Um Portugal sem bebés e com um Estado matulão

Para recordar que no Insurgente há sempre espaço para as divergências, não resisto a discordar daquilo que a Maria João argumentou neste texto. Quando o assunto é a evolução da natalidade e a transformação da estrutura familiar, aparece sempre quem comece por perguntar se já fomos mães/pais e se a nossa prole é muito ou pouco numerosa. Asseguro-vos da minha parte (embora não tenha problema em responder à pergunta) que a experiência pessoal em certos assuntos é completamente acessória e irrelevante para o caso e, se existe desafio urgente que deveria motivar um esforço de compreensão e de distanciamento pessoal, esse desafio é o da baixa taxa de natalidade. A Maria João reconhece que estamos perante um problema do país – seria estranho se não houvesse consenso nessa constatação. Contudo, começa logo por dizer que ninguém deve fazer juízos de valor relativamente às opções de cada um.

Não sei até que ponto as famílias numerosas não serão o principal alvo da maioria dos juízos de valor no dia-a-dia. Quando determinada família tem muitos filhos, é fácil associar-lhe rótulos pejorativos: “aqueles devem dormir em paletes lá em casa”; “olha, mais um casal de beatos que não sabe o que são contraceptivos”; “já anda prenha outra vez, vai fazer concorrência com a Parmalat … parecem coelhos”; “lá vem outro, para começar a trabalhar para a casa”.

Isto para dizer que os tais “juízos de valor” não surgem por acaso (e não são inocentes), assim como não é por acaso que o paradigma vigente de preferência por ter filho único é acomodado por toda uma cultura que enfatiza os custos dos filhos “à peça”, promovendo uma concepção de felicidade dependente do mimo em regime de exclusividade e da competição pela vanguarda material entre amiguinhos. É isso que o Henrique Raposo aborda aqui e, desta vez, eu nem vejo por onde será possível discordar: A obsessão em cobrir o primeiro filho com mirra e ouro está a matar-nos, literal e metaforicamente falando. Se não anularmos esta cultura de filho único, se não arrebitarmos a curva da natalidade, o nosso futuro será negro e a falta de dinheiro para reformas até nem será o problema principal.

Nestes moldes que predominam na actualidade, torna-se muito complicado para algumas pessoas compreender a divisão de recursos, de tarefas e de responsabilidade que caracteriza a dinâmica familiar e reconhecer que certos custos vão sendo amenizados conforme o número de filhos vai aumentando. Não sou eu que digo; no longo e interessante artigo “Why having big families is good for you (and cheaper)”, podem ler o testemunho de um casal que teve seis filhos e que garante não se ter arrependendido. E uma família, para além das virtudes orgânicas internas, não é uma ilha pois todos ganham com esta estabilidade, segurança, solidez da responsabilidade paternal de longo prazo, propensão maior para a poupança, etc. E para os ambientalistas ferrenhos fica o recado: até o planeta agradece! Já imaginaram os custos do vosso nível de vida se os elementos da vossa família vivessem em casas separadas? Se continuar a persistir uma cultura de desresponsabilização pessoal perante as tendências demográficas que têm avançado no terreno, no nosso futuro vão predominar as aglomerações urbanas habitadas por uma população idosa envolta do seu aquecimento central – comprado ainda no tempo em que ser uma família unipessoal era um orgulho – solitários, sem pensão, sem poupanças, a merecer tão pouca solidariedade dos filhos como a que lhes concederam na infância, e a gozar de uma longevidade alargada diante de uma programação variada que vai ambientar tantas mortes anónimas no silêncio dos apartamentos. Estou a pintar o quadro com um tom demasiado negro? Se não existir uma mudança de atitude, duvido que o meu tom seja exagerado. Naturalmente, os problemas demográficos não se resolvem por decreto. A própria sociedade será forçada a bater na parede e a repensar os esquemas em que resolve os problemas mais elementares da sua vida.

Voltando ao texto da Maria João: regresso às condições financeiras das famílias, num país onde o ordenado médio não chega a mil euros. Neste contexto, parece-me um exercício de diletantismo olhar para qualquer causa da baixa natalidade que não a fragilidade económica das famílias.

Se é um exercício de diletantismo ir para além das razões financeiras, aqui me assumo uma diletante por perder algum do meu tempo a olhar para estas tendências de uma forma alargada, no tempo e no espaço, achando ser evidente que esta fragmentação da família anda a par da multiplicação de incentivos perniciosos que partem do Estado e que favorecem a perpetuação de situações de dependência e fraude endémica. Se não fossem transformações amplas e graves, não mereceriam até a atenção das projecções da OCDE.

A inquietação com a baixa taxa de natalidade não é uma mera preocupação estatística, enfatizada por gente retrógrada, pessimista e inconformada com o espírito dos tempos. As estatísticas são somente um pequeno reflexo dos fenómenos sociais maiores que têm encaminhado a sociedade para um abismo em que o único a lucrar é o Estado centralizador que encontra oportunidade de ouro para amparar todas as gerações, desde o bebé ao avô, com pacotes específicos para todas as inseguranças e fragilidades que se multiplicam.

Por fim, deixo um vídeo que não é sobre a realidade portuguesa mas anda lá perto.

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41 thoughts on “Um Portugal sem bebés e com um Estado matulão

  1. ShakaZoulou

    Os lares estão cheios de idosos gratos aos filhos e aos netos pelas visitas semanais de meia hora

  2. Nuno Cardoso da Silva

    Movimentando-me eu pelas esquerdas fico por vezes com a impressão de que a relutância da esquerda em tocar no problema da natalidade deriva do receio de que qualquer política de natalidade vá tocar na sua sacrossanta IVG, para utilizar o eufemismo politicamente correcto. Há em certa esquerda uma cultura tão enraizada de morte que a torna incapaz de pensar no problema demográfico. Recentemente chamei a atenção, no Facebook, para a necessidade de se reflectir sobre o facto de que há mulheres que abortam quando quereriam ter os filhos, mas recorrem à IVG apenas por razões de presumida incapacidade económica para os sustentar. O que contraria a ideia de que a mulher é que decide, pois a decisão nestes casos não é da mulher mas da pobreza e de quem a coloca nessa situação. Pois não tive um único comentário a esta minha reflexão, porque de maneira alguma se quer abrir a porta a políticas que possam levar as mulheres a desistir da IVG. Confesso que não consigo perceber esta obsessão de alguns por uma coisa que pode ser legítima em certas circunstâncias mas que é sempre de lamentar. Se eu fosse religioso diria que está ali o dedo do “Canhoto”…

  3. tina

    Eu tenho uma abordagem filosófica sobre isto. A população europeia tem poucos filhos pelas opções de vida que foram tomando ao longo dos tempos: mudaram-se para as cidades, no casal ambos trabalham, a falta de espaço e tempo e o trabalho excessivo ainda contam mais do que a falta de dinheiro quando se equaciona a possibilidade de ter outro filho. Neste cenário, o casal conta mais do que a sua descendência, começando até pelo facto de o filho único ter uma vida solitária. O preço a pagar por essa opção egoísta é o fim da sua etnia, que acabará por ser substituída aos poucos pelas etnias dos imigrantes.

  4. tina

    De toda a maneira, seria necessário ter mais de 2 filhos em média para a espécie sobreviver, por isso está mesmo condenada ao desaparecimento.

  5. HO

    Muito bom post. O Nicholas Eberstadt da AEI tem publicado coisas interessantes sobre a matéria; o video é baseado nisso mas vale a pena ir à fonte.

    Nota bene: o argumento castigador não é necessariamente o mais persuasivo. Um “Estou a pintar o quadro com um tom demasiado cor-de-rosa?” implicaria, julgo, um argumento mais convincente. Há excelentes razões positivas para defender o aumento da natalidade e a fúria procriadora. Não só de natureza privada -as pessoas com múltiplos filhos são mais felizes, controlando para outros factores e, tal como diz o artigo linkado, os filhos adicionais têm um custo marginal decrescente – como, para quem gaste, de bem comum e muito para lá do paroquialismo da segurança social: Malthus não se enganou somente nas contas e previsões; os seres humanos são o mais valioso dos recursos económicos, o “ultimate resource” para utilizar a expressão do Julian Simon. Como ele explicou, no longo prazo a prosperidade reduz-se à fecundidade. Em sociedades afluentes, a multiplicação da canalha é um negócio da China (no pun intended): felicidade privada e externalidades positivas a preços módicos.

  6. povão

    Mas agora que Portugal está em vias de extinção por falta de natalidade é que enveredam por este caminho do abominável aborto e subsidio pagos com impostos e em prejuízo de doentes graves e ainda os folclóricos casamentos gays ?
    Heterofóbicos e estereis !!!

  7. macamelo

    O estado eh o pincipal interessado neste estado de coisas. Eh nele que justifica o crescimento da intervenção

  8. lucklucky

    Bom.

    Confesso que me surpreenderam argumentos da Maria João que podem ser rebatidos só de olhar para a taxa de natalidade vs rendimento.

    Numa altura em que estamos mais ricos que nunca(tirando o topo da dívida), onde os contribuintes ricos pagam maioritáriamente uma data de coisas – escola publica etc- é que se escolhe como argumento os baixos rendimento?

    Por esta ordem de ideias nunca teriam nascido crianças no passado.

    A questão é

    -As pessoas cada vez menos aceitam a incerteza, querem segurança. Daí nasceu o Estado Social.
    E uma criança é mais um risco.
    Uma criança é o contrário da cultura dominante, das zero falhas, da perfeição.
    Uma criança expõe. É mais algo onde se pode falhar.

    -Pessoas com crianças para terem menos incertezas, investem fortemente na criança fazendo disparar os custos.

    -E neste caldo da marcação social tuga se forma uma cultura igualitarista de que só se é bom Pai/Mãe se a criança tiver determinadas coisas/actividades etc…

  9. Miguel

    “De toda a maneira, seria necessário ter mais de 2 filhos em média para a espécie sobreviver, por isso está mesmo condenada ao desaparecimento.”

    Poderíamos abordar a expressão “progressão geométrica” com a constante 1/2 para perceber que a afirmação só é verdadeira se a humanidade chegar ao último par (homem&mulher) daqui a muuuuitas gerações de filho único.

    Adiante..

    É redutor (e um tiro ao lado) argumentar contra a IVG pelo lado dessa suposta “crise de natalidade” pois transforma uma pessoa (embrião) num número de estatística.

  10. ShakaZoulou

    Em relação ao comentário da Tina, os seres humanos e as baratas são as duas espécies animais mais longe da extinção

  11. José Maia

    Tempos houve em que existiam hortas e quintais com galinhas, coelhos e legumes vários. Nesses tempos, as famílias numerosas eram o modelo normal. E era normal também que dois ou três filhos acabassem por morrer na infância. Se analisarmos bem a situação das famílias numerosas hoje, tempo em que tudo tem que ser pago do bolso, vamos ver que há sempre uma almofada qualquer – uma espécie de segurança social em privado – que não abrange o comum dos mortais. Ainda bem para elas. Se vivessem nos anos 40 ou 50, tempo em que esse conceito era perfeitamente banal, como poderiam fazer o seu show de segregação cagona, reunindo-se em pavilhões à maneira de uma exibição de pássaros exóticos?

    Mais, não percebo essa relação de antagonismo que diz existir entre Estado e família. Esses mesmos bens materiais com os quais se entretêm crianças e jovens mimados, não são eles produtos do capitalismo? Não é de facto propositada a estimulação desse consumismo juvenil e infantil para o sucesso das empresas? Não é grande parte desse sucesso feito a partir da exploração e até da criação mediática de preconceitos, necessidades e desejos individuais? Não são esses desejos sempre crescentes, a ponto de obviamente extravasarem para domínios como a sexualidade, a violência e a gula alarve? Lembre-se que o capitalismo não vive de gente desprovida de cobiça e satisfeita com padrões modestos.
    Se quiser, pesquise no You Tube pelo documentário da BBC “The Century of Self”, talvez fique mais elucidada.

  12. O problema da baixa natalidade pouco tem a ver com a condição económica. As pessoas é que não querem chatices. Preferem, por isso, ter um ou vários cães. Pelo menos sempre os podem abandonar quando se aborrecem. É ver os ciganos com filhos às meias dúzias ou “pobrezinhos” a passear rotwielers…

  13. Daniela Silva

    E pronto. Como eu comecei por dizer no texto, é muito fácil cair na caricatura e nos pejorativos. Porque isto de ter mais do que 2 filhos só pode ser obra de casais desorganizados e iletrados que querem pôr os filhos a trabalhar desde tenra idade. Portanto, de um lado temos os casais (de preferência divorciados para os filhos poderem ir de férias duas vezes por ano) com 1 ou 2 filhos a oferecer educação, conforto e lazer de excelência e, no outro extremo, temos as famílias na miséria e os ciganos. Procriar é coisa de países de terceiro mundo ou do tempo das hortas dos nossos avós. Fiquei esclarecida.

  14. jo

    A população mundial está a crescer exponencialmente. Se for ver os censos de população vai descobrir que a população portuguesa cresceu de seis milhões para 10 milhões no século XX. É rematadamente idiota estar com medo do desaparecimento da população.

  15. Daniela Silva

    jo, É remotamente idiota olhar para esses 10 milhões e não analisar pirâmides etárias. E ainda mais inútil é falar em população mundial para resolver problemas que são nacionais (e europeus). Eu não falei em “desaparecimento da população”. Isso é só depois do grande Armageddom.

  16. tina

    “Em relação ao comentário da Tina, os seres humanos e as baratas são as duas espécies animais mais longe da extinção”

    Interessante, nunca imaginei ter algo em comum com uma barata. Agora já sei. Quando disse espécie, referia-me às populações com tendência de crescimento negativa.

  17. Daniela Silva

    Bom vídeo, Miguel. Obrigada.

    Tina, a parte de “fazer um desenho” era ironia para picar os maus entendedores. Não era para si. Mas obrigada também.

  18. lucklucky

    “Mais, não percebo essa relação de antagonismo que diz existir entre Estado e família.”

    Começa pelo Poder. O Estado tem cada vez mais poder sobre as crianças.
    Os Estado é anti-família. Como aliás se vê pelo aborto subsidiado, pela Escola Publica instrumento totalitário para tornar todas as crianças iguais.

    Com a cumplicidade dos partidos da chamada direita: CDS e PSD.

  19. rmg

    O ShakaZoulou já tinha mostrado lá em cima que não tem filhos : ou porque não os tem mesmo ou porque eles não querem saber dele para nada .
    Casos desses não faltam e a culpa não é necessáriamente da ingratidão dos filhos , bastas vezes muito pelo contrário (um amigo meu de 65 anos acaba de recolher em casa o pai que o abandonou quando ele tinha 15 anos e nem o ajudou a criar , tinha mais em que gastar o dinheiro …).

    Portanto quando fala de seres humanos e baratas já estávamos esclarecidos de muita coisa, nomeadamente que para ele a natalidade em Portugal não é um problema porque nasce muita gente na Índia .

    Quanto ao comentário do “jo” vem na mesma linha lógica indestrutível mas em termos caseiros : não há problema que a população não cresça agora porque cresceu muito há 60 ou 70 anos , só faltou dizer que essa gente anda toda por aí bem saudável e a trabalhar em grande , altamente produtiva e sem precisar de cuidados de saúde .

    Coisas inteligentes e próprias de “velhos” que sabem que para lhes pagar as reformas ainda vai haver aí uns tipos novos a trabalhar e a descontar balúrdios , quem vier a seguir que se lixe .
    E são os mesmos que fazem discursos apaixonados em defesa de tudo e mais alguma coisa que cheire a direitos adquiridos (os deles , claro) .

  20. ShakaZoulou

    A semelhança que os humanos e as baratas partilham é a capacidade de sobrevivência e adaptação, a diferença é de que as baratas têm essa capacidade apenas a nível físico, enquanto os humanos são extraordinários também na adaptação cultural e intelectual. Já na idade média a aristocracia portuguesa tinha mais ligações culturais à restante aristocracia europeia do que em relação ao povo português,como na actualidade, muito devido à globalização, os adolecescentes de diferentes nacionalidades têm mais ligações culturais entre eles do que em relação às pessoas de outras gerações da mesma nacionalidade, assim como os portugueses vivos têm maior maior ligação cultural a outros povos vivos do que em relação aos portugueses já falecidos à séculos atrás. Muita da cultura portuguesa poderá morrer ou evoluir, não devido à falta de nascimento de portugueses, mas principalmente a alteração de mentalidades.
    Não consigo compreender qual é o problema do declínio na população nascida dentro das fronteiras que definem Portugal, desde que globalmente o numero de pessoas que respeitem a declaração universal dos direitos humanos cresça, tanto devido a nascimento de pessoas mais lúcidas como devido a mudanças de mentalidades.

  21. ShakaZoulou

    Defendo que cada pessoa seja responsável por si própria, não sendo necessário gerações jovens cuidarem das reformas dos mais velhos, a tecnologia e em parte os juros compostos existem para isso. Apenas é necessário ter a consciência de que o que separa quase todas as pessoas da bancarrota é um acidente ou uma doença.

  22. José Maia

    Daniela, em minha casa vivem 3 pessoas para as quais existe um rendimento líquido semelhante ao que falou a MJM, cerca de 1000€. À recepção dos mesmos, desconta-se renda, electricidade e gás, água e telecomunicações. Fica o quê? Nada! Graças à chamada “conta ordenado” podemos ir deixando o saldo à “Benfica”, é o que nos vale. Mas quando se recebe no mês seguinte vão-se novamente as despesas do costume mais a reposição do saldo negativo com juros. Estas 3 pessoas não são crianças, não têm despesas escolares, nem com fraldas. Vivemos com o estritamente essencial e sem animais domésticos nem outras coisas supérfluas que se diz por aí que as pequenas famílias, essas grandes “egoístas”, gastam com o seu “filho único”. Dá sempre disparate mandar bitaites sobre cenários concretos que se desconhecem totalmente, pois para viver nas nuvens ou se tem dinheiro ou é preciso as tais almofadinhas à prova de choque com a realidade, aquelas que para algumas pessoas passam despercebidas como coisa muito natural.

  23. rmg

    José Maia

    Desculpe mas não sei se teve filhos .
    Se teve respeito a sua opinião , se não teve está o meu caro também a mandar bitaites .

    Tomo a liberdade de lhe dizer isto , correndo o risco de ser injusto (nesse caso desculpar-me-à) mas eu criei 3 filhos (hoje quarentões e bem sucedidos na vida) em condições nem sempre fáceis …

  24. Daniela Silva

    José Maia, qualquer análise no domínio das ciências sociais e humanas depende de generalizações. É preciso repetir isto quantas vezes? Para conseguir tirar alguma conclusão de tendências é forçoso que aquilo que interpretamos nem sempre corresponda às explicações de alguns casos num universo mais vasto. O que me interessa aqui, sobretudo, é perceber as explicações culturais que ajudam a entender as mudanças estruturais numa instituição designada “família”. E foi apenas um comentário muito breve cheio de limitações. Umas pessoas focarão mais a perspectiva económica, outras a perspectiva biológica, entre outras. Quanto mais holística e aventurada for a nossa análise, mais riscos corremos.

    Desculpe lá se o meu texto lhe parece mero bitaite. Eu tento ser séria (e faço isto com gosto) e não tenho espaço nem obrigação de vir para aqui dissertar em maior profundidade porque o faço noutros espaços. E depois, claro está, isto é um blog de política/actualidade/economia e não um programa de “casos da vida”. De que é que serve eu lhe dizer que os meus pais tiveram 3 filhos em condições materiais semelhantes às suas? E sem horta, veja lá bem…5 pessoas. Fica a curiosidade.

    Cada caso é um caso e eu admiro o esforço e responsabilidade com que cada um gere a sua família, como diz ser o seu caso. Mas é fácil de identificar na realidade actual aquilo que o Henrique Raposo, de certa forma, satiriza. Não nos façamos de desentendidos. Repetindo-me: “se existe desafio urgente que deveria motivar um esforço de compreensão e de distanciamento pessoal, esse desafio é o da baixa taxa de natalidade.” É o que procuro fazer.

  25. Pingback: Bebés para o país 2 | O Insurgente

  26. politologo

    Como componente de uma verdadeira POLITICA DA NATALIDADE num País em vias de extinção demográfica , , sugerimos ,
    Se as uniões de facto não podem adoptar nem co-adoptar tendo em vista os “superiores interesses das crianças” ,
    “a fortiori” também não o poderão fazer as pessoas singulares .
    Propõe-se uma alteração ao Código Civil ,
    artigo 1586º – ADOPÇÃO
    A ADOPÇÃO só é permitida por casais onde exista um PAI e uma MÃE (homossexuais ou não) , tendo em vista os superiores interesses das crianças .
    Não é permitida a co-adopção .
    1. A Adopção é revogável com o acordo de todos os
    intervenientes .
    2. O menor mantem o nome da família de origem o qual
    poderá ser substituído pelo nome da família adoptiva com
    o acordo de todos os intervenientes .
    3- Proibida a ocultação da identidade do adoptado .
    4. Obrigação pela família de origem em fornecer a
    informação médica familiar com interesse para o menor .
    5. As anteriores alterações não têm efeito retroactivo
    7. Cessação do aborto gratuito e reposição de um digno abono de família .

    Previamente deve ser realizado um REFERENDO com a seguinte pergunta:
    “ Concorda com uma adopção da criança onde não existam um PAI e uma MÃE ? “

  27. José Maia, não dê bitaites sobre cenários que desconhece. E leia o título do texto para começar: “Um Portugal sem bebés e com um Estado matulão” Estado matulão, remete para aquilo que o faz contar os tostões ao final do mês. Será que a Daniela Silva quis convencer ou obrigar alguém em particular a ter filhos, independentemente de haver ou não meios para os sustentar? Não li nada disso. Devo estar a precisar de ir ao oculista…

  28. rmg

    José Maia

    Generalidades ficam sempre bem para quem pensa pouco , o que talvez seja basófia minha mas não é o meu caso (não me atrevo a dizer que seja o seu , como V. fez a respeito de outros) .

    Não lho disse na altura mas basta ler a sua conversa da “conta ordenado” para ver que algo bate mal no conjunto : como o apresenta essa conta só “conta” no 1º mês , depois entra na rotina e é como se não existisse , a conta ordenado por sistema deixa de o ser .

    Portanto se acha que toda a gente que tem filhos é porque está cheia de almofadinhas e tem dinheiro estamos conversados sobre quem manda bitaites e diz generalidades .

    De resto continuo sem saber se teve filhos ou não passa de mais um teórico .
    Mas é um facto que não tenho nada a ver com a 1ª parte da questão ; quanto à 2ª só tenho a ver na medida em que tendo criado 3 (como já disse) estou pouco disponível para ouvir as teorias dos que foram ver a bola enquanto eu fazia horas extra lá na empresa para os sustentar …

  29. rmg

    Em tempo

    Ninguém me obrigou a ter filhos , é evidente .
    Mas há quem obrigue os meus filhos a descontar todos os meses para pagar as pensões de reforma dos tipos que acham que não era assim tão preciso que eles tivessem nascido .

  30. Pingback: Um Portugal sem bebés e com um Estado matulão (2) | O Insurgente

  31. Rogerio Alves

    Whatever! Se querem o meu conselho (e se não forem desprovidos de espíritos, não vão querer e vão decidir pela própria cabeça) como pai de um filho, aqui está: não tenham filhos NENHUNS! Se forem daqueles que não dependem do Estado e fizerem as contas todas (sejam poupados ou não) ficarão abismados com o que cada filho custa. E a conversa da recompensa que um filho traz, para mim não faz muito sentido, porque para mim é difícil sentir falta daquilo que nunca se teve. Já eu sinto falta de tudo o que perdi por ter um filho. Mas, repito, ninguém há-de querer o meu conselho.

  32. rmg

    Rogério Alves

    Isso não é um conselho .
    É outra coisa , mas nem lhe digo o que eu acho que é .

    Eu não estou à espera de recompensas dos filhos , nem agora dos netos adolescentes , isso que V. diz é uma simples atoarda que nunca ouvi a um pai ou mãe responsáveis (mas V. já admitiu que não o é ).
    Ter e criar os filhos no pressuposto de que eles ficam nossos devedores é de um egoísmo primitivo ,

    Mas pode-se sentir a falta do que nunca se teve , ao contrário do que V. julga – e de que maneira !
    Basta ver o que passam 2 amigos meus que não têm quem os leve sequer ao médico e um outro que mal come porque já não sai de casa e não tem quem lá vá .

    Vou lá eu e nem o deixo abrir a boca com as queixas , leva logo com um “Tivesses filhos” .
    E lá diz ele a palermice de todos os palermas “Não quer dizer que me ligassem …” , a eterna desculpa manhosa .
    Portanto leva o troco “Em termos de probabilidades bastava um que gostasse de ti e que se preocupasse contigo para serem infinitamente superiores”.

    Portanto espero que o seu filho seja um bom filho para si , ainda que aparentemente esteja a mais na sua vida

    Passe bem

    PS – “porque para mim é difícil sentir falta daquilo que nunca se teve”

    Isto só é válido para os filhos ou também o é para o dinheiro , uma casa melhorzita , um carro melhorzito , uma namorada mais engraçada , etc etc
    Há cada um !

  33. Daniela Silva

    Muito bem dito, rmg. Subscrevo. Também fiquei estupefacta com o comentário do Rogério. Espero que o filho não tenha a infelicidade de vir ler isto.

  34. whoCares

    Caríssimos,
    A baixa de natalidade são deve-se às inversões de valores que nos assolam.
    Hoje em dia a mulher/homem estão mais preocupados em experimentar muitos e diversos parceiros sexuais do que em manter apenas um com o qual possam ter um projecto chamado “família”.
    Reparem que não são os mais pobres que reclamam a falta de condições para ter filhos. Esses têm filhos independentemente de ter um T4 ou carro. Ter filhos aos 20 anos para eles é uma bênção. Devia ser para todos e não apenas para aqueles que querem tê-los aos 40 depois de terem uma “carreira” (leia-se ganhar dois ou três salários mínimos porque não consigo perceber o que é que as pessoas entendem como ter uma carreira nos dias de hoje em que os empregos para a vida deixaram de existir).
    Quem diz que não tem condições para ter filhos e é livre de escolher tê-los ou não, são os mesmos que fazem créditos pessoais para ir de férias a uma praia qualquer paradisíaca o suficiente para tirar “selfies” fixes, postar nas redes sociais e esperar por “likes” e comentários bons. Quantos mais, melhor. Mais filhos, nem vê-los. Não fica bem na moldura.
    Não se pode ter filhos mais convém ter-se o tal “telemóvel” com todas as apps e internet (isso então é fundamental porque temos de estar sempre “on” para ouvir as baboseiras de quem diz que tenho condições de ter filhos e não o faço simplesmente porque não quero, porque tenho esse direito e porque o corpo e o dinheiro são meus!- Queridos, também vos assiste o direito de não trabalhar mas compromete o seu direito de aceder ao crédito para coisas fundamentais e/ou fúteis ou mesmo de ler as coisas disparatadas que estou a escrever, certo? Porque não terá dinheiro para pagar a net. Agora faça o mesmo exercício com o ter ou não ter filhos).
    E mesmo que se engravide, pode-se sempre abortar de graça no hospital mais próximo. O contribuinte e os filhos deles que paguem porque o que nós queremos é “experimentar” e ser livres.
    Até que a segurança social colapse e ninguém mais possa pagar os abortos de todos os que estão em idade fértil.
    Até que a segurança social me arranje um quartinho numa das misericórdias quando me reformar, pago com o dinheiro dos filhos dos outros porque eu não pude tê-los, demasiado ocupado(a) que estava a fazer “carreiras”.
    Valeu a pena não ter filhos porque experimentei muitos parceiros ou quase nenhuns (no caso dos mais feios), abortei e/ou mandei abortar bastante e tudo à pala, sem ter de fazer créditos pessoais. E se hoje vivo mal com a pensão de 300 euros por não ter população activa suficiente a descontar para a caixa, não faz mal. Vivi à grande e à francesa sem filhos. Com filhos seria impossível viver tão bem. Tive a vida que quis e tenho a vida que…(pasmem-se)…que todos querem. Livre. Fui livre e tive não uma nem duas: várias carreiras. Na solidão, no vazio, na iliteracia e nas frases feitas.
    Assim, pode-se mesmo concluir que devemos valorizar o último “post cool” do amigo ( que mesmo morando na mesma cidade vejo-o uma vez por ano), um bom carro, uma boa casa, uma boa viagem, muita roupa e telefone top em detrimento da família porque dá trabalho ser educado e educar, dá trabalho abdicar disto pra ter aquilo (nós, os que não queremos filhos, queremos é ter tudo o que nos dê prazer sem termos que gastar muito tempo e dinheiro-crédito mesmo só para os “lap tops” apesar de ter sido educado numa casa pequena com 4 irmãos e ter sobrevivido).
    A vida em sociedade é isso mesmo: ser eu mesmo sem ter de me preocupar com o que me vai nos acontecer por não querer ter filhos e cá vindo defender a minha posição muito “bem”. O que vai acontecer a esta sociedade se a baixa de natalidade continuar a registar níveis históricos, não me diz respeito porque eu que não quero ter filhos irei alienar-me ou imigrarei para um país mais populoso onde encontre alguém que fez um esforço monumental para educar os filhos dos quais necessito na velhice para me mudar a fralda ou simplesmente para me lembrar que valeu a pena tudo!
    Ora, antes de dizer mais alguma coisa sobre baixa natalidade, pondere e veja em quais dos perfis se encaixa.
    Se não se identifica com nada do que foi dito, parabéns. Você é um progenitor( ou candidato) dedicado, não vai em modas e cantigas e nem se serve da crise para culpar tudo e todos. Faz o seu trabalho, não se ilude com carreiras e não suprime as suas carências emocionais e espirituais fingindo ser rico e amigo dos famosos nas redes sociais porque sabe que isso, sim, rouba imenso tempo.

    E se mesmo assim não estão convencidos…
    Professores sem filhos: não esperem dar aulas aos filhos dos outros. As escolas vão continuar a fechar,
    Enfermeiros e médicos sem filhos: não esperem que alguém cuidará de vocês em tempo útil. Emigraram e/ou não há profissionais suficientes.
    Comerciais sem filhos: vá vender para outra freguesia. Você e muitos outros não contribuíram para esta.
    Fornecedores de bens e serviços: o que dizer? Forneçam-se entre vocês e o que restar exportem para os idiotas “populosos”.
    Políticos: devem ser os únicos que lucram com a falta de população. É mais fácil convencer meia dúzia de gatos pingados principalmente se forem socialmente alienados e preocupados com as “selfies”.
    Carreiristas: tem até aos 65/70 anos para fazer carreira. Filhos é só até aos 30.
    Investigadores e malta intelectual cheia de direitos: ponderem as vossas prioridades, as da sociedade e as vossas enquanto membro dessa mesma sociedade antes de escrever uma resposta ao meu comentário.
    Quem diria que cada um não pode construir a vida como quer, não é? Ou pode?

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