Bárbara

Para não obrigar a  Maria João a ser tão simpática com o que escrevo na Rua Direita, aqui fica o texto da semana, sobre um filme maravilhoso: Bárbara (2012), de Christian Petzold.

“Ontem, finalmente, arrastei o esqueleto até ao cineclube de Viseu. Como pessoa de profundas contradições que, desde já, me assumo, sou sócia há dois anos e esta foi a primeira vez que assisti a uma exibição no IPJ (“Jardins Efémeros” não incluídos). Em minha defesa pergunto: o que seria da vida sem uma contradiçãozinha menor aqui e ali? Recordo a música: “a pior raça é a de quem vive atrás da coerência/vê na verdade matemática e no céu ciência/ser tão pouco agora como já se era antes/é fruto da coerênciabárbara em certos bons estudantes”, traulitava há uns anos atrás o João Coração.

Triste é, isso sim, a imposição despótica da coerência: dá cabo de emoções, destrói sentimentos, apaga sorrisos, etc… Foi isso que vi. Passo a explicar. Assisti a “Bárbara” (2012), de Christian Petzold. Este é um filme sobre a antiga Alemanha realizado por um dos melhores cineastas da moderna Alemanha. Na atmosfera sufocante da Alemanha de Leste dos anos 80, Petzold conta uma história de amor. Melhor, de aceitação. Haverá diferenças? Fica a dúvida.

Bárbara é talvez a criação feminina mais extraordinária e complexa que tenho visto no cinema. Desempenhada pela elegante Nina Hoss, é a amante de um alemão ocidental e médica atirada para a província por razões nunca bem esclarecidas; é uma mulher distante, reservada, aparentemente fria, que carrega no rosto uma aura de mistério e sensibilidade, que vai erguendo barreiras sociais como uma espécie de técnica de sobrevivência. Bárbara questiona-se sobre as possibilidades de liberdade numa prisão constantemente experimentando uma tensão angustiante entre confiança e dúvida, resistência e resignação, sentimentos que apenas superficialmente apreendemos. Bárbara é uma dissidente que, modestamente mas com uma raiva obstinadíssima, enfrenta um sistema opressivo e claustrofóbico. Por isto, em certas partes, o filme é um estudo sobre a solidão. Claramente, para Petzold, as histórias da Alemanha de Leste são pessoais e individuais.

Planos longos e um ritmo aparentemente lento da narrativa ajudam a criar um subtil clima de paranoia e intrigas. O desfecho do filme é surpreendente e arrebatador mas deixa algumas pontas soltas: haverá redenção? De Bárbara? Face a quem? Com ou sem implicações ideológicas? E o amor, meu Deus, que fará Bárbara do amor? Liberta-se. Com ele, através dele, graças a ele.

O leitor terá visto “A vida dos outros” (2006), de Florian Henckel von Donnersmarck, ou “4 meses, 3 semanas e 2 dias” (2007) de Christian Mungiu? Se não viu aconselho-os vivamente por uma razão: são antídotos para todos os (ainda) crentes no Socialismo, esse canastro da História.”

5 pensamentos sobre “Bárbara

  1. Fernão Magalhães

    socialismo é uma ameça ao individuo e à sua liberdade, pois só “funciona” com a imposição de um ideal que todos tem seguir e na discriminação por quem pensa de forma diferente. Exemplo recente: New York Governor Cuomo’s words “Are they these extreme conservatives, who are right to life, pro assault weapon, anti-gay, is that who they are? Because if that is who they are, and if they are the extreme conservatives, they have no place in the state of New York. Because that is not who New Yorkers are.”
    http://www.governor.ny.gov/01192014statement

  2. Comunista

    “O leitor terá visto “A vida dos outros” (2006), de Florian Henckel von Donnersmarck, ou “4 meses, 3 semanas e 2 dias” (2007) de Christian Mungiu? Se não viu aconselho-os vivamente por uma razão: são antídotos para todos os (ainda) crentes no Socialismo, esse canastro da História.”

    – é curioso que você diga isso quando os serviços secretos americanos têm hoje uma intrusão sobre a liberdade das pessoas com um nível que a Stasi nem conseguiria sonhar.

  3. rmg

    “.. a Stasi nem conseguiría sonhar .”

    Pois não , no tempo da Stasi nem telemóveis digitais havia e agora qualquer miúdo da primária tem um (ou dois , se os pais forem mais abastados). .

    Há cada anacrónico por aqui !

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