Bons velhos tempos

Uma das coisas deliciosas de ler no discurso da tralha socialista que vai brotando aqui e ali por esta Internet fora, é a velocidade com que o discurso da superioridade moral na protecção da vida, dos desgraçadinhos e infortunados – espezinhados pelos mercados e pelo capital – se transforma na apologia das atrocidades e da neutralização por todos os meios da dissidência. Na mesma frase em que se qualificam os assassinos, apela-se de pronto ao seu assassinato. Rapidamente e em força.

É francamente enternecedor ver como o discurso e a dificuldade em lidar com os argumentos e factos rapidamente se deixam carregar pela saudade dos bons velhos tempos, tempos em que os problemas relativos àqueles que não sabiam cumprir com o seu papel para com a sociedade, ou que não eram suficientemente solidários com os flagelos que oprimiam a doutrina moral vigente, se resolviam com a simplicidade singela e higiénica de um tiro na nuca no matadouro político mais próximo.

Aliás, em termos de velocidade, a Internet torna-se inestimável tanto na detecção das verdadeiras cores dos trauliteiros dos amanhãs que cantam, como na detecção de cobardes.

Afinal, só com a velocidade da Internet o desejo revelador de que “um gajo merece um AVC” rapidamente se torna na sugestão de que a ausência de um determinado medicamento poderia colocar em perigo a sua vida. São estes os guerrilheiros das brigadas revolucionárias de sofá, a gerirem com urgência os danos potenciais da facilidade com que se lhes resvala a chinela para o tiro na nuca.

Entretanto, aqui o canalha vai ficar a ver de bancada o caro João José Cardoso a estrebuchar com os cortes no seu vencimento que vão animar a sua quadra natalícia, e as respectivas promessas vindouras para o ano que se aproxima. Não, desculpe, com a “reavaliação administrativa, legal, legítima e normal” do valor a pagar pela prestação dos serviços essenciais de ensino que presta, enquanto persiste em se refugiar num discurso de protecção do seu lucro acrescido, e continua a ameaçar com uma retórica de retenção grevista dos seus serviços.

Às vezes, mesmo quando há coisas que são erradas, acabam por redundar nalgum bem.

2 pensamentos sobre “Bons velhos tempos

  1. migas

    “Sendo impossível o socialismo perfeito, suas sucessivas encarnações imperfeitas serão sempre e necessariamente consideradas “direitistas” em comparação com suas versões ideais futuras, de modo que a culpa de seus crimes e misérias terá de ser imputada automaticamente à direita, ao capitalismo, aos malditos liberais e conservadores. Do fundo do Gulag, do cemitério ou do exílio, estes serão sempre os autores do mal que os comunistas fizeram.
    Isso é um dos preceitos mais essenciais e constantes da lógica revolucionária. Ele corresponde, na prática, ao direito ilimitado de delinqüir, de roubar, de matar e de produzir toda sorte de horrores e misérias, com a garantia não só da impunidade mas de uma consciência eternamente limpa, tanto mais pronta a levantar o dedo acusador quanto maiores são as culpas objetivas que carrega.”
    http://www.olavodecarvalho.org/semana/131118dc.html

    “O tom de superior condescendência sugere que a tolerância, o respeito à diferença etc. são virtudes tão bem repartidas entre vários regimes políticos, que até mesmo os liberais são capazes de praticá-las um pouquinho.

    No mundo real, porém, ninguém ignora que essas virtudes foram inventadas pelos liberais e só existem nos sistemas políticos que o liberalismo criou ou nos quais deixou sua marca profunda. Elas são o liberalismo.”
    http://www.olavodecarvalho.org/semana/131212dc.html

  2. Pingback: History DIY – Aventar

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