A entrevista da criatura que faliu o país: um tratado sobre o ressentimento.

Estava decidida a perder tanto tempo com a entrevista do inginheiro ao Expresso como com a entrevista que há uns meses deu à RTP: nenhum. Estou suficientemente elucidada sobre a criatura e as políticas – e as consequências das políticas – da criatura para necessitar de mais bibliografia sobre o assunto. Depois fui apanhando alguns pormenores no facebook, a curiosidade aguçou-se e dei-me ao trabalho de ir comprar o Expresso para ler a coisa. E, meus caros, foi dinheiro muito bem empregue. Não por quaisquer considerações políticas – aí estou tendencialmente de acordo com o Rui A.: o pior de tudo é que sócrates (como o resto do PS) não percebeu porque estamos sob resgate da troika, o que levará a que, provavelmente, o processo se venha a repetir – mas pelo interesse de espreitar para o interior de uma alma retorcida. No fundo, um interesse aparentado ao que leva alguém a ler In Cold Blood, de Truman Capote. Não chega a ser fascinante – porque às tantas temos a sensação de olharmos para um esgoto e sentimos a repugnância devida – mas é deveras curioso.

Vemos um homem que não se arrepende de erro nenhum (arrependermo-nos é errarmos duas vezes, ficam a saber) e que coloca a culpa de todos os males do mundo ou, pelo menos, do país – de forma a roçar a paranoia – em todos os agentes que o roderaram e que não se renderam, boquiabertos com tanto esplendor governativo, às opções de sócrates. Um homem que vê todas as discordâncias políticas como atos de uma conspiração contra si e contra o país – e sim, sócrates e só sócrates lutou para defender os interesses do país que, de resto, confunde com os seus. Um homem com uma interminável capacidade de ressentimento contra os que se lhe opuseram, que respira e transpira ódios mesquinhos, e – o que é ainda mais perturbante – sem qualquer pudor em exibir tal ressentimento e ódio ou sua necessidade de ajustar contas, nem a forma como evidentemente se deixa consumir por estes. Até a questão da namorada parece um ajuste de contas por sabe-se lá o quê da relação terminada. Um homem sem capacidade de entender que as outras pessoas, legitimamente, agem para defender os seus interesses e, nos melhores casos, os dos seus eleitores e não têm nenhuma obrigação de se vergarem às vontades de sócrates – o que a criatura vê como uma ação contra ele. É alguém com uma absoluta falta de noção sobre si próprio e a sua importância, a ponto de ligar para o diretor de campanha do maior partido que se candidatava contra o seu, numas eleições legislativas, e exigir-lhe que se demita, como se o mundo inteiro lhe respondesse. É um homem que se vê como mais à esquerda do que os de esquerda mas também o líder desejado pela direita. Enfim, um mitómano e um egomaníaco. Não sei se é mais perigoso se mais ridículo. (E, just in case, aqui vai novamente uma lista que pode ser de grande utilidade.) Em todo o caso, a leitura da entrevista foi uma boa variedade de fim-de-semana. Pelo menos serve para nos entreter, a criatura.

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35 pensamentos sobre “A entrevista da criatura que faliu o país: um tratado sobre o ressentimento.

  1. Rogerio Alves

    Como já escrevi antes, continuo surpreendido por ver que tão pouca gente conseguiu perceber que Sócrates é um sociopata no estado mais agudo.

  2. PeSilva

    A MJM só poderia dizer algo como isto:
    “Eu estou no grupo das pessoas com intolerância à gente que gosta muito de falar sem dizer nada. Sou muito protetora do meu tempo e fico verdadeiramente irritada quando tenho de o perder com pessoas que apreciam em excesso ouvirem-se a si próprias e usam os meus preciosos minutos falando de vazios para se deleitarem com a própria voz. Isto com a idade tem piorado e potenciado a intolerância para palavras sem significado, sem utilidade e sem propósito.”

    O Insurgente merecia muito melhor.

  3. k.

    Eu defendo Socrates com unhas e dentes.

    Não que ache que ele é um santo que só fez coisas boas, muito pelo contrário.

    Mas sempre que leio posts destes, a destilar ódio (já irracional, porque agora o cidadão socrates é apenas isso, um cidadão), irrito-me.
    Irrito-me porque mais do que insultar o homem, estão a obscurecer as causas da crise.

    Porque socrates fez muita porcaria.
    Mas não foi o unico, e não só no governo.

    Sim, socrates fez porcaria – e a Banca Privada? E o BP? E, já agora, os tipos que assinaram swaps, como a nossa estimada ministra das finanças?

    Socrates é culpado – mas não é o unico. Querem crucifica-lo para servir de bode expiatorio, e aliviar outros.

  4. Uma criatura que consegue ser alvo do ódio da direita e da esquerda, e ao mesmo tempo ser respeitado no estrangeiro deve ter mesmo alguma coisa muito estranha (para quem se lembra dos puxões de orelhas da Frau Merkel ao Mr. Passos). Deve possuir uma qualquer substância que cá na terrinha se detesta…. Infelizmente, depois da criatura ser mandada embora foi-nos oferecida uma criatura melhor… Em termos, claro está, de freaks!….

  5. PT

    Boa narrativa, k. Meta mais tabaquinho nisso, ok?
    Mas para dizer a verdade, pelo que me diz respeito, sim, é ódio. É ódio ter que aturar o inenarrável na televisão pública paga por todos nós, infelizmente. E ter que mudar de canal só para não sofrer as náuseas que a criatura me dá ao pensar no que ele fez e na cobertura que tem da comunicação social, que se limitou a passar uma esponja nos 6 anos em que ele esteve a afundar este país. É ódio por ultimamente não bastar uma vez por semana, mas por estar a ganhar cada vez mais tempo de antena e de publicidade gratuita em todos os media e com a colaboração de todo o tipo de desmemoriados e idiotas úteis que lhe dão cobertura. E ainda me vêm falar de bodes respiratórios, perdão, expiatórios…
    Mal empregue o leite que os pais da criatura gastaram com ele… tinham-se feito uma bolas de queijo que tinham feito muito mais proveito a muita gente.

  6. JP

    “Querem crucifica-lo para servir de bode expiatorio, e aliviar outros.”

    Cuidado! A sua relação com sócrates pode estar a tornar-se semelhante à estabelecida por muitos portugueses que destruiram a sua vida com os tipos do reino de deus. É notável como muitos só percebem depois de completamente depenados, e outros, nem isso. Faz lembrar aqueles tipos que se dizem vítimas de escravidão sexual de umas senhoras que todas as semanas os vêm buscar num OVNI – normalmente, fruto de grandes pancas com raízes profundas num passado distante e de má memória, quase sempre infantil e assente em frustrações diversas. Novamente, sem ironia, muito cuidado: qualquer psiquiatra com experiência para além da teoria lhe explica que este estilo de pessoas costuma sair por cima, enquanto os que os rodeiam saem sempre pelo esgoto, como poderá concluir se analisar todos os casos com repercussões mediáticas que passaram ou decorrem em tribunal. Estes casos tornam-se mais preocupantes quando os indivíduos se apresentam como salvador da pátria, do seu continente ou do mundo. Curiosamente, Salazar também teve a parte final da sua vida política marcada por “problemas” com o vocabulário utilizado.

  7. Surprese

    Por isso é que me dá comichão quando ouço a lenga lenga do “Falta nos um grande Estadista!”. Sócrates pensa que o é, e muita gente que o apoia e comenta por aqui pensa o mesmo.

    O problema de um “Grande Estadista” é que para o ser, é necessário sofrer de alguma sociopatia, em diferentes graus.

    Assim de repente, lembro-me de “Grandes Estadistas” como Hitler, Stalin, Mussolini, e porque não, Franco e Salazar. São pessoas que fazem tudo para distorcer a realidade dos outros até que consigam impor a sua realidade, ou seja, até que consigam que o Estado (personalizado neles próprios) vença sobre os individuos.

    Líderes eleitos, como Willy Brandt, Helmut Kohl, Margaret Tatcher, ou mesmo Miterrand, foram isso mesmo: líderes eleitos. A parte do estadista passou-lhes ao lado, pois apenas tinham como missão fazer o que os seus eleitores queriam que fizessem, e afastaram-se quando perceberam que a sua realidade ou vontade não estava alinhada com a dos seus eleitores. Tatcher e Kohl são exemplos típicos, afastados devido às suas visões contrárias às dos eleitores sobre a União Europeia (Tatcher) e sobre o Euro (Kohl).

    Se em vez de Tatcher ou Kohl tivessemos tido Sócrates à frente desses países, o Reino Unido estaria fora da UE e a Alemanha estaria numa moeda única sem que o modelo do Bundesbank tivesse sido adoptado pelo BCE.

    E quando as coisas corressem mal, a culpa certamente seria desses filhos da mãe da oposição, ou do estupor de um qualquer político eleito de outro país.

  8. Maria João Marques

    PeSilva em Outubro 21, 2013 às 16:03
    Olhe que a leitura dos meus posts não é obrigatória e a escrita de comentários, então, é inteiramente volitiva. Não se sinta pressionado a ler-me ou a comentar-me. Ocupe o seu tempo com o que lhe dá mais prazer. Seize the day. E por aí adiante.

  9. PeSilva

    MJM,

    Claro que não é, mas tenho por habito ler todos os posts deste blog sem olhar ao nome do autor, por norma, mesmo quando estou nas antípodas das opiniões expressas, o que leio acrescenta-me algo. Claro que há excepções, e os posts da MJM, a meio do primeiro paragrafo já descobri o autor de tão pobre que é a narrativa.
    Reafirmo: o insurgente merecia muito melhor.

  10. Tiro ao Alvo

    Parece-me que estas pessoas, que por aqui aparecem a defender o Sócrates, não leram a entrevista, nem estão interessados em saber o que é que o homem disse à Clara Ferreira Alves. Esta gente defende o Sócrates como muitos defendem o Benfica, o Porto ou o Sporting, ou seja, sem raciocinar. Só pode.

  11. Baletas Turco

    Tiro ao alvo…

    Outros defendem o passos, e a corja que o acompanha, como outros defendem o benfica, o porto, o sporting, o braga, o guimarães…. o padre zézinho, a freira carlinha… o forneiro carlinhos…

    Valha-nos Deus!

  12. Sócrates é o menos infinito em termos de ética política e o mais infinito em termos de egocentrismo. Meteu-nos no buraco e só pensou em como aproveitar-se disso (e, esta entrevista, mostra que ainda está à procura…). Falar dele, dos seus “comentários”, das suas “entrevistas”, da sua peçonha destilada que tenta injetar em tudo e todos é o mesmo que pular para um monte de merda e tantar mexer-lhe sem se sujar ou ficar com o cheiro. Mais tarde ou mais cedo as pessoas irão perceber quem era o “engenheiro” e irão colocá-lo muitos anos junto do seu colega de egocentrismo e trafulhice, o Vale e Azevedo – e esperemos que antes se consiga recuperar algum do dinheiro que ele, a sua família e a sua quadrilha roubaram ao país.

  13. tina

    “respeitado no estrangeiro”

    Está a referir-se a Chavez, não é? A propósito, já recebemos o dinheiro dos Magalhães?

  14. Por acaso nunca apreciei especialmente a criatura, porém isso não me impede de lhe reconhecer qualidades e defeitos. Esta abordagem não colhe, uma vez que por estes lados a “critica” tende a afundar-se na boçalidade fanática (salvo honrosas excepções), Assim, o repositório de comentários rancorosos não trauteia argumentos concretos, circula pelo insulto, pela animosidade pessoal, e apenas comprova aquilo que toda a gente sabe: os inimigos figadais do “animal político” já o eram mesmo antes dele fazer asneiras. Lá se vai a coerência e a razão… E contra isso, batatas!…
    Quanto ao “respeitado” (lá fora…), que causou algumas perturbações gástricas, sugiro que procurem as diferentes cambiantes da etimologia da palavra e depois comparem com certos ministros actuais… Have a nice day!…

  15. Caro jsp,, a sua insinuação e recorde de “thumbs down” num despique com este nivel, dá-me uma enorme alegria! Eleva-me do charco. Recomendação final: entretenham-se com as novas criaturas. Os que precipitaram a desgraça para o estado em que está… A galeria tem muitos cromos. Alguns já desistiram entretanto… 😉

  16. campus

    Felizmente a criatura surgiu num país que pertence à União Europeia e em que a sociedade se democratizou . Se a criatura tivesse aparecido na América Latina seria pior que um chavez, pior que um pinochet, pior que um fidel. Criatura repugnante.

  17. Lucas Galuxo

    Quanto mais se lê o que você escreve mais simpatia sentimos por José Socrates, Maria João.
    Tem muitos exemplos mas fiquemo-nos por este:
    “a ponto de ligar para o diretor de campanha do maior partido que se candidatava contra o seu, numas eleições legislativas, e exigir-lhe que se demita, como se o mundo inteiro lhe respondesse”
    Em que raio de civilização você vive? Acha aceitável uma campanha política baseada em alusões à vida privada do adversário? Se isto não a incomoda vou ali e já venho.

  18. Bull

    Tantos comentários e tal sobre uma pessoa que vive num mundo de fantasia.
    E caso para dizer que os lideres socialistas são escolhidos a dedo, mas não é so aqui no nosso cantinho à beira mar, basta olhar pra frança pra ver que a fantasia não varia muito

  19. Maria João Marques

    Lucas Galuxo, não deve ter lido bem a entrevista. Sócrates exigiu a Relvas que se demitisse por causa de um cartaz da JSD, não por qualquer questão da vida privada de Sócrates –
    que o próprio, de resto, escancarou.

  20. Lucas Galuxo

    E o que dizia o cartaz, Maria João? Criticava alguma proposta política? Apresentava alguma ideia alternativa? Ou limitava-se a insinuações sobre o carácter ou a vida íntima do opositor? O Cartaz e, já agora, grande parte da campanha do PSD nos últimos anos. Descontando Rui Rio, onde estão os exemplos de intervenções consistentes e coerentes ao longo do tempo, fora de considerações pessoais fúteis e difamações, distantes da tirada de conveniência que o próprio desmente entusiasticamente pouco tempo depois, leais perante o eleitorado? Não é (só) José Socrates quem tem razão de queixa. São principalmente os eleitores que nele não se revêem, sobretudo à direita, como é o meu caso, que podem sentir tristeza por ver a canalhice e a intriga substituir a colocação a escrutínio de propostas alternativas claras, bem preparadas e que não se dissolvem na noite das eleições.

  21. eramasfoice

    Mas que todos o meses lhe pinga muito na conta, ai disso não tenho a menor dúvida. E até não é difícil imaginar quem é o mecenas.

  22. Francisco Colaço

    Surprese,

    «Se em vez de Tatcher ou Kohl tivessemos tido Sócrates à frente desses países, o Reino Unido estaria fora da UE e a Alemanha estaria numa moeda única sem que o modelo do Bundesbank tivesse sido adoptado pelo BCE.»

    E falidos e irrelevantes.

    Sócrates, Guterres e Santana Lopes, por esta mesma ordem tornaram Portugal irrelevante.

  23. Francisco Colaço

    Luís FA,

    «Infelizmente, depois da criatura ser mandada embora foi-nos oferecida uma criatura melhor…»

    A tal criatura demitiu-se, não foi mandada embora. A dita criatura melhor foi eleita, não oferecida.

    Passos Coelho é uma ordem de grandeza menos mau que Sócrates. Não é, infelizmente, o que Portugal precisa que fosse.

  24. Manuel Domingues

    Li alguns, poucos, dos comentários ao excelente comentário à entrevista do expresso.
    Custa-me saber que o dito ingenheiro bibe vem também à minha custa.
    Que pago da minha parca reforma os seus almoços e jantares e idas ás boites em Paris. Fala-se numa fortuna de 350 milhões. É dinheiro a mais para quem conta os tostões. Tenho a esperança que apareça alguém com coragem a perguntar a proveniência dos milhões, ou será que está tudo tão bem feito que não há ponta por onde se lhe pegue?

  25. Pingback: Umas palavras de conforto para José Sócrates | O Insurgente

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