Outro Sócrates

O mesmo tom, o mesmo desrespeito pelo dinheiro dos credores (até quando eles o serão?), o mesmo pedido de uma solidariedade que não se cansa de corroer.
É este o líder da máquina do partido da “austeridade” no distrito de Lisboa?

Carlos Carreiras, hoje, no jornal i:

É o primeiro vídeo de campanha de Angela Merkel e corre mais ou menos assim: sentada num sofá preto numa sala vazia, ou de pé sobre um telhado com olhar vago sobre Berlim, a chanceler recandidata fala grosso sobre a obra feita como líder da Alemanha, ao longo de um vídeo sempre rodado em tons de cinza depressivo. Azar da realização ou promessa de mais um Outono carregado para a zona euro? A partir de dia 22 de setembro se verá. Mas a primeira certeza é que, daí em diante, as palavras não vão chegar.

As mais badaladas eleições alemãs desde a reunificação, eleições que a Europa espera em suspenso há três anos, são decisivas para o futuro da União e da zona euro. Com o Reino Unido entretido na discussão sobre o seu destino na Europa e com a França financeiramente exausta, sobrou para a Alemanha a liderança da integração europeia. Por falta de jeito, cálculo ou retraimento histórico, Merkel não tem sabido o que fazer com esta novidade histórica – a exigência da liderança à Alemanha e não a exigência da Alemanha de liderar. Em breve se vai perceber qual é o grau de comprometimento da Alemanha com o projecto europeu.

Durante toda a crise do euro, a Alemanha foi o país que mais ganhou: foi, durante largos períodos, a única economia europeia a crescer graças a uma imparável máquina exportadora que tem os seus méritos próprios mas que beneficiou da desgraça alheia. Com custos de financiamento quase nulos, os empresários alemães ganharam ainda mais competitividade face às empresas do Sul. Com um euro forte, as exportações de alto valor acrescentado continuaram a inundar o mercado europeu onde os gigantes industriais germânicos quase não têm concorrência. Com a crise do euro, a Alemanha tornou-se um refúgio dos investidores e os custos de financiamento da economia tornaram-se tão baixos que Berlim vai poupar 41 mil milhões de euros em juros. Enquanto a Europa do Sul viveu em agonia, a Alemanha portou-se como um eucalipto, secou tudo à sua volta.

Muita da retórica ouvida, e ainda por ouvir, da boca dos decisores alemães foi para consumo interno. Depois de setembro algo vai mudar nos comandos da política alemã e europeia pela simples razão de que é do interesse da Alemanha que tal aconteça – os seus bancos são os mais expostos às dívidas do Sul e o mercado interno europeu continua a ser o grande cliente alemão. De todos os pontos de vista, um euro mais forte e uma união mais forte é sinónimo de uma Alemanha mais forte. Está na hora de a Alemanha deixar de se comportar como a Suíça: economicamente poderosa mas politicamente relutante.

Mas podem as eleições alemães, mesmo com uma nova vitória de Merkel, dar um novo rumo à Europa? Caso a resposta seja negativa, as consequências serão devastadoras para a Europa e Portugal terá rapidamente de solidificar as suas alianças, sobretudo com o mundo emergente com o qual temos ligações privilegiadas. Contudo, mesmo uma vitória de Merkel pode mudar o rumo das coisas. Apesar da elevada popularidade da chanceler, a corrida vai ser disputada. Com o seu actual parceiro de coligação, o FDP, resumido à irrelevância, não está excluída a reedição de um cenário de grande coligação CDU/SPD, que Peer Steinbrück, candidato do SPD, conhece bem – foi ministro das Finanças de Merkel na grande coligação de 2005. Com uma aliança entre democratas-cristãos e sociais-democratas em Berlim, está aberta a porta a um compromisso mais vasto entre populares e socialistas no contexto europeu, e nesse cenário a Europa estará em melhor posição para atacar a crise de uma vez por todas. Este é também o tipo de consenso de que Portugal precisa.

Porque há quem, por cá, goste de extrapolar consequências de eleições alheias, uma solução de consenso na Alemanha não deixaria de ser mais uma derrota moral para o PS português. António José Seguro, que num tour europeu foi receber a bênção de Hollande (o falhado salvador socialista) e de Steinbrück, é o último dos socialistas da Europa a resistir à necessidade de compromissos políticos abrangentes. A bem do seu partido, julga ele. A mal do seu país, sabemos nós.

Presidente da Câmara de Cascais

3 pensamentos sobre “Outro Sócrates

  1. Jónatas

    Todos percebemos que um ajuste tem de ser feito do lado do Governo. O que não percebo é porque é que vocês estão sempre centrados nos Governos e nunca nos Bancos. E não percebo isso porque vocês sabem que a grande maioria dos Bancos exagerou, tal e qual como o fizeram os Governos. Que a questão aqui não tem só a ver com os Governos mas também com o sector privado e financeiro, que vocês, tanto quanto parece, convenientemente ignoram.

    Ignoram que o Deutsche Bank, neste momento, tenha uma rácio de capital de 1,63%. 1,63%! E os outros bancos alemães não estão melhor. Como isto também tem de assustar :

    “Deutsche Bank has $72.8 trillion in derivatives, or about 21 times more than the GDP of Germany.”

    Era bom que algum de vocês falasse sobre isto porque são números bem mais assustadores que a dívida portuguesa. E são números que nos afectam directamente.

  2. viver da propaganda é a triste sina de muitos autarcas; e falam com apoio expresso de 19% dos eleitores ao padrinho que fez a fineza de lhe dar o lugar. A maioria dos eleitores 63% tambem não devem ter entedimento do mal que fazem.

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