The battle of Crimea is over, I expect that the battle of Ukraine is about to begin

Posto só porque me apeteceu usar este título, espicaçada por este texto da Slate. E aproveito para dizer que me escandaliza muito pouco que a Ucrânia se divida. Afinal o país é uma colagem de pedaços de territórios com percursos, histórias, culturas e religiões diferentes entre si e a UE e os Estado Unidos não têm mais do que aceitar isso mesmo, por muito que tal signifique engolir uns sapos oferecidos por Putin – que sim, é um proto-ditador intragável. Não estou, so far, muito convencida com os paralelos que se têm feito da anexação da Crimeia com o Anschluss e os sudetas (já vou mais pela prudência aconselhada pela experiência da guerra de 1914-18, que manda que não se provoque com a solução mais destruição do que seria causada pelo problema que se tentou resolver). Mas não deixo de achar piada ao facto de o namoro ingénuo de Obama com Putin, que o mandou às urtigas assim que foi necessário, se assemelhar à forma como Churchill se enterneceu com o ‘urso russo’ e foi depois traído a formação da ‘cortina de ferro’. (Tendo Churchill sido acompanhado no enlevo pelos britânicos, que tiveram uma curiosa moda russa durante a segunda guerra mundial, tornando-se a casa do embaixador Maisky em Londres um popular local de reunião da upper-class – como sabe quem já viu o Ninotchka, todo o bom soviético tem um fraquinho por aristocratas – e levando a que George Orwell, na edição do Animal Farm, se queixasse que em Londres se podia insultar à vontade o primeiro-ministro mas se viam torcerem-se narizes se se criticasse Stalin.)

19 pensamentos sobre “The battle of Crimea is over, I expect that the battle of Ukraine is about to begin

  1. Pingback: Momento poético insurgente | O Insurgente

  2. EMS

    “Afinal o país é uma colagem de pedaços de territórios com percursos, histórias, culturas e religiões diferentes entre si”
    Poderiamos dizer o mesmo sobre a Polonia de 1939

  3. Maria João Marques

    Pois pode, EMS. E por alguma razão a diplomacia de todos os países europeus, mesmo aqueles que depois combateram a Alemanha, tentaram convencer os polacos a ceder à Alemanha na questão do corredor de Danzig, de forma a que não houvesse invasão alemã da Polónia e, de seguida, guerra.

    Muito bom ponto de vista, Rui.

  4. lucklucky

    Podemos dizer o mesmo sobre muitos países. O curioso é que se batesse à sua porta a grande maioria mudaria de posição. Se o Porto quisesse a independência qual seria reacção da Maria João Marques?

    ” que manda que não se provoque com a solução mais destruição do que seria causada pelo problema que se tentou resolver”

    Um pacifista fala assim. Se França não resistisse aos nazis não teriam morrido centenas de milhares. Basicamente com semelhante pensamento o que se diz é que a liberdade tem pouco valor.
    Curiosa teoria num blogue que se diz liberal.

    E Churchill não se enterneceu com Estaline -já o mesmo não se pode dizer da monarquia e de parte alta sociedade britânica – disse isto “If Hitler invaded hell I would make at least a favorable reference to the devil in the House of Commons.” O que é bastante distante de um enternecimento.

  5. Luís Lavoura

    o país é uma colagem de pedaços de territórios com percursos, histórias, culturas e religiões diferentes entre si

    Eu não sou especialista em Ucrânia, mas penso que não. A religião é quase uniformemente cristã ortodoxa. A cultura também é bastante homogénea – a língua ucraniana é basicamente similar à russa. E, com exceção da Galícia – uma pequena parte do noroeste da Ucrânia que em tempos pertenceu ao império dos Habsburgos – e da Crimeia – que em tempos pertenceu ao Império Otomano – todo o resto da Ucrânia tem uma história comum, ou seja, à sombra do Império Russo.

    Portanto, eu diria que a Ucrânia não tem nada que dividir-se, com exceção precisamente da Crimeia e, possivelmente, da Galícia (a qual de boa vontade se reuniria com o resto da Polónia).

  6. Luís Lavoura

    a prudência aconselhada pela experiência da guerra de 1914-18, que manda que não se provoque com a solução mais destruição do que seria causada pelo problema que se tentou resolver

    Excelente formulação, estou totalmente de acordo.

  7. Maria João Marques

    Lucklucky, tenho tudo menos certezas sobre a WWII – sobre a bondade do que foi feito e sobre a bondade do que poderia ter sido feito. Mas não gosto da visão maniqueísta tradicional. Afinal o resultado da guerra que lutou pela liberdade e democracia foi 50 anos de pouca democracia e pouca liberdade na Europa de Leste. O regime nazi foi intolerável; o soviético também foi.

  8. Miguel Noronha

    “religião é quase uniformemente cristã ortodoxa”
    Escapam-lhe a questões das obediências. Convém investigar antes de falar.

    “a língua ucraniana é basicamente similar à russa”
    Em termos léxicos é mais similar ao polaco e ao servo-croata que ao russo.

  9. k.

    “Miguel Noronha em Março 19, 2014 às 15:40 disse: ”

    Russo e Ucrâniano é suficientemente semelhante para manterem uma conversa entre si.

  10. Maria João Marques

    Luís Lavoura, parte da Ucrânia (oriental) está no império russo há séculos, desde a (acho que primeira) partição da Polónia, a parte ocidental fazia parte do império austro-húngaro até ao fim da GGM, a Crimeia foi oferecida pelos russos à Ucrânia nos anos 50,… é tudo menos uniforme.

  11. JPT

    Tem toda a razão, faltam paralelos entre a anexação da Crimeia e a dos Sudetas: É que, enquanto as áreas montanhosas da Boémia e da Morávia eram habitadas por mais de 90% de alemães, desde o Século XIII, já na Crimeia os russos são 60% e só por lá andam desde o Século XIX. Ah, e é verdade. enquanto a anexação dos Sudetas foi feita na sequência de um tratado internacional, a Crimeia foi invadida. Ah, e, de facto, o Sr. V.V. Putin não tem bigode!

  12. Luís Lavoura

    a parte ocidental fazia parte do império austro-húngaro até ao fim da GGM

    Depende do que se considerar que “a parte ocidental” abrange.

    A única parte da atual Ucrânia que fez parte do império habsburgo foi a Galícia, que será para aí uns 10% do território da atual Ucrânia, e contendo apenas uma das principais cidades (L’vov).

  13. Luís Lavoura

    Miguel Noronha,

    Lexically, the closest to Ukrainian is Belarusian (84% of common vocabulary), followed by Polish (70%), Serbo-Croatian (68%), Slovak (66%) and Russian (62%).[7] The Ukrainian language retains a degree of mutual intelligibility with Russian.

    A diferença entrw 70% e 62% é enorme e confunde-me…

  14. Miguel Noronha

    “A diferença entrw 70% e 62% é enorme e confunde-me”
    Continuo sem perceber a sua confusão. Lexicamente há de facto linguas mais próximas do ucraniano que o russo.

  15. Luís Lavoura

    Lexicamente há de facto linguas mais próximas do ucraniano que o russo.

    Pois há. Mas a diferença entre essas outras línguas e o russo, em termos de similaridades com o ucraniano, é muito pequena. E mantem-se aquilo que eu escrevi: “a língua ucraniana é basicamente similar à russa”, o que não obsta a que seja também similar a outras línguas.

  16. Luís Lavoura

    A única parte da atual Ucrânia que fez parte do império habsburgo foi a Galícia, que será para aí uns 10% do território da atual Ucrânia, e contendo apenas uma das principais cidades (L’vov).

    Já agora, para ser mais correto:

    O império habsburgo (austro-húngaro) tinha uma província chamada Galícia, que atualmente está metade no território da Ucrânia e a outra metade no território da Polónia.
    A única cidade importante da Ucrânia que fez parte do império habsburgo foi L’vov (lê-se “Levil”), que em alemão tem o nome de Lemberg.
    A parte da Ucrânia que fez parte do império habsburgo é para aí 20% da Ucrânia, ou seja, é relativamente menor e só contem uma cidade relevante.

  17. Miguel Noronha

    Parece-me que o que escrevi é que há outras com mais semelhanças.
    Se me disser que o espanhol e o português tem semelhanças e que falantes das duas linguas são capazes de se entenderem terei de concordar. Mas o galego será o idioma mais próximo e a possibilidade de manterem uma conversação inteligível será maior.

  18. lucklucky

    “Lucklucky, tenho tudo menos certezas sobre a WWII – sobre a bondade do que foi feito e sobre a bondade do que poderia ter sido feito. Mas não gosto da visão maniqueísta tradicional. Afinal o resultado da guerra que lutou pela liberdade e democracia foi 50 anos de pouca democracia e pouca liberdade na Europa de Leste. O regime nazi foi intolerável; o soviético também foi.”

    Ah então para si a Europa Continental dividida entre Nazis e Comunistas seria uma coisa melhor que metade sobre a pata Comunista?

    O que que é que você julgava que seria o Estado Novo ou Franco sobre influência dos Nazis?
    Salazar teria de correr aos pés de Hitler para estra protegido de Espanha.
    Os elementos mais radicais e racistas do Estado Novo teriam muito mais poder.

    Tudo boas novas…

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