Não temos é dinheiro para lhes pagar

Quem trabalhe intensamente na avaliação de empresas, sabe bem que a melhor forma de medir a saúde de uma empresa, sobretudo num quadro de dificuldades, o teste supremo, é o do cash flow, da capacidade de gerar dinheiro para cobrir despesas e ainda acumular recursos no chamado “caixa”. Balanços, demonstrações de resultados, valorizações de activos e passivos, estatísticas, podem ser úteis, mas não deixam de ser meros registos, recheados de subjectividades. A verdade está no dinheirinho, o resto é literatura.

Não sei porquê, lembrei-me disto, enquanto lia a excelente prosa do Daniel Oliveira, onde exaustivamente nos demonstra, pelo arremesso estatístico, que não temos funcionários públicos a mais.

Dada a forma como funciona a contabilidade pública, o défice representa, em medida aproximada, a insuficiência de cash do Estado – leia-se, dinheirinho – para cobrir as suas despesas. Para financiar os défices – leia-se, para arranjar dinheirinho para pagar as contas – os Estados recorrem a empréstimos, subscritos junto da poupança nacional (como acontece, por exemplo, na India) e/ou no exterior (que é o caso de Portugal).

Empréstimos implicam juros. Por isso, quando nos endividamos para pagar salários e prestações sociais, estamos a empobrecer, porque este tipo de despesa não vai criar riqueza suficiente para reembolsar no futuro o empréstimo mais os respectivos juros.

Para resolver este problema crónico, de endividamento para cobertura de despesa corrente, num país que já não pode mexer na sua moeda, desvalorizando salários e a riqueza nacional, só sobram dois caminhos, os quais se podem complementar: aumentar receitas ou diminuir despesa. As receitas aumentam, ou subindo impostos, ou fazendo crescer a receita fiscal, por via do crescimento económico. Sendo pacífico que em Portugal não há condições para subir mais impostos, na parte que não for coberta pelo crescimento económico, cabe ao Estado monitorar a sua despesa, só gastando a riqueza que consegue captar aos cidadãos.

Se os salários representam, juntamente com juros, duas das maiores componentes da nossa despesa, é nestas duas realidades que os governos têm de se focar. Os juros em Portugal só irão baixar se formos capazes de equilibrar as contas do Estado. Serão uma consequência de uma boa Reforma do Estado. Pelo que é impossível não mexer nos salários, e nas outras grandes rubricas da despesa.

Podemos não ter funcionários públicos a mais, não há é dinheiro para lhes pagar.

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50 pensamentos sobre “Não temos é dinheiro para lhes pagar

  1. migspalexpl

    Rodrigo, tal como o Daniel Oliveira, tens a tua razão. Mas uma coisa emerge dos 2 argumentos: que a percentagem do PIB português detida pelo estado português é inferior à percentagem do PIB dinamarquês detido pelo estado dinamarquês. Correcto?

  2. jhb

    “A verdade está no dinheirinho, o resto é literatura.”

    Nao seja filisteu. Se a verdade não está na literatura está onde, então?

  3. Miguel Alves

    Graças ao Daniel Oliveira fiquei a saber que a minha empresa não me pode despedir visto que tem em média menos funcionários que empresas do mesmo género na Europa.
    Obrigado Daniel Oliveira, hoje até vou sair mais cedo para beber um fino e comer uns tremoços que está calor, se o meu patrão me quiser despedir porque não estou a produzir o suficiente argumento-lhe logo que o problema não é meu, mas sim da empresa.. tem funcionários a menos. Que coma e cale… eu cá tenho um acordo com ele de principio de confiança que não pode ser quebrado.

  4. Pedro Pais

    Creio que estamos aqui a gerar uma discussão ilógica ao misturar dois níveis separados de análise. O nível 1 é o que o Rodrigo nos apresenta. Não há dinheiro, ponto final. Consequentemente é necessário reduzir despesa. Creio que é essencial neste argumento, entender se o Daniel Oliveira (utilizando-o apenas como exemplo) partilha deste primeiro nível. A visão essencial de que não há dinheiro e há que reduzir despesa. Não estou inteiramente seguro disso. Por exemplo parece-me claro que a posição pública do António José Seguro é contrária a esta visão.

    Se pelo menos concordássemos neste primeiro nível então aí poderíamos passar à discussão bem mais difícil de onde devemos reduzir e como, discussão essa que se tornará uma batalha ingrata sem o nível anterior discutido

  5. Caro migspalexpl, a percentagem do PIB não é em si auto-explicativa. Acresce que mesmo nesses países nórdicos a reforma do estado já arrancou, em alguns deles, há mais de dez anos.

    Em qualquer caso, a eficiência de uma sociedade e a sua cultura são fundamentais quando se fazem opções políticas. Por exemplo, aquilo que o Estado devolve à sociedade nesses países é exponencialmente maior. A despesa traduz-se numa maior produção de serviços públicos que são bem aproveitados pela sociedade. Infelizmente, em Portugal, a parte daquilo que gastamos que é devolvido à sociedade é bastante inferior, o que faz com que, além de impostos, os cidadãos tenham de gastar do seu bolso para cobrir certas necessidades. Some-se a ineficiência e a duplicação de gastos que os cidadãos têm de incorrer nos transportes, saúde, educação e gestão da burocracia e encontras parte da explicação para a diferença de eficiência de ambas as sociedades.

  6. Rodrigo onde queria chegar era aqui: na Noruega os lucros da Statoil são públicos servem para pagar o estado social, em Portugal os lucros da Galp vão para a Isabel dos Santos.

  7. Nuno

    “It is no crime to be ignorant of economics, which is, after all, a specialized discipline and one that most people consider to be a ‘dismal science.’ But it is totally irresponsible to have a loud and vociferous opinion on economic subjects while remaining in this state of ignorance.”

    Murray Rothbard

  8. Miguel Noronha

    Eatá a confundir as receitas de uma empresa que é monopolista na extração de um país produtor de petróleo e de outra que para além de algumas concessões tem como principal actividade a refinação e distribuição.

  9. Miguel Noronha, da wikipedia: “Actualmente está entre as maiores empresas de Portugal, controlando cerca de 50% do comércio de combustíveis neste país e a totalidade da capacidade refinadora de Portugal.

    Controla a totalidade da capacidade refinadora de Portugal. Não é um monopólio?

  10. Miguel Noronha

    Deixe ver se lhe consigo explicar de outro modo.
    Os lucros da Statoil em 2012 foram qualquer coisa na ordem dos 9 mil milhões de euros. Os da Galp Energia foram 350 milhões. Com os aumentos de capital necessário presumo que não tenha sobrado nada aos accionistas em termos liquidos

  11. Miguel, referi a Galp como um exemplo. O que conta é a atitude prática perante sectores económicos monopolistas ou onde a competição é muito longe de ser perfeita.

  12. Joaquim Amado Lopes

    O Daniel Oliveira começa por dizer que “se bem torturados os números confessam sempre o que deles quisermos tirar” para depois fazer ainda pior: “tortura” os números para pretender que dizem o que não dizem.

    Dizer que não temos funcionários públicos a mais porque temos menos do que tinhamos há cinco ou seis anos ou porque, em percentagem do PIB, gastamos menos com eles do que os outros países europeus é uma falácia.
    Temos funcionários públicos a mais se parte deles não fizer nada, fizer trabalho desnecessário (p.e. duplicação de serviços, multiplicação de “observatórios” e “grupos de trabalho”) ou que não é suposto o Estado fazer ou se o Estado não tiver dinheiro para pagar aos que tem.

  13. Carlos

    Tanta misturada. Primeiro de tudo, migspalexpl, Portugal gasta uma boa percentagem do PIB em juros. Em segundo lugar, está a sugerir uma nacionalização da Galp?.. Espero que não. Depois, o facto de ter o monopólio não significa nada, muito menos que esteja a oferecer um mau serviço. Os monopólios só são prejudiciais quando o estado mete o bedelho e ‘protege’ determinada empresa da concorrência.

    Mas eu queria dar-lhe um exemplo. Suponha que tem duas famílias, uma que ganha 1000€ para o lar e outra que ganhar 10000€ por mês. A de 10000€ gasta cerca de 2000€ por mês em viagens, festas, comer fora, carros, etc. Será que isso quer dizer que a família pobre tem de gastar 200€ nessas excentricidades? Porque fazendo as contas, é na mesma 20%.

  14. Joaquim Amado Lopes, ser determinado por disposição legal seria o cúmulo da idiotice. Não interessa como um monopólio surge, a sua existência só tem sentido se for pública.

  15. Miguel Noronha

    “Miguel, referi a Galp como um exemplo”
    Exemplo de quê? Ainda pensei que estive a contar com receitas mirificas. Afinal nem isso o que torna tudo mais estranho.

    “O que conta é a atitude prática perante sectores económicos monopolistas ou onde a competição é muito longe de ser perfeita”
    E então? A experiência diz-nos que um monopólio estatal será ainda pior.

  16. Miguel Noronha

    Grande parte dos monopólios devem a sua existência ao benepláctito estatal. E a sua origem é tudo menos irrelavante.
    Nem sei se será pior um monopólio público se um privado. Recordando o que era, por exemplo o monopólio da AT&T nos EUA e o dos CTT em Portugal venha o diabo…

  17. Carlos, trocaste-te no teu exemplo. Assim está certo:

    “Mas eu queria dar-lhe um exemplo. Suponha que tem duas famílias, uma que ganha 1000€ para o lar e outra que ganhar 10000€ por mês. A de 10000€ gasta cerca de 2000€ por mês em alimentação e necessidades básicas. Será que isso quer dizer que a família pobre tem de gastar 200€ nessas mesmas coisas? Porque fazendo as contas, é na mesma 20%.

    Sobre a Galp, “o facto de ter o monopólio não significa nada, muito menos que esteja a oferecer um mau serviço. Os monopólios só são prejudiciais quando o estado mete o bedelho e ‘protege’ determinada empresa da concorrência.”

    Um monopólio não está sujeito à pressão competitiva e evolutiva de um sector idealmente competitivo. Qual a vantagem de ser detido pelo sector privado? Sem pressão competitiva, como garantir que uma gestão privada é mais eficiente que uma pública?

  18. Miguel Noronha: “E então? A experiência diz-nos que um monopólio estatal será ainda pior.”

    E que experiência é essa? E não fales em ditaduras ou tumores corruptos tipo Angola. E a experiência nórdica que mostra que monopólios estatais podem ser bem sucedidos?

  19. Nuno

    A GALP, tal como a EDP, resultou da aglomeração de várias empresas nacionalizadas no pós-25 Abril. Vem daí, e não do mercado, a eventual falta de competição.

  20. Fincapé

    Adoro ver os “liberais” confundirem o Estado com uma empresa.
    Ajuda-me a compreender a sua falta de racionalismo na abordagem dos assuntos e a razão porque não sabem gerir o Estado e porque nunca aprenderão. 😉

  21. silver

    Fincapé: Não se trata de pensar o estado como uma empresa.Trata-se de que temos um défice e ele tem que ser reduzido? Porque é que tivemos de chamar o fmio em 2011?

  22. Caro fincapé,

    O Estado não é uma empresa, os seus fins são obviamente distintos, mas há aspectos que são idênticos. Por vezes eu utilizo os paralelos com as empresas porque ajudam a perceber onde está o problema. Mitificar o Estado conduz a que por vezes tenhamos dificuldade em centrar os problemas, e em perceber onde estão as falácias.

    Assim, défice significa falta de dinheirinho. Significa que o Estado tem menos receitas que despesas. Significa que para assegurar o seu funcionamento, ou cobra impostos, ou pede empréstimos, ou reduz os custos. Cobrir despesa corrente com dívida provoca um empobrecimento, que se calcula com base no capital que pedimos emprestado, mais juros. Assim, se temos hoje um défice de 5% do PIB, mais juros, significa que ficamos mais pobres, no futuro, nessa medida.

    Tudo o resto são conjecturas, e justificações políticas.

  23. FilipeBS

    “Ajuda-me a compreender a sua falta de racionalismo na abordagem dos assuntos e a razão porque não sabem gerir o Estado e porque nunca aprenderão.”

    Realmente essa confusão existe por vezes entre liberais. A função da empresa é produzir valor e dar lucro. Ao produzir valor, a empresa cumpre também uma função social, pois parte desse valor é redistribuido entre colaboradores como pagamento pelo trabalho.

    A função do Estado não é dar lucro nem sequer necessariamente criar valor. O Estado tem a função de garantir a paz e a segurança, a justiça, e eventualmente assegurar as condições para a livre iniciativa, a propriedade privada etc. Na actualidade, o Estado também assumiu para si as funções de investir em certas infra-estruturas, ensino, saúde que, enfim, uma pessoa razoável pode concordar que ajudam a criar condições para uma sociedade mais competitiva e com maior igualdade de oportunidades. No entanto, caro Fincapé, isso não pode ser justificação para o Estado gastar mais do que aquilo que tem. Porque a factura, eventualmente, acabar sempre por chegar ao contribuinte, esmagando-o.

    Portanto, o dinheirinho de facto é importante, como diz o Rodrigo Adão. E chegamos ao ponto em que pedir mais e mais dinheiro emprestado é financeiramente insustentável (a história de andarmos a trabalhar para os juros, o hipotecar as próximas gerações, etc.), e os impostos estão hoje ao nível da extorsão…

  24. Carlos

    migspalexpl, sem o bedelho do estado, se uma empresa aumenta o preço ou dá um mau serviço, isso é um sinal para que novos investidores entrem no sector. Para uma boa explicação desse assunto, recomendo a leitura do livro ‘basic economics’ de Thomas Sowell. Só não está sujeito a competitividade se o estado o não permitir.

    Como num casal de namorados, dizer que eles estão em monopólio é errado, pois estão sob pressão competitiva. O casamento, por outro lado, é um monopólio, pois é um monopólio assegurado por lei (contrato). E claro, com o casamento vêm todas as ineficiências que toda a gente conhece, pois é um típico monopólio.

  25. jo

    Se o que é importante é o cash flow então Sócrates tinha razão. Ele tinha dinheiro em caixa, proveniente de empréstimos, e gastou-o.
    Essa ideia de que a contabilidade são só uns números criativos revela um conhecimento profundo do que é gerir o que quer que seja.

  26. Entende-se hoje que reduzir a despesa do Estado assenta quase em exclusivo no despedimento de funcionários públicos… Pim, pam, pum! Solução “milagrosa”. Todavia, o Estado continua a fazer tudo como dantes: a mesma burocracia maluca, redundâncias, formalidades parvas… E ao mesmo tempo que pretende despedir, contrata: seguranças, serviços de todo o tipo, saúde, educação… Etc. Resultado: a “despesa” tem sempre tendência para descer, para cima!!…
    E se alguém começasse a “mexer” de facto no monstrinho? A olhar os processos, a torná-los mensuráveis, auditáveis, racionais, menos onerosos… E se os “despedimentos” dos funcionários não acontecesse “porque sim”, mas antes como “consequência” do refinamento da qualidade e produtividade dos serviços? Parece que o que falta mesmo é criatividade, vontade, visão de longo prazo para uma actuação imediata, conforme, e livre de preconceitos ideológicos… Exemplo: não podes despedir a “contínua” da escola – porque o TC não deixa… – e vais contratar um “Securitas” ao mesmo tempo?!… [Solução actual: manter a “contínua” e contratar o “Securitas”… Outras soluções: por a senhora a servir de vigilante… Outra: despedir a senhora, não contratar o vigilante, e colocar um dispositivo de controlo electrónico…].

  27. FilipeBS

    “E claro, com o casamento vêm todas as ineficiências que toda a gente conhece, pois é um típico monopólio.”

    Hummm, nunca tinha pensado neste conceito aplicado ao casamento. Interessante reflexão!

  28. Joaquim Amado Lopes

    migspalexpl,
    “(um monopólio) ser determinado por disposição legal seria o cúmulo da idiotice. Não interessa como um monopólio surge, a sua existência só tem sentido se for pública.”
    Errado. Assumindo que os monopólios não são determinados por imposição legal, um monopólio (excepto p.e. em questões como defesa nacional, relações internacionais, produção legislativa e justiça) só faz sentido se fôr privado, não público.

    Se o monopólio fôr público, não há motivação para melhorar o serviço nem aumentar a produtividade. O Estado tentará sempre manter o monopólio, impedindo por via administrativa a entrada de outras empresas e mantendo artificialmente os preços baixos por via de apoios públicos. A ineficiência será paga não pelos consumidores mas pelos contribuintes.
    Mas, se o monopólio fôr privado (ditado pelo mercado), a empresa monopolista tem todo o interesse em manter a qualidade alta e os preços acessíveis, de forma a que não se justifique a entrada de outras empresas.

    No fundo, o monopólio não é desejável e por isso nunca deve ser público de forma a que o mercado dite se se deve manter ou não. A única coisa que o Estado deve fazer é não se meter (não apoiar empresas monopolistas nem desincentivar ou incentivar a entrada de novas empresas) e deixar o mercado funcionar.

  29. Carlos, o que dizes é correcto em cenários ideais de perfeita competição. Na prática existem inúmeros factores que dificultem/impossibilitem a competição.

  30. Miguel Noronha

    “E que experiência é essa? E não fales em ditaduras ou tumores corruptos tipo Angola. E a experiência nórdica que mostra que monopólios estatais podem ser bem sucedidos?”
    Uma proposta de “cherry picking” portanto. Mas a experiência nordica não é assim tão boa. Já muito do tal modelo nórdico foi desmantelado precisamente porque funcionava mal. A experiência britânica também é paradigmatica.

  31. Carlos Duarte

    Caro RAF,

    O que diz é perigoso e aberto a tiradas populistas.

    Se diz que as duas grandes rubricas são juros e funcionários públicos – de certa maneira tornando-as equivalentes – a solução justa seria reduzir as duas… como? Não há dinheiro, despede-se uns gajos e não se paga uns juros. Equitativamente.

    É preciso evitar comparar o que não é comparável. E rubricas de despesas são o são no Excel.

  32. Caro JO,

    Eu afirmo, com clareza, “capacidade de gerar dinheiro para cobrir despesas e ainda acumular recursos no chamado “caixa””; ou seja, capacidade de gerar dinheiro, não pedir dinheiro emprestado. “In-flows” resultantes da actividade operacional.

  33. Caro Carlos Duarte,

    “Não há dinheiro, despede-se uns gajos e não se paga uns juros. Equitativamente”.

    Esta seria uma boa solução, se Portugal estivesse num panorama de défice 0, ou então, de superavit. Podia pura e simplesmente dispensar os credores, aqueles que não podem promover represálias, e dizer, “não pago”.

    Infelizmente, estamos bem longe de dispensar credores, porque ninguém quer dexicar de ter défice. Além disso, s credores são sobretudo BCE e FMI, pelo que, nesta altura, é um bocado difícil dizer, “não pago”. É preferível ir pela via da melhoria das condições estruturais, baixar o risco de incumprimento da nossa economia, e esperar que, em consequência da melhoria da percepção do nosso risco país, baixe o custo do dinheiro para Portugal.

  34. Carlos Duarte

    Caro RAF,

    Eu não discordo de si, apenas da maneira com o argumento é apresentado. Mesmo na questão do “défice zero”, eu tinha ideia que as contas, excluindo juros, já estavam equilibradas.

    Em termos de futuro, eu sou francamente apologista da não existência de dívida pública a médio e longo prazo. A dívida pública corrente deveria ter, como data reembolso, 6 meses ou menos antes do final da legislatura. Outras dívidas, de maior prazo, deveriam carecer de aprovação parlamentar por maioria de 2/3.

    Como se costuma dizer, quem não tem dinheiro não tem vícios.

  35. Fincapé

    Caros
    Silver,
    Rodrigo Adão da Fonseca,
    FilipeBS
    Não defendo o despesismo do Estado, dos indivíduos e famílias ou das empresas (não esquecer que também pagamos estes despesismos).
    E entendo muito bem o básico “deve” e “haver” que permitiu ao longo dos tempos que tanta gente sobrevivesse às propostas consumistas que nos iam enfiando pelos olhos dentro.
    Provavelmente, a grande maioria dos nossos governantes tiveram (têm) responsabilidades em setores privados, o que não abona nada em favor deles nem desses setores.
    Ora, eu gostaria que fossem exigidas responsabilidades a todos os que não cumpriram as regras da contratação na FP que existem há muitos anos e que limitava a contratação de um trabalhador a determinado número de saídas (se bem me lembro, o número inicial era duas saídas). Não é que eu pense que há funcionários a mais. Suponho que não há. O que vai acontecer é haver contratação de empresas privadas para prestarem o mesmo serviço ao Estado, ficando este com as mesmas despesas, mas mais gente contente. E gente que é conveniente estar contente.
    Mas uma das razões que me levou a fazer o comentário foi a seguinte: uma empresa com cem trabalhadores, se numa determinada conjuntura constatar que tem dez em excesso pouco poderá fazer: Em empresas maiores, como algumas multinacionais, por vezes, em casos de necessidade de redução de pessoal, oferecem trabalho noutras empresas do grupo, aos excedentários. Muitas vezes até no estrangeiro.
    O Estado não só deveria ser detentor desta lógica, como a deveria estimular como exemplo social. Sabemos que há muitos empresários que agem com correção. Esses, com dificuldade despediriam alguém se vissem que poderiam mudar as funções ou o posto de trabalho. A exigência de despedimentos no Estado sem qualquer estudo é um disparate que vai forçosamente ficar mais caro aos portugueses.
    Estou convencido que qualquer trabalhador que exerça funções no setor privado e seja vítima do não cumprimento do contrato terá uma compreensão legítima por parte daqueles que, por outro lado, apelam a um Estado incumpridor.

  36. silver

    Caro Fincapé,no privado,por vezes é necessário readequar a mão-de-obra ás possibilidades da empresa.In other words,os despedimentos são necessários,para evitar que a empresa entre em ruptura.As empresas e o estado,só podem cumprir o que puderem,Mais uma vez,o factor financeiro é o decisivo.

  37. silver

    mas,não ignoro que uma grande parcela da nossa despesa é relacionada com os juros,excessivos.Também essa parte devia ser atacada

  38. Fincapé

    “…não ignoro que uma grande parcela da nossa despesa é relacionada com os juros,excessivos.”
    Ó caro silver, digamos que há um excesso de coisas excessivas a deslizarem no velho plano inclinado que uns tentam derrubar e outros tentam inclinar ainda mais. 🙂

  39. Joaquim Amado Lopes,

    “Mas, se o monopólio fôr privado (ditado pelo mercado), a empresa monopolista tem todo o interesse em manter a qualidade alta e os preços acessíveis, de forma a que não se justifique a entrada de outras empresas.”

    Sectores como a energia, água, estradas, transportes, são sectores que intrinsecamente tendem a favorecer o aparecimento de monopólios. Não estamos num universo onde, se uma empresa quisesse, poderia facilmente construir uma nova rede de caminhos de ferro, ou uma nova rede de distribuição energética. Não temos os recursos (espaço disponível) para o fazer. Pode ser difícil/impossível uma empresa conseguir furar um monopólio existente. Depende das situações. E um monopólio desse género não sofre pressão competitiva, seja público ou privado. E o que tu dizes pode não acontecer.

  40. silver

    Há,Fincapé-Mas para mal dos nossos pecados,o gasto com pessoal e salário ocupam a maior fatia da despesa.Esse será o cabo bojador de qualquer redução de despesa

  41. Fincapé

    A ver vamos. Mas com estes últimos grandes sucessos da economia creio que, em vez de cortes, o governo poderá até fazer aumentos. 🙂

  42. Fincapé

    Calma, silver. Não se aflija. Só estava a ser “crente” no governo. O sucesso das economias normalmente traduzem-se em aumentos. 😉

  43. Joaquim Amado Lopes

    migspalexpl,
    “Não estamos num universo onde, se uma empresa quisesse, poderia facilmente construir uma nova rede de caminhos de ferro, ou uma nova rede de distribuição energética.”
    O transporte ferroviário compete com o transporte aéreo, rodoviário e marítimo. A produção e distribuição de energia compete com a produção e distribuição de outros tipos de energia.

    Quanto ao “facilmente”, por que razão a construção de algo necessariamente de grande dimensão e que exige muito capital devia ser “fácil”?
    Os investimentos no transporte e produção/distribuição de energia em grande escala são estratégicos e cada vez mais globais, exigem um grande investimento inicial e são a muito longo prazo. Quanto mais o Estado pretender controlar um determinado mercado maior será a corrupção e a ineficiência, ambas pagas pelos consumidores e pelos contribuintes.

  44. Joaquim Amado Lopes, então concluo (por ex) que se fosses norueguês defenderias a privatização da Statoil.

    E não falo de “fácil” – falo de impossível: certas situações são impossíveis de acontecerem devido a limitações práticas. Um exemplo absurdo, é impossível criarem-se mais metros quadrados de autoestrada do que a área do planeta. Nesta situação limite onde toda o planeta é uma autoestrada, dominada por um monopólio, é impossível uma empresa furar esse monopólio. Epa não peguem nisto, isto é uma situação limite hipotética e obviamente irrealista. Mas tão irrealista como muitas assumpções de “perfeita competição”.

  45. Alberto

    Já alguém se perguntou qual a real causa de nao haver dinheiro e de o país estar em défice há tanto tempo?
    Pessoalmente, nao acredito nada na actual classe política para resolver a situaçao económica do país. E vejo a sociedade a discutir demasiadas ‘cortinas de fumo’ que habilmente vao sendo lançadas para o debate…
    Uma última coisa, já que Portugal gosta tanto de importar modelos estrangeiros, .ele é o sueco, o finlandês, o da BBC, o de Cambridge, olhem para o exemplo da Islândia. Percebe-se porque eles conseguiram sair da situaçao de bancarrota.

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