Quando o sindicalismo defende de forma inteligente os superiores interesses dos trabalhadores

Devo ser eu que tenho dificuldades graves de compreensão, mas com franqueza, não estou a ver o que leva os trabalhadores dos ENVC a rasgarem as vestes, que não uma tendência autofágica para o imobilismo e um desprezo total pela liberdade. E não falo sequer da liberdade dos outros, mas da sua própria liberdade: pelos vistos, os trabalhadores dos ENVC seguem o marxismo ou, mais grave ainda, uma militância acéfala e psitacista, tão à letra, que lhes assusta a hipótese de terem alternativas e opções para serem donos dos seu próprio futuro.

Explicando:

  1. A subconcessão é a última alternativa legal que evita o fim da actividade naval em Viana do Castelo. Para que a DGCOMP feche o processo contra Portugal sobre os auxílios de Estado é fundamental que os ENVC sejam encerrados, que se demonstre que não há continuidade económica da empresa. Parece que a DGCOMP não inviabiliza o recomeço da actividade de construção naval no quadro de uma subconcessão, caso o Estado feche os ENVC, assuma o passivo, e se limite a permitir que alguém recomece ali uma actividade. Que até poderá ser a mesma. Por lei, os terrenos não podem ser vendidos (fazem parte do domínio público marítimo) e os ENVC não são privatizáveis, como se viu no processo anterior (ninguém quer assumir a empresa). A subconcessão é a única alternativa que sobra, e só existe porque a criatividade e a persistência de alguns permitiu que ela fosse construída e negociada em vários fóruns, para evitar o fecho. Recordo, em 2011, o governo PS tinha deliberado o encerramento tour court dos ENVC. Será que estamos próximos de dar razão ao PS da altura, concluindo que mais valia ter fechado logo os ENVC? Já estive mais longe de achar que sim. Por isso, quem acredita que por fazer barulho vai conseguir que se regresse ao status quo anterior, não percebeu que o mundo mudou. Caso a subconcessão falhe, os ENVC vão pura e simplesmente, fechar portas, e avançar para a liquidação: objectivamente não há 181 milhões para proceder à devolução dos auxílios de Estado, ficando mais barato liquidar a empresa.
  2. No quadro do fecho dos ENVC, na actual modalidade, os trabalhadores são os únicos a ficar numa situação razoavelmente favorável. O Estado assegura as indemnizações por despedimento, a TODOS os trabalhadores, ficando estes livres para, boa parte deles, avançarem para a Reforma (230 trabalhadores ficam em condições para aceder à reforma); os restantes 380 podem optar por continuar a trabalhar no sector naval, juntando-se à Martifer, que diz precisar num primeiro momento de 400 trabalhadores; podem ainda receber o subsídio de desemprego; se nenhuma destas hipóteses lhes agradar, podem sempre escolher outras hipótese de vida, com as suas indemnizações pagas.
  3. Quem deveria ficar revoltado com o que se está a passar nos ENVC é o contribuinte, que paga toda esta solução, em especial os trabalhadores do sector privado que, quando as empresas abrem falência, não têm um trabalho semelhante à espera (no mesmo local) arrancado a ferros pelo Estado, indemnizações asseguradas, e opções de escolha. Quem deveria ficar indignado é o contribuinte que vai ter de assumir em qualquer circunstância a dívida dos ENVC, superior a 300 milhões de euros, ou os custos do seu fecho tout court, bastante superiores.
  4. O que vale é que, muito provavelmente por solidariedade com os contribuintes portugueses, os trabalhadores dos ENVC estão a optar recusar a solução encontrada, criando todas as condições para que se avance para o passo seguinte: uma liquidação tout court dos ENVC, sem empregos na Martifer e, espero, com as indemnizações asseguradas não pelos contribuintes mas por aquilo que possibilitar a massa falida (ou seja, nada).

De facto, é caso para dizer, os sindicatos do PCP defendem de forma muito inteligente os superiores interesses dos trabalhadores.

9 pensamentos sobre “Quando o sindicalismo defende de forma inteligente os superiores interesses dos trabalhadores

  1. jo

    A questão que se coloca:
    Se os trabalhadores não querem a solução e se esta é gravosa para o erário público porque é que se está a dar o negócio à Martifer?

  2. Miguel Noronha

    Se ler o que está escrito não se está a dar o negócio à Martifer. Os ENVC vão ser extintos e o terreno vai ser concessionado à Martifer.

    Os ENVC está falidos. Se não quiser sobrecarregar mais os contribuintes a solução é pagar com o que sobrar da liquidação da empresa.

  3. “Se os trabalhadores não querem a solução e se esta é gravosa para o erário público porque é que se está a dar o negócio à Martifer?”

    A solução não é mais gravosa para o Erário Público. Fechar os ENVC é uma solução mais onerosa para o Erário Público. Caso a subconcessão venha a ser suspensa por razões políticas, o fecho será mais oneroso para o Erário Público, e pior para os trabalhadores. Esse é o ponto. É possível que sejamos conduzidos para uma solução estúpida do ponto de vista económico e financeiro por motivações políticas? Sim.

  4. Não foi sempre assim que os comunistas de todo o mundo defendem e defenderam os trabalhadores?.
    O determinismo histórico e a ditadura do proletariado,face ao objectivo mítico,

    do fim das contradições na Terra , fazem dos trabalhadores tropa de choque para a tomada do poder e,a seguir, a escravatura para a concretização da utopia.
    Infelizmente a situação dos ENVC é tal e tão insustetável que colocou os seus trabalhadores surdos e cegos para a realidade.
    É pena.
    Respeito profundamente o drama pessoal e social que estão a viver.

  5. Rui Cepêda

    A intersindical (CGTP) defende os interesses do PC. Para isso existe. Defenderá os interesses de alguns dirigentes, se e quando der jeito e o povo pagar a factura. Como
    agora se vê, com mais uma empresa controlada pelos comunistas a desfazer-se.

    Os problemas com os estaleiros de Viana são antigos. Sendo um feudo do sindikalismo , comunista, não será para admirar. Somou-se durante vários anos a incapacidade das administrações para enfrentar problemas, nem sempre passíveis de solução politicamente correcta. Foram um estorvo para os Governos que preferiram ignorá-los. Foi mais uma empresa pública a acumular deficits inadmissíveis. Qualquer empresa privada com um desempenho parecido teria já falido há muito.

    Corridos os sindicalistas a tempo e horas estariam criadas as condições para pôr a casa em ordem e a partir daí teríamos um valioso meio de apoio à exploração marítima, coisa que não há maneira de ser entendida como o hiper cluster da nossa economia, que é.

    Resultado, perde-se o único estaleiro que resta, atribui-se a sub-concessão a pataco, a uma empresa atafulhada em dívidas, apaparica-se a CGTP com regalias para os associados, de que mais ninguém usufrui, e desfere-se mais um golpe mortal no Mar Português. Não se pode compreender nem aceitar este atentado ao interesse Nacional.

    Assim não admira se a prestimosa UE se apressar a tomar conta da exploração marítima que não somos capazes de tomar em mãos. Se os Espanhóis entretanto não invocarem o usocapião.

  6. Comunista

    Esta sanha contra a CGTP e o PCP é apenas um meio de culpar os trabalhadores dos estaleiros e ilibar os sucessivos governos PS e PSD/CDS e as respectivas administrações que lá colocaram. É um post e comentários de quem está sempre do lado do poder governamental, mesmo quando vai escrevendo que não.

    Nunca se preocuparam, os governos, em ver que nichos de mercado de construção naval poderiam ser abordados nem sequer se preocuparam em criar centros de excelência para dar cobertura à iniciativa nesses nichos. Preferem agora acabar com a construção naval em Portugal, grande direita, esta que temos e que põe um ponto final numa indústria que em Portugal tem séculos. Heróis do Mar, diz o hino, que agora nem sequer barcos fabricam.

    pfff

  7. Francisco Colaço

    «Preferem agora acabar com a construção naval em Portugal.»

    Julguei que a Martifer ia usar os estaleiros para fazer barcos. Aliás, para fazer REALMENTE barcos. Em Viana do Castelo, Portugal, onde não se faziam barcos.

    Ou o Comunista descobriu um insidioso plano galego para anexar o Minho, e está-nos a avisar por entrelinhas.

    Alguém me pode esclarecer se esse não é o caso?

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