Leitura dominical

Festas felizes?, a crónica de Alberto Gonçalves no DN.

No início do mês, Nelson Arraiolos, de 41 anos, desempregado, anunciou que iria ao Pingo Doce do Rossio, em Lisboa, e de lá traria um quilo de arroz sem pagar. Foi. Trouxe um cabaz de alimentos diversos, entregue por responsáveis da empresa, que naturalmente não queria má publicidade ou confusões. Sorridente, o senhor Nélson posou para os media junto ao cabaz e a história morreu aí para ressuscitar após três semanas, quando um grupo de alegados desempregados e trabalhadores precários entrou na mesma loja e se recusou a sair enquanto não recebesse cabaz idêntico, presumo que por cabeça. Os manifestantes exigiram o livro de reclamações, que usaram com vagar, e obrigaram à intervenção da polícia, que acabou por fechar temporariamente o estaminé. Primeiro a tragédia, depois a farsa, não é? Pelos vistos. Desde logo, conviria apurar a proximidade dos desempregados e precários aos grupinhos que fazem da baderna a sua profissão. Em seguida, seria interessante perceber o propósito do protesto. A ideia era insultar o Governo, a austeridade e a troika ou, por outro lado, os estabelecimentos que, uma vez sem exemplo, oferecem comida a um necessitado? O Pingo Doce, de resto já condenado quando pratica preços baixos, tem a obrigação moral de não praticar preços nenhuns? E se os pontuais descontos de 50% motivam a fúria dos sindicatos e as multas da ministra Assunção Cristas, que calamidades os descontos de 100% convocariam? Além de tudo, é estranho que a intolerância de quem se afirma preocupado com o desemprego se volte regularmente para um grupo económico que, mal ou bem, emprega 70 mil cidadãos. Será que o problema é o facto de o grupo, a que não estou ligado por qualquer vínculo incluindo o da simpatia, pagar parte dos seus impostos na Holanda?

Por acaso, suspeito do contrário: o problema da Jerónimo Martins é exercer actividade em Portugal. Um caso de iniciativa privada que por definição existe à margem do Estado (e, como se vê, ocasionalmente contra o Estado), dá lucro, é o maior empregador do País e constitui, também por definição, o avesso de tudo o que a indignação militante e organizada defende. Salvo pela opinião de uns ingénuos e a má-fé dos media, os indignados combatem o emprego. Para as pessoas comuns, o protesto do Pingo Doce designa-se por assalto.

 

3 pensamentos sobre “Leitura dominical

  1. S. G.

    Portugal neste aspecto está a tornar-se uma república igual a tantas outras que todos nós conhecemos e abominamos, situadas na América Latina.
    Estes “pobres” exigentes, seriam recebidos lá de braços abertos, quanto mais não fosse, pelo traquejo já demonstrado a pedir o Livro de Reclamações!!!

  2. Rogerio Alves

    (Quase) de certeza que foi uma iniciativa organizada (pelos do costume, e não me estou a referir ao próprio Pingo Doce) apenas para ser mais uma forma de protesto contra o Pingo Doce. (Eu nem sou cliente pelo que serei o último defensor da casa). O Pingo Doce teve algumas iniciativas que irritaram alguns teóricos da esquerda (e nem interessa aqui dissecar porque é que se irritaram) e, vai daí e não havendo outro assunto, inventou-se este protesto “espontâneo”. Neste caso, não daria mais importância do que isso. Mas posso estar errado.

  3. Francisco Miguel Colaço

    Está profundamente certo, Rogério. O protesto não é exactamente contra o Pingo Doce, mas contra o Alexandre Soares dos Santos, que tem carradas de razão. E o PCP sabe-o. E não quer que a maralha o saiba.

    Atacando-se o homem, fecham-se os ouvidos da carneirada. Quem não ouve não julga.

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