“Cão danado”: contributos, hábitos e ligações portuguesas

A rede e o peixe, por António Balbino Caldeira.

Os políticos portugueses que, ao longe dos anos, mantiveram um relacionamento próximo com o vão fingir espanto. Mas, como dizia alguém, eles sabem que nós sabíamos que… eles sabiam muito bem do horror líbio e do seu patrocínio do terrorismo internacional. Porque, muito antes, e de modo mais detalhado do que aparece as notícias dos jornais, o poder político conhece o horror que esconde do povo. Prioridade aos negócios, que de Estado só têm o qualificativo dos estadistas que os aproveitam.

Está também ainda por fazer a história do apoio líbio aos partidos políticos portugueses, nomeadamente o PS. Veja-se um excerto do livro de Rui Mateus, «Contos de um PS desconhecido», Dom Quixote, 1996, p. 63:

«Mas, Manuel Tito de Morais, nas funções de secretário-geral “interino” ia recebendo alguns donativos e, nesta matéria, “tudo o que vinha à rede era peixe”. (…)
(…) Creio que até ao I Congresso, que teria lugar em Dezembro [de 1974], o único contributo significativo recebido pelo Partido Socialista tinha sido angariado no seguimento da visita de Mário Soares a Trípoli, em Novembro de 1974, onde se encontraria com o coronel Kadhafi, tendo, a partir daí, a conta da Associação António Sérgio sido rapidamente transferida para o Nederlandsche Middenstandsbank (Anexo 4) de Hilversum, na Holanda, que, posteriormente, viria a ser titulada por José Neves, também ele fundador do Partido em, Bad Munstereifel. Escrever-lhe-ia [Mário Soares] posteriormente, aproveitando a visita a Trípoli de José Neves e Catanho de Menezes para agradecer e exprimir a sua “admiração pelo interesse e ajuda que (Kadhafy) deu à luta e libertação do Povo Português” assim como para o informar de que o PS estava “de novo em condições de reabrir os nossos contactos com todas as forças que no mundo lutam pela libertação dos povos. Entre essas forças, tanto a Líbia como V. Ex.a jogam um papel fundamental.» (Realce meu)O contributo do coronel Kadafy «para a libertação dos povos», mormente do seu, era já então público e notório… E mais se sabia, depois quando José Sócrates, nos seus governos de 2005 a 2011, andou enternecido com o «líder carismático» (sic) líbio, tendo o ex-primeiro-ministro visitado a Líbia «quatro vezes em seis anos» de poder.

Outros políticos tiveram contactos promíscuos com o regime líbio, e aturaram a loucura do coronel. Mas talvez nenhum tenha chegado ao nível do Partido Socialista. Porém, a indignação seletiva da esquerda negligencia sempre as culpas próprias.

E não apenas nos pragáticos socialistas. Também está por estudar a questão tabu do financiamento e acolhimento em campos de treino para instrução de atentados e de colocação de bombas, ao terrorismo da extrema-esquerda portuguesa, às FP-25 de Abril e a alguns dos seus embriões (nomeadamente, um grupo do catolicismo militante do tipo montonero).

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5 pensamentos sobre ““Cão danado”: contributos, hábitos e ligações portuguesas

  1. Marco

    De dizer que a embaixada de PT em Tripoli tinha (e possivelmente ainda tem, assim como devem ter muitas outras) um grande papel em fazer negociatas aos amigalhaços incluindo o Tio Sócrates. Obviamente servia de porta de contacto a muita gente, incluindo empresas privadas abrindo algumas portas, a questão é favores e lobbys …
    Chamavam-lhes patrocínios …

  2. k.

    Os que criticavam o anterior governo por fazer negocios com a venezuela, agora fazem negocios..com a venezuela.

    Só não o fazem com o kadafi pela simples razão que ele já lá não está.

  3. Marco

    Seja partido/governo A, B ou C, é tudo a mesma coisa. O Gadafi pode não estar lá mas estão lá outros e as luvas continuam … o problema maior é representantes dos interesses Portugueses tirarem proveitos próprios (submarinos anyone?) dessas negociatas …

  4. Marco

    Aliás … veja-se Angola por exemplo … e as promiscuidades que todos “dizem” existir mas que “ninguém” sabe do que se trata 😉

  5. Marco,
    isso acontece porque nao existe tal coisa “os interesses portugueses”. Existem e’ sempre os interesses de alguns portugueses. Os politicos nunca poderao saber quais sao os interesses de todos os portugueses, assumindo que se conseguia encontrar um interesse comum a 10 milhoes de pessoas. Os politicos defendem apenas aquilo que conseguem saber, isto e’, os seus proprios interesses e dos amigos mais chegados. Esperar outras coisa dos politicos nao faz sentido.

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