A ideia mais perigosa de todas

sobre a bondade das políticas de Vítor Gaspar é aquela que diz que o crescimento económico homólogo do último trimestre de 2013 e os crescimentos em cadeia dos trimestres anteriores são resultado de tanta bondade e sentido de humor e desapego ao poder e fidelidade à consiência. Não são. São resultado dos esforços das empresas e das pessoas que nelas investem e trabalham que, apesar do esmagamento da procura interna que Gaspar patrocinou, das imbecilidades fiscais que inventou (as guias de remessa validadas pelo portal das finanças, por exemplo, come to mind, e estivemos mesmo a ponto de criminalizar quem saisse de uma loja ou restaurante sem a devida fatura, o que se tornaria certamente uma área de atuação privilegiada das polícias, que roubar carteiras a senhoras de idade é muito menos reprovável do que não exigir fatura) e de outras aleivosias semelhantes, conseguiram reduzir custos, esmagar margens, diversificar produtos e mercados de forma a aumentar vendas. E aos consumidores que, fartos dos pregões moralistas de devoradores de impostos aconselhando consumo regrado, e das confissões do pm quanto à sovinice no que toca a comprar presentes à família, lá decidiram (os que conseguiram aceder a tão exorbitante luxo) oferecer presentes de Natal. O meu bom ano de 2013 deveu-se a mim e quem comigo trabalha. Foi obtido com esforço e contrariando as consequências das ações de Gaspar. E quando vejo na SICN que, segundo o Sol, o PSD quer premiar a capacidade destruidora de Gaspar com o cargo de comissário europeu, o que penso? Penso que faz sentido, afinal Gaspar deixou intacto, como o PSD pretendia, o estado mastodôntico que existe sobretudo para dar emprego às clientelas aparelhísticas partidárias. É natural que se tente recompensar Gaspar por salvaguardar aquilo que importa.

6 pensamentos sobre “A ideia mais perigosa de todas

  1. António

    Cara Maria João,
    presumo que não pelas mesmas razões, mas estou de acordo com a generalidade do que escreve. Permita-me contudo, um reparo, um grande reparo em meu entender, e que é o erro de toda a actuação do governo, com o qual a Maria João também enferma, que é o facto de tudo parecer uma lógica de mercado e de se esquecerem os profundos dramas humanos que a actuação deste governo, primeiro com o Louçã e agora com a Luisinho, proporcionaram.

  2. Maria João Marques

    António, num processo de ajustamento são infelizmente inevitáveis os dramas humanos (e devia haver redes de proteção social eficazes para esses casos). O que é criminoso é que este custo humano que houve foi para nada, já que se deixou tudo preparado para dentro de décadas novamente termos dramas humanos à conta de nova intervenção do FMI.

  3. António

    Cara Maria João,
    não creio com a inevitabilidade dos dramas humanos num processo de ajustamento, porque isso seria reduzir a números, a percentagens, as pessoas. As pessoas que sofrem, que ficam privadas do seu emprego, como todas as outras precisam de comer, precisam de viver, têm sonhos! E são tratadas como número num gráfico de Excel, numa insensibilidade total, gritante, desesperante!
    Felizmente o nosso povo é um povo bom, como observa Torga:
    “É um fenómeno curioso: o país ergue-se indignado, moureja o dia inteiro indignado, come, bebe e diverte-se indignado, mas não passa disto. Falta-lhe o romantismo cívico da agressão. Somos, socialmente, uma colectividade pacífica de revoltados.”
    In Diário, 17.9.1961, no volume IX, p. 85 (ia em viagem – Chaves, 17 de Setembro de 1961. Depois de Coimbra, a 14, e de Vilarinho da Raia, a 21.)

  4. povão

    Gostei . Copiei . Guardei .
    P.S.
    Há já alguns séculos que Portugal está em queda livre como um avião sem gasolina .
    E nunca aprendemos a planar !…
    oculos habent et non videbunt
    ADENDA
    António
    Um jornalista foi preso pela Pide porque escreveu que Salazar havia castrado os Portugueses .

  5. economista

    Acresce , com um sobrevivo secretário de estado de Gaspar :
    No Parlamento (calculem ! sem contradita de qualquer competente (?) Deputado – me arrependo de ter escrito com maiúscula ) , afirmou que o iva da restauração havia aumentado 109% (confundiu com 9% !… ) . Que 80% do IRS era pago pelos escalões superiores !…
    Que o “selo do automóvel” podia ser pago no “bloqueado” Portal das Finanças ! Como se as pessoas fossem obrigadas a ter conta bancária !… Para dois dias depois alargar o prazo . E o ultimo aborto intelectual deste Senhor ? .A sua “raspadinha” do Fisco !. Quanto se gasta em prémios e em todo processo administrativo ? Como é hábito , quanto se gastou em estudos pagos à (sua?) Sociedade de Advogados ? Quanto se gasta em papel ? Quantas árvores (alem das ardidas) são abatidas para papel ? Quanto tempo se gasta a fazer a factura ? Qual é o valor da amortização dos equipamentos ? Qual é o custo do restante processamento ? Qual o custo do necessário equipamento adicional e de tudo o resto necessário para evitar em Fevereiro a Junho o bloqueamento do sistema informático do fisco, para assim evitar os elevados custos administrativos e sociais resultantes de tal tragédia administrativa .
    Não seria mais eficiente e mais barato recrutar 25 (digo vinte e cinco) agentes fiscais que durante os doze meses do ano percorriam os 308 concelhos deste Pais ?
    O que entendem estes senhores por reforma do Estado ? Vender o que temos e não temos …
    Pagando favores politicos e outros , emprego para os boys .Destruir a economia . Não equilibrar as finanças . Errada obsessão pelos mercados(ao serviço dos usurários) . Um mito das exportações(cuja rentabilidade se desconhece…) por explicar (e a greve dos portos…) .
    .

  6. HO

    Deixando de lado questões de ciclo económico, o esmagamento da procura interna era uma consequência inevitável da inflação insustentável da procura interna promovido por décadas de políticas fiscais irresponsáveis. Com Gaspar ou sem Gaspar, o esmagamento da procura interna real era uma inevitabilidade; se Portugal tivesse abandonado o Euro, poderia ter estabilizado a procura interna nominal mas com custos, a prazo, aterradores; os outros cenários realistas resumem-se ao prolongamento da agonia por mais uns tempos – e a um esmagamento ainda maior da procura interna, apenas a um ritmo mais reduzido. O Gaspar até deveria ter esmagado um bocadinho mais e mais depressa.

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