Uma carta sem selo

gay-adoption

Escreve no Público o militante n.º 10757 do PSD, Carlos Reis dos Santos, uma dura missiva contra a posição da JSD que, refira-se, recomendou a interposição a consulta popular das propostas de lei sobre a co-adopção e sobre a adopção por casais do mesmo sexo. Serve este artigo para recordar ao militante nº. 10757 no que consiste uma democracia, sustentáculo ausente da carta em epígrafe.

Quem aceita a democracia tem de a aceitar no seu todo. Não enquanto menu do qual exclui aquilo que considera mau até que reste somente o filet mignon e as trufas brancas, uma espécie de maniqueísmo gourmet que retira a gordura e deixa o miolo, que separa o bom do mau. E uma das facetas da democracia é a possibilidade — da qual discordo — de decidir sobre a vida dos outros. Daí a democracia ser também conotada como a ditadura da maioria. É portanto curioso que Carlos Santos, afirmando-se social-democrata, se insurja contra uma das formas de exercício da democracia.  Na alegoria, é algo equivalente a pedir a picanha e passar a alcatra.

Mais ainda, considera que assuntos enquadrados no âmbito dos direitos humanos não são compagináveis de sufrágio, dada a por demais evidência Jeffersiana do direito em causa. Tal prerrogativa deverá aplicar-se, com efeito, a alguns direitos inalienáveis. Por exemplo, a minha vida também não deve estar sujeita a plebiscito popular. No entanto, é-me difícil enquadrar na inalienável categoria de direitos humanos a adopção por casais do mesmo sexo. É característica dos ditadores e dos tiranos achar que uma determinada posição, seja ela qual for, é absoluta e magnânima. Não deveremos aqui cometer o mesmo erro.

Ressalve-se a minha posição particular sobre o assunto. Enquanto liberal, não considero que o Estado se deva imiscuir em assuntos do foro individual. Decidir se uma criança pode ser (ou não) adoptada por um casal homossexual é responsabilidade dos familiares mais diretos que detiverem a guarda da criança. Não existindo ou não podendo ser possível encontrar um guardião, torne-se o Estado o último garante. E, quando assim o for, o Estado não deverá discriminar com base num critério que é legalmente aceite: o do casamento de pessoas do mesmo sexo (que, uma vez mais e tal como o casamento civil, nem deveria ser matéria de legislação). Compreendo, contudo, aqueles que consideram que a anti-naturalidade do acto pode influenciar a criança. E, compreendendo mas não concordando, aceito-a como igualmente válida à minha. Esse exercício de recato intelectual é sempre produtivo.

Por fim, Carlos Santos roga que, à semelhança dele, o PSD seja mais liberal nas questões sociais e mais conservador nas questões económicas. Recordemos que o PSD, embora originalmente de cariz social-democrata, sempre teve nas suas bases pessoas eminentemente conservadoras. Não da direita tradicional marialva e ultramontana, associada ao CDS, mas da direita burguesa, sem filiações aristocráticas, filhos da terra, os self-made man. Ora, tanto para uns como para outros, a adopção de crianças por casais do mesmo sexo será, embora de forma diferente, uma ruptura com o tradicionalismo que os caracteriza. Como tal, fica por explicar a intransigência de Carlos Santos perante a afirmação desses mesmos tradicionalistas que militam no PSD por igual direito. Partidos liberais nas questões sociais e “conservadores” na economia, na concepção em que se identifica, existem muitos em Portugal. Porventura Carlos Santos terá acrescentado um D a mais à sigla do partido onde decidiu militar.

25 pensamentos sobre “Uma carta sem selo

  1. miguel

    Isto foi escrito baseado no pressuposto que tem de se aceitar “a democracia” a 100%, o que à partida me parece um pressuposto errado, suportado de resto no que a seguir está escrito “…conotada como a ditadura da maioria”. Claro, é “a minha opinião”. Quem aceitar qualquer sistema a 100% ou conseguir rever-se apenas num partido/posicionamento político sem dúvidas nem questões, não será “na minha opinião” uma pessoa que se questione constantemente perante o mundo em que vive. Posto isto e no caso em particular, considero pessoalmente errado que se imponha a referendo uma questão que interfere com minorias e (principalmente) com direitos subjacentes. As grandes barreiras sociais sempre foram quebradas por poucos para depois serem ultrapassadas por todos.

  2. A consulta popular, corolário de que todos os cidadãos podem e devem participar na concepção legislativa do país, não é bem um acessório à democracia. É uma das suas colunas vertebrais e, embora eu discorde do seu exercício quando se trata de decidir sobre a vida dos outros, ele existe e, existindo, pode ser usado sem que daí tenham de surgir críticas tão severas como as do Carlos Santos.

  3. Rúben Lopes

    “A minha democracia é melhor do que a minha” – lema de Carlos Reis dos Santos e a senhora do Burloque. Claro, não sou a favor da democracia (ou de qualquer tipo de regime que seja), mas tens que “aceitar o pacote inteiro”, se te proclamas a favor da democracia. Se não, então estes hipócritas revelaram-se.

  4. Euro2cent

    > pessoas iminentemente conservadoras

    Conceito interessante.

    (Podem-se tornar conservadoras a qualquer momento, sem aviso?)

  5. 1. Não me parece que haja uma forma perfeita de Democracia e, a sua definição é um pouco difusa. Mas, não podemos usar a democracia como forma de obliterar os direitos individuais ou de retirar direitos às minorias.

    2. Este problema afecta uma minoria muito pequena de pessoas (sobretudo crianças) que não se vão poder pronunciar no referendo, que vai ser decidido pela opinião de milhões que nunca pensaram no assunto.

  6. frank1971, estamos de acordo aí. Mas eu não sou social-democrata. Eu repudio a ideia que alguém possa decidir sobre a minha vida. No entanto, sendo esse o pressuposto que norteia o Carlos Santos, então ele deverá acatar com o que isso tem de bom e mau, mesmo que nem sempre os vetos soprem em sua concordância. Eu também considero que a proposta não deveria ir a referendo, mas não vou vaticinar aqueles que consideram que deve.

  7. povão

    A ADOPÇÃO e o seu sucedâneo da CO-ADOPÇÃO por homossexuais .
    Alto lá e pare o baile (de mascaras) …
    Não se esqueçam que há um menor de idade que não é ouvido nem achado . Perguntem-lhe quando ele for maior depois de ser gozado (v.g. bulliyng) todo o tempo pelas escolas onde andou . Chegar à escola (sobretudo numa aula de Ciências Naturais) e dizer que tem duas mães ou dois pais ! Mas que gozo !… O comportamento do menor tenderá para o isolamento e o rendimento escolar é potencialmente menor . Agravado pelo facto de a instabilidade ser maior na relação homossexual do que na heterossexual , e menor nos gays por estes admitirem a infidelidade mais facilmente do que as lésbicas .
    E como reage então e depois o menor ao assistir pelo buraco da fechadura às relações sexuais destas/destes pseudo progenitora(e)s , sobretudo se elas forem sonoras ? Porque também haverá eternamente duas perguntas sem resposta : Quem é o meu pai ou quem é a minha mãe ? E qual será o grau da sua revolta quando o menor descobrir que andou n anos a ser enganado . Criminalidade já temos q.b. . E segundo dizem os psiquiatras portugueses mais de metade já está maluco . Na verdade , mais um louco referendo quando apenas existe já e mal uma “vergonhosa minoria” de 200 casos de adoção com homossexuais , mas fora do âmbito das perguntas do presente referendo !… Foram ali solicitados certificados do registo criminal ou outros ? Referendo , quer se goste ou não , mas Democracia é Democracia , e assim para o Bem e para o Mal .
    Por sucessivos passos calculistas , os homossexuais conseguiram constitucionalmente , primeiro a adoção , depois o casamento e agora quase conseguiram a co-adopção com a aprovação da respetiva Lei na generalidade . Mas aquando da aprovação da Lei na especialidade ela descambou para um referendo com as seguintes perguntas :
    1 — «Concorda que o cônjuge ou unido de facto do mesmo sexo possa adotar o filho do seu cônjuge ou unido de facto?»
    2 — «Concorda com a adoção por casais, casados ou unidos de facto, do mesmo sexo?»
    E a final também pretenderão a pedofilia como no passado já havia sido reivindicado por alguns movimentos gays ? … Relativamente aos heterossexuais , nos homossexuais o risco de pedofilia não é diminuído , pelo contrário poderá até ser ampliado … Se possível , em discretos termos regulamentares , sem ceder , as lésbicas só deviam adotar menores do sexo masculino e os gays adotar menores do sexo feminino .
    Mas se na homossexualidade não existe o perigo de uma doença , ao contrario do que afirmava o Dr. Sacarides , contudo, um menor educado por um gago não se transforma também num gago ?.Mas o bicho humano não é também um macaco de imitação ? E também aqui se desconhece o que é a mutação ? Mas agora que Portugal está em vias de extinção por falta de natalidade é que enveredam por este caminho do abominável subsidio e aborto pagos com impostos e em prejuízo de doentes graves e ainda os folclóricos casamentos gays ?
    Referendo com um Povo iliterato multi disciplinarmente ? Agravado com a abstenção . Referendo quando há parcial cobertura constitucional para tal : Um homossexual pode adotar. Adota e posteriormente casa !… A pergunta 1 não tem sentido : um direito que o hétero não tem !… A pergunta 2 tem cobertura constitucional . Mas a cobertura constitucional dependerá sempre da posição relativa na hierarquia de valores , nomeadamente os direitos da criança .
    Me perdoem , e vem estes deputados corruptos e ideólogos da merda (os mesmos que suportam este regime corrupto) falar nos interesses da criança quando lhe cortam com a supracitada Lei da Co-adopção todos os laços familiares(v.g. avós) e até a podem prejudicar patrimonialmente …

    “Não me parece que existe aqui um direito à adoção por casais homossexuais da mesma forma que não existe para os heterossexuais. O direito à adoção deve ser da criança e não dos adultos e é sobre esta perspetiva que deve ser analisado e decidido quem pode ou não adotar”(sic) , seja homo ou hétero …
    A Constituição permite a adoção e o casamento . Em relação à co-adopção veremos …
    E a cegueira do 25 de Abril está alastrando…
    (a cegueira do PS , o errado oportunismo eleitoral do PSD e os “maricas” do CDS)
    A COADOPÇÃO – Como defender os Direitos das Crianças . Como defender os Direitos das Minorias segundo Isabel Moreira … esta fofa Isabel do PS virou fufa e deixou o marido .
    Suponhamos que este hibrido é fertilizável e decide produzir um filho “in-vitreo” . Entretanto casa com a fufa Maria . Duas mães . Pai omisso . A fufa Maria co-adopta este menor o que faz cessar todos os laços familiares do menor com a família de Isabel .Entretanto a Isabel falece . Posteriormente falece o ex-avô Adriano , pai de Isabel . Assim , o menor já não herda a fortuna do ex-avô Adriano . E mesmo que herdasse , haveria sempre o perigo desta fortuna ser desbaratada pela fufa Maria que entretanto havia encetado relações duvidosas , pondo até em perigo não só aquela fortuna como também o próprio menor … Chama-se a esta chafurdice “defender os Direitos das Crianças” !…
    Abre Núncio !!!

  8. Ana Maria Gomes

    Discordo em absoluto deste artigo!
    Interpretou o artigo do Carlos Reis de uma forma preconceituosa!!!
    Triste época! É mais fácil desintegrar um átomo do que um preconceito!!!

  9. Caro Mário Amorim Lopes,

    Sobre o “pacote inteiro” da Democracia o senhor tem, uma visão rousseauniana da coisa. A mesma que legitimou os desmandos revolucionários da Convenção Francesa – naturalmente aí, o senhor está à Esquerda de mim. Partilho uma visão antropológica da Democracia mais próxima da de Thomas Hobbes.

    Recomendo-lhe que revisite os gregos antigos que alertavam para a perversidade da multidão e que releia Hobbes que explica que “O Homem é o lobo do Homem”.

    Em termos puramente procedimentais natureza da Democracia é intrinsecamente inseparável do seu método, e tanto ou mais importante do que quantificar o número da maioria, é assegurar a sobrevivência da minoria.

    O senhor, provavelmente, confessando-se moderno é iliberal em termos democráticos – é um populista.

    Respeito-o – mas tenho a obrigação de não o deixar vencer.

    Quanto à questão dos Direitos Humanos que estão em causa – um pelo menos está: o da Igualdade. Que pressupõe que não sejam colocadas em causa as capacidades parentais de alguém, em detrimento de outrém, em função de quem ama.

    Quanto ao alegado equívoco da minha filiação no PSD o senhor está enganado, ou então viveu pouco a história do meu Partido. O PSD sempre foi Liberal em matéria de liberdades individuais – ao contrário do PS, por natureza muito mais regulamentador.

    Em 1979 Mário Soares fez campanha contra Francisco Sá Carneiro agitando a sua união de facto com Snu Abecassis. O PSD foi o primeiro partido político do argo governamental a ser liderado por homens divorciados. O primeiro a ser presidido por uma mulher. A JSD chegou a ser liderada por um Homossexual assumido.

    Sim – o PSD tem também uma base conservadora. Que bebeu no personalismo cristão e que advém da influência da Igreja Católica – mas esse conservadorismo exprime-se muito mais por uma visão de solidariedade social, moderada, protectora das IPSS e activa no voluntariado e nas Misericórdias. Mas que nunca foi clerical.

    Liberal nos costumes, personalista nos valores, social em termos económicos.

    Quem estará a mais no PPD/PSD serão provavelmente os seus amigos.

    Obrigado pelo selo.

    Em termos procedimentais

  10. Caro Carlos Soares,

    Tentei passar de forma subliminar que não defendo nenhum regime em particular, mas parece-me que falhei no tento. Não obstante, não me parece que daí possa inferir que eu defendo a imposição da democracia ou que alinho nos desvarios de Robespierre. Concordo sim com as observações de Montesquieu. Aliás, a referência à ditadura da maioria não foi propriamente casuística, julgava eu. É a perene constatação que, em democracia, uns podem decidir sobre a vida dos outros. E, se assim o é, e se o Carlos se assume social-democrata (assumi este ponto, confesso), então não se pode escusar a aceitar a democracia como ela é, e respeitar que o recurso ao referendo seja uma via legítima.

    Achei curiosa a sua tentativa de me colar à esquerda, quando é o Carlos que reclama por um PSD menos liberal no que à liberdade económica diz respeito, embora se revele beneplácito nas liberdades individuais, conquanto devidamente circunscritas ao âmbito social. Essa descrição figura muito bem na ala canhota do PS. O liberalismo não começa nem acaba em Hobbes, e talvez uma referência a Locke, Bastiat ou a Molinari revele que o respeito pela liberdade individual pressupõe todo o seu espectro, pelo que deverá respeitar as estruturas de ordem espontânea que decorrem da tal liberdade individual, como o mercado livre. Não se é liberal para umas coisas e iliberal para outras. Ou melhor, é-se, e a tal apelida-se de socialista.

    Por fim, parece-me que interpretou mal o meu posicionamento nesta questão. Não acho que em circunstância alguma o Estado deva interceder na vida privada ou que a consulta popular possa ditar o destino de terceiros. Mas eu não sou social-democrata. E, não o sendo, a solução é simples: a matéria nem sequer é referendável porque não compete ao Estado regular ou legislar sobre o casamento e muito menos sobre a adopção, competências do âmbito da família. A fazê-lo e em situação de excepção, como refiro no texto, então deve ser não-discriminatório e, como tal, aceitar a adopção por casais do mesmo sexo.

    Finalmente, as reservas quanto a esta questão não se limitam aos clericais e ultramontanos. Como referi, existe toda uma facção não necessariamente eclesiástica ou sequer religiosa que, pura e simplesmente, teme as repercussões sociais. E essa posição deve ser respeitada.

  11. PeSilva

    Uma vergonha chamada PSD, JOÃO MIGUEL TAVARES
    Já deputados do PSD como Francisca Almeida, e outros como ela, que garantiram à comunicação social que tinham a “intenção de votar contra” mas depois votaram a favor, serviram apenas para nos informar que a obediência ao partido se sobrepõe à obediência à sua consciência. Lamento, mas isso não chega a ser coragem – é apenas uma forma lastimável de atirar para a lama a dignidade do estatuto de deputado, como ontem já aqui sublinhou Rui Tavares, e uma desobediência clara ao artigo 155.º da Constituição Portuguesa, onde está inscrita uma frase que, se calhar, convém mandar imprimir e colar nas paredes do Parlamento: “Os deputados exercem livremente o seu mandato.” Se não é para o exercerem livremente, então mais vale irem para casa. Cinco líderes de bancada chegam perfeitamente para brincar à democracia. Sobretudo a uma democracia tão rasteira quanto esta.
    http://www.publico.pt/politica/noticia/uma-vergonha-chamada-psd-1620381

    Referendo sobre a co-adopção, Luís Aguiar-Conraria
    1 – Portugal é signatário da Convenção Europeia de Direitos Humanos.
    2 – Desde 1998 que Tribunal Europeu dos Direitos Humanos foi criado para garantir a aplicação da Convenção referida no ponto anterior.
    3 – Portugal é um dos estados membros do Tribunal Europeu dos Direitos Humanos.
    4 – Este Tribunal já declarou, por mais de uma vez, que o direito à co-adopção é um direito da criança garantido pela Convenção Europeia de Direitos Humanos.
    5 – Torno a referir, Portugal é signatário da Convenção Europeia de Direitos Humanos e é um dos estados membros do Tribunal Europeu dos Direitos Humanos.
    6 – Direitos Humanos não se referendam.
    7 – Se é verdade que Pedro Passos Coelho se dedica a trafulhices legais para impedir a aplicação da Convenção Europeia de Direitos Humanos em Portugal, ainda mais tratando-se de crianças, então Passos Coelho não tem estatuto moral para ser primeiro-ministro de Portugal.
    8 – Repito, esta apreciação é no pressuposto de que a notícia é verdadeira. Se for falsa, eliminarei esta entrada
    http://destrezadasduvidas.blogspot.pt/2014/01/referendo-sobre-co-adopcao.html

  12. Caro Mário Torpes,

    Não vale a pena estendermo-nos muito e poupemo-nos em réplicas e em tréplicas.

    Registo apenas que quanto ao fundo da questão o senhor coincide com a minha rejeição desta Proposta de Referendo indecente e lamentável.

    Sendo que, se por absurdo, o Tribunal Constitucional entendesse que a mesma seria conforme à Constituição formal e material (de que a jurisprudência do TEDH é parte integrante e tem valor supra-legal) e que, se por ensandecimento, o Presidente da República, convocasse o tal Referendo, obviamente que, enquanto cidadão, teria de de me conformar, e participar e tanto quanto possível, fazer campanha pelos meios legais ao meu alcance.

    Mal ou bem, era o que a Oposição Democrática fazia nas Eleições realizadas sob o quadro legal do Estado Novo usando o pouco que a Constituição de 1933 lhe oferecia.

    Tudo o resto são divagações suas. Poderíamos falar muito tempo sobre a essencialidade da ética no capitalismo tal como aventada por Adam Smith (esse perigoso comuna) ou, revisitar toda a Doutrina Social da Igreja desde a Rerum Novarum de Leão XIII até ao Papa Francisco. Mas isso seria maçador. E que a defesa da regulação dos mercados e a defesa do papel do Estado enquanto regulador e garante da coesão social da comunidade e de propiciador da mobilidade social ascendente num país historicamente desigual e chegado atrasado à modernidade europeia, nada tem de Esquerda.

    Eu estou no mesmo lugar onde sempre estive – se outros se deslocaram tanto para a Direita até parecerem um ramo do Tea Party americano o problema não é meu. Ou pior, até é – é de todos.

    Bom dia.

  13. Caro Carlos Soares,

    Vou interpretar o “Mário Torpes” como um descuido, uma distração da sua parte, semelhante à que cometeu na sua missiva contra a JSD: esqueceu-se que outros que não partilham a sua opinião não são necessariamente nojentos ou desonestos. Insulto rasteiro encoberto de typo fica-lhe mal.

  14. Concorde-se ou não com o Carlos Reis, a sua tese até seria passível de debate não fosse a sua hipérbole irrazoável. Perde qualquer adesão à realidade quando compara a JSD à Mocidade Portuguesa ou o PSD ao “Tea Party”.

  15. Toda a afronta à posição da JSD é absolutamente agigantada. Sei que as emoções afectam a razoabilidade, mas há limites. E embora concorde em substância com o que o Carlos diz — decidir a vida dos outros não deveria ser referendável em circunstância alguma —, discordo na incoerência. Se assim o é, então tem de ser coerente e assumir que, em caso algum, poderemos arbitrariamente decidir sobre a vida dos outros.

  16. Miguel Noronha

    Exacto Mário.
    Mas para isso também teria de haver consenso em todas essas questões. Ou então baseamo-nos nalguma lei divina.

  17. A posição liberal não exige consenso: dado que cada um decide a sua vida, não surge a necessidade de referendar decisões sobre a vida dos outros. Penso nem ser necessário recorrer a lei natural.

  18. Miguel Noronha

    Certo. Mas isso seria supor uma situação em que não existem muitas das limitações à liberdade individual em vigor. Desmantelar o socialismo paternalista exigirá em alguma momento a revogação em sede própria dessas leis. Pode parecer um contra-senso mas infelizmente temos de contar com a aprovação de terceiros para que nos sejam restituidos direitos.

  19. Claro, de acordo. Mas as limitações em vigor nunca foram a contenda do Carlos Soares. Aliás, a referência a Hobbes e a ideia implícita de que é necessário o Estado para proteger o homem de um qualquer estado natural de selvajaria é a revelação disso mesmo: a crença desmesurada de que nos instrumentos da intervenção estatal está a chave para tudo.

  20. Miguel Noronha

    Não me estava a referir ao que ele disse mas sim ao absurdo da posição do “não referendável”.

  21. O Carlos Soares, nesta discussão aqui, tem razão (pelo menos) num ponto: o PS sempre foi mais regulamentador da vida privada. A prova disso é exactamente esta iniciativa legislativa sobre a co-adopção.
    Se não, vejamos: o artigo 13º da Constituição que regulamenta o direito da igualdade, diz o seguinte:

    “1. Todos os cidadãos têm a mesma dignidade social e são iguais perante a lei.

    2. Ninguém pode ser privilegiado, beneficiado, prejudicado, privado de qualquer direito ou isento de qualquer dever em razão de ascendência, sexo, raça, língua, território de origem, religião, convicções políticas ou ideológicas, instrução, situação económica, condição social ou orientação sexual.”

    Em segundo lugar:

    já existe uma instituição que regulamenta as relações familiares de filhos de pais separados, orfãos de pai ou de mãe, etc… chama-se Tribunal de Família e Menores, onde trabalham funcionários (supostamente) competentes e informados sobre estas matérias e que têm já o poder de decidir caso a caso que rumo dar à situação.

    (Eu sei por experiência própria que, a partir do momento em que os pais se separam, passam a ser “prisioneiros” do bem estar e dos direitos da(s) criança(s), mais do que os progenitores que vivem juntos em família, visto que o garante dos direitos da(s) criança(s) passa a ser supervisionado pelo Estado/Tribunal sob denúncia de qualquer um dos progenitores.)

    Posto isto, porquê complicar mais as coisas com uma legislação do tipo “one size fits all”?
    A resposta é simples: porque o PS regulamentou o “casamento gay”, que na realidade não é um casamento… No fundo o que aparentemente foi uma grande conquista da libertação gay, não é mais que a entrega ao estado da liberdade individual e da liberdade de união voluntária, em vida comum, entre pessoas do mesmo sexo. É claro que com isto, e eu até compreendo, os gays que se querem casar, ganharam imensos “direitos”. Aliás, ganhámos todos…

    Ganhámos o direito de viver com um tecido legislativo cada vez mais denso e difícil de compreender e de, mais facilmente violarmos a lei ou de ficarmos à margem dela, de tão complicada que se torna.

    Resta-me dizer que sempre fui contra o “casamento gay”, porque, em boa verdade, sempre fui contra o casamento. Mas, no que diz respeito à co-adopção, para além de concordar com Mário e com Carlos Soares, parece-me que isso já está regulamentado no artigo 13º e que, o Tribunal de Família e Menores já tem a competência necessária para decidir sobre o que é melhor para os interesses e bem estar das crianças. Que na realidade é essa a única questão que interessa. Por isso, todo este ruído à volta desta questão, não é mais do que isso, ruído.

  22. Nuno Santos

    E que tal referendar sobre eleições antecipadas? Ou será que isso não vos interessa? Será mais importante e util para os portugueses, o referendo sobre a co-adopção? Mas estes deputados, que ganham uns bons ordenados, pagos por todos nós. Que tiveram o desplante de aumentar os seus subsidios em mais 90%, não têm a noção que estamos fartos deles? Porque não referendam a diminuição do número de deputados na AR? Porque não referendam o acabar com todas as mordomias que os politicos têm? Já agora, porque não emigram todos, em vez dos milhares de portugueses que todos os dias têm que partir para fora de Portugal? Eu, já o escrevi uma vez: No dia que não tiver como alimentar a minha filha, vou atrás dos responsáveis pela miséria deste país. Estou fartinho destes politicos da treta que apenas se servem, em vez de servir o país. Pena que a maioria dos portugueses, sejam tão permissivos. Muita gente confunde permissividade com civismo.

  23. luis miguel

    Sabem tanto de ciência politica, possuem um discurso tao eloquente como complexo, mas não acertam sequer no nome do visado: é Carlos reis.e não foi necessário um doutoramento.
    A seguir a isto pergunto me se os vossos argumentos são vossos, ou foram retirados da wikipedia. Podem tentar, mas a verdade do texto do Carlos reis e pura e isso incomoda vos tanto, que nas vossas opiniões da wikipedia, não tem coragem de publicar a vossa imagem. Isso diz tudo.

  24. Pingback: A Co-Adopção n’O Insurgente | Ricardo Campelo de Magalhães

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