Reestruturar o dinheiro dos depósitos

A propósito de mais um manifesto a propôr a reestruturação da dívida portuguesa, convém recordar as implicações exactas desta pretensão. Para tal é necessário relembrar um dos efeitos menos discutidos da intervenção da troika: a alteração no perfil dos credores de dívida pública portuguesa nos últimos 3 anos. Nos últimos 3 anos de intervenção da troika, bancos e fundos estrangeirso reduziram a sua exposição relativa à dívida portuguesa, sendo estes credores substituidos por bancos portugueses e pela Troika. Por outro lado, a dívida à Troika é dívida sénior, ou seja, num cenário de reestruturação, a troika terá prioridade sobre os restantes credores. Esta alteração do perfil dos credores não aconteceu por acaso: foi organizada para dissuadir futuros governos da ideia da reestruturação da dívida, aumentando o custo político e económico para o país de tal decisão.
Ou seja, num cenário de reestruturação da dívida quem seria mais afectado seria a banca nacional. Quase toda a dor da reestruturação cairia sobre os bancos portugueses, ainda fragilizados da crise anterior. Neste cenário, o estado português, estando em situação de default, não poderia ajudar na recapitalização da banca, deixando os bancos apenas com uma opção: a apropriação dos depósitos. Como os depósitos não segurados, acima de 100 mil euros, não seriam suficientes para cobrir o buraco, o mais provável seria que a apropriação fosse feita a níveis bastante mais baixos (10-20 mil euros), ainda que de forma progressiva.
A segunda alternativa seria o governo desrespeitar a senhoridade da dívida, numa afronta ao BCE, FMI e Comissão Europeia. Neste caso, a Troika também seria afectada pela reestruturação, aliviando o impacto nos bancos. Neste cenário seria possível que não houvesse uma apropriação de depósitos numa primeira fase, mas o mais provável era que este cenário de quebra de compromisso com o BCE correspondesse também a uma saída do Euro. Com uma saída do Euro, os depósitos, todos os depósitos independentemente do valor, fossem convertidos para a nova moeda, sofrendo uma imediata desvalorização.
Finalmente, existiria um cenário em que a Troika aceitaria de livre vontade abdicar da condição de senhoridade da sua dívida, participando na reestruturação de dívida em condições semelhantes aos restantes credores. Esta boa-vontade não viria, claro, de borla, mais não fosse do que pela humilhação que os representantes da troika teriam que passar ao aceitar uma perda num país que passou todas as suas avaliações. Neste caso, a troika dificilmente estaria disponível a voltar a ajudar o país sem recurso primeiro à solução Chipre, ou seja, a apropriação dos depósitos. Esta solução já tem sido discutida e aceite pelos líderes europeus como modelo para futuros resgates e seria provavelmente o utilizado neste caso.
Em resumo, existem três potenciais prejudicados pela reestruturação da dívida portuguesa: os depositantes, os depositantes ou os depositantes. Noutros tempos poderiam ter sido as pernas dos banqueiros alemães a tremer perante a perspectiva da reestruturação da dívida, hoje só tremerão as pernas daqueles que vão tendo depósitos nos bancos portugueses. Seria bastante interessante então saber onde têm as suas poupanças os assinantes do manifesto pela reestruturação da dívida portuguesa.

22 pensamentos sobre “Reestruturar o dinheiro dos depósitos

  1. Pingback: Explicando o manifesto | BLASFÉMIAS

  2. foobarpt

    O que eu acho incrível é continuarem a quererem comparar uma Alemanha Nazi a um Portugal democrático para ver se apelam ao coração alemão.

    Qual o cenário mais realista? Uma extensão das maturidades?

  3. Luís Lavoura

    o mais provável era que este cenário de quebra de compromisso com o BCE correspondesse também a uma saída do Euro

    Não vejo bem por quê. Poderia o Carlos explicar?

    É que, a moeda que se utiliza em Portugal é decisão dos portugueses. Nenhum país ou instituição estrangeira nos pode proibir de utilizar o euro como moeda, ou então de utilizar uma moeda com denominação diferente mas indexada ao euro. Muitos países utilizam, ou utilizaram no passado, soluções desse tipo. Por exemplo, até há pouco tempo a Letónia tinha moeda nominalmente própria mas na prática indexada ao euro.

  4. joshua

    Muito bom post que torna cristalino para que tipo de beco os socialistas e estes setenta e um dálmatas do Manifesto nos atirariam.

  5. Luís Lavoura

    existem três potenciais prejudicados pela reestruturação da dívida portuguesa: os depositantes, os depositantes ou os depositantes

    Quer isto dizer que todos os portugueses – incluindo a maior parte deles, que nada de jeito tem em matéria de depósitos bancários – devem ser sacrificados – nomeadamente nos sistemas de saúde e de educação – para que apenas uma minoria privilegiada de portugueses, aqueles que têm poupanças nos bancos, não as percam. É isso?

  6. Rui

    “Esta alteração do perfil dos credores não aconteceu por acaso: foi organizada para dissuadir futuros governos da ideia da reestruturação da dívida, aumentando o custo político e económico para o país de tal decisão.”
    Pois não aconteceu por acaso não. E deu muito jeito aos bancos credores… Mas na altura ninguém discutiu isto fascinados que estavam com a essência purificadora da austeridade…

    “deixando os bancos apenas com uma opção: a apropriação dos depósitos.”
    Em tudo na vida há sempre alternativas. Ainda por cima temos a Nova Business School que é uma escola de topo de gestão a nível internacional (certificada pelo ranking do Finantial Times). de certeza que arranjam qqer coisa.

  7. Joaquim Carreira Tapadinhas

    Para evitar mais rodriguinhos, o melhor será “nacionalizar” os depósitos à ordem dos cidadãos, individualmente, deixando livres desse abocanhar os das empresas e os depósitos nas off shores. Debaixo das pontes ainda há espaço suficiente para albergar muitos milhares de portugueses.

  8. Pingback: O manifesto da descoberta da roda – Aventar

  9. # Luís Lavoura “para que apenas uma minoria privilegiada de portugueses, aqueles que têm poupanças nos bancos, não as percam.”
    Todo um programa numa única frase. Para si ter poupanças nos bancos é por si só um privilégio e como tal é dispensável. Pouco importa como essa poupança foi amealhada e ainda menos se foi obtida a trabalhar honestamente. Quem não se endividou e trabalhou para poupar, vai agora pagar mais uma vez pelos erros dos irresponsáveis do costume.

  10. Rogerio Alves

    Aprecio, como sempre, os posts, sempre bem escritos e coerentes e bem informativos, do Carlos Guimarães Pinto…

  11. Rogerio Alves

    Não sou muito apologista dos “reductios ad coreia-do-nortum”, mas, desta vez, parece-me apropriado supor que o Luís Lavoura aprecia particularmente o regime norte-coreano onde praticamente não há minorias privilegiadas com depósitos bancários…

  12. LIBERTAS

    Para o Luís Lavoura um tipo que poupa, em vez de gastar o que tem e o que não tem, é um indigno privilegiado que merece ter punido sem compaixão.

  13. Luís Lavoura

    o Luís Lavoura aprecia particularmente o regime norte-coreano onde praticamente não há minorias privilegiadas com depósitos bancários

    Nem eu aprecio o regime norte-coreano, nem é verdade que nesse regime não haja minorias privilegiadas.

  14. Luís Lavoura

    Para o Luís Lavoura um tipo que poupa, em vez de gastar o que tem e o que não tem, é um indigno privilegiado

    Eu não usei a palavra “indigno” nem nenhuma palavra equivalente.

    É privilegiado em relação ao comum dos concidadãos, que não têm o suficiente para se permitirem poupar.

  15. Pedro Ramalho Carlos

    Luís Lavoura pergunta: “Todos os os portugueses […] devem ser sacrificados – nomeadamente nos sistemas de saúde e de educação – para que apenas uma minoria privilegiada de portugueses, aqueles que têm poupanças nos bancos, não as percam. É isso?”

    Não me parece! Julgo ser mais importante desmantelar alguns dos privilégios da minoria de interesses privados nos sistemas de saúde e de educação (professores, médicos, enfermeiros, etc.) que vivem em regime de quase monopólio, porque é essencial respeitar os princípios mais básicos da Liberdade e do Rule of Law – nomeadamente protegendo aqueles que ao longo da sua vida pouparam (eventualmente porque não acreditaram nas patranhas dos políticos que lhes prometiam sistemas sociais insustentáveis).

    Mas não se preocupe Luís, pois os que têm poupanças já perceberam o que tinham a perceber e já as puseram no colchão ou noutras paragens mais respiráveis protegidas da classe política estatizante portuguesa (do CDS ao BE), para quem a construção do caminho para uma sociedade socialista é mais importante que a Liberdade. E o Luís ajuda a perceber como eles têm razão.

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