Um caso de sucesso

100_USD_1934O que se espera de uma moeda?

1. Que se desvalorize:
a desvalorização de uma moeda garante uma flexibilidade real à economia que não existe em moedas com carácter deflacionário. Tanto o sistema legal como a natureza humana têm aversão a perdas nominais (veja-se o exemplo do Tribunal Constitucional em Portugal) o que, com uma moeda que não se desvalorize, introduz alguma inflexibilidade legal e psicológica nos mercados, sendo um bom exemplo o mercado de trabalho.
2. Que essa desvalorização seja lenta, para que a moeda possa cumprir a sua função de unidade de conta e de reserva de valor de curto prazo (moeda não tem de ser reserva de valor de longo prazo).
3. Que essa desvalorização seja previsível, por forma a não interferir no cálculo económico e não ser um factor de risco nas análises de investimento.

A esmagadora maioria das moedas fiduciárias falharam. Com uma desvalorização lenta e previsível ao longo de grande parte da sua história, principalmente a história recente, o dólar é um caso de sucesso. Reflexo disso é o facto de ser usada voluntariamente por cidadãos, empresas e países fora dos EUA. Estes escolhem usar o dólar para as suas transaçõees comerciais e contratos, não por serem coagidos a fazê-lo, mas por reconhecerem na moeda oas qualidades necessárias para tal. Escolhem voluntariamente o dólar, não o ouro, o Real ou o bitcoin.
O dólar tem muitos problemas, o principal dos quais o mecanismo através do qual a expansão monetária é feita, que ajuda à criação de bolhas de activos, mas deveria a última moeda na lista dos críticos das moedas fiduciárias. Não é, acima tudo, a desvalorização ao longo de 100 anos um bom argumento contra o dólar. Seria, se o objectivo de uma moeda fosse ficar 100 anos debaixo de um colchão. Não é: é para isso que existe o ouro.

18 pensamentos sobre “Um caso de sucesso

  1. CN

    Imaginando duas moedas com o mesmo valor legal, aquele que vai desvalorizando a 2 ou 3%, às vezes 4 e 5%, vai ser escolhido com mais probabilidade que outra que possa valorizar ao ritmo de crescimento da economia?

  2. Carlos Guimarães Pinto

    Vai, mais não seja por um mecanismo darwiniano no qual as economias com moedas que se desvalorizam lenta e previsivelmente prosperam mais devido a uma maior flexiblidade no ajustamento de preços.

  3. Rui

    Bom artigo Carlos Guimarães Pinto. espero que os outros escribas permitam que continue por aqui mesmo sem defender o padrão ouro…

  4. dervich

    O que é referido como vantagem para o dólar no ponto 1 é exactamente o mesmo que é referido por si como desvantagem em relação à politica monetária do Euro.

    ” Estes escolhem usar o dólar para as suas transações comerciais e contratos, não por serem coagidos a fazê-lo, mas por reconhecerem na moeda as qualidades necessárias para tal”

    Não, está enganado, é só mesmo para pagar o petróleo.

  5. Hmmm…. não concordo de todo. O que é descrito neste posto como “o que se espera de uma moeda” é precisamente o contrário do que é esperado. A este propósito, recomendo vivamente a curta obra de Murray Rothbard: “What has government done to our money”. Em relação à utilização “voluntária” por cidadãos, empresas e países fora do EUA tem muito a ver com razões históricas, designadamente o acordo de Bretton Woods que estabeleceu o dólar como moeda de reserva (precisamente por estar indexado ao ouro).

  6. Pingback: God bless the Dollar – Aventar

  7. Euro2cent

    > Que se desvalorize

    Não sei bem porque raio é que quem tem propriedade sob forma monetária há-de ser mais castigado do que os que a têm em terrenos, instrumentos financeiros ou “propriedade intelectual”.

    A não ser que em geral são mais pobres.

    Quer explicar?

  8. JS

    “…Não, está enganado, é só mesmo para pagar o petróleo….”
    Sim, Dervich, mas não só. Transações internacionais de petróleo em Dolars, um ex-exclusivo dos EUA, em vias de ser ultrapassado, devagarinho ….
    Arábia Saudita, Russia, China … todos fartos do US Dolar, mas sem força, ou acordo politico, para conseguir alternativa válida.
    Entretanto o Fed imprime papel tingido de verde….

  9. Nuno

    Peço desculpa, mas não é nada disso que se espera duma moeda. O que se espera é que seja reserva de valor e meio de troca. O que refere nos pontos 1 a 3 nada tem a ver com as funções da moeda. O que descreve referindo-se à baixa taxa de desvalorização é simplesmente o damage control pelas entidades monopolistas legais (os Bancos Centrais) dos efeitos perniciosos da emissão de moeda fiat: como nestes sistemas a emissão de moeda vem acoplada a mais dívida, tem de ser constantemente criada mais e mais (inflação) sob pena de a dívida ser liquidada, por consequência desaparecer moeda e assim colapsar o sistema.

  10. lucklucky

    As pessoas não se interessam por isso, preferem um aumento de 3% no ordenado e 15% de inflação que um decréscimo de 3% no ordenado.

  11. LV

    Equacionar a utilização do dólar mundialmente como algo que resulta de uma acção voluntária… bem, optimismo ou ingenuidade por parte de CGP. Para além dos problemas constitucionais (internos aos EUA) face à emissão de moeda, a acção da política externa americana suportada em acções militares recorrentes garante (garantiu!) a adopção do dólar. E aí de quem olhasse para alternativas!
    Não creio que a qualidade 1 seja relevante para a questão em causa. Por que razão seria importante desvalorizar a moeda? Não é que estão a fazer os bcentrais? E que sucessos isso garante? Perante os riscos de bolhas e recessões?

  12. Renato Souza

    “O dólar tem muitos problemas, o principal dos quais o mecanismo através do qual a expansão monetária é feita, que ajuda à criação de bolhas de activos, mas deveria a última moeda na lista dos críticos das moedas fiduciárias.”

    O autor parece considerar que a criação de bolhas é causada pela forma da expansão monetária. Mas a criação de bolhas é o que explica uma inflação de preços menor do que seria de outra forma. Então não é um problema à parte, é conseqüência da expansão monetária. Pelo que posso entender, há cinco mecanismos que aliviam a expansão de preços ao consumidor medida:

    1. O fato do dollar ser uma moeda internacional “exporta” inflação de preços para o mundo todo, diluindo o efeito nos EUA. Mas isso é um problema, o efeito ruim não deixou de existir, só foi espalhado.
    2. As bolhas, incentivadas pelo próprio governo americano, absorvem grande parte do dinheiro novo criado. Novamente isso é um problema, porque bolhas estouram, com efeitos devastadores.
    3. A dinheiro que o governo americano paga para que os bancos não soltem no mercado. E isso também é um problema grave, aumentando a explosiva dívida americana.
    4. Os índices fraudados da inflação de preços ao consumidor. Os preços escolhidos para compor os índices de preços não são os mais representativos, mas sim os mais úteis aos políticos. Novamente isso é um problema, pois além das pessoas ficarem mais pobres e serem enganadas sobre isso, a corrupção, a mentira, o controle dos meios de comunicação e a infantilização da população são terríveis efeitos colaterais.
    5. O aumento da produtividade disfarça os efeitos da expansão monetária. O povo fica feliz pelo fato dos preços não subitem tanto, mas ignoram que grande parte desse aumento da produtividade iria, numa moeda de verdade, resultar em aumento da prosperidade do povo, com preços cada vez menores.

    Além de tudo, a expansão monetária cria ciclos econômicos, que diminuem grandemente o crescimento médio da economia, além de gerarem crises que causam grandes problemas para a população, principalmente os mais pobres.

  13. Andre Macedo

    Vou ter de discordar pela primeira vez com o Carlos Guimarães Pinto.

    Assumirmos que o racional da desvalorização da moeda é o de uma ferramenta útil de governação porque se apoia na ignorância da população, é uma aposta na infantilização continua da sociedade.

    Prefiro pensar que podemos evoluir para uma gradual consciencialização da população de que o valor nominal é irrelevante comparativamente ao poder efectivo de compra.

    Ao contrário de muitos cínicos acredito que o mundo é cada vez um sítio melhor, em parte porque as pessoas estão cada vez mais iluminadas.

    Retirar efectividade ás ferramentas de controlo monetário dos governos (através da iluminação dos agentes económicos) será uma victória para as economias e para o indivíduo.

  14. CN

    Ora exactamente porquê é as moedas estatístas tiveram que se impor por proibição do padrão-ouro se parecem corresponder a uma maior qualidade?

    O CGP continua a ignorar que o natural numa moeda livremente escolhida é os preços descerem com o crescimento econômico e onde nada obriga a que os salários desçam nominalmente (aquilo que parece fazer o CGP acreditar que um pouco de inflação é necessário).

  15. Carlos Guimarães Pinto

    CN, numa economia em que a moeda se valorize, quedas de produtividade têm que resultar em descidas de salários. As quedas de produtividade não precisam de ser físicas. Dois exemplos:

    1. Numa fábrica de camisolas azui, trabalhadores produzem 20 camisolas azuis por dia, que são vendidas a 10mg de ouro cada. Se consumidores deixam de gostar de camisolas azuis, preço cai para 8mg de ouro. Produtividade dos trabalhadores, que continuam a produzir 20 camisolas por dia caiu 20%.
    2. Numa fábrica de camisolas azuis, trabalhadores produzem 20 camisolas azuis por dia, que são vendidas a 10mg de ouro cada. País abre ao comércio internacional. Fábrica na China produz as mesmas camisolas azuis, vendendo-as a 8mg de ouro cada uma. Produtividade dos trabalhadores, que continuam a produzir 20 camisolas por dia caiu 20%.

    Em ambos os casos, salário nominal tem que descer até que a produtividade física aumente ou de forma definitiva.

  16. Carlos Guimarães Pinto

    LV, dou-lhe dois exemplos: tanto o Sudão como o Irão são duas economias fortemente dolarizadas contra a vontade dos EUA (que proibe mesmo os seus bancos de negociarem com os dois países). A questão é: porque preferem as empresas destes dois países fazer negócios denominados em dólares e não em ouro, euros ou na moeda local?

  17. LV

    CGP,
    Julgo que os exemplos que avança (Sudão e Irão) são maus para suportar o seu argumento. Por duas razões:
    – em primeiro lugar, o dólar é moeda de referência internacional pela força que os EUA sempre projectaram, logo, essas duas nações, naquilo que podem, usam o dólar para aceder ao mercado internacional (os EUA só proíbem as transacções económicas, não a utilização do dólar, mas como o dólar é moeda de referência… veja o caso recente do Irão que estava a transaccionar petróleo por ouro com a Turquia como forma de contornar as contas das sanções ao comércio e logo vieram os americanos forçar novas acções da ONU para estrangular esse desígnio);
    – em segundo lugar, ainda que escolham usar dólares para além das suas moedas nacionais, isso deve-se ao facto destas últimas padecerem (num grau muito maior, é claro) dos problemas do papel-moeda (fiat) em geral; e desses problemas o dólar também padece ainda que a escala na percepção pública desses males seja relativamente pequena (a escalar rapidamente, todavia).
    Quanto à visão deflacionária que explora, não vejo que ela seja, por si, má para a economia. Pode assistir-se a fenómenos de deflação que decorrem dos processos económicos livres (pela concorrência, avanços tecnológicos) e da adopção de dinheiro que represente um valor efectivo e tangível. Já a moeda fiat (papel que é dívida) favorece sempre inflação e impõe um imposto escondido. Mas que é o sonho de qualquer político ou banqueiro, lá isso é.

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