O fracasso das escolas estatais e a esquizofrenia dos anti-liberais (2)

Uma reflexão interessante: Quando o nível socioeconómico deixa de influenciar as notas. Por Carlos Guimarães Pinto.

A Universidade do Porto recebe alunos de escolas públicas e privadas, onde são expostos aos mesmos professores e métodos de ensino. Se fosse verdade que são as condições socioeconómicas e dedicação dos pais que fazem com que os alunos das escolas privadas tenham melhores classificações, então essa vantagem deveria manter-se quando os alunos de público e privado são expostos aos mesmos métodos de ensino, como acontece na Universidade. Mas tal não é verdade: segunda a investigação, quando expostos aos mesmos métodos de ensino, os alunos das escolas públicas obtêm classificações mais altas que os das escolas privadas. Ou seja, os mesmos alunos que uns meses antes tiveram notas mais baixas nos exames nacionais que os seus colegas do ensino privado, agora conseguem tirar notas mais altas, quando em igualdade de circunstâncias no que toca a métodos de ensino. Ou, visto de outra forma, quando expostos ao mesmos métodos de ensino, a superioridade socioeconómica dos antigos alunos das privadas não lhes garante nenhuma vantagem académica, contrariando o argumento de que essa é a principal razão para as melhores notas nos exames do ensino secundário.

Leitura complementar: O fracasso das escolas estatais e a esquizofrenia dos anti-liberais.

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13 thoughts on “O fracasso das escolas estatais e a esquizofrenia dos anti-liberais (2)

  1. José Maia

    Das duas, uma: ou se confirma a crítica de que muitas vezes as escolas privadas são meros centros de preparação para exames. Ou então os “meninos de colégio” ficam impreparados face às tensões próprias da universalidade com que se deparam tardiamente no ensino superior público.

  2. tina

    “então essa vantagem deveria manter-se quando os alunos de público e privado são expostos aos mesmos métodos de ensino, como acontece na Universidade”

    Não concordo. Em primeiro lugar, os pais já não perdem tanto tempo com os filhos quando estes estão na universidade, já sentem que não têm de os mandar estudar, por exemplo. A questão da dedicação dos pais torna-se irrelevante. A este nível, também já não há explicações, não se põe a questão dos daqueles que recebem explicações terem melhores notas. A questão financeira também se torna irrelavante. Por fim, o nível exigente da universidade faz distinguir aqueles com mais capacidade intelectual.

  3. EMS

    Podem acontecer duas coisas:
    1- Os colegios do privado concentram-se muito na preparação dos alunos para os exames.
    2- A maioria dos alunos do publico que consegue entrar na universidade, tal como os seus colegas do privado, provem dos tais estratos socio-economicos mais elevados.

  4. Portinhola

    Ou então os alunos do público não são treinados para exame e são expostos a métodos de ensino próximos dos que são utilizados no ensino superior…

  5. Professor

    E se ou quando os alunos das privadas fizerem os exames nacionais nas escolas públicas é que vai ser bonito…

  6. Luís António Verney

    Caro André, os “rankings” são utilizados pelos defensores do cheque ensino como a prova objetiva de que as escolas privadas têm um melhor desempenho do que as escolas públicas, de que são mais eficazes e melhores. Portanto, segundo essa opinião, ao subsidiar-se as escolas privadas (porque o cheque ensino, na prática, é um subsídio) estamos a contribuir para a melhoria da educação nacional. Essa é a justificação para se adotar tal medida, para se introduzir esse subsídio no “mercado” da educação nacional. Ora o estudo que o André e que o Carlos Guimarães Pinto citam, pelo contrário, tende a demonstrar que as escolas privadas, afinal, não são melhores do que as públicas. Se os alunos do ensino superior provenientes do privado têm um desempenho pior do que os que vêm do público, então muito mais do que pôr em causa o argumento de que as condições socio-económicas assumem um papel fundamental nos resultados das escolas privadas nos exames nacionais, esse estudo revela sobretudo de que as escolas privadas não constituem afinal uma mais valia para a educação dos meninos e dos alunos em Portugal. Dessa forma, este estudo, e o André e o CGP que o citam, parecem querer dizer que, bem vistas as coisas, não existe nenhuma razão para se implementar o cheque ensino…

  7. Isto é falso: “Ou seja, os mesmos alunos que uns meses antes tiveram notas mais baixas nos exames nacionais que os seus colegas do ensino privado, agora conseguem tirar notas mais altas, quando em igualdade de circunstâncias no que toca a métodos de ensino.”

    Os alunos do superior originários do ensino público têm notas MAIS ALTAS nos exames nacionais do que os seus colegas originários do ensino privado. Basta ver as tabelas que comparam as classificações internas com as classificações dos exames nacionais em cada escola, para ver que a maioria das escolas privadas inflaciona muito mais as classificações internas do que as escolas públicas, inflacionando assim também a nota de entrada dos seus alunos (a nota de entrada na universidade é uma ponderação das notas da escola secundário e das notas dos exames). Para uma mesma nota de entrada, os alunos do privado entram com notas PIORES nos exames nacionais porque têm notas superiores da escola de onde vieram para compensar. E depois, claro, muitos não se aguentam porque são piores alunos do que os seus pares e ficam-se pelo fundo das tabelas das Universidades.

  8. Vejam esta tabela: http://www.jn.pt/infos/pdf/Ranking_secundario_principal.pdf

    Reparem como o Externato Ribadouro do Porto aparece em 13º lugar com média de 13.17 nos exames apesar da média da classificação interna à disciplina ser mais de 4 (!!) valores acima, o que dá aos seus alunos uma classificação de 16.18 valores, das maiores que se encontram na tabela. Este colégio faz 1759 provas, é a escola com mais provas, e assim mete imensos alunos mal preparados no superior, especialmente em cursos com Medicina.

  9. Marco

    O que interessa perguntar é …
    Com tanta estatística alguém se preocupa mesmo em analisar a realidade ? É que a estatística é largamente falível …
    Por isso é que a educação em Portugal se degrada, em vez de se focarem na componente educativa … andam a analisar estatísticas …
    E a motivação dos docentes ? Serve para alguma coisa ? …

  10. 1- Há selectividade amostral porque uma grande parte dos alunos do ensino público, a que puxa a média para baixo, não vai para a Universidade. Para além dos que não têm média para entrar, os que têm dificuldades “sócio-económicas” só a muito custo lá entrarão, o que contribui, mais uma vez, para que haja selectividade amostral.

    2- Isto, ironicamente, desmente o mito de os colégios privados serem melhores do que a escola pública, uma vez que, pelos vistos, prepara melhor os alunos para o ensino universitário, mais exigente. Afinal os rankings não valem um caracol, porque os alunos da escola pública chegam às universidades melhor preparados do que os da privada.

  11. Renato Souza

    Há uma explicação simples. Faço as considerações baseado no que vejo aqui no Brasil, mas suponho que em Portugal seja o mesmo.

    1. Alunos de escolas públicas são em número muito maior que os alunos de escolas privadas. Considerando que o talento e inteligência natural superiores estejam aleatoriamente distribuídos entre a população, inevitavelmente há muito mais pessoas naturalmente dotadas de inteligência superior entre os alunos das escolas públicas do que entre os alunos das escolas privadas.

    2. Mesmo que se conseguisse provar que entre os alunos de escolas privadas há uma porcentagem maior de pessoas naturalmente mais dotadas de inteligência, desde que a desproporção não seja absurdamente grande, dada a enorme desproporção entre o número de alunos em escolas públicas e privadas, ainda assim o número de alunos naturalmente mais inteligentes nas escolas públicas seria maior que nas escolas privadas.

    3. As evidências apontam que os alunos de escolas públicas SOFREM sob métodos de ensino particularmente ruins. Conheço pessoas que estudaram em escola pública e passaram nos exames mais difíceis, adotando o método de ignorar seus piores professores e estabelecer seu próprio programa de ensino. Para tais pessoas, a existência de tais professores foi um estorvo a mais a ser vencido, na difícil tarefa de aprender.

    4. Portando, um aluno de escola pública que venha a entrar numa universidade com testes de admissão particularmente difíceis (normalmente as melhores universidades) geralmente será uma pessoa com inteligência natural superior a um aluno de escola privada que tenha obtido a mesma nota nesse exame de admissão. Imagine que dois homens tenham conseguido carregar o mesmo peso, pela mesma distância, no mesmo intervalo de tempo, um deles em terreno plano e desimpedido, outro numa subida cheia de pedras. É natural concluir que aquele que enfrentou o pior terreno é, na verdade, mais forte.

    5. Submetidos às mesmas condições, não será surpresa que o aluno vindo de escola pública agora mostre seu potencial superior.

    PS: Toda essa análise supõe que o número de alunos em escolas públicas é significativamente superior ao número de alunos em escolas privadas. Se isso não for verdade ai em Portugal, então, há que se buscar outras explicações.

  12. Este pensamento é falacioso. Mas claro que o é, pois este blogue é propagandístico. No ensino público o sistema de filtragem de alunos é efectuado através da média das notas, ao passo que no privado é efectuado através do dinheiro. Obviamente que o ensino público, captando em média melhores alunos, apresentará, em média, melhores notas. Obviamente, também, que famílias economicamente mais favorecidas apresentam condicionantes socio-económicas mais favoráveis para os alunos terem um ambiente socio-cultural que lhes permita aprender melhor. Tentar negar isso é sonegar a razão, ou pura e simplesmente acreditar-se que o ensino não é um direito universal mas um bem ao qual só uma camada das crianças deve ter direito.

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