Bebés para o país 2

Daniela, fizeste muito bem em defender a posição do Henrique, que de facto no Insurgente gostamos sempre do aroma da discórdia pela manhã. Refiro só uns pontos rápidos e outro mais longo, porque me parece que respondeste a muita coisa que não está no meu texto, desde logo os preconceitos contra as famílias numerosas, quando eu começo por escrever que não tem de haver julgamentos morais sobre as opções de cada família e não mostrei qualquer preconceito contra famílias numerosas. (E penso até que as famílias numerosas devem ser fiscalmente premiadas, por exemplo.) Também não vejo porque decorrerá da decisão de ter menos filhos a consequência de os educar para competirem materialmente com os amigos, é algo cuja relação se se afigura etérea; de qualquer forma, quem educa assim os filhos fá-lo segundo os seus próprios valores e nem eu nem o estado (nem tu) tem de se meter na educação dos filhos alheios, pelo que é desnecessário o argumento. A discussão se as prestações sociais aliviam a pobreza ou servem para perpetuar a pobreza é muito interessante, pois é, mas escapa-me onde é que esta discussão entra na decisão de um casal que, num dado momento em que tem oportunidade, digamos que biológica, para ter um filho, é pobre e tem essa situação de pobreza a pesar – e muito responsavelmente – no resultado da decisão. E para último dos curtos, ainda bem que aprecias famílias numerosas, acho ótimo que haja muita gente que defenda famílias numerosas, até porque podem sempre constituir famílias numerosas; só não podem é vir dizer-me como deve ser a minha família e, já agora, também não é necessário explicarem-me a educação diferente e as sinergias que se tem numa família numerosa, que eu venho de uma e posso garantir que não tive qualquer cisma educacional com os meus amigos, a esmagadora maioria deles vindos de famílias com menos filhos.

Quero sublinhar um ponto teu que vejo como perigoso e que receio que ganhe momentum e venha a justificar intromissões inaceitáveis dos governos – mesmo, ou sobretudo, o do oh-tão-liberal Pedro – na vida das famílias.

Está aqui: ‘Se continuar a persistir uma cultura de desresponsabilização pessoal perante as tendências demográficas que têm avançado no terreno’. Estaremos numa sociedade muito disfuncional quando os casais decidirem ter filhos não porque os querem ter, porque fazem parte do seu plano de vida, mas para evitar castigos da sociedade (sejam castigos de prestígio social, sejam penalizações impostas pelo estado, sejam outros) ou porque se sintam obrigados a contribuir para a renovação demográfica. Este argumento faz lembrar o do inevitável Leal da Costa – como o Ricardo Lima já referiu, a personagem mais repelente do governo – afirmando que as pessoas devem ter cuidados de saúde que evitem doenças em prol, não das melhorias que tal pode trazer à sua vida, mas da sustentabilidade do SNS. Esperar que os comportamentos das pessoas sejam determinados não pelas suas próprias motivações (limitadas pela ética e pelo respeito dos direitos alheios, evidentemente) mas por um convencionado ‘bem da sociedade’ – a pontos extremos de considerar que um casal deve ter filhos para revovar geracionalmente o país e que um indivíduo não deve fumar ou ter sexo sem preservativo para não fazer o SNS pagar o tratamento de um cancro no pulmão ou os medicamentos para o HIV – é para mim intolerável politicamente e abre caminho, isso sim, a todas as intromissões do estado na minha vida e na minha intimidade. Por alguma coisa esta visão da obrigação de produzir crianças em prol da pátria foi sempre usada por ideologias pouco recomendáveis. É um ponto de vista a ser combatido impiedosamente.

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2 pensamentos sobre “Bebés para o país 2

  1. Pingback: Um Portugal sem bebés e com um Estado matulão (2) | O Insurgente

  2. HO

    Este post já tem pouco a ver com o original.

    A diminuição da natalidade é, como explica o Henrique Raposo, um fenómeno cultural, intimamente associado a um sobre-investimento, material e emocional, no primeiro filho e à sobre-estimação dos custos da paternidade – se quisermos, desnecessariamente, aprofundar, um fenómeno com raízes no sub-solo de egofania e irreligiosidade típico da era. Devemos encarar com cepticismo argumentos ad summum bonum, especialmente os de cariz jingoísta? Sim, eu faço-o e recomendo. Mas o Henrique Raposo nem foi por aí; há excelentes argumentos privados, económicos ou não, a fazer e ele aborda um deles, o do overparenting.

    Podemos, e devemos, dizer às pessoas que podem e devem ter mais -ou menos filhos; desde que no domínio do argumento privado (na arena pública, bem entendido; na descida ao particular o risco de constrangimento, aliás merecido, é elevado) e não da legislação pública. É o que faz, por exemplo, este excelente livro: http://www.amazon.com/Selfish-Reasons-Have-More-Kids/dp/0465028616

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