Descobriu Maduro uma alternativa viável ao Capitalismo Selvagem?

Selvagens

O meu artigo de hoje no Diário Económico:

Qualquer sistema económico é “selvagem” pois coloca o poder nas mãos de alguém. A questão de fundo é em quem preferimos colocar o poder. No capitalismo selvagem, o poder vai para o empreendedor.

Ele incorre em grandes riscos e, portanto, ou cai em desgraça ou obtém elevada rentabilidade. Se for um dos vencedores, obterá riqueza suficiente para influenciar políticas públicas e obter vantagens na justiça. Mas só poderá obter essa vantagem se oferecer serviços valiosos a preços competitivos. E para manter essa vantagem deverá continuar a agradar ao consumidor, sob pena de perder tudo.

No estatismo selvagem, o poder vai todo para os ‘apparatchik’. Eles concentram todo o poder: político, económico, legislativo, judicial, militar, mediático e, como a mudança do Natal parece sugerir, religioso. É uma versão mais selvagem do sistema económico. Uma em que quem está no poder tem todos os meios para lá se manter. Uma em que o monopólio dos bens de produção é absoluto e presente em todos os sectores – directa ou indirectamente, via legislação. Uma em que o marketing de massas eleva à potência máxima as suas promessas – Maduro afirmou que um voto nele era essencial para “salvar a espécie humana no planeta”. No fundo, uma em que o poder absoluto corrompe absolutamente.

Voltaire disse “para saber quem tem poder sobre ti, simplesmente descobre quem não podes criticar”. Será mais fácil eu criticar Belmiro ou um local criticar Maduro? Qual é a diferença de poder entre ambos?

No capitalismo, os bens são alocados pelo sistema de preços. No Chavismo, via ‘lobbying’, corrupção e influências. No capitalismo, algo mal concebido é ignorado pelos consumidores e posteriormente retirado do mercado. No Chavismo, atira-se dinheiro para o departamento até que funcione para “salvar a face”, acumulando erros atrás de erros. No capitalismo, o consumidor é rei e determina o que é produzido ou não. No Chavismo, o trabalhador é rei e determina o que deve ser produzido, tenha ou não interesse. Eu já escolhi a minha selva.

Nota do autor: Notem que o objectivo era comparar estes extremos, não fazer comentários sobre o middle of the road. Evitem comentários a dizer que preferiam uma opção mista, pois o artigo é explicitamente para comparar as 2 vias mais extremas, dentro do existente.

6 pensamentos sobre “Descobriu Maduro uma alternativa viável ao Capitalismo Selvagem?

  1. jo

    Se a comparação é entre extremos não se compreende o que está lá a fazer o Chavismo. Não estou a defender o Chavismo mas dizer que ele é uma versão extrema do socialismo é o mesmo que dizer que o capitalismo português se rege pela livre concorrência.
    Como os sistemas “extremos” não existem nem nunca existirão podemos dizer o que quisermos sobre eles e ter sempre razão.
    Como estas designações com “ismos” são muito incertas podemos sempre dizer que um deles é o mal.
    Um exemplo:
    Tudo o que o “X”ismo faz é prejudicial
    A peste negra foi prejudicial
    Logo: A peste negra é uma consequência do “X”ismo.
    Pode pôr capital, social, cooperativi, republicanis, ou monarquis, em ves do “X” que o silogismo parece sempre verdadeiro.
    Outra conclusão enviesada é dizer que visto que Maduro anda a nacionalizar os eletrodomésticos na Venezuela, não se pode aumentar o salário mínimo em Portugal.

  2. gustavo

    Pode criticar Poiares e pode criticar Belmiro.
    Já criticar a Maçonaria é mais complicado. Se aplicar a máxima de Voltaire. Uhm… E não é que é verdade?

  3. eduardo

    Caro Ricardo,
    Com o devido respeito, deixe-me apontar as grandes falhas da sua análise de extremos.
    Tanto a sua interpretação de capitalismo selvagem como de Chavismo estão baseadas em concepções equivocadas. Começo pela sua noção de capitalismo selvagem, como se houvesse um capitalismo civilizado… o capitalismo tem duas vertentes: neo-liberal e Keynesiana, concentro-me na primeira pois tem sido a dominante nas últimas décadas. A vertente neo-liberal do capitalismo, defende o mínimo de intervenção estatal nos desígnios do mercado, para os capitalistas neo-liberais o ideal é que o estado nunca se intrometa no sistema de distribuição de recursos e serviços, ou seja a actividade empresarial deve estar sujeita ao mínimo de impostos e obrigações fiscais perante o estado. Por um lado o neoliberalismo demoniza o estado e combate as obrigações e regras a que está sujeito, por outro não está interessado na completa destruição de estado pois esta é a estrutura que em última instância tem o poder legal para taxar directamente o trabalho produtivo de forma a criar um fundo de segurança capaz de resgatar a actividade especulativa que são os mercados financeiros. Tendo em conta que o trabalho produtivo cria de facto valor, enquanto que a especulação financeira atribui valor o que é substancialmente diferente, daí o seu carácter de risco que faz com que se saiba bem onde ir buscar o real valor para compensar as perdas da especulação. Dado isto diria que a sua assunção de que é o consumidor quem regula o mercado e que é o empreendedor que darwinisticamente vinga ou falha de acordo com o gosto e\ou interesse do consumidor, é no mínimo ingénua. Isto pode acontecer a níveis muito secundários, com bens secundários e em meios de pequenas ou médias empresas em mercados muito específicos ex. roupa de criança ou suportes de telemóveis, mas está muito longe de representar a forma como o capitalismo funciona em termos de distribuição de recursos, bens e serviços necessários à população, esta distribuição e seus critérios é o que se chama economia. O capitalismo usa o mercado como critério de distribuição, com os seus instrumentos desde a oferta e procura, à dita “confiança” que indica quem deve receber o quê, a que preço e sob que taxa de juro etc etc… digamos que aqui ninguém vai a votos e é onde verdadeiramente se fazem as decisões sobre a vida dos cidadãos de cada nação. Apesar de já ter escrito muito tudo isto merece muito mais espaço do que esta caixa, portanto à falta de espaço e em relação ao outro extremo “Chavismo”, digo apenas que merece mais estudo e atenção da sua parte pois a Venezuela sofreu económica, política e militarmente com a lógica e a “justiça” do capitalismo, por alguma coisa lhe declararam guerra, tanto ao capitalismo como ao imperialismo que o acompanha e por alguma coisa a imprensa ocidental se dedica a ridicularizar, menosprezar e a qualificar de totalitários governos e líderes que não se verguem perante a desigual lógica de mercado. Maduro pode anticipar o Natal ou a Páscoa ou o dia das bruxas e isso ser para si uma pretensa manipulação religiosa, mas por cá ninguém questiona a autoridade dos mercados, aceita-se acríticamente os seus desígnios, aplaude-se quando dizem que é para aplaudir, atira-se tomates quando os mercados castigam com taxas de juro, ratings etc como se de um dogma se tratasse…

  4. Rui Cepêda

    O Chavismo não é mais nem menos do que a imposição progressiva de um sistema comunista, receita esta que em tempos Fidel Castro aplicou em Cuba. É a versão Latino-Americana para índio analfabeto consumir. Daí as palhaçadas do Maduro que são caricaturas do realismo mágico, cujas raízes estão na cultura popular indígena.

    A meu ver a escolha está antes do mais, entre democracia e ditadura. Não existe, nem nunca existiu, comunismo em democracia. Em qualquer “modalidade” o comunismo, desde que controle o poder é sempre exclusivo e extremista. Do ponto de vista económico é desastroso.

    Além do mais o capitalismo decorre naturalmente da “complexidade humana”. Já o socialismo mais ou menos comunista é uma imposição experimental de um ideário económico, político, social e filosófico, construído há mais de cem anos. Embora sem fundamentação convincente, pretende responder “artificialmente” a condições sociais e económicas degradadas de um modo que pouco ou nada têm a ver com a realidade. Muito menos com a actual. Falhando a lógica e a experiência resta a crença. O comunismo enquanto ideologia, é mais do domínio da “teologia profana” do que da fundamentação filosófica. No plano económico remete para uma teoria que surge com a revolução industrial. Os sucessivos fracassos sem excepção, que ao Marxismo se devem são a sua marca distintiva. Os factos têm que encaixar na teoria dê por onde der. Simplificando é como tentar meter o Rossio na betesga.

    Falhando há mais de um século, os progressistas contudo persistem nos dias de hoje. A razão deste estranho desfasamento histórico, tem muito que ver com a atractividade do canto da , sereia a que as almas mais simples cedendo ao sofrimento causado pelo infortúnio, a pobreza e ou a inveja, se agarram como náufragos à tábua de salvação. Sobretudo à custa deste último sentimento, que sendo reles, é muito combativo. Quando associado à miséria e à ignorância, é terreno fértil para semear a ilusão.

    Tudo o resto não é mais do que propaganda e o habitual falsear da realidade, através da utilização de técnicas falaciosas, que muitos anos no treino de artimanhas várias, foram aprimorando.

    Reagan que venceu o comunismo, chamou-lhe o império do mal. E foi.

  5. RD

    Voltando a Lampedusa. A Europa sabe muito bem que não é fechando as fronteiras externas que vai resolver o problema da emigração ilegal. Sabe muito bem que a parceria com os países do norte de África é fundamental para impedir o êxodo dos desesperados, tal como fez a Espanha com Marrocos, reduzindo de forma acentuada este movimento incontrolado de pessoas, que pode pôr em risco o equilíbrio social dos países de destino. http://www.raiadiplomatica.com

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