Há muita coisa que ‘mete nojo’

Ando desde quinta feira para escrever um texto sobre os maluquinhos católicos que andam amuados com o Papa Francisco, mas ainda não tive tempo. Depois da não-aprovação na AR da lei da coadoção e tendo em conta o verdadeiro nojo que têm sido as reações dos extremistas da coisa – que não conseguem mostrar a sua discordância dos que votaram contra sem insultos, sem revelarem de que forma estes arautos da ‘tolerância’ na verdade não toleram gente que não pensa a mesma chapa cinco ‘tolerante’ e ‘progressista’ que eles, e que chegou até a ponto de uma criatura destas ‘tolerantes’ e ‘progressistas’ escrever sobre a orientação sexual (ou o que a dita criatura pensa que é a orientação sexual) de dois responsáveis políticos da atual maioria – tive durante alguns momentos a tentação de escrever sobre estes maluquinhos simétricos (e, logo, iguais) aos maluquinhos católicos. Passou-me depressa a tentação, mas venho aqui dizer umas coisas sobre estes processos de votação da coadoção e adoção e casamento de pessoas do mesmo sexo.

(E, como já escrevi várias vezes, sou favorável à coadoção e adoção por casais do mesmo sexo, dando-se preferência a casais de sexo diferente – isto porque a treta que por aí se lê em jornais e blogues de que ‘há estudos’ que mostram que as crianças e adolescentes crescem de forma igual em famílias de casais hetero ou homossexuais é mesmo uma treta. Os estudos que existem foram feitos na esmagadora maioria com crianças e adolescentes que têm pai e mãe, separados mas com presenças nas vidas dos filhos, e que vivem com as suas mães e as companheiras/mulheres das suas mães. São estudos que analisam a parentalidade de gays e lésbicas em casos em que as crianças têm tanto pai como mãe e concluem que, evidentemente, ser gay ou lésbica não desqualifica ninguém como pai ou mãe. Sucede que, para uma criança institucionalizada, a comparação que se tem de fazer não é entre casais hetero e casais homo, é entre a instituição – onde crescem sem adultos de referência e sem afeto de mãe ou de pai – e uma família hetero ou homoparental; e também não vejo como alguém pode defender que uma criança está melhor institucionalizada do que vivendo com um casal homossexual.)

Mas enfim, o meu primeiro comentário é para a terrrrrrrrrível acusação de que os deputados do PSD e do CDS teriam votado de acordo com a vontade do seu eleitorado e não segundo a sua consciência. Ora eu, que sou eleitorado destes partidos e até nem fui representada por eles neste caso, tenho a dizer que votar segundo a vontade do eleitorado – que escolhe o seu voto de acordo com o programa eleitoral de cada partido – é a obrigação dos deputados eleitos. A coadoção não estava no programa eleitoral de PSD e CDS, pelo que não há qualquer traição dos eleitos aos eleitores. Pode-se argumentar que nem tudo está no programa eleitoral e que, nestes casos, os deputados devem fazer uso do seu próprio discernimento (supondo que o têm, que a maioria dos que lá estão não pensam nada se não em agradar ao líder do momento e portar-se bem para continuar nas listas em lugar elegível), e que para a coadoção não o fizeram. Mas, ainda assim, pode-se duvidar da coerência dos que mudaram o sentido de voto, pode-se reclamar que os cálculos políticos pesaram mais que os interesses das crianças em questão, mas não se pode atacar alguém por ter respeitado aquilo que julga ser a opinião do eleitorado que tem obrigação de servir. Foi uma pena que o PSD e o CDS não tivessem tido tanto respeito pelo seu eleitorado quando se tratou de aumentar impostos e engavetar a reforma do estado.

A segunda é uma questão. Mas que diabo? Se afinal esta permissão da coadoção é tão fulcral e o seu adiamento transtorna tanto inúmeras crianças, porque não foi isto tudo aprovado entre 2005 e 2009, quando o PS tinha maioria absoluta na AR? Aí ainda não era fulcral? Os adiamentos não transtornavam crianças? E mesmo depois de 2009, quando finalmente foi aprovado o casamento entre pessoas do mesmo sexo – e teria feito todo o sentido tratar de todas estas questões em pacote – tendo o PS os votos favoráveis à adoção do BE, dos Verdes e de uns quantos do PSD, porque diabo não se aprovou a coadoção, a adoção e se deixou esta situação toda tratadinha? Os transtornos às crianças apenas surgiram em 2013? É que, meus caros intolerantes, usar tantos insultos para quem agora não votou a coadoção quando se tem tanta complacência para quem tinha toda a facilidade para o fazer mas não o fez, tresanda àquilo de que acusam os vossos opositores: a cálculo político, apenas e só.

E acabo esclarecendo porque não me apeteceu vir aqui zurzir nos ‘tolerantes’ e ‘progressistas’. No fundo eu compreendo-os. Na adolescência eu era igualzinha, sempre pronta a ver o mal naqueles mais conservadores do que eu. Depois cresci.

15 pensamentos sobre “Há muita coisa que ‘mete nojo’

  1. Comunista

    “Na adolescência eu era igualzinha, sempre pronta a ver o mal naqueles mais conservadores do que eu. Depois cresci.”

    E por “cresci” você quer dizer “adoptou clichês estafados para explicar a sua história particular”, ou seja, tornou-se voluntariamente um clichê.

  2. povão

    Vem esta mui ilustre Senhora (que habitualmente leio com muito prazer) ,falando de NOJO , ainda nos dizer que concorda com a adopção , a co-adopção e o casamento (abre nuncio) tudo feito por homossexuais !…Entretanto ,lhe durei que uma institucionalização monitorizada (legalmente possível) é seguramente preferível à adopção homossexual .(cuja monitorização a CR não permite…) .
    O NOJO começou com a adopção feita por pessoas singulares(C.Civil) , quando deveria ser apenas por casais . Facto logo aproveitado pelos homossexuais . Um homossexual adopta e une-se de facto . Está dado o primeiro passo para o “casamento” homossexual com um adoptado (ou com um filho de um deles) Referendo? Com um Povo iliterato ? O Povo desconhece que a adopção e co-adopção são absolutamente irrevogáveis (diferente daquela de PP) . A identidade do menor é substituida pela do adotante . Todos os laços(sanguineos) familiares do menor sáo eliminados.e desconhecidos do menor . São desconhecidos os antecedentes patológicos familiares do menor o que não lhe permitirá um adequado diagnostico numa eventual e futura doença do menor – A adopção lembra-nos uma “barbie de luxo” com alguns tiques de “escravatura” …
    Pior na adopção homossexual . Duas Mães! Dois Pais ! Duas eternas perguntas sem resposta : Quem é o meu Pai ? Quem é a minha Mãe ? E o “bulling” de que será alvo na escola quando numa aula de Ciências Naturais disser que tem duas Mães(ou dois Pais) . Mas que gozo.
    Estudo recente revela que o menor tende a imitar os pais , sobretudo naquilo que está mais errado !…Qual a reacção do menor quando espreitar pelo buraco da fechadura e assistir ao desenrolar das..relações sexuais dos seus dois Pais (oral ou anal)) ? Para mais detalhes sobre esta sanidade onde o menor está inserido , consultar a urologia homossexual .Para terminar , sabe a ilustre Senhora o que poderá acontecer a um filho seu dentro de uma casa de banho de uma escola publica ? . . .

  3. Maria João Marques

    Povāo, há uns tempos postei um link para a lista de psiquiatras da zona de Lisboa, a propósito de josé sócrates. Penso que também lhe seria útil.

  4. Bela defesa do indefensável. Por outras palavras, diz duas coisas. 1) Diz que todas as opiniões são indiscutíveis. Ou seja, que não podemos criticar as posições que quem é contra a adoção por homossexuais. 2) Que toda a política é politiquice. Ou seja, que isto, no fim de contas, não passa de uma falha no timing político-partidário.

    Dois modos de esvaziamento da política porque me preocupam. Entre isso e o nazismo vão muitos passos; mas é mesma direção.

  5. Maria João Marques

    José Ferreira, é que foi mesmo, mesmo, mesmo isso que eu disse. Nunca ninguém entendeu melhor as minhas palavras. Agora vou fazer umas juras secretas perante o retrato de Hitler, que tenho cá em casa, antesd e ir dar banho aos meus filhos.

  6. Nuno Cardoso da Silva

    Tenho amigos homossexuais e tenho o maior respeito por quem tem uma orientação sexual diferente da minha. Mas sou frontalmente contra qualquer coadoção ou adoção de crianças por casais do mesmo sexo. Os preconceitos sexuais estão profundamente enraízados na espécie humana tendo na sua origem a necessidade instintiva de procriação, e não é razoável pensar que esses preconceitos sejam neutralizáveis e que não venham a afetar as crianças que viessem a estar na situação de adotados ou coadotados por homossexuais. Não só terceiros como as próprias crianças, ao chegar à adolescência, poderiam vir a manifestar repulsa pela situação em que tinham sido lançados, sem a sua permissão. Psicologicamente uma criança precisa de um pai e de uma mãe, e já basta que tantas estejam privadas de um ou de outra por várias circunstâncias. Mas lançar voluntariamente uma criança numa situação que é, por mais que digam, anómala e suscetível de gerar desequilíbrios psicológicos, é uma inaceitável violação dos direitos da criança. É subalternizar os direitos da criança a imaginários direitos dos homossexuais. Porque ter filhos não é um direito. É apenas um desejo – e muitas vezes um acidente – que nem todos conseguem realizar. Ainda me lembro, há já bastantes anos, que o slogan dos homossexuais era o “direito à diferença”. O que eu compreendo. Mas então não venham agora exigir um direito a uma igualdade que eles próprios começaram por rejeitar. Ser diferente implica aceitar as consequências dessa diferença. Têm os homossexuais todo o direito ao respeito e à não discriminação. Não têm o direito de instrumentalizar crianças para satisfazer uma obsessão por uma normalidade que nunca estará ao seu alcance. Reconheço que isso possa ser dramático para um homossexual, mas dramas semelhantes afetam muitos outros, e o drama é uma das contingências da vida a que muitas vezes não conseguimos escapar. Mas não brinquem com a vida e o equilíbrio psicológico de crianças. Chamem-me preconceituoso, se quiserem, mas eu sei que não é um preconceito o que me levou a manifestar-me.

  7. Rogério Monteiro

    Nuno Cardoso da Silva, estou 100% de acordo com o que disse.
    Felizmente ainda há portugueses sem medo de chamar os bois pelo nome.

  8. NL

    «E acabo esclarecendo porque não me apeteceu vir aqui zurzir nos ‘tolerantes’ e ‘progressistas’. No fundo eu compreendo-os. Na adolescência eu era igualzinha, sempre pronta a ver o mal naqueles mais conservadores do que eu. Depois cresci.»

    Cresceu. mas o esquema de pensamento permanece. Apenas substituiu o “mais” («pronta a ver o mal naqueles mais conservadores do que eu) por “menos”.

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