As rendas do euro

Artigo de Pedro Bráz Teixeira no i

Em economia, uma renda económica é um rendimento fruto de um défice de competição, que tanto pode ser natural como artificial. O euro criou muitas rendas, sobretudo nos sectores da banca, da construção e da energia, que não poderiam ter ocorrido se tivéssemos mantido o escudo.

A bem dizer, não é inteiramente correcto dizer que o euro criou estas rendas. Na verdade, foi um défice de compreensão dos mecanismos económicos do euro que levou muitos, com particular destaque para Vítor Constâncio, a ignorar a necessidade de continuar a respeitar a restrição externa e a declarar que o défice externo tinha deixado de ser relevante.

Partindo desta erradíssima premissa, que nos haveria de levar directamente para os braços da troika, os sucessivos governos, desde 1995, estimularam fortemente a procura interna. Este estímulo criou uma profunda distorção na economia, gerando uma abundância totalmente artificial nos sectores dedicados à economia portuguesa e um sufoco nos sectores que competiam no exterior, esmagados por uma escalada de custos, quer nos serviços quer nos salários, que aquele estímulo gerou e que seria impossível de acompanhar.

Com os sinais – totalmente errados – criados pela política económica, os sectores não transaccionáveis (dependentes da procura interna) expandiram-se enquanto os sectores expostos à concorrência internacional definharam quase todos.

Vejamos, em particular, três sectores que foram dos maiores beneficiários do euro: a banca, a construção e a energia.

Continue a ler aqui.

10 pensamentos sobre “As rendas do euro

  1. António

    A análise está muito boa, mas culpar o Constâncio é mera implicância sectária e pessoal…ele não este em nenhum governo desde 1995!

    Quem errou foram os intervenientes económicos, públicos e privados, com destaque para os váerios Governos PS-PSD e CDS deste Estado corporativo.

    E se você achas que os sectores que mais beneficiaram serão os que mais perdem está cego. Neste Estado corporativo ( ser de “direita” ou “esquerda” é irrelevante) os interesses protegem-se. A banca , energia e até telecomunicações estão garantidas. Só a construção ( as PME) é que estão a sofrer a sério. As PME… Os grandes construtores vão sempre arranjando uma obra aqui e ali, de mão dada ao Estado, nacional ou estrangeiro.

  2. Miguel Noronha

    “A análise está muito boa, mas culpar o Constâncio é mera implicância sectária e pessoal…ele não este em nenhum governo desde 1995”
    A referência a Vítor Constâncio está bem delimitada e revela bem a inconsciência do líder de uma instituição que deveria ser a primeira a avisar para o perigo daquele tipo de desiquelíbrios.

    “Quem errou foram os intervenientes económicos, públicos e privados, com destaque para os váerios Governos PS-PSD e CDS deste Estado corporativo.”
    Concordo mas sem ilibar o PSD e o CDS convém recordar que de 1995 a 2010 estes apenas estiveram 2 anos no governo e tiveram que gerir uma mini-crise orçamental.

  3. Miguel Noronha

    “A banca , energia e até telecomunicações estão garantidas”
    Não me parece que a banca esteja a passar propriamente por um momento aureo. Longe disso. E o mesmo nas telecomunicações onde a concorrência é maior. A energia onde a concorrência é muitissimo mais limitada é que deve estar mais resguardada. As construtoras, grandes ou pequenas, que não diversificaram os seus mercados serão provavlmente as piores. O nível de alavancagem era enorme e a redução na carteira foi drástica.

  4. Luís Lavoura

    levou muitos […] a declarar que o défice externo tinha deixado de ser relevante

    Muitos dos que declararam isso foram os libertários (não digo que neste blogue em particular), que passaram anos a dizer que o défice do Estado era importantíssimo mas que o défice externo não tinha relevância nenhuma.

  5. Carlos

    “que o défice externo não tinha relevância nenhuma” … e não tem importância nenhuma. O facto de ter um défice externo não prejudica a riqueza de uma país, mas prejudica sim um indicador chamado ‘PIB’. Se estivermos a tentar aumentar o PIB, então o défice externo importa.

  6. Miguel Noronha

    O PIB é um estimador da riqueza produzida anualmente. Com todas as imperfeições que possa ter.
    O problema do défice externo é que temos de ter meios para o pagar. Caso contrário vamos acumular dívida. Como já estavamos no Euro isso não teve impacto nos câmbios nem nas taxas de juro.

    Só acordamos quando já tinhamos uma pilha enorme de dívida (tanto pública como privada) e não nos emprestavam mais dinheiro.

    No fundo estivemos vivemos uma afluência ilusória à custa do endividamento.

  7. Carlos

    Miguel Noronha, como indivíduo, tenho défices na maior parte dos dias do mês. No entanto, não me meto em dívidas.

  8. Luís Lavoura

    Miguel Noronha,

    Recorda-se quem foram?

    O João Miranda, recordo-me bem.

    Mas houve outros, de quem não me recordo com certeza.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.