Eu tenho umas tantas coisas a dizer sobre o ressurgimento do caso das acusações de abuso sexual de Woody Allen à filha adotiva Dylan Farrow. Bem, não exatamente sobre o caso em si (não estava lá, não sei o que sucedeu), mas sobre algumas reações que vi em todo o lado que, fazendo uso de – acreditem – grande contenção, evito qualificar. Amanhã ou depois vou à questão guerra dos sexos, que há muito que se lhe diga, mas hoje fico-me pela guerra às crianças.
Sempre considerei muito curiosa a forma como algumas pessoas parecem acreditar que se algo não é susceptível de ser provado, preferencialmente em tribunal, então não sucedeu. Há uns malucos que querem aplicar isto à atividade política, como se não se pudesse atribuir responsabilidade política por algo que não tem relevância criminal ou, tendo-a, não resultaria em condenação em tribunal, seja por incompetência de magistrados e juízes, seja pelo princípio de decidir a favor do réu em caso de dúvida, seja por qualquer outra razão. E há outras pessoas que, pelos vistos e provavelmente devido a excesso de consumo de séries televisivas tipo The Closer, aparentemente estão convencidas que os criminosos são almas puras que tiveram uma fraqueza num momento mas, depois, vivem assombrados por problemas de consciência e com uma vontade indomável de confessarem o crime. Não, meus caros, não é assim. Se pensarem bem, é mais provável que o criminoso aproveite a vulnerabilidade da vítima, desde logo pela ausência de testemunhas (ou com testemunhas leais ao criminoso), pela fraqueza física ou mental e incapacidade de se defender da vítima, por vezes pela improbabilidade do crime ou por má reputação da vítima. Eu diria até que é mais ou menos óbvio que se não houvesse oportunidade de escapar do crime, o criminoso provavelmente não o cometeria. Tratando-se de abuso sexual de criança – que nem entendem bem a gravidade do que lhes é feito, que não têm capacidade narrativa dos adultos, que podem não querer assumir o que lhes foi feito por vergonha, por medo ou por considerarem que tiveram culpa – qualquer pessoa com meia dúzia de neurónios funcionais percebe que o abusador parte para o abuso com uma enorme vantagem face à criança. Considerar – e, pior, publicitar a opinião – que se não se prova um abuso sexual, então é porque o abuso não sucedeu, evidencia uma linda fé nos sistemas judiciais e, simultaneamente, uma forte alienação do bom senso e da realidade. E não me venham com a presunção de inocência; a presunção de inocência é isso mesmo, não é nenhuma declaração de inocência.
Traduzindo (eu muitas vezes preciso de ajudas à tradução, especialmente quando as coisas vêm em linguajares exóticos como tamil ou iban, mas este caso concreto é bastante escorreito): se quiserem ter uma opinião forte sobre o caso Woody Allen, apesar de não poderem fazer ideia do que é verdade, by all means, tenham-na. Mas, vá lá, usem argumentous mais sólidos do que a inexistência de caso judicial. E para mostrar como tenho razão, aqui ficam partes de um texto de alguém que foi abusada em criança e que nunca o conseguiria provar. (Ah, já sei, é mais uma mulher histérica que não tem atenção pelos meios normais e precisa de se tornar interessante afirmando-se vítima de abuso sexual em criança.)