Auto-seleção

Hipótese: A diferença no desempenho das escolas públicas comparadas com as privadas não é explicada pelo nível de vida, como pode ser constatado aqui, nem pela qualidade dos professores (assumindo que os salários relativamente elevados do público tendem a atrair os melhores professores).

Se esta hipótese for válida – e os indicadores disso são fortes – a explicação terá de estar em: (1) métodos de gestão da escola, (2) viés de seleção por parte da escola dos melhores alunos, ou (3) viés de seleção da escola por parte dos pais dos alunos.

É possível que estes três factores tenham todos influência, embora com pesos relativos diferentes. É difícil, senão impossível, estudar estes efeitos, porque teriam de ser isolados em grupos de controlo para análise. O (1) e (3) estão correlacionados, por exemplo. É provável que os métodos de gestão da escola influenciem a escolha dos pais.

Tenho outra hipótese como consequência: Que a explicação (3) é a preponderante. É costume observar que os portugueses que trabalham fora de Portugal têm produtividade mais elevada do que os que cá ficam; que têm reputação de ser excepcionais trabalhadores, etc. Muitas vezes, esta diferença é justificada pela qualidade dos empresários portugueses. A mais provável explicação é que se trata de um efeito de auto-seleção: Os portugueses que se dão ao trabalho de emigrar, com toda a disrupção que isso lhes causa, são à partida mais propensos à iniciativa, espírito de sacrifício e perseverança que os tornam em média melhores trabalhadores. Do mesmo modo, os pais que – não sendo ricos – fazem o esforço financeiro de colocar os seus filhos em escolas privadas são também os que se envolverão mais no dia a dia da sua educação, tendendo a trazer melhores resultados.

14 pensamentos sobre “Auto-seleção

  1. k.

    Interessante.
    Os meus pais, não sendo ricos, fizeram um esforço significativo para me colocar numa faculdade privada… e não fui brilhante.

    Por outro lado, trabalho no estrangeiro – garantidamente, não posso ser mais produtivo, porque vim fazer exactamente o mesmo trabalho; A minha produtividade pode ter aumentado porque agora estou com a minha equipa, i.e, o facto de incremento de produtividade é exogeno à minha pessoa.

    Ganho é muito mais, é claro.

    Eu sou apenas um individuo; Você pode defender o seu argumento dizendo “que em média..” no entanto, parece-me que está a criar argumentos sem factos, para justificar as suas hipoteses

  2. «garantidamente, não posso ser mais produtivo, porque vim fazer exactamente o mesmo trabalho; (…) Ganho é muito mais, é claro.»

    Esperemos que o seu patrão não leia este comentário. Pelo meu lado prometo guardar segredo.

  3. lucklucky

    “A minha produtividade pode ter aumentado porque agora estou com a minha equipa, i.e, o facto de incremento de produtividade é exogeno à minha pessoa.”

    Como sabe? você poderá estar a prejudicar a sua equipa ou pelo contrário a ser um benefício para ela. A neutralidade só acontece aos robots.

  4. k.

    “Esperemos que o seu patrão não leia este comentário. Pelo meu lado prometo guardar segredo.”

    Não sei porquê – ele é que me convidou, sabendo que para eu vir para Inglaterra, teria de me pagar muito mais.

    “Como sabe? você poderá estar a prejudicar a sua equipa ou pelo contrário a ser um benefício para ela. A neutralidade só acontece aos robots.”

    É verdade – mas como ainda não fui despedido, suponho que serei um beneficio para a equipa.

  5. Vitinho

    “garantidamente, não posso ser mais produtivo, porque vim fazer exactamente o mesmo trabalho;

    Não sei porquê – ele é que me convidou, sabendo que para eu vir para Inglaterra, teria de me pagar muito mais.”

    Os incompetentes sao sempre promovidos ate ao limiar da sua competencia”….

    Se e tao produtivo, mas o seu chefe é o mesmo, o problema da sua produçao nao é seu, é do seu chefe..que so o levou porque já sabe que a sua competencia nunca fará sombra à incompetencia dele.. logico que nao é despedido, pode entrar semrpe alguem mais competente que o seu chefe..

  6. rmg

    O que eu acho é que há cada vez mais reformados nas caixas de comentários a fazerem-se passar por emigrantes de sucesso , tais são as contradições em que entram .

    Tão depressa sai um comentário de quem acaba de atravessar a Avenida da Liberdade há 10 minutos , cheio de pormenores , como o mesmo se afirma trabalhador bem sucedido algures no mundo , só com afirmações generalistas .

    Ora se isso pode servir para “enganar” a malta que nunca saíu cá da terrinha (ou só o fez em turismo) , mais difícilmente “engana” quem já trabalhou noutras paragens como eu e que já teve dois filhos quase quarentões emigrados .

    PS – Este meu comentário foi suscitado pelos de k. ainda que não me refira necessáriamente a ele , o que não me impede de achar estranho que com o mesmo patrão se “considere” mais produtivo (não escrevi “seja”) no estrangeiro , sabendo-se como se sabe a importância que o estilo de gestão tem nestas coisas .

  7. LIBERTAS

    MBM tem razão: os melhores trabalhadores são os que emigram. É extraordinária a diferença entre rendimentos médios dos emigrantes portugueses na Venezuela e a média do país.
    As famílias mais empenhadas são aquelas que se incomodam na procura da melhor escola, ainda que esta escola fique mais longe ou mais dispendiosa.

  8. Pingback: Quando o nível sócio-económico deixa de influenciar as notas | A Montanha de Sísifo

  9. Surprese

    Sim, a explicação é simples, e é mesmo essa: auto-selecção.

    Todos conhecemos casos destes:
    – pessoas que fazem sacrifícios para manter os filhos em escolas que julgam boas;
    – pessoas que não se conformam com uma vida de biscates e/ou subsídios, e que vão à procura de trabalho.

  10. brmf

    Eu até concordo que a explicação (3) é a preponderante, mas,existem outras condicionantes além de um potencial maior envolvimento dos pais:
    1) maior poder económico tem correlação com maior formação, logo, mais possibilidades de ajudar os filhos na escola;
    2) as razões (2) e (3) estão também, creio, interligadas: as melhores escolas tendem a escolher os melhores alunos e por sua vez os alunos com mais possibilidades (+ potencial de serem alunos bem sucedidos) tendem a escolher as melhores escolas – encontro de vontades;
    3) o desempenho escolar não é indiferente ao ambiente. Um excelente aluno tem piores resultados (globais) entre alunos medíocres.

    O envolvimento dos pais é apenas uma razão que pode ajudar o fenómeno, e nem sequer me parece a mais importantes.

  11. “Envolvimento dos pais” é mais do que ajudar os filhos. Meramente “ajudar” de facto depende da formação dos pais. Mas há outros aspectos directos: Ser mais exigentes, acompanharem os resultados, interagirem com professores. E outros indirectos: Os pais que fazem este esforço tenderão a ter outros comportamentos (p.ex. disciplina, fomento de outras actividades) que também podem ser conducentes a melhor desempenho.

    «as melhores escolas tendem a escolher os melhores alunos»

    Esta é uma afirmação corrente, mas que eu não encontro grandes evidências de ser correcta. É verdade que alguns colégios de elite escolhem os alunos em função de resultados de testes e do background dos pais. Mas essa conduta não é generalizada nas escolas privadas. Além disso, testar alunos muito novos é difícil e não necessariamente preditivo de bons resultados nos exames que servem de base aos rankings anos mais tarde. Exemplo disso é que colégios particulares que são muito selectivos na admissão (p.ex. Planalto em Lisboa), nem sequer são dos melhor colocados no ranking que outros que usam listas de espera.

  12. Pingback: Mais 20 milhões para os amigos dos colégios | cinco dias

  13. Comunista

    “«garantidamente, não posso ser mais produtivo, porque vim fazer exactamente o mesmo trabalho; (…) Ganho é muito mais, é claro.»

    Esperemos que o seu patrão não leia este comentário. Pelo meu lado prometo guardar segredo.”

    Para o Miguel, portanto, cada ser humano é um poço de potencial produtivo a que não importam as condições exógenas como refere o comentador. É que sem mudar nada por fora parece-me que a tendência é atingir um pico e depois declinar – é o envelhecimento, sabe. Mas não sei se o insurgentismo autoriza o envelhecimento.

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