudo fazermos para que a trajectoria anterior seja corrigida. Dentro do Euro, que continua a ser uma oportunidade e uma garantia. Sair do Euro seria uma emenda pior do que o soneto. E com as condições que a Europa nos oferece agora. Não vale a pena estarmos a perder tempo esperando que a Europa nos dê condições que, sejam elas quais forem, já se percebeu que não vai dar. Esta é que é uma atitude suicidaria. Façamos internamente o que tem de ser feito. As mudanças estruturais ainda são poucas (dizer “nenhumas”, como fazem alguns daqueles que se opuseram e se opoem às poucas que tem sido feitas graças à aplicação do programa de ajustamento da Troika, é verdadeiramente espantoso !…) ?… Façam-se então ainda mais e mais depressa. Mas façamo-las, e façamo-las nós proprios, sem estarmos à espera de uma hipotética salvação que viria de uma Europa hipotéticamente diferente da actual !

  72. Fernando S

    Quanto à natureza da nossa retoma actual (onde estão os dadores de lições que há meses atrás ainda insistiam na “espiral recessiva” ?…) concordo com a análise aqui em cima do Francisco Colaço.
    Para todos os efeitos, as exportações ainda não pararam de crescer. Sobretudo, as exportações cobrem hoje já uma parte significativa das nossas necessidades em importações. Para o consum como para o investimento. Este é o equilibrio que temos de alcançar e manter ao longo do tempo.
    Não é verdade que a retoma actual do consumo interno resulte do facto do governo ter deixado de fazer cortes em 2013. O governo manteve cortes anteriores e fez outros. Este argumento é verdadeiramento espantoso vindo daqueles que normalmente criticam o actual governo por continuar a seguir uma politica de … austeridade !!

  73. Fernando S

    Francisco,
    Não o acompanho completamente naquela ideia de que a retoma actual depende apenas da “pericia dos portugueses” e que a politica do actual governo (e da Troika) não tem nada a ver.
    A maior “pericia” dos portugueses tem sido, embora protestando e dizendo mal da austeridade e do governo, sentirem intuitivamente e no fundo que a austeridade é inevitavel e procurarem individualmente viver com ela em vez de virem para as ruas bloquear o pais e provocar a queda do governo.
    O Francisco concordará comigo que a austeridade contribuiu para que os portugueses tenham consumido e importado menos e melhor, pelo menos num primeiro momento, e para que muitas empresas portuguesas se tenham virado para a substituição de importações e para a exportação.

  74. Procura interna sem sustento na produçãoi interna corresponde a aumento de dívida. Para eu consumir sem ter, terei de dever a alguém.

    Quando um português consome um produto português, está a criar um emprego em Portugal. Quando um português consome chinês, cria um emprego na China. Ora, se um português consome italiano quando poderia com mais ou menos o mesmo dinheiro consumir português, está a deslocar horas de trabalho (dinheiro corresponde a horas de trabalho de alguém) de Portugal para a Itália.

    Há coisas que Portugal não pode produzir (minérios ou mangas, por exemplo) ou não pode produzir economicamente (peles caras, por exemplo). Estas coisas temos necessariamente de importar, se as quisermos consumir. Não é moral um governo precludir os consumidores de consumir mangas, apenas porque estas são importadas.

    Há coisas que Portugal pode produzir com matérias primas importadas. A lã para quase todos os têxteis que produzimos vem da Nova Zelândia. A lã é mais barata, peso por peso, que a camisola. Como não temos capacidade de produzir ovelhas tão economicamente como aNova Zelândia — por causa da legislação pecuária excruciante, se querem saber porquê — faz sentido importar a lã e fazer as camisolas.

    O problema será outro: e se a Nova Zelândia começar a fazer camisolas tão boas como nós? Terão ademais a vantagem da proximidade da matéria prima (menos cerca de EUR 0,05/Kg, baseado no custo de transporte para a Nova Zelândia de um contentor de 28 ton). Vantagem essa que não é muita no produto acabado, mas é-o na matéria prima em bruto.

  75. Fernando,

    «Não o acompanho completamente naquela ideia de que a retoma actual depende apenas da “pericia dos portugueses” e que a politica do actual governo (e da Troika) não tem nada a ver.»

    Não precisa de me acompanhar, que eu também não o argumento. 😉

    O que digo é que APESAR do Estado e da sua ação perversa e minguante, o português ergue-se por causa do seu talento e criatividade. Este é o milagre português, um milagre económico que só não acontece porque trabalhamos Janeiro inteiro para pagar a dívida acumulada para PPP, desfuncionais públicos, universidades sem alunos mas com professores, institutos públicos, emperresas de transporte que passam os dias em greve sem transportar e oitenta generais sem exército.

    O nacional-porreirismo vai desculpando o desgoverno dos estatistas. Este nacional-porreirismo é a nossa fraqueza. Tudo o resto é força.

    A nossa história mostra que somos anões em tempos de afluência e gigantes em tempos de crise. Se pudéssemos usar esta crise que se vai esboroando para aprender antes que a lição finde. em poucos anos teríamos o milagre económico português qe no fim dos anos 60 foi apontado pelo Financial Times, e que, dizia, ultrapassaria os milagres alemão e japonês.

    E sim, podemos viver em democracia, em liberdade, e dentro das nossas posses. Entre 1985 e 1997 fizemo-lo, e diminuímos a dívida externa líquida (os fundos europeus foram de tal modo exíguos em relação à diminuição da dívida externa líquida, que não podemos usá-los como desculpa). E quem fez uma vez, outra pode fazê-lo.

  76. Fernando,

    «O Francisco concordará comigo que a austeridade contribuiu para que os portugueses tenham consumido e importado menos e melhor, pelo menos num primeiro momento, e para que muitas empresas portuguesas se tenham virado para a substituição de importações e para a exportação.»

    Esta precisava de uma resposta autónoma. Não foi a austeridade do Estado. Este nunca a fez, salvo aqui e ali. Este simplesmente aumentou os impostos e obrigou à austeridade nos privados. Não foi a austeridade que aguçou os portugueses. Foi a necessidade. Mais uma vez, somos gigantes em tempos de crise.

    E se formos minimamente inteligentes, emergiremos mais fortes, e com mercados externos formados. E, provados lá fora, escolhidos cá dentro.

  77. Fernando S

    Francisco,
    O meu “perfeitamente de acordo” era para o seu comentario das 12:14….
    Quanto à austeridade do Estado (o seu comentário das 12:23), de acordo mas não “perfeitamente” !… 🙂
    Posso acompanhá-lo na ideia de que o Estado continua a ser excessivamente pesado e que seria preciso que fosse reformado a fundo de modo a evoluir nas suas funções e reduzir despesa.
    Mas o seu “aqui e ali” não é assim tão insignificante como isso. Em particular, tendo em conta as condições politicas existentes, as resistencias e oposições, a impopularidade de qualquer politica de cortes de despesas publicas.
    Pelo que vejo, o Francisco considera que os cortes nos vencimentos dos funcionarios publicos e nas pensões não são austeridade do Estado mas sim dos portugueses. Eu diria que é dos dois. No fim de contas, uma parte muito significativa das despesas incomportaveis do Estado teem precisamente a ver com vencimentos e pensões. A austeridade do Estado tem necessariamente de passar por menos despesa com funcionarios e com pensões.
    Isto não exclui naturalmente que existam outras rubricas das despesas publicas que possam e devam ser reequacionadas e reduzidas.
    Dito isto, não nos esqueçamos ainda, numa perspectiva macro-economica, que os gastos do Estado sustentam uma parte importante (excessiva) da economia portuguesa e que a sua redução, maior ou menor, mais ou menos rápida, terá sempre um efeito imediato recessivo.
    Este percurso deve ser feito, vale a pena ser feito, mas não deixa de ser uma variável de politica economica a ser ajustada com atenção e ponderação.
    Quanto à austeridade que resulta directamente do aumento de impostos, não há duvidas de que afecta apenas os cidadãos e não o Estado (entendido como aparelho).
    Neste sentido, concordo que o objectivo de qualquer politica reformista deve ser o de evitar mais aumentos de impostos e, sobretudo, de reduzir a carga fiscal logo que possivel e o mais rápidamente possivel.
    Dito isto, eu sou dos que consideram que os aumentos de impostos dos ultimos anos eram praticamente inevitaveis tendo em conta a necessidade de controlar e reduzir rapidamente o déficit orçamental e a dificuldade ou incapacidade objectiva do governo em funções para conseguir aplicar cortes mais importantes nos gastos do Estado. Não percamos também de vista que, apesar de tudo, o aumento de impostos dos anos da Troika incidiram sobretudo sobre as familias, com rendimentos acima de um determinado nivel, e relativamente pouco sobre as empresas.
    Fulanizando um pouco a análise, eu penso que Carlos Gaspar, com o seu “enorme aumento de impostos”, teve um papel necessário no complexo e sofrido processo de ajustamento da economia portuguesa.
    Também penso que, na situação actual, em que Portugal está a regressar progressivamente aos mercados e em que a retoma da economia ainda é incipiente, a diminuição de impostos não deve ser uma prioridade. Não acredito em choques fiscais num pais que ainda não saiu completamente de uma grave crise das finanças publicas.
    Já agora, ainda sobre este tema, acrescento que, embora não fosse a principal razão, ou até nem fosse sempre uma razão claramente ou conscientemente assumida pelos governantes, o aumento de impostos dos ultimos anos, ao diminuir o rendimento disponivel das familias portuguesas, acabou por contribuir objectivamente para um reorientamento da estrutura do consumo, mais favoravel à poupança e à substituição de importações. O que não é pouco.

  78. Fernando,

    Está a ver que afinal estamos de acordo, e até perfeitamente. O Estado no seu conjunto pouca austeridade fez (despesa total). O problema não está nos salários dos funcionários públicos, mas sim no seu número, que é herculeamente descomunal. Ser austero, por definição, é viver com o essencial e sem luxos. Uma escola com menos alunos e com mais professores que em 2006 não é austera. Oitenta generais para a dimensão das nossas forças armadas não é austeridade. Nem vejo austeridade na oitocentésima renovação do miolo de uma rotunda para colocar lá a estátua do primo da filha do vizinho da mulher do emperresidente da camorra municipal (já adivinhou que a grafia é perfeitamente intencional).

    O Estado não fez austeridade. Nós, cidadãos, fizemos austeridade para sustentar as doses diárias do janado da família portuguesa. O Estado.

  79. Fenando,

    Concordo consigo que não havia outro caminho possível. O PS deixou-nos na penúria, com cinco dias de salários para a disfunção pública, acordo com dois bancos (para os resgatar até que falissem por si) e uma data de PPP esfaimadas a estender a gamela pela primeira vez.

    Se o Estado tivesse nesse mês optado por pagar apenas aos que realmente merecem o seu sal dentro da função pública, talvez tivesse pago quase todo o mês.

    «Também penso que, na situação actual, em que Portugal está a regressar progressivamente aos mercados e em que a retoma da economia ainda é incipiente, a diminuição de impostos não deve ser uma prioridade. Não acredito em choques fiscais num pais que ainda não saiu completamente de uma grave crise das finanças publicas.»

    Não se preocupe. Não creio que um choque fiscal esteja contemplado em qualquer agenda desta gente séria que livre e recorrentemente escolhemos para serem os nossos carrascos. Quando muito haverá um cheque fiscal, mas seremos nós a passá-lo.

  80. Fernando S

    Francisco,
    Portanto, perfeitamente de acordo ( 😉 ) quanto à necessidade de reformar o Estado e cortar mais despesa. O problema é que não basta um governo com vontade para o fazer. E sabemos que dentro do actual governo as diversas vontades não são necessáriamente convergentes a este respeito. O problema principal tem a ver com a existencia de condições para ir mais longe e mais depressa no corte de despesa. Condições politicas (Portismo, “fogo amigo”, PS, etc), institucionais (PC, PR,…), interesses economicos instalados (sindicatos, associações empresariais, ordens profissionais, etc), estado da opinião publica (as sondagens continuam a mostrar que uma maioria de portugueses ainda não concorda com menos Estado), etc, etc. Estes são os ovos com que temos de ir fazendo a omelete !…
    Dito isto, e até por isto que acabo de dizer, eu compreendo mas não gosto muito deste discurso que por vezes temos (eu também) e que consiste em distinguir radicalmente os portugueses e o Estado. O Estado que temos é sobretudo aquele que, infelizmente, os portugueses quizeram e, em boa medida, ainda querem ter. O Estado que temos, para o bem e para o mal (ou melhor, para o bem de tantos e para o mal de muitos, por vezes os mesmos), é a origem de rendimentos e actividades que sustentam e melhoram a vida de muitos e muitos portugueses (estamos a falar de uns poucos milhões … mais do que pode parecer à primeira vista !). O Estado, quer gostemos quer não, quer queiramos quer não, é uma dimensão, “oh combien importante !”, da nossa propria condição actual de cidadãos. Por isso é que a resolução do problema do Estado é indispensável para a resolução dos problemas dos portugueses. Por isso é que a austeridade do Estado não é exclusiva da nossa !
    Para ser mais concreto… Por exemplo, ao ponto a que chegámos, o aumento de impostos é também um modo de por os portugueses a pagarem um Estado que quizeram e querem ainda ter e que não pode nem deve ser gratuito. Quizémos ter um Estado Providencia, que nos presta montanhas de serviços práticamente gratuitos, que nos segura contra todos os riscos presentes e futuros, que dá directa e indirectamente trabalho a muitos de nós e dos nossos próximos ??… Então, enquanto for assim, temos de o pagar !!… Ou pensávamos que poderiamos continuar a tirar partido do “Estado Social” (que, deve ser reconhecido, contribuiu para uma melhoria da condição de uma grande maioria dos portugueses nas ultimas décadas) sem pagar o preço ??…
    Antenção, chegado a este ponto, devo acrescentar que considero que este foi (ainda é) um péssimo “negócio” para os portugueses. Porque o Estado é caro e ineficiente. Porque o Estado é fonte de injustiças e desigualdades (uns portugueses beneficiaram mais do que outros e muitos acabam sempre por perder). Porque a mama não poderia nem pode durar para sempre (os portugueses e os estrangeiros que teem pago, compreensivelmente e legitimamente, não querem continuar a pagar). Porque a desmama é traumatizante (sobretudo para os portugueses que agora mais sofrem as consequencias e que não são necessáriamente e sempre os mesmos que anteriormente mais beneficiaram).
    Por tudo isto, no interesse bem compreendido da maioria dos portugueses, é preferivel por fim a este tipo de negocio, acabar com o modelo economico que o sustentou, pagar o que tem de ser pago, reduzir o Estado a uma dimensão adequada às nossas expectativas e possibilidades, voltar página.
    Infelizmente não é fácil, pode ser longo, e nem sequer é certo que venha a acontecer, pelo menos o suficiente e de uma vez por todas.

  81. arni

    Não é verdade que a retoma actual do consumo interno resulte do facto do governo ter deixado de fazer cortes em 2013. O governo manteve cortes anteriores e fez outros
    Boa Tarde Fernando
    Quais foram os outros cortes que o governo fez para substituir os que foram chumbados pelo TC? Perdoe-me a minha falta de informação e ignorância sobre o assunto,mas nos orgãos de comunicação social a informação sobre esses cortes é incompleta e pouco escolarecedoras.

  82. David Calão

    Gostava só de reafirmar que a ideia do ajustamento nominal em períodos de baixa inflação tem uma taxa de sucesso praticamente nula. Isto não é matéria de opinião, é olhar para a história.

    Então e o problema é interno e por acaso ocorrem problemas iguaizinhos noutros países, que por acaso tiveram superavite orçamental em grande parte da última década? O problema foi o Estado quando a dívida privada era mais do dobro da pública? E como é que o Estado podia contrariar a tendência de perda de competitividade com enxurradas de capital a entrar e a produzir diferenciais de inflação?

  83. Fernando S

    arni,
    Uma parte importante dos cortes anteriores, que foram significativos, foram mantidos.
    As despesas de capital do Estado, que também impactam a procura interna, sofreram uma importante redução em 2013 (-41% relativamente a 2012).
    O orçamento rectificativo para 2013 introduziu economias nos Ministérios que não estavam inicialmente orçamentadas.
    É verdade que os chumbos do TC para 2013 foram compensados sobretudo por aumentos de impostos. Mas estes teem igualmente efeitos negativos sobre o consumo privado. Consumo este que, de qualquer modo, embora em recuperação a partir de certa altura, ainda diminuiu no conjunto do ano de 2013.
    Não se pode por isso dizer que deixou de haver austeridade em 2013 e que o consumo privado e o PIB retomaram por esse facto.
    De resto, é um contra-senso os criticos da actual politica de austeridade imputarem os recentes bons resultados da economia a um hipotético … fim da austeridade !
    O começo da recuperação do consumo privado a partir de meados de 2013 deveu-se sobretudo ao aumento da produção induzido pelo aumento das exportações, pela substituição de importações, pela retoma do investimento. Mais produção representa mais rendimentos distribuidos e, consequentemente, mais consumo. O Francisco Colaco explica bem este mecanismo num comentario aqui em cima. De resto, esta evolução tem continuado, e até com mais intensidade, em 2014, ano em que estão agendados e em aplicação cortes adicionais importantes nas despesas publicas. As previsões são de que, em 2014, apesar de haver ainda mais austeridade, haverá mais consumo e mais crescimento.

  84. Fernando S

    A austeridade, cortes nos gastos publicos e aumento de impostos, tem naturalmente um efeito recessivo imediato.
    Mas a austeridade favorece também um progressivo restabelecimento de equilibrios economicos : nas contas publicas, nas contas externas, no financiamento da economia, nos mercados de factores, nos planos dos agentes economicos, etc.
    Estes ajustamentos na economia tornam-na mais forte e mais eficiente. Teem então um efeito positivo sobre a produção.
    Quando este efeito positivo supera o efeito negativo inicial verifica-se uma inversão de tendencia.
    A economia, embora a partir de um nivel de consumo e investimento mais baixo, volta a crescer.
    Por esta razão é possivel voltar a ter crescimento ainda com austeridade.
    A tese da “espiral recessiva”, segundo a qual a austeridade teria inevitávelmente levado o pais para um beco sem saida, estava errada !

  85. arni

    Fernando S,sae não estou em erro,os aumentos de impostos não foram decididos na altura do chumbo ,mas já vinham do OE 2013.Ou seja,o TC chumbou os cortes na despesa,não os aumentos de impostos.
    Não pretendo dizer que á partida houve menos austeridade do que a prevista;antes questionei se as medidas reprovadas,foram ou não substituidas por outras.Apenas isto 🙂
    Julgo que o Fernando falou nas economias que os Ministérios decidiram fazer.Mas o certo é que essa questão nunca foi explicada de forma clara e sucinta pelo governo

  86. «A austeridade, cortes nos gastos publicos e aumento de impostos, tem naturalmente um efeito recessivo imediato.»

    Em boa verdade, o efeito recessivo está somente no o corte de despesa que antes fosse feita por dívida (dinheiro emprestado), visto que o dinheiro dos impostos I é retirado à ponta d’arma de B. (Burro de Carga), mas é gasto por E. (Estado).

    Antes:

    Impostos + Empréstimo = GB + GE

    Depois:

    (Impostos + δImpostos) – Serviço de divida = (GB – δGB) + (GE – δGE)

    O responsável ela crise de hoje é quem mais empréstimos e créditos futuros fez: José Sócrates Carvalho Pinto de Sousa. O filho pródigo. Só que em vez de este filho pródigo ter gasto a sua própria herança, gastou a nossa.

  87. HO

    Dervich,
    “Somos o país mais desigual da Europa, MESMO tendo a 2ª política fiscal mais agressiva de todas, o que não deixa de ser bizarro.”

    Sendo que sou muito céptico quanto a estatísticas de desigualdade, isso é mais ou menos bizarro na medida em que a agressividade de políticas fiscais progressivas for mais ou menos potente e não tiver efeitos de sentido contrário. Podemos imaginar um cenário em que uma política fiscal agressivamente redistributiva diminui desigualdades de rendimento após impostos e transferências num país rico e com muitos capitais, incluindo humanos, acumulados mas tem o efeito oposto num país mais pobre: descapitalização e más alocações de capital, investimento em sectores de baixa produtividade, menos firmas nos escalões mais altos de produtividade com proliferação de pequenas empresas (tendencialmente menos produtivas que as grandes empresas que exigem altos esforços de capital), avenidas mais estreitas para a mobilidade económica ascendente, a maioria das pessoas fica encalhada em empregos ou negócios próprios de baixa produtividade devido aos desincentivos fiscais marginais. Uma espécie de “coma económico”. Isto é apenas um exemplo teórico, obviamente. Qualquer semelhança com uma realidade mais ou menos próxima será pura coincidência.

    hustler,
    “Obviamente que estes factores, juntamente com os impostos mais progressivos do mundo (basta pensar que as multas de trânsito na Finlândia são pagas em função do rendimento individual) são as causas que permitem que haja uma verdadeira mobilidade social.”

    1 – Mobilidade e desigualdade são coisas muito diferentes.

    2 – Os impostos escandinavos não são os mais progressivos do mundo, – não leu as tabelas, ou, lá por isso, os dados do seu comentário seguinte? O sistema tributário mais progressivo do mundo industrializado será provavelmente o dos USA. Veja aqui, por exemplo:

    Talvez tenham o sistema fiscal mais progressivo do mundo -não faço ideia, é bem possível- mas há vida para lá dos impostos. É perfeitamente plausível ter impostos muito regressivos e um sistema fiscal global progressivo.

    E desconfio que a igualdade de rendimentos nos países nórdicos está mais relacionada com fenómenos seculares e culturais do que com o sistema fiscal. As zonas dos USA com forte implementação de escandinavo-americanos e germano-americanos tendem a ter menos desigualdade que as anglo-saxónicas ou as não-brancas.

  88. HO

    K,

    “Exacto. É por isso que os EUA, que adoptaram politicas expansionistas durante esta crise já sairam dela (devagarinho, é certo), enquanto a Europa continua em modo “zombie”.

    Você continua a viver numa realidade alternativa. Os EUA fizeram MAIS austeridade que a zona euro e com uma folga considerável. Os únicos países europeus que fizeram mais austeridade que os EUA foram os intervencionados. A austeridade fiscal nos EUA não foi recessiva porque os multiplicadores fiscais estão extremamente baixos. Mas existiu e num grau altíssimo. Foi uma austeridade expansionista, o que está longe de ser novidade. Eu excuso-me de, uma vez mais, referenciar-lhe os números – mas posso fazê-lo novamente se, por alguma fatalidade, já se esqueceu outra vez.

    David Calão,

    ” Eu conheço a versão do Friedman, mas dados os dados da crise japonesa e mesmo da crise europeia, conseguimos observar claramente que não chega a política monetária, sobretudo em períodos de taxas de juro muito baixas.”

    Como assim? Se a crise japonesa prova alguma coisa é o fracasso das políticas fiscais; se o Friedman tinha razão quanto ao Japão ainda é cedo para dizer mas, para já, os resultados iniciais são animadores. A referência à crise europeia é ainda mais estranha – a zona Euro nunca esteve sequer em zero bound durante os últimos cinco anos: pelo contrário, o BCE até aumento juros ainda fora dela!

    “Fernando S, para além das explicações que deu, existe outra: os EUA têm um banco central funcional, união bancária e federalismo fiscal. A Europa não. Nenhum estado nos EUA vai à falência porque um banco com sede nesse Estado vai à falência.”

    O BCE é funcional. A diferença é que a política monetária do FED tem sido um bocadinho melhor. E em teoria é perfeitamente possível um estado americano ir à falência por esse motivo – é implausível na prática: se um estado for à falência (formalmente os estados não podem falir, o Chapter 9 só se aplica a sub-divisões políticas de estados, não aos estados; estes ficariam em estado de insolvência, mas isto é mais semântica), será por outros motivos.

    “A questão do BCE abandonar a política restritiva não serve simplesmente para “estimular crescimento”, até porque isso é o que tem tentado fazer desde o “whatever it takes”.”

    Não tem nada. Uma inflação de .7%, ou seja um terço do target, demonstra que não o tem feito.

    Mas os países de periferia têm problemas reais e não apenas nominais. Estes até são secundários; uma política monetária melhor poderia tornar o ajustamento das questões estruturais mais fácil mas não as resolveria. Se o problema fosse cíclico, de procura, Portugal não teria estado estagnado entre 2000 e 2008.

    “Então e o problema é interno e por acaso ocorrem problemas iguaizinhos noutros países, que por acaso tiveram superavite orçamental em grande parte da última década? O problema foi o Estado quando a dívida privada era mais do dobro da pública? E como é que o Estado podia contrariar a tendência de perda de competitividade com enxurradas de capital a entrar e a produzir diferenciais de inflação?”

    Os problemas não foram iguaizinhos. Foram similares. Como foram similares em países fora da zona Euro. Enxurradas de capital a entrar não são um problema, pelo contrário – só se tornam num problema quando o capital é mal alocado e não produz. A dívida privada ser problemática não implica que a dívida pública não o seja – pelo contrário. O Estado não deveria ter sustentado a procura interna a níveis artificialmente altos, criando um problema maior e mais difícil de resolver – isto seriam os mínimos.

    “Gostava só de reafirmar que a ideia do ajustamento nominal em períodos de baixa inflação tem uma taxa de sucesso praticamente nula. Isto não é matéria de opinião, é olhar para a história”

    Uh? Taxa de sucesso? Como é que mede o sucesso? Pode argumentar que a desvalorização interna pode ser um processo desnecessariamente lento e doloroso, mas não conheço nenhum modelo em que a desvalorização interna não funcione. Mesmo em modelos mais pessimistas, keynesianos, mais cedo ou mais tarde vai aumentar a competitividade e produzir crescimento económico, independentemente da inflação. Que modelo está a utilizar?

    “Já alguém ouviu falar da depressão DEFLACCIONÁRIA de 1920–1921? Resolveu-se em três semestres. Descubram como.”

    Melhor ainda: comparem a Argentina no período 93/03 aos países bálticos 01/11.

  89. hustler

    Caro HO, mais uma vez agradeço o seu comentário pertinente.
    Diz-me que mobilidade e desigualdade são coisas bastante distintas, sim, é de facto verdade, no entanto há uma forte correlação entre mobilidade e desigualdade, especialmente onde as sociedades são marcadamente estratificadas “Social mobility is higher in integrated places with good schools, strong families, lots of community spirit and smaller income gaps within the broad middle class.” http://www.economist.com/news/united-states/21595437-america-no-less-socially-mobile-it-was-generation-ago-mobility-measured, “Rates of social mobility are unlikely to grow. Inequality, however, may widen even further.” http://www.economist.com/node/15908469, pelo que o meu comentário era no sentido de enfatizar que a rigidez na mobilidade social, é uma causa per se, no fomento da desigualdade.

    No reparo da progressividade dos impostos, tem toda a razão no que escreve, uma vez que a progressividade é diferente de taxas marginais altas no imposto sobre o rendimento, sendo essa a designação correcta que deveria ter sido aplicada!
    “Surprise! Despite endless American complaints about over-taxation, the U.S. has one of the world’s lowest marginal income tax rates, at 27%” http://www.forbes.com/sites/investopedia/2011/12/01/countries-with-the-highest-and-lowest-taxes/ …. “Sweden has once again topped the European tax league, boasting a 56.6 marginal tax rate, according to a new report.” http://www.thelocal.se/20121003/43584

    e corroborando aquilo que disse, os EUA apresentam de facto o sistema tributário mais progressivo do mundo, mas o seu sistema da Segurança Social é menos progressivo que a média da OCDE: “If you look at Nordic countries, they all have much less progressive tax systems than the USA, but they collect a lot more in taxes (including in VAT). They then spend this much higher tax revenue on social security and services, and it is this side of the equation that is most important in reducing inequality. ” http://gregmankiw.blogspot.pt/2011/03/what-nation-has-most-progressive-tax.html

  90. Fernando S

    arni,
    Efectivamente, o “enorme” aumento de impostos para 2013 foi decidido anteriormente ao chumbo pelo TC a cortes nas despesas previstos no Orçamento.
    Mas não deixa de ser verdade que o governo apresentou um orçamento rectificativo incluindo diferentes medidas destinadas a compensar o buraco de cerca de 1,2 mil milhões de Euros.
    A maior parte dessas medidas consistiram em novos cortes na despesa. Para além das economias nas despesas de funcionamento de diferentes ministérios, que já referi anteriormente, foram consideradas outras poupanças especificas : em remunerações extraordinarias através do aumento do horario de trabalho dos funcionarios publicos ; em custos com as PPPs. Foram também aumentadas as contribuições para os sistemas de saude de funcionarios do Estado (ADSE, etc). Note-se que esta medida equivale efectivamente a um corte na despesa publica (o aumento das contribuições traduz-se num menor gasto final com os sistemas). No entanto, para muitos, a começar pelos funcionarios aderentes, foi vista como sendo equivalente a um aumento de impostos (mais dinheiro para o Estado = menos rendimento disponivel para os funcionarios). Na componente verdadeiramente fiscal verificaram-se ainda algumas correcções nas modalidades de aplicação de impostos já previstos, e que, na prática, se traduziram em agravamentos. Foi sobretudo o caso do aumento da receita do IMI resultante do processo de reavaliação dos prédios urbanos.
    De qualquer modo, o mais importante a reter relativamente a esta questão, e foi o que eu quiz dizer anteriormente, é que o chumbo do TC não diminuiu a austeridade e não pode servir para explicar a retoma da produção ainda em 2013.

  91. Caro Pedro Morgado, como já tive oportunidade de referir, o que aponta no seu artigo, e que é verdade, não anula as conclusões do meu artigo. No limite, se nenhum pobre pagasse impostos (fosse qual fosse a assimetria entre ricos e pobres), a receita fiscal seria inteiramente sustentada pelos ricos. Ou seja, a assimetria é irrelevante para aqui. O que interessa é perceber se os ricos estão a pagar, ou não, a sua parte. E parece-me indismentível de que sim.

  92. arni

    Caro Fernando S,é escandaloso,mas apenas agora vi oseu comentário,estando eu a passear por aqui..
    Eu não digo que não tenha apresentado.Apenas digo que essas medidas não foram corretamente explicitadas aos portugueses.Investiguei e não encontrei informação respeitante a esses cortes de que fala.Nem os orgão de comunicação social especializada tinham informação completa sobre isso.Mas isso é apenas um detalhe
    De relembrar também dfde que, uma coisa é apresentar medidas,outra coisa é implementá-lasE o nosso passado é recheado de medidas que nunca foram devidamente postas em prática

  93. Pingback: Um ramalhete | O Insurgente

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