Falácia Miró

Painting 1927 by Joan Miró 1893-1983Em economia comportamental é estudado o conceito de “endowment effect” (traduzido para português como “efeito dotação”), que consiste na tendência humana a valorizar mais um objecto que já se possui do que se o tivesse que comprar. Um ser humano que possua um objecto tenderá a exigir mais para o vender do que estaria disposto a pagar por esse objecto se não o possuísse, apesar de a escolha ser exactamente a mesma nos dois casos: o objecto ou o dinheiro.

O caso dos quadros Miró é um exemplo acabado dessa falácia. Caso os quadros não tivessem caído de forma aleatória nas mãos do estado português, ninguém apelaria à sua compra, por muito valiosos e baratos que pudessem parecer. Entre aquele conjunto de quadros e 35 milhões de euros, quase todos prefeririam os 35 milhões de euros. Se o governo se tivesse lembrado de comprar 35 milhões de euros em arte contemporânea nesta altura, não faltariam acusações de estar a utilizar o dinheiro dos reformados para luxos desnecessários. O facto de os quadros já pertencerem ao estado português não altera esta lógica: há uma escolha a fazer entre os 35 milhões de euros ou os quadros Miró.

É possível especular se os quadros numa galeria de arte não renderiam mais, a prazo, do que os 35 milhões de euros. É impossível saber se isso é verdade, mas até pode ser que seja. Mas se vamos especular em arte, quem nos diz que os quadros Miró são a melhor opção apenas porque acabaram nas mãos do estado português de forma aleatória? Porque não pegar nos 35 milhões de euros e comprar uns Picasso? E porquê pinturas e não estátuas? Havendo 35 milhões de euros para abdicar, porquê abdicar para manter quadros Miró em vez de construir um novo estádio para o Sporting Clube de Espinho, atribuir mais umas bolsas de doutoramento ou dar 3.500 euros às 10.000 famílias mais pobres do país?

Para um libertário, o estado não deve, jamais, especular em arte. Para um social-democrata que aceite que o estado possa fazê-lo, talvez esta não seja a altura ideal para o defender.

14 pensamentos sobre “Falácia Miró

  1. jorge

    Interessante a posição dos socialistas de que se expunham as obras e com isso se ganhava mais. Ora em Lisboa os museus com mais visitas (nacionais+ turistas) são o Museu de Arte Antiga com 120k e o Museu dos Coches com 190k. Ora assumindo o sucesso da exposição de Miró ao nivel do museu mais visitado, e mantendo o mesmo preço (5 euros, com descontos para idosos e jovens que podemos ignorar por agora), teríamos uma receita inferior a 1M euros por ano. Duvido que tal valor pagasse sequer os custos de manutenção do museu…

    A polemica do museu dos coches que tem 3M euros de custos, onde aparecem os mesmos do costume a fazer afirmações “cultas”: http://www.tvi.iol.pt/videos/14023211
    Note-se a culta socialista a dizer que se o museu tem 3M euros de custos certamente terá o mesmo nivel de receitas porque as contas estão feitas… rofl

    Por outro lado, os 35M euros são o preço base. Logo veremos quanto vale.
    O mercado de arte não é exactamente o mercado da Ribeira: a venda de uma colecção (ou sub-colecção) pode valer mais do que os quadros isolados…A leiloeira, que recebe uma comissão sobre o preço de venda, seguramente saberá melhor com se vende a colecção do que os cultos socialistas…

    Mesmo os apreciadores de Miró reconhecerão que esta polémica é apenas “much ado about nothing” para um País falido.

  2. tina

    “…teríamos uma receita inferior a 1M euros por ano. Duvido que tal valor pagasse sequer os custos de manutenção do museu…”

    Pá, vendam essa porcaria e amortizem dívida, poupa-se logo 2 milhões por ano em juros!

  3. Tiro ao Alvo

    Atenção, os “Mirós”, não pertencem ao Estado Português, os Mirós fazem parte da “massa falida” do BPN, que o Estado nacionalizou e que, se não forem alienados, terão que ser pagos com dinheiro dos nossos impostos ou com dinheiro pedido emprestado, que vai aumentar o défice público.
    Por favor, não nos atirem areia para os olhos.

  4. Luís Lavoura

    Tudo o que o Carlos escreveu é verdade, mas então explique-me o Carlos por que motivos não vende o Estado todo o espólio dos museus nacionais, a começar pelo Museu dos Coches, pelo Museu Nacional de Arte Antiga e pelo Museu Nacional de Soares dos Reis. Não aca que muito desse espólio é de menor qualidade do que os quadros de Miró? Não acha que renderia mais do que esses quadros? Olhe, só o Bosch que está no MNAA renderia uma fortuna…

  5. Joaquim Amado Lopes

    Luís Lavoura,
    “Não aca que muito desse espólio é de menor qualidade do que os quadros de Miró?”
    Pode indicar o link para fotografias de duas ou três obras de Miró que considere de qualidade?

  6. Rui Cepêda

    O endowment effect é uma consequência do sentido de propriedade e de posse inerente ao ser humano. Aí reside a primeira incompatibilidade do ideário comunista com a natureza humana.
    Também acho que o Estado não tem que especular em coisa nenhuma.

    Quanto a vender o espólio dos museus e aceitando a redução ao absurdo, não é preciso ter pressa. Com mais um ou dois governos socialistas lá chegaremos…

  7. Tiro ao Alvo

    Pelo que se sabe, nunca as obras do Miró, propriedade do BPN, foram expostas em Portugal. Assim sendo, a paixão de alguns pelos quadros não passa de amor platónico…

  8. Alexandre Milheiro

    Sou pela venda, sim Senhor. E se com o dinheiro fizessem um novo estádio pró Sporting de Espinho, era ouro sobre azul … O actual estádio é uma exposição permanente de Mirós…

  9. Luís Lavoura

    Para um libertário, o estado não deve, jamais, especular em arte.

    O Carlos deveria publicitar essa tese em livro, aplicando-a aos casos do Louvre, da National Gallery, dos Uffizi, dos SMPK e de outros museus célebres pelo mundo fora. Estou convencido de que teria imenso sucesso.

  10. “Para um libertário, o estado não deve, jamais, especular em arte.”

    Não há nada de errado nisto. É a opinião de um libertário.
    Mas sejamos honestos, o Estado não deve especular em NADA. A existir, o Estado deve ser um garante de segurança do conjunto dos seus cidadãos e não um especulador.
    Além do mais, o Estado não especular em arte não é o contrário do Estado adquirir a arte – ou qualquer outro bem, (ao melhor preço) e promover os meios de preservar os bens que adquirir.

    Na opinião de um Anarquista, o Estado nem devia existir, quanto mais especular.

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