Obama, o presidente ‘I didn´t see that coming’

Em 2008, durante as primárias democratas e durante a campanha para as presidenciais, pasmei-me várias vezes com a forma como se levava a sério Obama. O homem pouco tinha feito na vida além de ter sido uma coisa misteriosa que dava pelo nome de ‘organizador social’. A carreira política era curta (não lhe dera tempo para fazer muitos inimigos, o que lhe foi benéfico) e, para quem se desse ao trabalho de a analisar, sem qualquer rasgo que prometesse genialidade. As únicas qualidades que o tornavam (é como quem diz) adequado para candidato presidencial eram a sua arrogância desmedida (que o fazem acreditar-se esclarecido e sem necessidade de contributos alheios e que foi muito bem descrita por Palin: Obama era uma pessoa que já tinha escrito duas autobiografias e nem uma peça de legislação) e a capacidade retórica. Como se as pessoas – as comuns e os candidatos a presidente – não devessem ser julgadas pelo atos (que mostram, esses sim, os nossos objetivos, aquilo que valorizamos e com que nos comprometemos, quem apreciamos, as companhias políticas, sociais, whatever que de facto queremos ter, o que se pode esperar de nós,…) em vez de pelas palavras, que são quantas vezes sonsas e hipócritas (porque são fáceis e comprometem-nos pouco, mesmo quando são ditas num rally). E eu pasmava sobretudo por haver tanta gente que não visse o risco enorme que era ter aquela pessoa arrogante e inexperiente como, como os filmes e séries gostam de categorizar o presidente americano, ‘o líder do mundo livre’ – o homem mais poderoso do mundo. A visão do mundo de Obama era claramente uma visão quase exclusiva de culpas americanas, sobranceria imperialista americana, incompreensão de culturas e regimes alheios pelos Estados Unidos e por aí fora. Um cantor americano ou um ator de Hollywood que de vez em quando fossem beber um whisky com Chavez não teriam opiniões muito diferentes. Obama, antes do cataclismo Lehman Brothers, era o candidato preferido dos eleitores que declaravam como prioridades para a sua escolha de voto o aquecimento global e a contestação à guerra do Iraque. (Os que ligavam mais aos problemas económicos preferiam a Hillary.) A sua eleição foi uma espécie de Mr Smith Goes to Washington, mas em mau.

Obama presidente, em termos de política externa, foi tudo o que qualquer pessoa que não alucina só com discursos previa que fosse. Começou por um discurso vergonhoso no Cairo, para dar graxas aos muçulmanos, e por uma mensagem de ano novo aos iranianos. Ninguém lhe ligou nenhuma, exceto os enamorados ocidentais que categorizaram o discurso de ‘histórico’ ainda antes de ser proferido e a mensagem ao Irão como pouco menos que a solução para a paz mundial. Quando Ahmadinejad ‘venceu’ nas penúltimas eleições presidenciais iranianas e estalou a revolta, Obama foi apanhado totalmente desprevenido, reagiu como barata tonta e bastante desagrado com aqueles eleitores iranianos que não se vergavam ao seu argumento de que o problema do Irão são uns Estados Unidos mauzões. Nas primaveras árabes, mais uma vez Obama não fazia ideia do que se avizinhava e não se apercebeu de todo que aquilo descambaria num inverno gelado (e havia sinais, desde logo os associados ao fair sex). Depois veio o martírio da Síria, a que Obama foi reagindo de uma forma que seria risível se não se contassem já tantos mortos, feridos e refugiados. Talvez nunca se venha a saber se seria possível ter feito algo que tornasse os últimos anos da Síria diferentes, mas o certo é que Obama deixou que a oposição síria fosse tomada de assalto por radicais islâmicos e, agora, a população do país apenas tem alternativas muito más ou alternativas ainda piores. Por fim, chegamos à Rússia, o país a quem Obama prometia ser mais compreensivo, por ter mais margem de manobra, depois das eleições de 2012. A Rússia, que Obama aproveitou para gozar com Mitt Romney, durante a campanha eleitoral de 2012, quando este alertava para as ambições gulosas de Putin. Para Obama tudo foi uma surpresa: a revolta ucraniana e a tomada da Crimeia pela Rússia (apesar de a Crimeia ter a base da frota russa do Mar Negro, de ter sido parte da Rússia até aos anos 50 do século XX, de ter maioritariamente russos, de ser uma república autónoma dentro da Ucrânia e de se discutir desde a queda soviética se a Crimeia devia ou não ser independente da Ucrânia).

Obama não percebe o mundo: não só não o antecipa como nem lhe sabe responder. Mas não faz mal, afinal tivemos grandes discursos.

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21 pensamentos sobre “Obama, o presidente ‘I didn´t see that coming’

  1. Nuno Cardoso da Silva

    O legado mais importante de Obama vai ser o ter provado que um Presidente afro-americano pode ser tão mau como um Presidente WASP. A questão da raça nunca mais vai aparecer nas eleições presidenciais nos EUA.

  2. ant

    Este é o presidente que ” não sabia “. Já quando se descobriu o escândalo da perseguição do IRS a opositores republicanos, não sabia de nada. Quando jornalistas críticos da administração viram as contas de emails e telefones gravados pelos serviços segurança, também não sabia de nada. Com o escândalo do ataque à embaixada Libia e das mentiras da administração, tb não sabia de nada.O homem vive num mundo de fadas e é sempre o ultimo a descobrir a realidade. Que a América é um país com um líder fraco é uma verdade indesmentível. Infelizmente para os Eua e para a Europa.

  3. Maria João Marques

    Nuno, sim, o único ponto positivo da presidência de Obama foi precisamente esse de ter permitido uma certa redenção dos americanos pelo seu passado (ou dos seus antepassados) esclavagista ou de diminuição dos direitos dos negros no sul.

    Ant, claro, eu fiquei-me pelas questões externas, mas internamente Obama também é muito ingénuo, é sempre o último a saber de tudo o que de mal se passa.

  4. povão

    Sem ofensa , já li isto (não é plágio) num critico americano aquando da primeira eleição …
    A final , lá como cá !!!

  5. Cfe

    Cara Maria João,

    Peço-lhe uns minutos para assistir ao seguinte vídeo:

    É sobre o poder de Cuba sobre a Venezuela.

    Obrigado

    Cfe

  6. “As únicas qualidades que o tornavam (é como quem diz) adequado para candidato (…) eram a sua arrogância desmedida”. — Esta e outras passagens fizeram-me lembrar uma outra personagem também “arrogante e inexperiente”…

  7. JSP

    Permita-me uma ( só aparentemente…) provocação : a América , ao deixar de ser WASP, deixou de ser Amériac – “for good”…

  8. Rui

    essa visão de que o Presidente americano é responsável por tudo o que acontece no mundo…
    E a crise da europa não terá sido também culpa do Obama? E já agora a central de Fukushima…

    Então e a culpa disso tudo é do Obama porquê? Ele é o presidente do mundo? Então e a união europeia? O Durão Barroso? O tipo que manda na china? O SHinzo Abe são menos responsáveis que o Obama? Porquê?

  9. António

    cara Maria João,
    tenho pena de, nas primárias democráticas, Hillary Clinton não o ter vencido, Depois de oito anos de Bush (como é possível ter chegado a presidente e mais ainda ter derrotado Al Gore!!!) e perante a alternativas, creio que a eleição de Obama foi um mal menor. Apesar de tudo e dos obstáculos republicanos, valeu o princípio do Obamacare, o qual vai em sentido oposto ao que se vai fazendo na Europa!
    A grande pedra do sapato, apesar de tudo, chama-se Guantanamo!

  10. JP Ribeiro

    Todos sabiam que o Obama pela sua nulidade ia ser um segundo Carter. Excepto os sofisticados intelectuais dos media que controlam a opinião publica, e que o elegeram. Mas o que é que o Obama tem a ver com a Crimeia? Está-se uma vez mais a seguir as opiniões guerreiras do NY Times ou do W. Post – que até afirma que a Crimeia está no coração da Europa? Critica-se Washington por imperialmente se intrometer na vida dos outros e depois critica-se quando o não faz? A Crimeia tem em primeiro lugar quer ver com a Ucrania, em segundo lugar com a Russia (60% da população é russa e até pouco foi território russo) e em terceiro e ultimo lugar com a Europa, e só e apenas porque faz fronteira com países europeus. Obama e os EUA deviam-se manter ao largo. Tal qual como a China ou a UE. Leio hoje que a UE vai emprestar 11 mil milhões à Ucrania, um país que tem um historial de não pagar. Dir-se-ia que está tudo doido, mas na verdade trata-se de uma cambada de malandros incompetentes e corruptos que nos sugam de impostos que eles próprios não pagam. Por muito menos que isso acabou o império romano…

  11. paam

    O Obama não fez, não faz e nada fará por si próprio. Não passa de um fantoche colocado e apoiado por lóbis para defender os seus interesses. Espanta-me que se analisem os seus actos como sendo pessoais. Algumas pessoas ainda não perceberam que a politica real não se faz em frente das cameras de televisão.

  12. Maria João Marques

    Há alguns comentadores aqui no Insurgente que eu me questiono se sabem ler.

    Rui, mas quem disse que a crise na Crimeia é culpa de Obama?! E o que interessa isso?

    JPRibeiro, não sei bem onde leu que eu acho que os EUA deveriam provocar uma guerra à conta da Crimeia. Ou o que eu penso sobre as várias soluções possíveis para a Crimeia ou para a Ucrânia. Estava convencida que o meu post era sobre outra coisa, veja lá bem.

  13. lucklucky

    Obama foi eleito da visão neo-marxista do mundo partilhada por inúmeros jornalistas que o capitalismo e o homem branco de direita é o culpado dos males do mundo, sem claro abdicarem dos Ipads, Macs e Christian Louboutin…

    Já há muito deveria ter sido destituído pelo caso das armas para os carteís Mexicanos e pelo o uso da força do IRS contra os Americanos discordantes da sua política que nega todos os princípios da Democracia e Liberdade.

    A principal responsável do IRS pela perseguição ao Tea Party – Lois Lerner – acabou outra vez de requerer a protecção da 5ºEmenda para não falar sobre o caso.

    “valeu o princípio do Obamacare”
    Não tem mesmo noção do que fala, vê-se que deve ler sobre o caso nos jornais tugas…
    Obamacare é um crime.
    Um sistema politicamente corrupto – provavelmente desenhado assim- em que a Adm. Obama já deu inúmeras excepções a milhares de empresas e organizações.
    Nem deve saber da Mentira sobre se as pessoas poderiam manter os seus planos. “You can keep your plan if you want” Resultado da destruição provocada pelo Obamacare milhões que tinham um plano perderam e muitos não puderam ter novo plano com as mesmas condições porque os preços dispararam.
    Mais de 50% das pessoas que não têm seguro dizem que é uma má lei.

    E estes acordaram mas deve ser sol de pouca dura: President Obama’s foreign policy is based on fantasy
    http://www.washingtonpost.com/opinions/president-obamas-foreign-policy-is-based-on-fantasy/2014/03/02/c7854436-a238-11e3-a5fa-55f0c77bf39c_allComments.html?ctab=all_&

  14. JSP

    Esse tipo é, em partes não completamente desiguais,um sub-produto do polìticamente correcto, do relativismo cultural e , last but not the least, do circo hollyoodesco que promove e veicula os anteriores.
    Se , por uma vez, evitarmos a hipocrisia ( difícil, muito difícil…) podemos “imaginar” ( e aqui estou a ser hipócrita) o alívio e satisfação de Pequim e Moscovo logo em 2008 .
    renovados, “et pour cause” , quatro anos depois…
    Czares e Imperadores não t^m, não podem ter, entendimentos “alternativos” da geopolítica, e recusam-lhe todo e quaiquer cromatismo…

  15. O Obama começou por ser o D. Sebastião esperado e desejado dum certo conceito fantasioso de “américa boa”. Depois foi sendo engolido pela realidade, aqui se distanciando daquilo que se espera do líder: aquele que produz a realidade… E agora, cansado, diminuído, frouxo, está a brincar com o Putin ao jogo perigoso de “a minha legitimidade é mais legítima do que a tua”. Como seria de esperar o rebanho europeu acompanha-lhe o passo.
    E como actualmente a lógica organizada e certinha do “direira/esquerda”, “comunismo/capitalismo”, “democracia/totalitarismo” já não servem para nada, ainda nos arriscamos a arranjar um grande trinta e um por causa de “peanuts”…

  16. Maria João Marques

    Fico muito desapontada se não tiver já um dossier de grossura razoável na NSA 🙂

  17. JS

    Obama, di-lo na sua autobiografia, teve uma infância e uma juventude invulgares. Mestiço principalmente criado pelos avós maternos, brancos, numa zona dos EUA aonde havia poucos “coloreds”. “The odd guy”.
    O pai, negro, ausente, político do anti-colonialismo, idolatrado à distãncia.
    A mãe militava numa esquerda então tolerada, e obrigava o jóvem Obama a ler alto … a ler alto … a todo e qualquer momento. A métrica e a sonoridade assim adquiridas foram sempre o seu melhor trunfo desde os anos da Universidade. Não se julgue, no entanto que é parvo. Aliás sempre pelejou, com méritos, pelos seus ideais.

    Quem completou a sua formação politica, e o guindou para essa carreira, os seus mentores, foram, é, um grupo da esquerda militante, declaradamente socialista, nos EUA.

    É essa esquerda, e os seus anacrónicos sonhos, que ainda hoje puxam os cordelinhos que fazem mexer o tribuno. Vai falhar. Será uma vacina ou um desastre irremediável para os EUA?.

  18. Pingback: Tentações cinematográficas | O Insurgente

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