O peixe, os velhos e o pau

howaneconomygrowsandwhyitcrashesEra uma vez uma ilha em que os habitantes sobreviviam de pesca artesanal. Os habitantes passavam o dia a pescar à mão e a usufruir dos frutos desse trabalho. Aquilo que pescavam diariamente chegava para satisfazer as necessidades da sua dieta. Os anos foram passando e os habitantes continuavam na sua rotina habitual até que um dia um deles se apercebeu que estava a envelhecer e que daí a uns anos será incapaz de pescar tanto como pesca hoje. Decidiu reunir todos os habitantes e apresentar-lhes o problema. Após pensar por um minuto, um dos habitantes sugeriu uma solução: solidariedade inter-geracional. A sua proposta era que, à medida que os habitantes fossem chegando à idade em que já não conseguiam pescar, os habitantes mais novos abdicassem de parte do seu peixe para alimentar os mais velhos. Mais tarde, quando esses também envelhecessem fariam o mesmo com as novas gerações e por aí fora. Como existiria sempre uma nova geração, haveria sempre peixe para distribuir. Parecia uma boa ideia Nessa altura surgiu a pergunta: “Mas então, como garantimos que os mais novos contribuem para alimentar os mais velhos?”. A solução encontrada foi a de construir um enorme pau que ficaria nas mão de um habitante eleito pelos restantes. Se um dos mais novos não quisesse contribuir, levava uma paulada. Parece justo, pensaram. A solução funcionou durante bastante tempo: a população da ilha era jovem e os poucos que foram envelhecendo tiravam muito pouco dos mais jovens. Os mais jovens, não tendo que contribuir muito, e na expectativa de virem a beneficiar do sistema quando fossem mais velhos, não se importavam de contribuir. Porém, com o passar do tempo, passou a haver cada vez mais velhos, o que exigiu uma contribuição cada vez maior dos habitantes mais novos. A certa altura, a contribuição passou a ser tão alta que os mais jovens deixaram de ter peixe suficiente para se alimentar. Alguns tentaram deixar de contribuir, mas levaram com o pau. Depois de algumas pauladas, outros decidiram fugir da ilha, deixando o esforço ser distribuido por ainda menos trabalhadores, aumentando a fome e a paulada, fazendo com que mais fugissem da ilha.

Esses habitantes fugiam para uma ilha vizinha. Essa ilha vizinha tinha passado exactamente pelo mesmo problema inicial: os habitantes aperceberam-se que estavam a envelhecer e que em breve alguns deles deixariam de ter forças para pescar o suficiente para se alimentarem. Seguiram porém uma solução diferente. Em vez de assumirem que os mais novos iriam abdicar de peixe no futuro para alimentar os mais velhos, começaram logo a abdicar de peixe no presente. Deixaram de passar o dia todo a pescar, passando algumas horas do dia a construir redes de pesca. No curto prazo teriam menos peixe disponível por passarem menos tempo a pescar, mas no longo prazo conseguiriam pescar mais com as redes que fossem construindo. À medida que fossem envelhecendo, os pescadores perdiam a capacidade de pescar à mão, mas como tinham cosnstruído redes, conseguiam pescar o mesmo ou até mais. Quando chegassem a uma idade avançada em que não tivessem mais forças para pescar alugariam as suas redes aos mais jovens, com mais força, mas que ainda não tinham tido tempo para construir redes. Esses mais jovens beneficiavam do facto de poderem pescar mais recorrendo às redes dos mais velhos, e partilhavam esse benefício, dando parte do excedente aos mais velhos. Quando colocados perante a possibilidade dos mais jovens simplesmente roubarem as redes e não darem nenhum peixe aos mais velhos, decidiram também eles criar um enorme pau que ficaria nas mão de um do habitante eleito, mas cuja função seria simplesmente garantir que o roubo não ocorresse. Tal como na primeira ilha, também esta passou por fases de declínio demográfico em que a população mais velha ultrapassava em número a mais nova. Mas ao contrário da primeira ilha, esta situação não provocou fome: mais velhos significava também um maior stock de redes, o que tornava os trabalhadores novos mais produtivos. Quando existia um baby boom, e a população mais nova crescia, cada um dos trablhadores tinha acesso a menos redes, mas como também havia mais trabalhadores, os mais velhos continuavam a ter acesso a alimentação. Em suma, nesta ilha tinham construido um sistema resitente a variações demográficas. Nesta ilha produzia-se também bastante mais peixe do que na ilha vizinha, graças ao stock de redes existente. E o pau era também usado menos vezes.

(história baseada no livro “How an economy grows and why it crashes”, de Peter Schiff, que recomendo vivamente, e de onde também retirei a ilustração.)

11 pensamentos sobre “O peixe, os velhos e o pau

  1. mggomes

    Interessante variante da história!
    E excelente recomendação.
    Os dislates que seriam poupados se se perdesse 4 horas (nem é preciso mais) a ler as aventuras de Able, Baker & Charlie.

    Mesmo não tendo formação em Economia (ou, vendo bem, talvez exactamente por isso…) quer-me parecer que esse livro do Schiff tem mais bom senso económico que os Samuelsons e companhia com os quais parece que são formatados os economistas cá da praça.

  2. PMH

    O problema e o momento zero. Na primeira opcao, aqueles que ja sao velhos no momento zero serao de imediato alimentados pela solucao implementada. Ja na segunda alternativa, a redistribuicao exige anos de investimento inicial, pelos que os que eram de meia idade ou velhos ao tempo da tomada de decisao, continuam a morrer todos de fome, tal como ate ai acontecia.

  3. jo

    No momento em que a população resolvesse abdicar de algum peixe para fazer redes, um douto doutor de Economia diria: Não há dinheiro! Que parte disto não percebeu?.
    Se o investimento em redes não desse certo porque o peixe se esgotava um douto doutor de Economia diria: Não há dinheiro! Que parte disto não percebeu?.
    A solução por distribuição ou por capitalização é fundamentalmente igual. Os fundos de pensões utilizam o dinheiro que lhes é entregue agora, para pagar as pensões do passado, não guardam o dinheiro das pessoas, investem-no (é assim que funciona o sistema bancário).
    Se houver um desequilíbrio demográfico tão grande que o dinheiro não chegue para honrar os compromissos futuros os fundos vão à falência ou desvalorizam-se e não pagam.
    De qualquer modo se o nosso problema fosse demográfico então o desemprego jovem deveria ser negativo (devia haver procura não satisfeita por trabalhadores jovens).
    Vejam lá se se entendem: se os jovens têm de emigrar porque não há emprego para eles não é a falta de jovens que provoca os constrangimentos da Segurança Social.

  4. Miguel Noronha

    “Se o investimento em redes não desse certo porque o peixe se esgotava um douto doutor de Economia diria: Não há dinheiro! Que parte disto não percebeu?.”
    Por isso mesmo existem várias possibilidade e estratégias de investimento.

    “A solução por distribuição ou por capitalização é fundamentalmente igual. Os fundos de pensões utilizam o dinheiro que lhes é entregue agora, para pagar as pensões do passado, não guardam o dinheiro das pessoas, investem-no (é assim que funciona o sistema bancário).”
    No sistema de capitalização existem contas individuais e podem existir multipiplas entidades a gerir o dinheiro. Resta escolhar a estratégia e a entidade que lhe pareça mais fiável. No “pay-as-you-go” o descontos do presente sáo usados para pagar as reformas do presente. A capitalização só existe quando ou enquanto o saldo for positivo e é residual.

    “Se houver um desequilíbrio demográfico tão grande que o dinheiro não chegue para honrar os compromissos futuros os fundos vão à falência ou desvalorizam-se e não pagam”
    Não estou a ver qual porque razão este será um problema num sistema de capitalização. Já para a “solidariedade intergeracional” significa é insolvência certa.

    “De qualquer modo se o nosso problema fosse demográfico então o desemprego jovem deveria ser negativo”
    Experimente olhar para uma pirâmide demográfica. Mas este é só parte do problema- A ausência de crescimento económico (coisa que nos tem afectado em especial nos últimos 15 anos) põe igualmente em causa o sistema actual.

  5. Carlos

    Esta história é do novo livro, certo? Não me lembro de no primeiro ter esta história. No entanto, parece-me excelente esta passagem.

    O primeiro livro é um pouco confuso na parte final.

  6. Carlos Guimarães Pinto

    Esta história foi inventada por mim. E sim, concordo que a segunda parte do livro original é um pouco confusa. Parece-me que o Peter Schiff vive um pouco obcecado com política monetária e isso vê-se na segunda parte do livro em que as metáforas começam a ficar menos claras.

  7. jo

    “Se o investimento em redes não desse certo porque o peixe se esgotava um douto doutor de Economia diria: Não há dinheiro! Que parte disto não percebeu?.”
    Por isso mesmo existem várias possibilidade e estratégias de investimento.
    A ver pelos fundos norte americanos houve sobretudo investimento especulativo na bolha imobiliária. Os fundos tendem a procurar rendimentos rápidos de curto prazo porque é isso que dá prémios aos gestores. Ao contrário da SS estatal para os fundos o futuro é agora.

    “No sistema de capitalização existem contas individuais e podem existir multipiplas entidades a gerir o dinheiro. Resta escolhar a estratégia e a entidade que lhe pareça mais fiável. No “pay-as-you-go” o descontos do presente sáo usados para pagar as reformas do presente. A capitalização só existe quando ou enquanto o saldo for positivo e é residual.”
    A maior parte as pessoas não têm conhecimentos, ou sequer acesso ao conhecimento, sobre onde são empregues os fundos. Houve fundos de investimento de pensões a investir em dívida pública que quase faliram com a crise das dívidas soberanas.
    De qualquer maneira quando o sistema estiver completamente implementado ele funcionará como qualquer banco: os depósitos feitos num determinado momento servem também para pagar os reembolsos nesse momento. Se houver uma corrida aos fundos o sistema vai à falência.

    “Se houver um desequilíbrio demográfico tão grande que o dinheiro não chegue para honrar os compromissos futuros os fundos vão à falência ou desvalorizam-se e não pagam”
    Não estou a ver qual porque razão este será um problema num sistema de capitalização. Já para a “solidariedade intergeracional” significa é insolvência certa.
    É um problema porque o dinheiro é papel (ou nem isso). Se não existir ninguém a produzir bens que sustentem o valor do dinheiro este desvaloriza-se. Claro que um ourives pode guardar parte do ouro que trabalha para vender no futuro, mas não estou a ver como é que um pescador ou um jornalista podem guardar parte do seu trabalho e vendê-lo mais tarde.

    “De qualquer modo se o nosso problema fosse demográfico então o desemprego jovem deveria ser negativo”
    Experimente olhar para uma pirâmide demográfica. Mas este é só parte do problema- A ausência de crescimento económico (coisa que nos tem afectado em especial nos últimos 15 anos) põe igualmente em causa o sistema actual.
    Eu olhei para a pirâmide etária: diz que temos 30% de jovens a mais em relação aos que conseguimos empregar. Diz-me também que se quiser ter uma pirâmide etária igual à de 1960 ou mato os velhos até ter uma população de 5 milhões de pessoas, ou desato a fazer filhos até ter uma população de 30 milhões.
    Quanto ao crescimento económico não é nada que uma austeridade expansiva não resolva, como se tem podido constatar.

  8. É uma historia mui bonita, mas não resolve o problema da primeira ilha, quem vai melhorar as redes agora, os velhos ou os jovens, A solução ideal era que os jovens fossem à segunda ilha e roubassem as redes para a primeira.

  9. Pingback: Sobre a sustentabilidade da segurança social | O Insurgente

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