O douto corporativista

corporativismo

Vezes várias expusemos e denunciámos a intromissão do Estado na vida privada, o coercivo manvio que impõe a vontade dos muitos, ou pelo menos de alguns, aos restantes. Mais do que a violação da liberdade individual e das suas vontades diversas, subjectivas e nada iguais — como assim deverá ser —, é o eterno fado imobilizador que nos relega à ralé da Europa.

Verdade seja dita, este não é um fenómeno exclusivo do Estado. Existe uma cultura corporativista presente na sociedade civil que procura servir-se, em vez de servir, (d)o Estado. Cultura fortemente enraízada, antecede e precede o Estado Novo e as fábricas de fósforos e as telhas dos estudantes de Coimbra, embora Salazar fizesse do Estado corporativista pilar da sua política. Enquanto que os anglo-saxónicos se libertaram de tamanha maleita no século XVIII com a certeira análise do escocês Adam Smith, Portugal vive agarrado a um neomercantilismo que pretende proteger, intervir e mandatar para o benefício de alguns e prejuízo dos demais. Parcos em verdadeiros pensadores, importamos o que de pior a Revolução Francesa produziu: os enragés, os jacobinos e demais Montagnards, despicientes do indivíduo e das suas vontades.

O vídeo anexo a este artigo é sintomático deste fenómeno. Uma empresária portuguesa que decidiu investir num hostel, o Lisbon Central Hostel, quando questionada sobre a viabilidade financeira do empreendimento, é contundente (e certeira) a analisar o mercado: a oferta suplantou a procura, pelo que as margens têm vindo a reduzir e as coisas já estiveram melhor (para ela). Leia-se, quando a oferta era bastante inferior à procura. Esta breve análise da oferta e da procura é exacta — quando a oferta e a procura não estão em equilíbrio, a quantidade máxima transaccionada é menor e o seu preço maior. Saímos todos prejudicados. Excepto os produtores, que obtêm margens maiores.

Até aqui, tudo bem. Compreendemos que a empreendedora tem conhecimentos de economia 101. O que é preocupante é a resposta que se segue. Como procura então a empresária diferenciar-se, acrescentar valor e tentar diferenciar a sua oferta por forma a que não tenha de competir pelo preço? Oferecendo serviços complementares? Tentando atrair um outro nicho de turistas? Sendo mais eficiente, reduzindo custos?

Não. Evocando a maleita que nos persegue e atormenta: recorrendo ao Estado. Aguardando ansiosamente “por mais legislação, mais regras e normas”. Referência bem explícita e expedita a regulação cujo efeito é criar barreiras à entrada que protejam os que já estão instalados. Semelhante a um aumento do salário mínimo: favorece os que têm emprego em detrimento dos desempregados.

É esta cultura bafienta de dependência e demência do e no Estado que serve de garrote ao crescimento económico e à prosperidade que teimosamente teimamos em manter distante. De facto, alguma protecção é necessária. A sociedade corporativista precisa de protecção dela mesma. E nós dela.

2 pensamentos sobre “O douto corporativista

  1. Fernando

    Mário Amorim Lopes

    Das duas uma – ou “expusemos e denunciámos” ou “expomos e denunciamos”.
    Agora “expusemos e denunciamos” é que não dá, por que os tempos verbais não concordam.
    Certo?

    Fernando

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