O modelo irlandês

Ricardo Reis no Dinheiro Vivo

Gostava de que as nossas elites e instituições percebessem que quando não há dinheiro não há alternativa a cortar nas despesas. Enquanto a Irlanda reduziu o número de funcionários públicos em 10%, cortou salários e pensões de forma permanente, e teve como prioridade reganhar a independência em relação aos credores externos, nós estamos há três anos num jogo entre governo e Tribunal Constitucional sobre a forma de tornar os cortes mais aceitáveis em abstrato. Se as instituições do nosso Estado pusessem a nossa soberania como nação à frente dos interesses de alguns grupos de interesse que a compõem, talvez também pudéssemos festejar.

31 pensamentos sobre “O modelo irlandês

  1. Surprese

    Se para terem aumentos de ordenado e mais “assessores”, bastasse às nossas corporações legislar, votar e ratificar uma anexação por um país estrangeiro, provavelmente Portugal já era uma região espanhola.

    Note-se 1640 só aconteceu porque o Império Espanhol aumentou os impostos em Portugal e cancelou as obras públicas.

  2. Comunista

    Grande mentiroso.

    Fala como se em Portugal não se ande a cortar salários e pensões já desde os PECs do Sócrates. E quanto aos funcionários públicos que diminuem na Irlanda e não diminuem em Portugal:

    “Quando os técnicos da troika aterraram em Lisboa, a função pública contava com 611 801 pessoas. De então para cá encolheu 8,7%, diminuição que reflete o congelamento de novas admissões ao longo dos últimos dois anos e meio, saídas para a aposentação e redução dos contratados a prazo, mas ainda não o efeito das rescisões amigáveis.”

    http://www.dinheirovivo.pt/Economia/Artigo/CIECO294188.html

    Talvez algo da diferença entre a Irlanda e Portugal é que lá o governo andou a dar ouvidos a malta como esta.

    http://www.dinheirovivo.pt/Economia/Artigo/CIECO294188.html

  3. Miguel Noronha

    O artigo que cita acaba por confirmar o que diz o Ricardo Reis. A Irlanda cortou mais em menos tempo. E provavelmente partia de uma posição mais favorável. E os cortes na massa salárial são definitivos enquantos os nossos são temporários.

  4. Comunista

    São temporários? Desculpe mas quando os trabalhadores voltarem a receber o que foi cortado aí poder-se-á dizer que foram temporários, por agora são cortes efectivos, prolongados e acumulados. O que do acordão do TC teve que ser devolvido está longe do total que foi cortado. O contrário do que diz o articulista que fala como se não tivesse havido cortes. É irónico ainda que o FMI venha agora dizer que falta fazer o ajuste do sector privado – vamos ver se o governo também vai aceitar isto deitado como tem aceitado tudo o resto que vem da Troika (ao contrário da Irlanda) e proceder ao estímulo à baixa de salários no privado.

    Depois falta ao menos um link que mostre que a redução de FPs na Irlanda foi exactamente 10% ou algo lá muito perto. Não há link nenhum, de nenhuma fonte irlandesa por exemplo, o que para um académico é substandard. E para mais em Portugal ainda falta um ano de programa – vamos ver no fim qual a porcentagem de redução nde trabalhadores na função pública.

  5. Miguel Noronha

    “Desculpe mas quando os trabalhadores voltarem a receber o que foi cortado aí poder-se-á dizer que foram temporários”
    Terão que ser definitivos mas por agora têm apenas carácter temporário.

    “o contrário do que diz o articulista que fala como se não tivesse havido cortes”
    Onde é que ele diz isso?

    É irónico ainda que o FMI venha agora dizer que falta fazer o ajuste do sector privado”
    Os privados fizeram um ajustem rápido e sem necessidade da troika. E farão outros sempre que necessário. Basta não terem as receitas asseguradas por via da extorsão fiscal.

    “Não há link nenhum, de nenhuma fonte irlandesa por exemplo, o que para um académico é substandard”
    Trata-se de um artigo de jornal e não de um trabalho académico. Normalmente não se fazem links nos artigos de opinião.

  6. Renato Souza

    Não compreendo porque se permite aos governantes que contraiam empréstimos. Governos são entidades, por natureza, tendentes à irresponsabilidade, imediatismo, populismo, fraudes, mentiras, abusos, violência e malversação de fundos. É um mal necessário, e a humanidade deveria estar escolada nessa assunto o suficiente para não confiar nos governos. Um governo é como um condomínio grande demais. Se você não estiver contente com a administração do seu condomínio, não é tão difícil evidenciar os seus erros e provocar a sua demissão. E mesmo que você não consiga isso, pode mudar-se, no máximo terá de atravessar a rua, ou andar algumas quadras. Mas se o seu país estiver sendo mal administrado, será duro tirar os governantes, poderá ser que os que venham em seguida sejam piores, e a única solução garantida é o exílio, mudar-se para um lugar distante, com outra fala, outros costumes, longe da família e amigos.

    Eu não aceitaria que os administradores do meu condomínio tivessem liberdade para contrair empréstimos (e veja que são bons administradores). Porque os administradores de um país, que são muito mais difíceis de controlar, tem essa prerrogativa? Dar-lhes essa liberdade não é pedir para que nos metam em encrencas?

  7. k.

    Portugal cortou mais, e mais duro que a Irlanda. Afirmar que não o fez é uma desonestidade intelectual – e má utilização da BD do eurostat.

    Podemos argumentar naturalmente, que a Irlanda não necessitaria de cortar mais, porque o dinamismo e pujança da economia Privada Irlandesa é muito superior (eles exportam 100% do PIB).

    O que nos levaria a outra questão: O que seria melhor para Portugal, cortar (como cortou), ou tentar diminuir os estrangulamentos estruturais da economia?

    Como sou um perigoso “socialista”, diria que um mix de ambos – Portugal claramente optou por cortar sobre cortes.. alguém sabe de reformas estruturais dignas desse nome?

  8. Comunista

    Parece-me que quando se fazem referências comparativas que o mínimo que se pede é alguma referência para os dados das comparações (principalmente se se está a argumentar para cortar nos rendimentos do pessoal). Eu até andei a tentar encontrar na net e não consegui. Não digo com isto que não seja verdade o que diz o articulista digo apenas que não vale nada dada essa falta de qualquer referência.

    Os cortes não são temporários – isso são palavras. Os cortes poderão vir a ser (ou ter sido) temporários se forem devolvidos.

    “o contrário do que diz o articulista que fala como se não tivesse havido cortes”
    “Onde é que ele diz isso?”

    Aqui:

    “Enquanto a Irlanda reduziu o número de funcionários públicos em 10%, cortou salários e pensões de forma permanente, e teve como prioridade reganhar a independência em relação aos credores externos, nós estamos há três anos num jogo entre governo e Tribunal Constitucional sobre a forma de tornar os cortes mais aceitáveis em abstrato.”

    – Para ele Portugal ainda não cortou nada andando há três anos a discutir em abstracto o modo de cortar.

  9. Miguel Noronha

    “Podemos argumentar naturalmente, que a Irlanda não necessitaria de cortar mais, porque o dinamismo e pujança da economia Privada Irlandesa é muito superior ”
    E também porque as contas do estado e o stock de dívida públicas eram menores.

    “O que nos levaria a outra questão: O que seria melhor para Portugal, cortar (como cortou), ou tentar diminuir os estrangulamentos estruturais da economia?
    Como sou um perigoso “socialista”, diria que um mix de ambos – Portugal claramente optou por cortar sobre cortes.. alguém sabe de reformas estruturais dignas desse nome?”

    Eu como liberal digo que precisamos das duas coisas. E que andámos tantos anos a adiar as reformas (nunca há/é tempo…) que agora temos de as fazer sobre pressão e mesmo assim é o que se vê. E que dadas as restrições de financiamento externo e ao estado das contas públicas não temos nenhuma margem de realizar as chamadas “políticas cotra-cíclicas”. Aliás, estas foram tentadas no 2º governo de Sócrates (o tal “escolhemos aumentar o défice”) e não só não produziram efeitos ao nível do produto como pioramos as condições de partida (e negocial) para o “resgate”.

  10. Miguel Noronha

    ” Não digo com isto que não seja verdade o que diz o articulista digo apenas que não vale nada dada essa falta de qualquer referência”
    Nesse caso pode tentar encontrar uma referência que o contradiga. Caso contrário…

    “Aqui:”
    Não. Ele escreve que “estamos há três anos num jogo entre governo e Tribunal Constitucional sobre a forma de tornar os cortes mais aceitáveis em abstrato”. Daqui não se pode inferir que não existiram cortes.

  11. Comunista

    Nesse caso pode tentar encontrar uma referência que o contradiga. Caso contrário…

    – Caso contrário, nada. O ónus da prova não recai sobre mim.

    “Não. Ele escreve que “estamos há três anos num jogo entre governo e Tribunal Constitucional sobre a forma de tornar os cortes mais aceitáveis em abstrato”. Daqui não se pode inferir que não existiram cortes.”

    – não se pode inferir que existiram cortes, essa é a questão.

  12. Miguel Noronha

    “O ónus da prova não recai sobre mim”
    Experimente contactá-lo. Você é que lhe está a chamar mentiroso

    “não se pode inferir que existiram cortes, essa é a questão”
    Está a com dificuldades em provar o seu ponto, não é?

  13. Comunista

    Eu não tenho que contactar ninguém. Quando alguém escreve um dado concreto sobre qualquer coisa – 10% de cortes na função pública irlandesa – apresenta a fonte. Se ele é professor com certeza que não aceitaria aquilo de um aluno dele. E quando chamei mentiroso nem foi pelos dados da Irlanda que, já afirmei, não digo que não sejam verdadeiros digo que não valem nada por falta de referências.

    Chamei mentiroso e insisto porque ele insinua claramente que em Portugal se discutiram abstracções sobre cortes enquanto na Irlanda se cortou mesmo.

  14. Comunista

    “não se pode inferir que existiram cortes, essa é a questão”
    “Está a com dificuldades em provar o seu ponto, não é?”

    – Eu não. O meu ponto está mais que provado. Você é que só me dá conversa. Você até acha que eu é que tenho que provar que os dados do articulista estão errados e não ele provar que estão certos quando é ele que toma a iniciativa dos apresentar. Nunca vi essa lógica. Mas eu tenho insistido na novilíngua que corre por aqui.

    O articulista não diz sequer que em Portugal se cortou menos que na Irlanda, ele diz que em Portugal se discutiram abstracções enquanto na Irlanda se cortou.

  15. Comunista

    “estamos há três anos num jogo entre governo e Tribunal Constitucional sobre a forma de tornar os cortes mais aceitáveis em abstrato.”

    “Portugal cortou 3,7 mil milhões na despesa social em 2011 e 2012”

    Em apenas dois anos – 2011 e 2012 – Portugal foi o país da Europa que mais cortou na despesa social, tendo reduzido o bolo em 3,7 mil milhões de euros, quase quatro mil milhões, o valor pretendido para a redução permanente na despesa pública anunciada por Vítor Gaspar para este e o próximo ano.

    http://www.dinheirovivo.pt/Economia/Artigo/CIECO106597.html

  16. Comunista

    “estamos há três anos num jogo entre governo e Tribunal Constitucional sobre a forma de tornar os cortes mais aceitáveis em abstrato.”

    “Portugal cortou na saúde o dobro do pedido pela troika”

    “Em setembro de 2011, o país anunciou uma redução de 11% no orçamento do SNS para 2012, o dobro do corte orçamentário sob o acordo de resgate da UE / FMI”, aponta o relatório da OCDE “Health Spending Growth at Zero – Which countries, which sectors are most affected?”.

    http://www.dn.pt/inicio/portugal/interior.aspx?content_id=3029470

  17. Comunista

    “estamos há três anos num jogo entre governo e Tribunal Constitucional sobre a forma de tornar os cortes mais aceitáveis em abstrato.”

    “Cortes para a Educação já são o triplo do que foi recomendado pela troika”

    O montante dos cortes no orçamento da Educação para 2012 triplica a poupança que foi recomendada no programa de ajuda externa a Portugal. O Ministério da Educação e Ciência já confirmou que serão da “ordem de grandeza” de 600 milhões de euros. O memorando de entendimento com a troika, assinado em Maio passado, apontava para uma redução de custos de 195 milhões.

    http://www.publico.pt/educacao/noticia/cortes-para-a-educacao-ja-sao-o-triplo-do-que-foi-recomendado-pela-troika-1515252

    …and so on and so on…

  18. Miguel Noronha

    Se fossem tudo cortes permanentes estariamos no bom caminho. O problema é que terão de ser achaodos anualmente cortes de montantes correspondentes do passado (ou repetir as medidas pontuais). E ainda temos que cortar cerca de 8000 milhões adicionais para conseguir equilibrar as contas e começar a reduzir o stock de dívida pública.

    Mas ainda que se esforce continua sem conseguir provar o que diz. O RR não diz que não existiram cortes em lado nenhum. Encurralou-se num jogo retórico complicado.

  19. Comunista

    Eu não me encurralei em lado nenhum. Não sou eu que ando a dizer que andamos há três anos num debate de abstracções entre o governo e o TC enquanto na Irlanda de andou a cortar. Eu dei alguns exemplos da falsidade que é a sugestão de que andámos em debates de abstracções e não em cortes.

  20. Miguel Noronha

    “Eu dei alguns exemplos da falsidade que é a sugestão de que andámos em debates de abstracções e não em cortes”
    É capaz de haver alguém que disse isso. Eu não fui. O Ricardo Reis também não.

  21. Comunista

    “Cortamos mas muito,muito menos do que a Irlanda o fez.Julgo que o que o Ricado Reis vai nesse sentido”

    Demonstre.

  22. Comunista

    Isto também é muito engraçado (entre aspas):

    O “Jornal de Negócios” escreve hoje que “O FMI publicou gráficos para retratar a evolução dos salários em Portugal e defender a importância de mais cortes no sector privado que partem de uma amostra deturpada. Da base de dados usada foram eliminadas milhares de observações que davam conta de um aumento significativo do número de reduções salariais em Portugal no ano passado. Os resultados deste procedimento facilitam a argumentação a favor da flexibilidade laboral”.

    http://www.dn.pt/especiais/interior.aspx?content_id=3390903&especial=Revistas%20de%20Imprensa&seccao=TV%20e%20MEDIA

  23. Miguel Noronha

    “Da base de dados usada foram eliminadas milhares de observações que davam conta de um aumento significativo do número de reduções salariais em Portugal no ano passado”
    Como eu dizia mais atrás, os privados ajustaram-se e vão continuar a ajustar-se sem necessitar da ajuda ou pressão da “troika”. Uma maior flexibilização da legislação laboral tornaria o ajustamento mais rápido e eficaz, porém.

  24. dervich

    Para além dos dados lançados pelo Comunista, convinha perguntar aos irlandeses qual a opinião deles, num país onde o deficit continua a ser de 7,5 %, onde a dívida pública continua em 117%, onde a emigração é a mesma que a nossa (para metade da população) e onde o desemprego jovem ou subemprego é de 50%…
    A Irlanda deve estar a tornar-se um paraíso é para os investidores (por isso os juros da dívida descem), agora para quem lá vive o melhor é esperar que os filhos ou os netos mandem as remessas da Inglaterra ou da América.

  25. paam

    Os Irlandeses já conseguiram fazer grandes reduções na sua dívida publica. Em 1995 a Irlanda tinha uma dívida, em relação ao seu PIB, de 79,6%. Antes da crise de 2008 a mesma era de 25,1%. Portugal fez o percurso inverso, e passou de uma dívida de 59,0%, em 1995, para 71,7% em 2008.

    Ou seja, os Irlandeses já demonstraram que possuem capacidade económica/financeira para sair da crise, embora possa demorar mais tempo. Nós temos demostrado exactamente o contrário.

    Na Irlanda, só a recapitalização/resgate do do Banco Anglo Irish fez disparar o défice para 32% em 2009. Este ano não deve ultrapassar os 11,6% e para o ano podem mesmo atingir a meta de 3%.

    E sim, algumas das medidas que vão ser aplicadas em 2014 já os irlandeses aplicaram em 2010. Enquanto não consolidarmos as contas publicas estaremos constantemente a empobrecer. E os irlandeses estão a realizar essa tarefa a um ritmo muito mais rápido que nós.

  26. Comunista

    “estamos há três anos num jogo entre governo e Tribunal Constitucional sobre a forma de tornar os cortes mais aceitáveis em abstrato.”

    “Portugal cortou mais nos salários do que a Irlanda
    Medina Carreira diz que a situação portuguesa não pode ser comparada com a da Irlanda. No programa Olhos nos Olhos da TVI24, o antigo presidente do Instituto Nacional da Administração, Valadares Tavares, mostrou-se mais otimista, defendeu um consenso político e social e lembrou que Portugal cortou mais nos salários do que a Irlanda.”

    http://www.tvi24.iol.pt/videos/video/14012437/1

  27. Comunista

    Direita corta nos salários, ataca os sindicatos, diz que os pensionistas fingem que são pobres, que se deveria baixar o salário mínimo (Passos dixit) enquanto ao mesmo tempo, em tempo de crise e austeridade…:

    “Despesa do Estado com bens cresce dois mil milhões
    As despesas do Estado com compra de bens e serviços aumentaram de 2011 para 2012 mais de dois mil milhões de euros.”

    http://www.tvi24.iol.pt/videos/video/14012486/1

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