Ucrânia: Tudo se resume ao Salame

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Existe uma velha táctica, bem presente nos manuais do KGB, que acompanha a política internacional russa desde a morte de Lenin – Salami Tactics ou, em bom português, Tácticas do Salame. Estas aplicam a velha máxima do “dividir para conquistar”. Criam instabilidade nos seus alvos, geram conflitos internos e lidam com estes um a um, até à conquista definitiva do poder. Foi este o objectivo das Frentes Populares dos anos 30 e 40 – coligações de esquerda em que os partidos patrocinados por Moscovo eram parceiros minoritários. Foi assim que, socorrendo-me das artimanhas do sistema democrático e da subversão patrocinada pelas ajudas financeiras e militares do Kremlin, os comunistas conseguiram dominar as coligações, na Espanha em plena guerra civil e no leste europeu no pós-guerra.

No entanto, as Salami Tactics também têm um uso prático no cenário geopolítico e, associadas à estratégia de “pedidos de protecção” por parte de governantes amigos, podem ser bastante eficientes. Os casos da Ossétia do Sul e da Abecásia, cujo separatismo foi financiado pela Rússia, representam um exemplo recente. A Geórgia tentou reagir e deparou-se com pedidos de protecção à Rússia por parte das repúblicas separatistas. Ora o mesmo parece estar a repetir-se na Ucrânia.


A Crimeia tem tanto de ucraniana como os bascos têm de espanhóis. Era uma província tártara – que passou pelo jugo de diversos impérios islâmicos – até ser conquistada por Catarina a Grande no século XVIII. Os tártaros viriam a ser expulsos por Stalin e a província, abrigo da frota russa no Mar Negro e ponta de lança do país no Mediterrâneo, viria a ser oferecida, nos anos 50, à Ucrânia, por Khrushchev. A prenda, à época, não aparentava ter grandes implicações. A Ucrânia, sendo uma república soviética, não detinha autonomia. Mas com a dissolução da URSS, a Crimeia veio a ser integrada numa Ucrânia independente e nem mesmo os acordos relativos à base russa em Sevastopol apagaram o desejo dos nacionalistas russos, em ambos os países, de uma devolução – pacífica ou pela via da força.

Nas décadas que se seguiram à queda do Império Vermelho, a instabilidade e as sucessivas crises não permitiram à Rússia retomar o seu papel chave nas relações internacionais. Yeltsin, contrariado, não acedeu ao pedido de ajuda do líder sérvio Milosevic, no auge das guerras balcânicas. O Kremlin observou, sem grande alarido, a extensão da influência americana por todo o Médio Oriente, a queda de Saddam e dos Talibãs, a independência do Kosovo a invasão da Líbia e os preparativos para um ataque ao Irão, entre outras humilhações. Ainda ferido, o urso russo conseguiu dar sinais de vida na passada década – na crise georgiana – mas o ocidente ignorou-os.

Apesar das dificuldades internas, a Rússia está hoje mais forte. Putin saiu reforçado de 2013, explorando a inexperiência da administração Obama e a crise do Euro a seu favor. Ao contrário do que pregam uns quantos sonhadores e idealistas, as esferas de influência mantêm-se bem vivas e a sua compreensão continua a ser essencial na análise deste tipo de disputas. Atribuir as causas do problema a um governo autoritário e corrupto é menosprezar a interferência do Ocidente, com a Alemanha e os EUA à cabeça, na no coração da “buffer zone” tradicional do Império Russo. Este, ao ver a sua esfera de influência ameaçada, apoiou calmamente os nacionalistas russos na Ucrânia e esperou. E quanto pela UE se cantavam vivas a uma Ucrânia livre, num timing perfeito, fomentou conflitos entre pró-russos e pró-Kiev, instalou um “puppet” como primeiro-ministro da Região Autónoma da Crimeia, reforçou as bases russas na região, conseguiu o tradicional pedido de ajuda e obteve autorização do seu parlamento para a “libertação” da Crimeia. E tudo isto meses antes das próximas eleições.

Além disso, tem ao seu dispor diversas ferramentas de Soft Power. Em primeiro lugar temos a questão da Gazprom e a possibilidade da Rússia repetir o embargo dos passados anos ou fazer o seu vizinho pagar pelo gás o seu real preço de mercado, desestabilizando por completo a economia do país. Apesar da operação parecer arriscada, dada a ascensão do shale gas e os investimentos em infraestrutura energética no Leste Europeu que se seguiram ao último embargo, continua a ser uma poderosa carta na manga.

Em segundo lugar temos o Afeganistão, eterna cobiça da espera de influência russa e vítima, nas últimas décadas da Guerra Fria, das Salami Tactics. O presidente Karzai consolidou suficientemente a sua posição para conseguir a retirada das tropas americanas sem condicionantes – como o acordo de protecção que Obama lhe tentou impor na passada semana. Não só o país se afigura como um alvo apetecível para o Kremlin como o transporte das tropas da coligação se fará, provavelmente, pelas redes ferroviárias detidas pelos russos. Também neste ponto o Ocidente está em cheque.

O terceiro ponto tem duas chaves: Pequim e Islamabad. Pela primeira vez desde a queda da URSS, a Rússia volta a ter relações de influência com quase toda a sua fronteira. Colabora com a China e partilha com esta os mesmos pontos de vista em vários assuntos de relevo internacional. Entrou no Cáucaso através das repúblicas separatistas que “roubou” à Geórgia e deixou arrefecer a Chechénia. A Sul tem um Afeganistão que brevemente se livrará dos EUA, um Paquistão que já esteve mais longe de o fazer e uma série de ex-repúblicas soviéticas em pleno crescimento económico e com estreitas relações de dependência política, económica e militar. E tudo isto sem referir o velho feudo russo no leste europeu, a Bielorrússia. Visto isto, há dois pontos a reter. De um lado, o reforço do Eixo Sino-Russo, demonstrado nos últimos dias pelas suas parcerias a nível energético e pelo apoio russo à realização dos Jogos Olímpicos de Inverno em Pequim. Do outro, a quase certa entrada do Paquistão – actualmente observador – como membro do “Pacto de Shangai”, anunciada esta sexta no rescaldo de uma reunião entre representantes dos dois países.

Até ver, a retórica do Ocidente resume-se a falar alto com um bastão pequeno em mãos, mas as suas opções de retaliação não estão esgotadas. Pode integrar a Geórgia e a Ucrânia na UE e/ou na NATO, retomar os projectos para um escudo anti-míssil no leste europeu e até mesmo embargar uma série de tratados comerciais – uns em vigor e outros em negociações – vitais para a recuperação económica da Rússia. Mas faça o que fizer, terá que aceitar uma amarga realidade: a re-emergência da Rússia como um dos principais players do cenário geopolítico e os perigos de desafiar o maquiavelismo de Putin num contexto em que a influência americana à escala global tende a desvanecer-se.

Nota: Importa recordar que todo este conflito pode acabar mal para ambas as partes – apesar da Rússia poder beneficiar dessa situação – se os nacionalistas radicais ucranianos subirem ao poder no auge da crise (o que, como a história demonstra, não é impossível), formando com as milícias tártaras e os chetchenos um trio perigoso para as ambições do Kremlin, capaz de conduzir a Rússia a uma guerra de guerrilha em várias frentes. No entanto este cenário é, para já, descabido e bastante improvável. 

6 pensamentos sobre “Ucrânia: Tudo se resume ao Salame

  1. Euro2cent

    Grande confusão de narizes.

    O KGB tem pouco a ver com a táctica politica de ir cortando as rodelas mais à direita do enchido, que nos nossos livros de história deve datar dos tempos do camarada Júlio César e ex-aliado Pompeu.

    E a técnica de “aquela estimável minoria/maioria pediu o nosso apoio” já vem escarrapachada nas histórias do Tucídides sobre as tricas épicas dos gregos. Mas não tem a ver com a anterior.

    O resto é questão de os EUA verem como podem fazer render coisas como a despesa militar superior à soma das 10 maiores do resto do mundo, e terem 2/3 dos porta-aviões que existem (bonecos aqui: http://www.businessinsider.com/chart-of-defense-spending-by-country-2014-2 ). Às vezes têm falta de jeito, outras vezes não …

  2. Rafael Ortega

    Isso, vamos deixar a Geórgia e a Ucrânia entrar na NATO, para que da próxima vez que o Putin acordar mal disposto e mandar para lá tropas termos que entrar em guerra.

    Estou mesmo inclinado para defrontar tanques e bombas por causa da Geórgia…

  3. Carlos Coutinho

    Chamar “nacionalistas radicais ucranianos” a milícias nazis, assim como omitir o papel da Ucrânia no apoio a Hitler durante a II Guerra Mundial, será amnésia, má fé ou “palas” demasiado grandes?

  4. jo

    Visto do lado de lá a adesão da antiga Europa de Leste à UN e à Nato também deve parecer a táctica do salame.
    Americanos e Russos à parte, talvez convenha por uma vez os nossos governantes preocuparem-se com o que nos convém mais em vez de entrarem em teorias ideológicas delirantes.
    Já tivemos idiotas a apoiar a guerra do Iraque porque havia armas que afinal não existiam. Espero que nenhum dos nossos governantes esteja a pensar numa sinecura.

  5. Manuel Costa Guimarães

    jo,

    O problema é que os nossos governantes só vão tomar alguma decisão quando já estiver tudo ao estalo. A Europa chega sempre, histórica e calamitosamente, atrasada às festas.

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