Daniel Oliveira e os preconceitos económicos de esquerda

Brain_IDEA_590Um dos grandes motivos pelo qual os portugueses continuam a aceitar como verdadeiras tantas falácias económicas é o facto de que aqueles que melhor sabem formar opinião (através do seu estilo de escrita e de comentário televisivo) tenderem a ser analfabetos económicos. Obviamente ninguém é obrigado a perceber de economia, mas tal não os restringe de comentarem assuntos da área, contribuindo para espalhar falácias na opinião pública, o que por sua vez se acaba por reflectir no discurso político. A Fernanda Câncio e o Daniel Oliveira são dois casos exemplares.

O dia de hoje é uma excepção à regra. No seu texto no Expresso, o Daniel Oliveira, mesmo que involuntariamente e num espírito de auto-defesa, contribui para desfazer algumas falácias económicas que sobrevivem, muitos vezes com a ajuda de comentadores como ele. É um texto que deve ser lido e entendido, principalmente pelas pessoas da sua área política.

Primeiro preconceito: existe um número limitado de empregos

Diz o Daniel Oliveira: “(…)Que há quem venha aqui e quem compre o “Expresso” para, entre outras coisas, me ler.(…)Só com leitores e coisas que eles queiram ler o jornal vende nas bancas e tem publicidade. Quando vende e angaria publicidade a empresa detentora do “Expresso” consegue não apenas o suficiente para me pagar a mim, a todos os trabalhadores, colaboradores externos e fornecedores, como ainda sobrará, como sobra, dinheiro para se expandir o negócio e, quem sabe, contratar ainda mais pessoas. O que estou a dizer sobre mim aplica-se obviamente e de igual forma a todas as pessoas que trabalham nesta empresa, sejam do seu quadro, sejam colaboradores externos, sejam jornalistas, administrativos, estafetas ou quadros superiores”

De uma forma simples, o que o Daniel Oliveira diz aqui que cada trabalhador, através do seu valor acrescentado (aquilo que produz mais do que recebe) contribui para que se criem outros empregos. Ou seja, quanto mais e melhor trabalhar o Daniel Oliveira mais, e não menos, empregos serão criados. A falácia que o Daniel Oliveira expõe, e bem, é muitas vezes utilizada pela esquerda para defender horários de trabalho mais baixos ou redução na idade da reforma, argumentando que quanto menos trabalho for feito por uns, ou quanto menos trabalhadores houver, mais trabalho haverá para os restantes. Trabalho cria trabalho, como bem explica o Daniel Oliveira.

Segundo preconceito: é através do estímulo da procura que se criará emprego

Diz o Daniel Oliveira: “Quem cria então emprego aqui e em qualquer outra empresa? Antes de mais, quem consome os seus produtos. Neste caso, o meu caro leitor. Depois, quem os produz. Por fim, quem, olhando para a necessidade dos consumidores e a disponibilidade para produzir, contrata as pessoas que precisa e arranja o capital necessário para montar o negócio.”

Ou seja, emprego (e já agora toda a produção de riqueza) resulta da interacção entre necessidades, capacidade produtiva e empreendedora, sendo os três factores complementares. O Daniel Oliveira só tem emprego porque há quem o queira ler, porque ele tem capacidade de satisfazer os desejos de um grupo de leitores e porque alguém arriscou o seu dinheiro para criar a plataforma através da qual o Daniel Oliveira pode cobrar aos seus leitores pelo seu trabalho. Para que a criação de riqueza aconteça, estes três factores têm que estar alinhados. Valeria pouco que houvesse muitos leitores com vontade de ler textos como os que o Daniel Oliveira escreve, se o próprio Daniel Oliveira não fosse capaz de os escrever, ou a Impresa não tivesse condições de criar a plataforma para que o Daniel Oliveira seja pago para o fazer. Fazendo o paralelo com a economia portuguesa, haverá de facto um problema de procura? Não, Portugal é um país de 10 milhões de habitantes com acesso a uma procura potencial de 6 mil milhões. O que falta realmente para que se crie emprego são os outros dois factores: ajustar a capacidade produtiva a essa procura e incentivar o espírito empreendedor que coloque ambos em contacto.

Terceiro preconceito: é o estado o motor de criação de emprego

Daniel Oliveira diz “quem cria empregos é a economia, criei tantos postos de trabalho como qualquer trabalhador, consumidor ou empresário”. Subconscientemente, Daniel Oliveira deixa de fora o estado. Ele tem razão: o estado não cria empregos. Pode criar as condições para que eles sejam criados, facilitando a vida a quem os cria. Mas aquilo a que normalmente se chama criação de empregos pelo estado não é mais do que transferi-los da esfera privada para a pública, com as habituais perdas de eficiência pelo meio.

Quarto preconceito: o capital explora o trabalho

Falando sobre o empresário, diz o Daniel Oliveira “Correndo o risco de perder o capital empatado, tem a possibilidade de ter uma vida bem mais confortável do que aqueles que, com ele, levaram o negócio a prosperar. Essa é a diferença substancial em relação aos demais atores deste filme: o empresário ou investidor corre o risco e tem o lucro ou o prejuízo. Tem um interesse comum a quem com ele trabalha: que o negócio corra bem.”

A retórica de esquerda comum é a de que o empresário (o capital) pouco ou nada acrescenta à economia, limitando-se a explorar os trabalhadores e obter o seu lucro, recorrendo a essa exploração. Como diz, e bem, o Daniel Oliveira, o empresário tende a ganhar mais com o sucesso da empresa, porque é também o único que tem algo a perder com o seu insucesso. Se a Impresa falir, o Daniel Oliveira deixará de receber o seu salário, mas não perde os salários que recebeu anteriormente. Já os accionistas da impresa não só deixarão de receber os parcos rendimentos que a Impresa lhes garante hoje, como todo o dinheiro que investiram no passado, ou seja, rendimento passado.

Bem sei que provavelmente o Daniel Oliveira se irá redimir em breve, contribuindo para o espalhar de mais algumas falácias, mas hoje está de parabéns: de forma simples e directa, desmistificou alguns dos principais preconceitos económicos que povoam a sua área política.

24 pensamentos sobre “Daniel Oliveira e os preconceitos económicos de esquerda

  1. Tiro ao Alvo

    Diz o Daniel Oliveira que “há quem venha aqui e quem compre o “Expresso” para, entre outras coisas, me ler.”, mas eu não sou um deles.
    Que fique claro, eu sou dos que, todas as semanas, compram o Expresso, mas, desde há muito tempo, não leio o Daniel Oliveira, pois tudo o que ele escreve é demasiado previsível. A meu ver, claro.

  2. M. Miranda

    Não sei se estamos perante uma distracção do Daniel Oliveira de que se vai retratar ou duma aproximação ao PS

  3. Francisco Colaço

    É bem possível, João, que o Pinto Balsemão tenha dado ordens para acabar com o espaço dele se não se retratasse. E é bem possível que o Pinto Balsemão receasse que o Expresso e as outras publicações Impresa saíssem do Pingo Doce e tivesse de puxar as orelhas ao Daniel Oliveira.

    Sabemos o que acontece aos talentos de esquerda sem tipos de direita que façam jornais, telecomunicações e pasta de papel, não sabemos?

    O resultado é este: o Daniel Oliveira precisa de pessoas como Alexandre Soares dos Santos ou deixa de comer. O Alexandre Soares dos Santos não precisa de pessoas como o Daniel Oliveira, pois há muitas pessoas que se estão a borrifar para o Daniel Oliveira e compram no Pingo Doce. E pessoas que leem o Daniel Oliveira no Expresso que compraram… no Pingo Doce.

  4. BGracio

    Excelente post.

    Só fico com dúvidas se o Daniel Oliveira não estará a atravessar uma crise de identidade…

  5. Surprese

    Daniel Oliveira ainda vai substituir o Pacheco Pereira no PSD, redimindo-se do se passado Anarco-Comunista, e abraçando o liberalismo económico e social.

  6. lucklucky

    “o que o Daniel Oliveira diz aqui que cada trabalhador, através do seu valor acrescentado (aquilo que produz mais do que recebe) contribui para que se criem outros empregos. Ou seja, quanto mais e melhor trabalhar o Daniel Oliveira mais, e não menos, empregos serão criados. A falácia que o Daniel Oliveira expõe, e bem, é muitas vezes utilizada pela esquerda para defender horários de trabalho mais baixos ou redução na idade da reforma, argumentando que quanto menos trabalho for feito por uns, ou quanto menos trabalhadores houver, mais trabalho haverá para os restantes. Trabalho cria trabalho, como bem explica o Daniel Oliveira.”

    Isto é outra falácia porque existem os dois casos.
    Mais trabalho/produtividade por uma única pessoa pode criar trabalho ou pode diminuir o trabalho. Tudo dependendo da actividade, necessidade das pessoas – o mercado -, circunstância

    Logo as falácias vêm dos dois lados. A mais perigosa é a falácia esquerdista pois atrás de qualquer das suas ideias a Esquerda invoca o poder militar do Estado.

  7. Hoje é um dia histórico: o Daniel Oliveira resolveu pôs-se a pensar. E então, tal qual miúdo da escola primária, começou pelo B.a.Bá, a desenrolar o fio à meada, a ver se percebia como funcionava a economia. O resultado é um texto muito útil para os seus camaradas de esquerda.
    Explica Daniel Oliveira que não é dando pás a toda a gente e proibindo as retro escavadoras que se cria emprego sustentável, que o emprego deve responder à procura e não ser criado artificialmente, que o Estado não cria emprego e que o capital não explora o trabalho. Desculpem mas vou ter que dizê-lo: sempre achei o Daniel Oliveira com inteligência uns pontos acima da média na sua área política e cada vez mais acho que o homem faz-se. Um dia ainda será um libertário.

  8. Paulo Rocha

    Nem sei o que acho mais interessante: se o artigo retorcido sobre o artigo do DO, se os comentários de quem se nota à distância que não leu o referido artigo. De qualquer forma um e outro são reveladores da ideologia dominante neste site!… continuo a seguir com interesse!…

  9. Francisco Colaço

    Alguém (eu) se deu ao trabalho de ler e encontrou em Daniel Oliveira um perfeito liberal. Antes tarde que nunca! Mas cheira-me a esturro: deve ter levado nas orelhas do Balsemão, que deve estar a tentar apagar os fogos disto na Jerónimo Martins. Fogos esses que devem estar a esturricar as barbas do Taliburro.

    Agora a sério: nunca Daniel Oliveira terá autoridade nem valor para vituperar Alexandre Soares dos Santos. Daniel está para Alexandre (o do Pingo Doce, não o da Macedónia) como um burro está para o alazão, e olha-o com o mesmo olhar do cavalo africano asinino.

    Daniel Oliveira é um opinador. Produz textos que nada valem sobre tudo. Etéreo, imaterial, com valor subjetivo e imensurável. Alexandre Soares dos Santos gere, havendo expandido, um grupo que dá emprego a dezenas de milhar de pessoas e que movimenta um milhar de milhões de euros, ligando produtores a consumidores, estimulando assim a produção. Material, valor mensurável, pessoas com comer na mesa, produtores que podem escoar os produtos, sabões e champôs produzidos, empresas de transporte a rolar. Quanto? Mil milhões de euros.

    O Daniel Oliveira faria melhor em ensacar a cabeça e cortar a barba. Portou-se como um miúdo imberbe. E creio que desta vez vai-lhe sair mal. Nunca mais comprarei o Expresso. Muitos irão fazer o mesmo. Quando o Balsemão perceber isso, vai dar ao Daniel Oliveira a justa medida do seu valor e um chute nas nalgas.

  10. Joaquim Amado Lopes

    Carlos Guimarães Pinto,
    O Daniel Oliveira começou a “redimir-se” no próprio artigo:
    “Da mesma forma que não foi o fundador da Impresa que criou o meu emprego, mas, antes de tudo, os leitores, eu não trabalho para os acionistas da Impresa, trabalho para quem me lê. Eu escrevo textos para quem me paga. E quem me paga, duma forma ou de outra, são os leitores.”

    Tal como é explicado no “segundo preconceito”, não são os leitores quem lhe paga, são os accionistas da Impresa, com dinheiro que *esperam* vir a receber dos potenciais leitores.
    Com aquele último parágrafo, Daniel Oliveira mostra que não abdica da sua repugnância por empreendedores e capitalistas.

  11. Segunda idiotice:

    “O estado não cria empregos. Pode criar as condições para que eles sejam criados, facilitando a vida a quem os cria. Mas aquilo a que normalmente se chama criação de empregos pelo estado não é mais do que transferi-los da esfera privada para a pública, com as habituais perdas de eficiência pelo meio.”

    O Estado não cria empregos? Só se não quiser ou se não tiver condições financeiras e políticas para tais. Entre 1929 e 1979, a ideia era que sim… Uma coisa é saber até que ponto os putativos ganhos de eficiência podem valer a pena face aos eventuais prejuízos como abdicar da soberania a nível da energia, comunicações, transportes e abastecimento de àgua com os riscos à saúde e à segurança pública que tal afastamento do Estado destas actividades podem representar para os cidadãos – contribuintes ou não.

  12. Francisco Colaço

    Acho que este não escreve mais. E sem palco mediático, tal como aconteceu com o BE, a aparição esboroa-se.

  13. Vitor David

    “Resumindo: eu, como qualquer pessoa que produz e consome bens materiais ou imateriais, crio empregos. Nem mais nem menos do que qualquer empresário” Daniel Oliveira ou seja para a economia nacional o Daniel Oliveira tem o mesmo peso e importancia que O Alexandre Soares dos Santos. Cocaine is a Hell of a Drug

  14. Fantástico:” quem cria empregos é a economia” , qualquer trabalhador, consumidor ou empresário, faz postos de trabalho , começando pelo seu próprio . Daniel Oliveira não acredita que os Empresários movimentam o mercado, prefere imaginar que uma entidade abstracta de cooperação sem capitalistas , consiga promover emprego , desenvolvimento e bem-estar social. É esta visão distorcida da sociedade que cria o drama, em que hoje vivemos , onde as pessoas lutam contra os patrões em vez de cooperarem. Esta mentalidade doentia defende a criação de autoridades de intermediação das acções humanas, a fim de torná-las socialmente úteis e no limite substituírem o empreendedorismo por auto-emprego e emprego estatal . O croniqueiro acredita no pleno emprego , se não a bem então a mal recorrendo à autoridade do Governo que através da sua autoridade central, cria empregos e faz a distribuição de rendimentos supostamente de forma mais eficaz do que aquela que o mercado consegue, fazendo-o por via de processos em que tiram alguma coisa a todos em proporção crescente consoante os seus rendimentos, para atribuir aos que não produzem , porque o Estado agrediu os Empresários, impedindo-os de criar mais emprego . Com estas ideias em que assenta a teoria de que ” cada um cria o seu próprio emprego ” e o estado cria os demais , pretende justificar-se que , por decreto se alcança a igualdade material entre os indivíduos.

    https://www.facebook.com/pages/Franca-politica/257365197745034

  15. Pingback: Daniel Oliveira e os preconceitos económicos de esquerda | Ricardo Campelo de Magalhães

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