Passaram muitas horas desde a saída dos resultados das eleições autárquicas e já houve tempo para arrefecer os ânimos, se eles chegaram a aquecer em alguém. Mesmo correndo o risco de repetir o que já muitos disseram, vale a pena lançar a pergunta: Existirá alguém que ainda tenha o desplante de atirar foguetes num ambiente de cortar à faca? Algum candidato consegue afirmar que venceu, sem engolir em seco perante os louváveis níveis de abstenção, perante os votos em branco e perante os recados fabulosos que os eleitores mais criativos foram deixando nos boletins nulos? A resposta a estas perguntas é “sim”. O que não falta por aí é gente assim.
Os nossos partidos políticos continuam hábeis na arte de serem autistas face à realidade. O facto de os representantes poderem prosseguir as suas empreitadas em total desprezo pelos sinais óbvios que o eleitorado envia consegue ser mais preocupante e revoltante do que conhecer as fraquezas da democracia em si mesma. No meu caso particular, é mais arrepiante encarar que, apesar de uma massiva abstenção de 58%, o meu município (Torres Novas) continue com margem suficiente para prosseguir com o endividamento galopante que caracterizou o mandato anterior do mesmo PS, do que eu saber que a democracia dá a palavra a pessoas que me entregam o cartão de utente na mesa de voto ou que dizem na rua que “ganhou a CDU na Alemanha”, em tom de festejo como se isso tivesse alguma relação com o camarada Jerónimo. Enfim, são os casos caricatos e que nos fazem suspirar.
Claro que tanto os defeitos do eleitorado como os vícios e margem de abuso dos eleitos derivam das fraquezas da democracia em si mesma, mas a atitude de intocabilidade vitalícia que os partidos encenam como se fossem dotados de capacidade regenerativa ad eternum revela-nos todo um novo nível de estupidez. Politicamente, Portugal é um doente terminal a delirar e a pedir para ir dançar à chuva outra vez. Basta passar em vista as promessas que encheram as nossas ruas nas últimas semanas e que nos fizeram rir, já em meio de desespero e ao som de uma implícita marcha fúnebre. Os candidatos aos cargos locais, de mão estendida para Lisboa, parecem filhos do pai pobre a fazerem a lista de prendas de Natal às escondidas. Sonham com um dia que há-de vir… nesse dia poderão comprar tudo e não farão mais contas.
Depois de um dia de chuva muito pesado (que impediu que as alternativas patrióticas de esquerda superassem o PS no número de câmaras conquistadas) os portugueses foram carregados com os comentários excêntricos dos convidados televisivos do costume. Pelos vistos não são só os partidos políticos que insistem em ignorar os sinais que o eleitorado lhes deixa…mas cada um é que sabe das suas audiências. O encontro semanal com o carrasco que entregou o País à penúria terá sido apenas um pequeno aperitivo para que habituássemos o nosso fraco estômago à estreia da primeira temporada da série “Ignorando o Elefante na Sala”. Assim se explica que tantos nos queiram impingir interpretações engendradas para favorecer os míseros votos que colheram no Domingo. O PS branqueia o passado e ignora que é liderado por um trapo sem personalidade, sem ideias e sem mais dinheiro dos outros. O PSD fica-se pela indecisão das meias palavras porque não sabe se é hora de encher o peito de ar e dar um berro na sala ou se é melhor encolher-se e pedir perdão ao país irreformável. O PCP avança com toda a confiança e o BE perdeu porque foi vítima de uma cabala que será desmascarada dentro de momentos. O CDS foi um dos cinco vencedores porque ganhou 5 câmaras e teve uma espécie de colagem à vitória de Rui Moreira graças à subtil, e muito particular, capacidade de aderência do material à última da hora.
Não se pode dizer que os resultados desiludam profundamente. Só se desilude com os resultados eleitorais quem não percebe que o sistema vomita aquilo que lhe pedem. As pessoas sentem-se confortáveis com a liderança de um presidiário generoso, engrossam perdulários que estão “sempre ao lado das pessoas” (os adversários estarão do lado dos cavalos…não sei), apoiam os dinossauros alentejanos que não criaram nada de novo mas que ajudaram a combater os fascistas há 40 anos, e outros vibram com uma figura que se aproveita do vácuo e de ânsias regionalistas muito mal amanhadas. Onde é que está o espanto e a desilusão com o resultado?
Num contexto em que ainda não existem indícios de mudança no sentido da responsabilização financeira, autonomia fiscal e do exercício de competências sérias a nível local, a discussão de resultados autárquicos será sempre uma discussão inútil e altiva que visa minar o terreno de alternativas que ameacem a manutenção do centralismo reinante. A verdade crua é só uma: perderam todos e as vossas contabilizações, comparações exaustivas e interpretações duvidosas não interessam a ninguém. A ninguém. Como diz o Morrissey: “this world is full of crashing bores…I’m not one.”
