Caro Aníbal

Caro Aníbal,

Referiu hoje que “se os nossos credores dizem que a dívida é sustentável, a Comissão, o Banco Central Europeu e o FMI, somos nós, os devedores, que dizemos que não?”

Como bem se recordará das aulas de Finanças Públicas a que assistiu outrora e que um dia leccionou, a sustentabilidade da dívida pública não é uma questão de opinião, de gosto ou sujeito a um debate filosófico. Ou está numa trajetória sustentável ou não está. A definição comummente aceite é a de que a dívida é sustentável se o rácio dívida/PIB se mantiver igual ou decrescer, isto é, se a taxa de crescimento do nível de dívida pública for igual ou inferior à taxa de crescimento da economia, para uma dada taxa de juro. E como garantimos que tal acontece? Garantindo a sustentabilidade fiscal, isto é, que o Estado terá as receitas necessárias para cobrir as despesas para todo o horizonte temporal.

Anexo-lhe dois interessantes gráficos, isentos de IVA, de privado para privado. O primeiro resume os encargos financeiros com o serviço de dívida para os próximos anos (redemptions + juros). Como poderá constatar, só em 2016 será necessário até 10% do PIB (usando o PIB de 2012 como referência) para onerar despesas com a dívida. A não ser que preveja uma receita fiscal extraordinária qualquer (poços de petróleo no Alentejo?) ou um corte abrupto na despesa primária, não me parece que Portugal consiga — sem muletas — pagar.

redemption-costs-portugal

O segundo gráfico é uma ilustração da maçada que é a restrição orçamental do governo. Sendo bondoso e assumindo um crescimento positivo de 1%/ano do produto e um défice orçamental de 4.5%, poderá constatar que a trajetória da dívida é explosiva. Traduzindo, é tudo menos sustentável, pelo menos com esta política fiscal em vigor no dia 3 de Outubro de 2013.

Screen Shot 2013-10-03 at 10.51.11 AM

Não diga ao António José Seguro, mas e se formos inundados de compaixão e assumirmos um crescimento de 2.4% e um défice de 1%/ano? Mesma coisa.

Screen Shot 2013-10-03 at 1.23.23 PM

É que enquanto o orçamento for deficitário a dívida continuará a ser insustentável. Seria preciso uma taxa de crescimento muito considerável (nesta simulação, superior a 4%) para conseguir endireitar a trajetória da dívida.

Não é um ábaco, mas este simulador do ajustamento da dívida pública que concebi para si poderá constituir uma importante ferramenta ao seu dispor para nos poupar de certas acusações que, estou certo, se recordará.

Um abraço fraterno de um masoquista,

MAL

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14 pensamentos sobre “Caro Aníbal

  1. JoaoMiranda

    «« crescimento de 2.4% e um défice de só 1%/ano?»»

    Isto não me parece bem. Sem fazer contas, aposto que a dívida deverá ser sustentável com défice de 2%, crescimento de 1% e inflação de 1,5%

  2. JoaoMiranda

    Mário,

    Pelo que percebo, o simulador usa o défice primário (despesa indicada é sem juros). O défice primário já está perto de zero neste momento e pode facilmente ser superavit de 3% (correspondente a défice de 2%). Com um défice de -3% a dívida desce.

  3. Bruno Grácio

    Mário, vai chegar ao nível do Tratado de Maastricht porque o nosso futuro Grande Líder Seguro diz que vai conseguir convencer a Europa a assumir a parte da nossa dívida que exceda os 60% do PIB. Tal como eu vou conseguir encontrar um parceiro comunitário que assuma a dívida relacionada com o meu empréstimo que exceda a minha capacidade de produção anual 🙂

  4. Fmp

    Este simulador tem de ter alguma incorreccao….com um crescimento de 1pc, e inflacao de 2pc o denominador cresce 3pc, logo basta o numerador nao crescer mais, ie, eh preciso um defice nao superior a 3pc (essa eh alias a ciencia por tras do criterio de maastricht)…. Uma vez q os juros ao prai uns 5pc do pib, basta um superavit primario de 2pc ou mais…. O q como o JM ja indicou eh perfeitamente alcancavel…. Para alem disso, nao me parece q a sustentabilidade da divida seja um assunto assim tao cientifico e eh certamente aberto a opiniao, ao contrario do q refer, pois depende de muitos inputs subjectivos

  5. sadico

    Caro Anibal ,
    Argumentum ad hominem
    Nas aulas de Finanças Publicas não aprendeste nada porque o professor era de aviário …e nas aulas que leccionaste portanto nada se aprendeu . Que o diga o Ferro Rodrigues … Caro Professor , tudo é confirmado pelos teus inexistentes trabalhos cientificos !… Sobre o teu percurso académico nem é bom falar … E o que diria hoje o teu amado Reitor Alfredo de Sousa . Pelo menos , que não percebes nada do assunto . Foste doutorado(no estrangeiro…) com a tese ” O crescimento economico e a divida publica” !… Com esta tese e o teu famigerado par Sócrates , deste no que deste . A nossa maior tragédia dos ultimos dois seculos , segundo diz Vasco Pulido Valente …
    Se te confessasses , não sei quantos “padre nossos” te seriam encomendados .
    ADENDA
    Nos 12 mil processos para recuperação do património do bpn está incluído Cavaco para devolver os 50 mil contos que consciente e especulativamente e sem impostos obteve no BPN através do seu amigo e vizinho aprisionado Oliveira e Costa ?
    Tal como o honesto Eanes , Cavaco tinha aqui uma boa oportunidade de provar que não necessitou de nascer duas vezes para ser honesto … (e a gente até esquecia as histórias da Coelha e da marquise…)

  6. Pingback: Condição de sustentabilidade da dívida | BLASFÉMIAS

  7. economista

    CASTIGAT RIDENDO MORES
    Se possível com um “palhaço” que nos faça rir

    O que é pior ? A “banha de cobra” do Senhor Silva ou a ignorância incompetente do playboy Coelho ? O “Rei Silva” , acompanhado da “Rainha Maria” (vestida de azul aristocrático) , foi para a Suécia vender a sua “banha de cobra” !…
    E assim continua a dar a volta ao Mundo à custa do pobre “pagode” … Não tem vergonha porque para não ter vergonha é suficiente nascer apenas uma vez …
    “A Divida Publica” é insustentável ? “Erradamente” sustentável segundo o “ignorante” Cavaco Silva vulgo “o pai do monstro” que nunca tem duvidas nem nunca se engana !… Não obstante na Mensagem de Ano Novo ter afirmado o contrário !… Um verdadeiro “catavento da politica” .
    Sempre com “boas companhias” . Batráquio q.b.

    A Divida Publica para ser sustentável tem como condição necessária o ratio Divida Publica/PIB ser “ad minus” estável ou , melhor , decrescente i.e. a taxa de crescimento da Divida Publica ser inferior à taxa de crescimento económico ora inexistente .

    Desde 2005 que a Divida Publica está em danoso crescendo .
    E não esqueçamos que a Divida Publica contraída por Cavaco Silva (PM) mais a Divida Publica já tragicamente acumulada por Passos Coelho , excedem a louca Divida Publica contraída pela parceria Cavaco(PR)/Sócrates(PM) (ambos são loucos … loucos somos nós ? ) .

    A Lei de Wagner das Finanças Publicas aponta para o crescimento irreversível da Despesa Publica . Acresce à insustentabilidade da Divida Publica a ora já insustentabilidade Pressão Fiscal !… Uma verdadeira asfixia fiscal . Assim , Deficits permanentes . Recessão económica crónica .
    Uma verdadeira Quadratura do Circulo . Diminuir a insustentável Divida Publica ? Necessita de Crescimento Económico … mas o pagamento da Divida Publica impede o Crescimento Económico ! …
    Quo Vadis ? A Divida Publica é insustentável .
    Como corolário , a Divida Publica é impagável …

    Entretanto os investidores(v.g. Bancos…) estão enriquecendo .
    Tal como na D. Branca , os últimos sem o tal diabólico poder conservador serão os últimos prejudicados …
    P.S.
    Aguardamos que Cavaco Silva , doutorado com a tese “a divida publica e o crescimento económico” que ele nunca soube aplicar , publique no site da PR as “Contas Gerais do Estado Previsionais” dos próximos 20 anos , para nos provar que não vende “gato por lebre” .

  8. povão

    Os juros abrilistas já pagos ultrapassam o séptuplo do PIB ? E aqueles que serão(?)
    pagos no futuro ? Quem arrisca ?

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