Sobre o multiplicador da despesa

keynes

Vale a pena recuperar este artigo do Luís Aguiar-Conraria (versão para assinantes aqui), que enceta uma discussão onde conclui que os chumbos do Tribunal Constitucional terão tido um efeito positivo no PIB. Para perceber a validade da conclusão, torna-se necessário recuperar a definição de multiplicador.

O multiplicador da despesa

Admitamos, por hipótese, que existe um multiplicador  m superior a 1 decorrente da despesa pública. Isto implica, a ser verdade a hipótese, de que uma variação de 1 Euro na componente da despesa pública (consumo, transferências sociais ou investimento público) tem um efeito de m Euros no PIB. Ou seja, de que a redução de 1 Euro na despesa tem um efeito superior a 1 Euro (de –m) na variação do PIB. A tese do LA-C é um corolário disto: a ausência dos cortes, a não austeridade, não gerou esse efeito negativo.

Admitamos também — e a literatura é consentânea nesta hipótese — de que esse multiplicador é amplificado em períodos recessivos do ciclo económico. A justificação é simples: contração da economia, potencial restrição do crédito, aumenta a poupança enquanto o consumo cai, diminui o lucro das empresas, a velocidade da moeda diminui e, inevitavelmente, o rendimento disponível diminui, de forma bem mais acelerada do que os modelos Keynesianos e neo-Keynesianos de preços e salários rígidos prevêem. Um Euro cortado pelo Estado é menos um Euro no rendimento das famílias, especialmente em famílias com restrições de liquidez, cujo efeito no consumo é direto. A ausência desse Euro impossibilita uma série de transações que, naturalmente, contribuem positivamente para o PIB.

De onde vem esse Euro?

Nos livros de macroeconomia, dá-se o exemplo do Euro que encontramos na rua e que usamos para consumir. O exemplo didático omite, contudo, que esse Euro agora consumido por mim, foi menos um Euro consumido por um terceiro.

O problema com a framework Keynesiana é que, limitada a um horizonte temporal finito, ignora a origem desse Euro. O Euro que o Estado cortou era, antes de mais, um Euro que saiu do sector produtivo da economia e que, por si mesmo, iria possibilitar a sequência de consumo ou investimento que contribui positivamente para o PIB. Um potencial crowding-out do setor privado. Ou seja, para que o Estado disponha desse Euro, alguém teve de abdicar. E mesmo que esse Euro fosse poupado, o investimento seria beneficiado através do canal das taxas de juro (no caso de um país numa união monetária, dos spreads cobrados pelos bancos).

Ou, em alternativa, o Euro veio de um empréstimo do exterior. Dívida pública externa. Nesse caso, o efeito no curto prazo é obviamente positivo pois os custos são deferidos para o futuro. Mas trazendo para valor presente, o impacto depende de outros factores.

Qual o sinal do multiplicador?

Existem demasiados estudos empíricos na literatura que tentam obter o valor do multiplicador para o país e para a fase do ciclo económico. Não existe qualquer consenso. No entanto, uma análise apriorística permite verificar — e alguns estudos vão nesse sentido — que esse multiplicador pode ser negativo. Dependerá, em última análise, na qualidade do investimento efetuado (do seu ROI) ou a quem esse Euro é entregue.

O multiplicador é um proxy

O multiplicador é, no longo-prazo, um proxy. No caso de investimento, um proxy para o retorno do investimento (ROI). No caso do consumo, para a velocidade da moeda gerada por esse Euro adicional. Se o investimento efetuado tiver um VAL positivo e criar riqueza, então o multiplicador desse Euro é provavelmente superior a 1. Caso contrário, será muito provavelmente inferior a 1 ou mesmo negativo.

No caso do consumo e transferências sociais, o caso complica-se. Embora um Euro a mais em famílias com restrições de liquidez aumente necessariamente o consumo, é menos um Euro do sector produtivo ou na poupança das famílias. Se o consumo aumenta, pode diminuir o investimento. E o emprego é uma função positiva do investimento.

O TC não resolveu nada

O problema, em última análise, é que o multiplicador até pode ser positivo no curto-prazo. No entanto, quanto mais tempo se adiarem as reformas e os cortes, mais financiamento do exterior será necessário e mais encargos futuros surgirão. Isto é, existe um trade-off nesse multiplicador: quanto mais tarde for feita a consolidação fiscal via redução da despesa, maiores os encargos financeiros futuros.

Assim, parece-me que este é um caso claro de ineficiência dinâmica: o corte na despesa terá um efeito negativo no curto-prazo, mas um efeito positivo no longo-prazo que excede o negativo imediato, fruto do crowding-in e do reforço do setor produtivo da economia. E, embora o efeito do multiplicador seja mais pronunciado em fases de recessão, dado o efeito cumulativo dos encargos com o serviço de dívida, quanto mais se adiar a consolidação, pior será.

O TC só veio aliviar o curto-prazo, hipotecando — ainda mais — o longo-prazo. O relaxamento dos cortes aumentarão o défice o que, por sua vez, fará aumentar os encargos com a dívida pública.

Por fim, deixo este muito recente working paper da FEP com um estudo econométrico que aponta para a seguinte conclusão, que sustenta estudos como o do Alesina and Ardagna (2009):  “Moreover, cuts in spending  appear to be the most adequate instrument for achieving a fiscal consolidation with substantially smaller impacts on output. In particular, reducing transfers and intermediate consumption has stronger impacts on output during consolidations, while reducing public investment or wages has lower impacts on output during consolidation processes. Reducing public wages exhibits even stronger non-Keynesian effects during consolidation periods.”

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30 pensamentos sobre “Sobre o multiplicador da despesa

  1. Carlos

    Há ainda um outro exemplo muito mais evidente:

    Se eu trabalhar para obter um euro e depois destruir o euro, será isso mau para a economia?

    Reparem que eu produzi e inseri valor na sociedade para obter o euro, mas eu nunca consumi, ou seja, retirei valor da sociedade. Sendo assim, com esse simples episódio, a sociedade beneficiou. Agora usem a lógica do multiplicador maior que 1 para explicar o exemplo dado anteriormente.

    Aquela imagem em que o banqueiro acende uma nota para fumar um charuto é, na realidade, bom para a sociedade.

  2. k.

    Eu já nem vou ao facto de ser observável a recessão induzida por austeridade em Portugal e noutros paises.

    Vamos a outros estudos:
    http://www.imf.org/external/pubs/ft/wp/2012/wp12286.pdf

    http://www.nber.org/papers/w18779

    http://www.bportugal.pt/en-US/BdP%20Publications%20Research/wp201311.pdf

    Divirta-se. Em regra dizem uma coisa muito interessante (e logica): Os multiplicadores funcionam de forma diferente em alturas diferentes (isto é, assumem valores diferentes consoante o ciclo). E esta altura foi a pior de sempre para se cortar na despesa do estado

    PS: Os amigos Alesina and Ardagna precederam os amigos Reinhart e Rogoff na análise.. e nos erros. Devo procurar os papers do IMF que demonstram isso?

  3. k., eu conheço esses papers, já os li vezes sem conta. Por cada um que me der a referir que o multiplicador é maior do que um, arranjo-lhe outro a dizer que é inferior. Olhe estes:

    http://www.nber.org/papers/w18769

    http://www.imf.org/external/pubs/cat/longres.aspx?sk=23340.0

    O objectivo não é perceber se ele é maior do que um ou não. No curto-prazo, muito provavelmente, é. A questão é o efeito em todo o horizonte.

    Quanto à fase do ciclo, se tivesse lido o artigo, perceberia que eu admito isso — que é natural que o efeito seja amplificado em fases de recessão, como esta. O problema, e também refiro isso, é que adiar esse ajuste que será penoso no curto prazo é acrescer ainda mais encargos futuros. Ou seja, adiar reformas reduziria o efeito negativo do multiplicador, mas prejudicaria o futuro ainda mais.

  4. Miguel Noronha

    Resta ainda a questão que já falamos várias vezes e que Eurico Brilhante Dias parece ter descoberto hoje. O financiamento dos défices não é um dado adquirido nem depende de nós.

  5. Fil

    Mas Miguel, quando diz e com toda a razão que “O financiamento dos défices não é um dado adquirido nem depende de nós”, não é também racional pensar que na prática, estamos inseridos numa União Europeia que tem mecanismos precisamente para salvaguardar os seus Estados membros (e para os quais todos contribuem)? Ou se quiser ir ao extremo, não nos conta a história que esses mecanismos de ajuda (em condições mais vantajosas que as actuais) beneficiaram uma Alemanha depois de esta ter sido responsável “só assim de repente” por duas guerras trans-europeias?

    Isto é, não defendendo que um Estado possa usar estas salvaguardas como desculpa para cometer as loucuras que foram cometidas em Portugal (bem mais inofensivas que as cometidas pelo actual nação líder europeia, bem entendido), não será o financiamento dos défices um dado bem mais adquirido do que afirma?

  6. Miguel Noronha

    “que tem mecanismos ”
    Não, não tem. Não foram previstos e agora não existe consenso que para os implementar.

    O problema, como refere no último parágrafo, é que a existencia desses seriam em última análise contraproducentes.

  7. Fil, nos estatutos do BCE está uma cláusula de “no bailout”. Portanto, os estatutos dizem precisamente o contrário do que indicou — não existe salvaguarda.

    Quanto à evocação constante do III Reich e de Hitler, já começa a tornar-se doentio…

  8. Fil

    Miguel, não vou teimar se tem ou não mecanismos, mas existem coisas como fundo de estabilidade europeu e Banco Central Europeu que são por si provas da existência dos mesmos. De qualquer modo, em sentido prático parecem existir (vidé exemplo Alemanha). Mas a pergunta do último parágrafo mantém-se.

  9. Miguel Noronha

    O papel do BCE não é financiar défices. Contrariamente ao que possa parecer. Está nos seus estatutos. Foi criado um mecanismo ad-hoc para acorrer à actual crise mas com duração e âmbito limitado. O fundo de estabilidade europeu ainda não se sabe se funcionará e só será aplicado para resgates a países (e não tem capacidade para financiar, por exemplo, um país como a Espanha). E não serve para financiar défices crónicos.

    Já respondi à questão. Não existe e pelo que se pode ver pela reacção dos putativos financiadores à crise actual não há grandes possibilidades de ser criado.

  10. silver

    Mário,existem algumas coisas que não entendo então,aceitando a sua perspectiva:,então porque é que o défice no ano passado,passou de 4,5 para 6,4? Porque razão as receitas não tiveram o desempenho inicialmentre projectado? Não pode ter corrido tudo bem assim

  11. “Nos livros de macroeconomia, dá-se o exemplo do Euro que encontramos na rua e que usamos para consumir. O exemplo didático omite, contudo, que esse Euro agora consumido por mim, foi menos um Euro consumido por um terceiro”.

    Schumpeter deu duas voltas ao túmulo.

  12. Rb

    «O objectivo não é perceber se ele é maior do que um ou não. No curto-prazo, muito provavelmente, é. A questão é o efeito em todo o horizonte.» Mario
    .
    Mario, faltou-lhe referir uma parte importante do keynesianismo que desconstroi a sua narrativa subsequente.

    Refiro-me ao facto de Keynes defender a retirada de estimulos mal a economia comece a crescer e reverter todo o custo associado ao incremente de despesa anterior.
    .
    Na verdade, nem ele recomendava estimulos em caso de endividamento excessivo, nem recomendava estimulos ad-eternum.
    .
    Ciclos. Em recessão alargar os estimulos. Em crescimento apertar. O efeito a medio prazo (horizente) é nulo sobre o orçamento e sobre a divida. Estou mesmo convencido de que o efeito é positivo já que não é procedimento destrutivo da economia, do emprego e crescimento, ao contrário do Austerianismo.
    .
    Rb

  13. Rb, isso é irrelevante. Se um Estado fizer um investimento que tenha fluxos anuais negativos, vai ter de assumir esses custos quer o país cresça, quer não. Ou então vende as auto-estradas ao metro quadrado, em placas de asfalto. Como disse e repito, o relevante é o ROI desses projectos. Não é, repito, não é neutro no longo-prazo.

  14. Rb

    Mario,

    Para efeitos da sua análise é relevantíssimo.
    .
    Vc assume que a ROI dos prjectos vai ser negativa. Isso é uma presunção sua, provavelmente certa, baseada nos casos de corrupção e ppp’s que conhece.
    .
    Mas os estimulos não tem de ser necessáriamente em obras ou investimento. Podem ser em abaixamento de taxas de impostos, podem compreender um simples mantimento do Rendimento disponivel das familias.
    .
    Não interessa muito para o caso. O que Keynes pretendia era manter a procura estavel no caso de recessões que não fossem consequencia de atraso tecnológico e para isso mantinha-a artificialemnte com custos no presente para debelar a crise, e fazer o contrário em tempos de crescimento.
    .
    Rb

  15. Miguel Noronha

    “Refiro-me ao facto de Keynes defender a retirada de estimulos mal a economia comece a crescer e reverter todo o custo associado ao incremente de despesa anterior.”
    Nem os próprios keynesianos são fieis a Keynes.

  16. Miguel Noronha

    “Vc assume que a ROI dos prjectos vai ser negativa. Isso é uma presunção sua, provavelmente certa, baseada nos casos de corrupção e ppp’s que conhece”
    Não precisa de haver corrupção nem PPP para existirem ROI negativos. Quer alguns exemplos?

  17. Rb

    A questão principal é simples de ver. Uma redução da despesa pública efectuada de forma pouco inteligente não reduz a Divida Pública.
    .
    Pelo contrário, aumenta-a. A presunção de que se trata de efeitos colaterais de curto prazo está por provar.
    .
    Portugal já vai no quatro ano consecutivo de Austeridade (2010 – 2013). Dupla austeridade. Por via das receitas e por via das despesas. A Divida Pública não parou de subir. Pior do que isso. A Posição de Investimento Internacional (PII) que mede a diferença entre as responsabilidades e disponibilidades sobre o exterior do país como um todo está agravar-se a cada trimestre que passa.
    .
    Parece não estar a resultar a politica seguida. O próprio FMI diz isso hoje. Que se deve moderar a velocidade de consolidação.
    .
    Mas já vai tarde e não me parece que a Alemanha admita o falhanço e facilite a mudança. Além de ser tratar de uma birra, na verdade já ganharam 42 mil milhoes de euros que não contavam em juros com esta crise.
    .
    A culpa não é dos alemães, entenda-se. Eles fazem aquilo que lhes compete fazer. Eu eu fosse alemão votava na Merkel.
    .
    Nós é que não fazemos o mesmo.
    .
    Rb

  18. Consolidação? Qual consolidação Rb? A única coisa que foi feita foi aumentar impostos. Onde estão cortes verdadeiramente estruturais? Tudo o que foi feito — cortes nos salários e nos subsídios — é reversível e não é estrutural.

    Posto isto, se adiasse esses cortes (como, aliás, está a ser feito) como propõe pagá-los? Porque os 4.5% de défice este ano serão financiados com dívida pública. Ou vai haver um milagre económico Keynesiano em que os défices vão salvar o mundo e Portugal e tal?

  19. silver

    Mário,não é verdade que tenhamos só aumentado impostos.Também baixámos 10.000 euros na despesa.E esses cortes baixam o poder adqusitivos das pessoas.Que por sua vez,terá efeitos a nivel de receitas.

  20. silver

    O certo é que: no ano passado, estava establecida uma meta inicial de 4,5,que ficou muito longe de ser atingida.Mesmo ,se excluirmos o efeito das despesas extraordinárias,o resultado (5,8)continuar a situar-se a uma grande distancia da meta original,E este ano,não obstante o aumento da carga fiscal, o resultado vai dando sinais de que mais uma vez,irá haver incumprimento.Dir-me-á,com razão,que o proposto pelas oposições seria pior.Mas o plano do governo também não mostra sinais de qualidade superior.Quando não se atinge determinados objetivos,haverá certamente uma razão para tal ter acontecido.E neste caso,algo correu mau.O ajustamento pode e deve ser feito, mas a sua eficácia é gerida através do tempo em que é feito,e pela dose.

  21. Carlos Pacheco

    “A culpa não é dos alemães, entenda-se. Eles fazem aquilo que lhes compete fazer. Eu eu fosse alemão votava na Merkel.
    .
    Nós é que não fazemos o mesmo.”

    Está enganado, Rb, Os liberais de cá também se empenham muito em defender os interesses… alemães.

  22. “era, antes de mais, um Euro que saiu do sector produtivo da economia e que, por si mesmo, iria possibilitar a sequência de consumo ou investimento que contribui positivamente para o PIB”.

    A sua análise é simplória e errada. O que é que faz o BCE quando compra divida Portuguesa?

    De qualquer modo, a questão do funcionamento do multiplicador em regiões/paises sem moeda é interessante, bem como as diferenças entre o multiplicador da despesa e do rendimento. Sobre este último aspecto, e no que concerne o multiplicador da procura externa, recomendo-lhe este artigo de dois professores meus: http://ideas.repec.org/a/bla/ausecp/v18y1979i32p173-80.html

  23. Carlos

    Carlos Pacheco, diga-me um liberal que esteja na política portuguesa, se faz favor. Quais liberais? Não há liberais ligados à política em Portugal.

  24. Lucklucky

    Mais uma vez demasiada política quando se fala de economia.

    O LA-C provou que o resultado economico se deveu a algum facto político? Não.
    O “crescimento” é bem medido? Não.

    Por exemplo quanto mais se gasta em segurança do que há 40 anos? é isso “crescimento” económico? mais crime mais crescimento económico?

    É tudo polítização como a “ciência” do aquecimento global que foi mais um movimento para aumentar a politização e o poder do complexo político-jornalista às custas dos criadores de riqueza.

    A polítização é obviamente um movimento para extorquir dinheiro, poder.

  25. Pingback: Mário Amorim Lopes sobre a Evolução da Dívida Americana | Ricardo Campelo de Magalhães

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