Uma cautela imperativa

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O Bundesbank anunciou esta Segunda Feira uma posição que já vinha sendo aconselhada pela BCG (Boston Consulting Group), mas que agora se torna premente dada a adopção institucional da proposta. O banco central alemão afirma que não fará sentido socorrer países em dificuldades financeiras sem que, primeiramente, estes taxem os seus cidadãos. Medida similar à efectuada no Chipre, o bail in tem dois objectivos imediatos: garantir internamente o capital necessário para onerar as dívidas externas do Estado e, não menos importante, reduzir o risco moral associado à garantia implícita de um programa de assistência financeira. Esta segunda nota é especialmente relevante para Portugal, o único país da União Europeia que teve três programas de assistência em 37 anos.

Uma de três e meio

Findo o programa de assistência financeira, existem três possíveis desfechos: a) um segundo programa de resgate;  b) um programa cautelar; c) uma saída limpa. No primeiro caso, o programa de assistência financeira garantiria a liquidez necessária por mais uns anos mas ao mesmo tempo sinalizaria aos mercados a já por demais evidente debilidade da economia e das finanças públicas portuguesas. A segunda hipótese pressupõe uma linha caucionada pelos mecanismos de estabilidade europeia, já sem FMI, mas com a presença de entidades externas que pressionarão a tomada de importantes reformas estruturais. A última, e talvez mais arriscada, seria uma saída a nú. É esta última que acarreta os riscos de um bail in.

Uma saída limpa, mera ilusão de quem a aclama, não seria menos débil. Portugal ainda recupera de uma recessão; as famílias, as empresas e o Estado ainda estão em processo de consolidação e, talvez mais relevante, a trajectória da dívida soberana ainda não foi travada, longe de ser sustentável. A despesa corrente foi freada iminentemente com recurso a medidas espúrias que serão revertidas assim que o congelamento dos salários e as taxas e sobretaxas caduquem. Como também vem sendo hábito, parte da consolidação foi feita recorrendo a receitas extraordinárias.

Bail in, o pior desfecho para Portugal

É precisamente esta terceira hipótese e meia que poderia conduzir a um bail in, o pior dos cenários para Portugal e para os portugueses. A economia portuguesa está descapitalizada. Taxar mais os portugueses, ainda que de uma só vez, iria condicionar drasticamente a poupança, o investimento e o consumo e, por conseguinte, o crescimento da economia e a criação de emprego. Iria submeter Portugal a uma profundíssima recessão, recessão essa que iria fazer com que o mais arauto dos anti-austeritários ansiasse pelo retorno a 2013.

A imposição do bail in é compreensível quando nos colocamos na posição do credor. Basta recordar a reacção do português continental perante o anúncio dos desvarios cometidos pelo outro português, o insular. Seria, contudo, o pior que poderia acontecer a Portugal. Como tal, e para bem de todos nós, urge pedir às instâncias europeias um programa cautelar que garanta, ainda que não seja utilizado, os recursos financeiros necessários e mantenha uma delegação europeia que supervisione a implementação das reformas estruturais. Esta posição não deverá ser interpretada como submissão mas como um racional e imperativo sentido de responsabilidade. À cautela.

Nota: este artigo deverá ser complementado com as oportunas reflexões do Ricardo Arroja e do Camilo Lourenço, aqui e ali.

Adenda: em comentário, o JT refere que o estudo da BCG recomenda um one-off capital levy a todos os países da União Europeia e não apenas ao país visado. Isso muda radicalmente as implicações políticas do estudo da BCG. No entanto, a posição do Bundesbank mantém-se. O imposto seria ao país.

11 pensamentos sobre “Uma cautela imperativa

  1. k.

    O Bundesbank defende os legitimos interesses Alemães.

    Faz isso, torcendo um argumento de mercado:
    “O banco central alemão afirma que não fará sentido socorrer países em dificuldades financeiras sem que, primeiramente, estes taxem os seus cidadãos. ”

    O argumento devia ser qualquer coisa como “não faz sentido socorrer paises em dificuldades financeiras sem antes os credores assumirem o risco do negocio, e assumem perdas”

    Isto é, a banca alemã já se safou de ter perdas, graças ao contribuinte alemão – agora os contribuintes alemães querem safar-se de ter perdas graças ao contribuinte portugues.

    Não me parece que seja do nosso interesse.

  2. k., como referi no texto, a posição alemã, vista do lado do credor, faz todo o sentido. Mas dada a vulnerabilidade de Portugal, o bail in seria o pior que poderia acontecer. Viver à custa do dinheiro alemão compra-nos tempo. E o tempo, neste momento, não tem preço.

  3. JT

    Mario, atenção que a tua primeira frase é falsa. O estudo da BCG disse que a solução passa por um perdão da dívida e uma taxação da riqueza. Mas ao contrário do Bundesbank, diz que o “cut” tem de acontecer ao nível Europeu, e que a taxação de riqueza deve ser partilhada ao nível Europeu também. Se fores ler, é um ponto essencial.
    Efectivamente, seriam os alemães que pagariam mais, não apenas pelas perdas do que detêm de divida nos outros países, como pelo facto de pagarem a recapitalização dos mesmos.
    Se há alguém que defende que deve haver uma perdão de dívida europeia, paga por impostos sobre a riqueza europeia, não creio que seja o Bundesbank.

    Mas se reitares essa referência, o resto continua correctíssimo.

  4. Jorge Araujo

    quando as soluções vêm do BCG está bom de ver quem vai mamar , adiante , quanto ao resto normal, o capitalismo prussiano é mesmo muito diferente do anglo do rola rola , mas isto é quanto bastará para alguns largarem a adoração germana

  5. ricardo saramago

    Sabemos hoje que quando do colapso da U.Soviética a Alemanha e França fizeram um acordo sobre o futuro da Europa: A França apoiaria a reunificação alemã e a futura integração dos países da Europa de leste e ,em troca, a Alemanha manteria a política agrícola comum e apoiaria a criação do euro.
    Hoje, com a UE sob a liderança alemã ,a França está em situação de fraqueza e podemos ter a certeza que a Alemanha tem um plano para a Europa.(os alemães têm sempre um plano)
    Por um lado a Alemanha sabe que sem a cooperação francesa não há UE, por outro sabe que a a actual configuração da UE e da zona euro não é sustentável.
    A Alemanha não vai deixar a França resvalar para a insolvência e o caos político, recebendo em troca apoio para medidas drásticas de saneamento das dívidas dos países do sul.
    Lembram-se das discussões sobre a “Europa a duas velocidades”?
    Podemos estar a assistir à negociação de uma nova configuração da UE ditada pela visão alemã e por uma França encostada às cordas.
    A Inglaterra parece já ter percebido o que se prepara.
    Portugal, Espanha, Itália, Grécia, Chipre terão que escolher entre sujeitar-se ou sair…

  6. k.

    ” Portugal, Espanha, Itália, Grécia, Chipre terão que escolher entre sujeitar-se ou sair…”

    … ou então forçar compromissos. A automenorização dos paises do sul é na minha opinião, um erro. Juntos têm mais força económica que a França, e uma voz que pode ser ouvida. Têm é de se coordenar…

  7. ricardo saramago

    “Forçar compromissos” quer dizer o quê?
    Para além das dívidas o que é que Portugal tem para pôr na mesa que interesse aos outros?
    Só se fôr conversa e pastéis de bacalhau…

  8. rmg

    “Juntos têm mais força económica que a França …”

    Não sei se terão mas mesmo que tivessem era só no papel .
    Porque a Itália e a Espanha são muito grandes , com problemas muito diferentes e cada um quer é “safar” o próprio rabinho e os pequeninos que se amanhem .

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