O PS, Sócrates e a anormalidade

Já muito se comentou sobre esta mistificação hilariante, no Portal do Partido Socialista, que decidiu recuperar a obra de Sócrates. A primeira observação que os comentadores fizeram foi a de que inexplicavelmente se omitem os números de 2009 e 2010. O Mário Amorim Lopes denunciou aqui o revisionismo socialista.

Veja-se: a nota chama-se «Consolidámos as contas públicas». «Consolidámos as contas públicas» –  reclamam os socialistas convertidos à herança de Sócrates -, porque «reduzimos o défice orçamental para valores nunca antes atingidos. Entre 2005 e 2008, o défice orçamental passou de 6,1% (implícito: 6,8%) para 2,6%, o valor mais baixo da Democracia».

Deixemos de lado a expressão abstrusa «défice implícito», que não quer dizer nada, não corresponde a noção nenhuma. Ignoremos o facto de 2005 ter sido um ano em que o PS governou a larga maioria do tempo (embora sugira que o défice de 2005 não é seu), e concentremos-nos no essencial, na pérola total: o PS baixou o défice para «o valor mais baixo da democracia». Em 2008, deduz-se.

Deixemos de lado também o pormenor de a matéria factual ser falsa: o défice em 2008 foi de 3,7% do PIB. E sejamos bondosos e admitamos que a obra a que se  referem os socialistas é a do défice de 2007, que foi de 3,2% do PIB*. Não foi o défice mais baixo da democracia. Em contrapartida, os défices de 2009 (10,2% do PIB) e 2010 (9,8% do PIB), sim, foram por larga margem os maiores da democracia e precipitaram-nos para a presente situação. Mas isto tudo são em si mesmo pormenores comparativamente menos importantes.

O ponto essencial é que se a falsidade que o PS reclama como verdade não fosse o que é: uma mentira, o PS consideraria que um défice de 2,6% do PIB significaria que teria consolidado as contas públicas. A justificação do dislate é a de que se trataria do «valor mais baixo da democracia».

Consolidar as contas públicas não é, na óptica do PS, equilibrá-las, e equilibrá-las permanentemente (ao longo do ciclo económico, sejamos benevolentes, com défices nos anos maus – quando o produto está abaixo do seu potencial – compensados por excedentes nos bons – na situação inversa). É obter o valor mais baixo da democracia.

Sucede que a democracia viveu permanentemente em largo desequilíbrio financeiro. Nunca obteve nada de sequer próximo de um excedente. Teve défices grandes em anos de crescimento, quando a economia estava a produzir acima do seu potencial, e mesmo em anos de forte crescimento, e défices em anos de recessão, embora em nenhum tenha atingido as proporções colossais dos dois últimos anos do último governo de Sócrates. De outra forma a dívida púbica não teria crescido de 13% do PIB, valor à entrada da democracia, para os 94% do PIB, no último ano da governação Sócrates.

Que isso não intrigue os socialistas é de facto um problema. E não é um problema apenas dos socialistas. É um problema do país. Porque o país escolhe periodicamente os socialistas para o governar e estes consideram que o défice mais baixo da democracia é um valor apreciável e exprime a consolidação das contas públicas; consideram, bem vistas as coisas, que a democracia financeiramente deficitária não é um problema da democracia, e mesmo «o» problema da nossa democracia, aquele sem a resolução do qual a democracia não pode sobreviver.

Consolidadas as contas públicas, diz ainda a nota do PS, obteve o seu governo «margem para responder à crise económica mundial, apoiando as famílias e as empresas», isto é, gerando os défices gigantescos de 2009 e 2010.

Supondo que a nota de propaganda do PS traduz um raciocínio, é natutal que o PS não tenha compreendido o que sucedeu ao país, e continue sem compreender. Na narrativa do PS, com um défice de 2,6% do PIB, o 35º défice sucessivo, embora o mais baixo da corda dos 35 (é falso, mas esqueçamos o detalhe), a dívida pública já 17 pontos percentuais mais elevada do que quando o país entrou no euro, o governo estava com margem para dois anos sucessivos de défices públicos da ordem dos 10% do PIB, para apoiar «as famílias e as empresas».

O disparo das taxas de juro a partir das primeiras semanas de Janeiro de 2011, que acabou por levar o país ao tapete, só pode ser compreendido paranoicamente como uma maldade dos mercados (também nada tem a ver com o facto de a economia ter entrado em divergência com a Europa por volta do ano 2000), e não como uma tardia reavaliação do risco do emitente soberano (Portugal), incapaz de crescer e viver em equilíbrio financeiro, e então a atingir os níveis da saturação – da «intolerância à dívida». Nenhuma doença se prolonga indefinidamente. Ou se cura, ou mata o paciente.

A nota do PS, com o seu gáudio pelo défice mais baixo da democracia (interessa pouco a mentira), ilustra bem a doença do PS. Que é também em larga medida a doença de um país, com enormes dificuldades em realizar que não poderá continuar a viver com um Estado que se transformou numa imensa ilusão, desacreditada entre quem o sustentava, mas domesticamente instalada com a inércia da normalidade. É mau. Porque a democracia não pode dispensar o PS, mesmo quando o PS parece dispensar o futuro da democracia.

* De facto, se se considerarem as medições estruturais da Comissão Europeia, que ajustam os défices expurgando-os da componente cíclica, isto é, do efeito do nível pontual da atividade económica, e das medidas extraordinárias, os défices naqueles dois anos foram maiores: 3,7% em 2007 e 4,5% em 2008. Nesses dois anos os défices estruturais foram maiores que os défices totais observados, porque a produção esteve acima do seu potencial.

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22 pensamentos sobre “O PS, Sócrates e a anormalidade

  1. makarana

    Eu diria o seguinte: há uma fase má do ps,após a crise de 2008(dou-lhe toda a razão ai nesse aspecto).Mas antes,não tendo sido perfeito,fez mais pela consolidação orçamental do que qualquer outro governo.Herdou um défice elevado,vindo do governo de Santana, e até 2007 baixou-o.Foi pena não ter continuado a ser assim.Mas temos que ser justos na análise.
    Para além disso,mudar de partido e de primeiro ministro não melhorou a situação financeira

  2. Devious

    Não percebo bem se se refere ao deficit “real” do Governo de Santana ou à previsão de Constâncio. É que entre uma coisa e outra vão 2.83 de diferença e parece-me que não sabe bem qual dos dois foi. É que apenas em dois anos, e por pequena margem, os deficits da era Sócrates foram mais baixos que o de “Santana”. Não se esqueça que Sócrates tomou posse a 12 de Março de 2005 e o deficit de 2005 foi de 6.5%. Com tanta competência poderia muito bem ter corrigido as coisas pelo menos em dois trimestres, como aliás toda a gente esperava que o Governo que está em funções tivesse feito.
    Não se esqueça também de durante o tempo desses brilhantes deficits se retirou da esfera do orçamento uma quantidade enorme de despesa. A tal que o Eurostat deixou de aceitar a partir de 2009 e que levou ás revisões catastróficas do deficit.
    Ou seja, nem os “factos” que aponta são corroborados por números nem o resultado foi assim tão fantástico (veja-se o descalabro de 2009 e 2010).
    E é assim que a narrativa “cola” nas cabeças das pessoas. Sound bytes, repetições de mentiras mas pouca ou nenhuma factualidade.
    A crença de que Sócrates terá feito um bom trabalho até um certo ponto é mais uma questão de fé. Há gente que acredita e pronto. Como acreditam na Ressurreição de Cristo ou na virgindade de Maria.
    Infelizmente a economia não se faz de fé. Porque podemos ter fé que vai haver dinheiro para tudo e ele acabar. Como acabou. As razões do nosso descalabro vêm de longe e foram muito agravadas desde 2008. Querer acreditar que o mal foi feito por estes e que os que estão imediatamente antes são isentos de responsabilidade só pode ser uma questão de fé. Ou de má fé…

  3. makarana

    Devious,como sabe a politica orçamental é definida pelo Orçamento de estado.O de 2005,foi feito feito em 2004 durante o governo de Santana.O défice era de 6,8 na altura em que Sócrates entrou para o governo,e tomou medidas correctivas,passando o défice a ser de 6,5%,menos 3%.Portanto,ao contrário do que diz,houve efetivamente uma correcção.Até algo que este governo implementou,um orçamento rectificativo.Dados que foram validados pelo Eurostat na altura,e são os que ainda constam no site da instituição por sinal.Mas pelos vistos o Eurostat é uma instituição como muita fé 🙂 Temos de nos cingir ao que o Eurostat diz sobre esse ano,não o que gostariamos que dissesse
    Adenda:http://epp.eurostat.ec.europa.eu/portal/page/portal/government_finance_statistics/data/main_tables

  4. aa2

    Mas pá

    Estou a esquecer o defice escondido nos SWAPS.

    Isto deve tambem ser défice implicito, ou seja extra contabilidade?

    Ou não?

  5. Devious

    Menos .33 se tomarmos como boas as previsões de Constâncio.
    Para referência estes são os números do Eurostat
    2003 -3,7
    2004 -4,0
    2005 -6,5
    2006 -4,6
    2007 -3,1
    2008 -3,6
    2009 -10,2
    2010 -9,8
    2011 -4,4
    2012 -6,4
    Só não consigo entender porque se assaca a responsabilidade do deficit de 2005 a Santana quando estava decorrido um trimestre e havia pelo menos 3 (2.5 com o tempo de repensar as coisas) para apresentar um orlçamento rectificativo que tivesse algum impacto. Mas .33% em relação às previsões de catástrofe de Constâncio parece-me manifestamente mau para o homem que “consolidou as contas públicas”. Será que os três meses perdidos de Campos e Cunha têm a ver com isto?

  6. aa2

    Nós até ficamos a saber que em 2008 foram criados SWAPS para esconder o Défice. ou não sabemos?

    Mais uma questão que vai ser esquecida pelos jornalistas endeusadores do PS.

  7. makarana

    Devious,em maio desse ano(2005),houve um orçamento rectificativo para corrigir as contas.O rectificativo está previsto para situações dessas.

  8. O Raio

    Este comentário recusa-se a aparecer!
    E, pior, se o tento meter segunda vez responde-me que me estou a repetir.

    Para evitar tal coisa meti uns caracteres pelo meio do texto.

    *Acho piada esta sanha toda contra o Sócrates. ***
    *De uma forma geral esquecemos-nos de outros governos e dos seus disparates. ***
    Once upon a time havia um governo cujo Ministro das Finanças, de uma assentada, valorizou o Escudo em 6%. Na altura li que foi uma premiere mundial pois nunca um país tinha valorizado tanto a sua moeda.
    *** E quem fez isto? O Primeiro Ministro era um tal Sá Carneiro e o Ministro das Finanças um tal Cavaco Silva. ***
    *** Claro que, nos primeiros tempos foi óptimo, toda a gente sentia mais dinheiro na carteira, depois foi o descalabro e, o governo seguinte (do Mário Soares) teve de pedir ajuda ao FMI. ***

    +++ “o facto de a economia ter entrado em divergência com a Europa por volta do ano 2000” +++

    +++ Que foi causado pela entrada desastrada na moeda única… +++

    O Raio

    http://cabalas.blogspot.com

  9. Jónatas

    Ignoremos o facto de que os Orçamentos sempre foram deficitários. Ignoremos também o facto de que à Esquerda ou à Direita nunca nenhum Governo conseguiu fazer um Orçamento que não fosse deficitário. Ignoremos também o facto de que o PSD e o CDS tem tanta culpa nisto como o PS, nomeadamente, aprovando ou abstendo-se na votação de Orçamentos deficitários ao longo destes anos todos.

    Ignorado tudo isto, keep calm and carry on.

  10. ricardo saramago

    Mais preocupante do que os dislates da propaganda é a ilusão subjacente de que “com o PS” os dias das vacas gordas vão voltar.
    O partido do Estado e parte substancial dos que vivem na sua dependência não querem saber da realidade para nada.
    É neste terreno fértil que os demagogos e desonestos esperam colher proveito.
    Não interessa se há ou não dinheiro para cumprir as promessas desde que chegue para eles e para os amigalhaços.

  11. Tiro ao Alvo

    makarana, o amigo não percebe nada de orçamentos de Estado e meteu-se a discutir o assunto, armando em mestre. Repare, escreveu isto: “o défice era de 6,8% na altura em que Sócrates entrou para o governo, e tomou medidas correctivas, passando o défice a ser de 6,5%, menos 3%”.
    Mas as coisas não são assim makarana: quando o Sócrates tomou posse, em Março de 2005, pediu ao Constâncio para fazer uma estimativa do valor que o défice atingiria, em Dezembro de 2005, se fosse seguido o orçamento deixado pelo governo anterior. Portanto, primeiro ponto, os 6,83% não era o défice, mas a estimativa do défice, que são coisas muito diferentes.
    A propósito, custa muito a aceitar uma previsão até às centésimas, feita em Março/Abril, sobre o que vai acontecer em Dezembro. O Constâncio podia ter escrito “entre 6,5% e 7%” e eu achava razoável, assim, com aqueles 6,83% eu, e muita outra gente, achámos que foi um frete, feito pelo Constâncio, então governador do Banco de Portugal, ao seu partido. Uma vergonha, digamos assim.
    Segundo ponto: o governo do Sócrates, ao fechar o ano de 2005 com um défice de 6,5%, não baixou 3% em relação à estimativa do Constâncio, como o amigo escreveu. Ele apenas baixou 0,33%, o que é cerca de 10 vezes menos. 10 vezes menos! Erro crasso, portanto.
    Em conclusão, modere-se e escreva só do que sabe. Passe bem.

  12. makarana

    Tiro ao Alvo, não sou seu amigo,nem admito esse tom.Mas deixemos isso.O 6,8 seria o défice sem as medidas que foram tomadas.Não vejo muita distância entre dizer 6,83 e entre 6,5 e 7%.A minha forma de interpretar o assunto é esta: o défice seria superior a 6,5 se algumas medidas não tivessem sido tomadas.No fundo vai dar ao mesmo,
    Quanto á diferença,ai tenho que agradecer sinceramente a correcção que me fez.De facto,enganei-me na conta.Foram 0,33%.Enganei-me :).

  13. Devious

    Se retirarmos a “narrativa” eleitoral o problema é que os números não correspondem à verdade.
    Em nenhum ano conseguiram 2.6%. Conseguiram em 2007 3.1 mas muito disso teve a ver com o pontapear despesa para a frente. Posso dizer-lhe que no último trimestre de 2007 houve despesas não aprovadas em barda em diversos ministérios. Administração Interna e Justiça foram dois deles. Junte-lhe o não pagamento de dívidas da saúde (medicamentos e não só) e percebe-se porque as coisas descambaram severamente daí para a frente.
    Por mais voltas que lhe queiram dar qualquer interpretação fria dos números resulta num flop monumental. E não podia ser de outra forma, ou então não conseguíamos explicar o que aconteceu em 2011 com o empréstimo do FEEF de 78 mil milhões.
    Tanto que não houve qualquer consolidação de despesa que ainda andamos à volta disso.

  14. makarana

    Eu não o defendo Devious..Mas em primeiro lugar,tenho que lhe perguntar como é que arranjou essa informação acerca desse ultimo trimestre..Isso acontece com qualquer governo do mundo,de esquerda,ou direita, e é o que acontece actualmente com o PSD,supostamente um partido de direita liberal :)E depois O que faço é notar que esses dados foram validados pelo Eurostat.Está lá tudo.O défice no site, é de 3,1e isso foi aceite na Europa.Ponto Final.
    O que fez descambar foi as ppp,o bpn,a madeira,e as empresas de transporte.

  15. Tiro ao Alvo escreveu:

    ” custa muito a aceitar uma previsão até às centésimas, feita em Março/Abril, sobre o que vai acontecer em Dezembro.”

    Na minha modesta opinião o Vítor Constâncio em ignorância e incapacidade está ao nível do nosso Primeiro, Pedro Passos Coelho.

    Uma previsão até às centésimas sobre o défice é equivalente a qualquer um que ganhe €1000 mensais, dizer, em Março/Abril, quanto vai gastar no ano em apreço com um erro inferior a dois Euros!

    O Vítor Constâncio ao escrever tal coisa, mais do que mostrar que estava a fazer um frete, demonstrou foi ignorância.

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