à direita, naturalmente

Não há memória histórica, política ou ideológica da esquerda ter alguma vez assumido incondicionalmente a defesa do livre mercado e do capitalismo. No limite da sua maior tolerância para com eles, aceita-os, desde que mitigados pela intervenção pública do estado e do governo, que lhes corrigiria os defeitos e ineficiências. Com um pouco menos de tolerância socialista, condena-os e considera-os fases inevitáveis, mas a ultrapassar velozmente, do processo histórico rumo ao seu modelo de sociedade. Também não poderia ser de outro modo: a esquerda não acredita no indivíduo e nos processos de cooperação social espontâneos, considera o conflito uma predisposição natural e agrupa os homens por agregados sociológicos de interesses antagónicos e conflituantes. Por tais motivos, a esquerda nunca foi nem nunca poderá ser liberal no sentido clássico do termo, podendo-o ter sido tão-somente no sentido histórico de ruptura com a monarquia absolutista.

Não havendo disponibilidade da esquerda para assumir os princípios do liberalismo clássico, estes só poderão ser defendidos, mais não fosse a contrario sensu, pela direita. É certo que a direita está muitas vezes distante dos valores da liberdade, preterindo-os em favor de um falso conservadorismo, que, na verdade, é incapaz de respeitar e fazer respeitar os princípios tradicionais de uma sociedade livre, visando apenas a manutenção de privilégios de casta. Um certo aristocratismo patético, soi-disant elitista, que desdenha do comércio, do lucro e do “vil metal”, as falsas memórias de um estado familiar e corporativo, onde se movimentavam com um certo à vontade, e, depois, a exaltação do estado total(itário) incorporador da alma da nação, invariavelmente encarnado na pessoa de um autocrata, em quem viam um bonus pater familias que cuidaria de todos e da nação, levaram esta direita a virar as costas ao liberalismo clássico. Em Portugal, muito por culpa da tradição liberal jacobina, aqui historicamente acolhida, e da falta de debate de ideias alicerçado numa profunda ignorância, a direita andou confundida até há bem pouco tempo. Isto não significa, contudo, que não tenha conversão, tão-pouco que ela ainda seja assim ou que esgote toda a área geográfica a que pertence.

Ora, os valores do liberalismo clássico e do capitalismo não podem continuar sem tecto, como se devessem envergonhar os seus defensores. No fim de contas, foi graças a eles que «a grande massa dos nossos contemporâneos pode gozar de um padrão de vida bem acima do que, há poucas gerações, era possível somente aos ricos e aos detentores de privilégios especiais», como lembrou Ludwig von Mises no começo do século passado. Esse padrão de vida só foi possível naqueles países que acataram, em certo momento da sua história, com maior ou menor fidelidade, o espírito do capitalismo. Não são universais e não são acolhidos ideologicamente com o mesmo entusiasmo à esquerda e à direita, mas trouxeram bem-estar e felicidade onde foram e são aplicados. São valores dos quais nos devemos orgulhar e que merecem ser defendidos, até porque têm regredido em diversos países, como em Portugal, com prejuízos consideráveis e evidenciáveis. Defendidos à direita, naturalmente.

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14 pensamentos sobre “à direita, naturalmente

  1. “À direita, naturalmente”

    É evidente que em Portugal há um excesso de partidos de esquerda e um défice à direita. Basta lembrar que 4/5 dos partidos com assento parlamentar são de esquerda, cobrindo um leque vai do comunismo à social-democracia.

    Mas isso não quer dizer que o liberalismo seja exclusivo de direita ou de esquerda. Basta analisar os partidos liberais que ainda existem por esse mundo fora como refiro neste meu post: http://marques-mendes.blogspot.com/2011/03/o-liberalismo-e-os-partidos-politicos.html

  2. Carlos Pacheco

    “São valores dos quais nos devemos orgulhar e que merecem ser defendidos, até porque têm regredido em diversos países, como em Portugal”

    O grau de alucinação é mesmo muito elevado.

  3. Carlos Ferraz

    E o CDS não é um partido da Esquerda? 🙂
    O Marques Mendes não quererá dar mais atenção à realidade?

  4. A boa governação não pode depender de conceitos esquerda/direita porque envenena a partida a analise do que se passa. Os de “esquerda” têm decapitado e hipotecado o estado para que mãos? Que Brigada das Colheres é que tem benificiado das politicas feitas? deitar poeira para eleitores cheios de fé não merece ser apelidada de esq./dir é engano puro.

  5. Rui Cepêda

    Caro rui a.

    Estou mais uma vez inteiramente de acordo no que respeita ao primeiro parágrafo deste post.

    Quanto ao restante, e no meu entender, há direita liberal, há direita conservadora e até há mais. A conservadora não se opõe à liberdade. O retrato/ caricatura, que dela faz é a da que vigorava no ancien sistéme. Existiu concerteza mas foi há quarenta anos e em circunstâncias completamente diferentes.

    A direita não tem andado confundida. Tem andado, isso sim, demitida e omissa.

    O conservadorismo não esgota a direita

    Também acho que a esquerda (o socialismo) não pode ser liberal – no sentido libertário, porque este é capitalista. Aceitar o contrário seria uma contradição nos termos.
    Pode é tolerá-lo por estratégia até atingir o objectivo que erradamente se propõe, em teoria é claro, casos do socialismo democrático e da social democracia, esta mais soft.

  6. Fincapé

    Caro rui a.
    “…foi graças a eles (liberalismo clássico e capitalismo) que «a grande massa dos nossos contemporâneos pode gozar de um padrão de vida bem acima do que, há poucas gerações, era possível somente aos ricos e aos detentores de privilégios especiais», como lembrou Ludwig von Mises…”
    Falta aqui falar na miséria em que o capitalismo mantinha os trabalhadores, o trabalho infantil, a o número de horas e de dias de trabalho semanal. E falta também referir a luta até à morte dos trabalhadores, organizados em sindicatos e não só. E ainda a revolução russa de 1917 que assustou de morte os capitalistas.
    O capitalismo, hoje mais aceitável até limites razoáveis, não deu nada a ninguém. Foi tudo conquistado a ferros. “Metropolis”, “Tempos Modernos”, “Há Lodo no Cais” (de outro modo) mostram o que era (e hoje está a ser de novo) o capitalismo.
    Cump.

  7. rui a.

    Respondendo a todos, do último ao primeiro:

    Fincapé:
    As condições de vida emergentes da Revolução Industrial eram terríveis para os trabalhadores, se comparadas com as de hoje. Acontece, porém, que eram bem melhores do que as que eles teriam nos seus locais de origem, habitualmente nos campos, onde morriam à fome e onde as crianças, que desgraçadamente incorporaram o trabalho infantil da primeira fase dessa Revolução, não sobreviviam aos primeiros meses de vida, quando não aos próprios partos. Só isso justifica, caro Fincapé, que as pessoas se submetessem a essas condições que hoje nos parecem desumanas: é que, apesar de tudo, elas eram bem melhores do que as pessoas que a elas se submetiam tinham anteriormente. Ou seja: apesar de tudo, mesmo nesta fase do início da Revolução (e não esqueça nunca que a Revolução Industrial foi efectivamente uma revolução…) ela melhorou a condição de vida de muita gente. Vida essa que nunca deixou de melhorar nos países que continuaram a trilhar a economia de mercado, como hoje todos somos testemunhas. Essas melhorias vieram, por um lado, das exigências negociais dos trabalhadores, mais do que legítimas, desde que, a meu ver, integradas num princípio geral de plena liberdade contratual (não acredite muito na romantização dos sindicatos, sobretudo dos norte-americanos da primeira metade do século passado, muitos deles controlados pela Máfia, como sabe), e pelo próprio mercado, que obviamente passou a ser muito mais exigente em relação aos fornecedores dos produtos que consumia, como hoje é, por exemplo, em relação aos produtos originários de certos países asiáticos.

    Rui,

    Agradeço as suas palavras e concordo com o geral das suas observações sobre a direita portuguesa, embora a caricatura a que exponho, no texto, parte dela, não esteja assim tão distante da realidade dos nossos dias de hoje. Infelizmente, alguma direita nacional continua a digladiar-se, por exemplo, em torno da questão constitucional de oitocentos, não faltando por aí miguelistas, personagem por quem nutro simpatia pessoal e histórica (ao invés, por exemplo, do que penso do seu meio-irmão), apesar de reconhecer que ele estava fora do seu tempo e que deveria ter tido uma atitude muito mais inteligente do que teve (sigo, neste particular, a opinião de Oliveira Martins sobre estes dois personagens). Mas a verdade dos factos é que a nossa direita nunca foi próxima do liberalismo clássico, ou porque o confundiu com o jacobinismo, ou porque era genuinamente anti-democrática.

    Carlos Ferraz,

    Respondendo à sua pergunta sobre o CDS, lembro-lhe que foram vários dos seus líderes em exercício que tentaram posicionar o partido entre o PSD e o PS, mesmo até fazendo um esforço para sentar os seus deputados na Assembleia entre esses dois grupos parlamentares. Quer nomes? Dou-lhe dois: Freitas do Amaral (o fundador) e Paulo Portas (nas últimas eleições, pelo menos…). Tire agora você as suas conclusões…

    Marques Mendes,

    O liberalismo que aqui se refere é o clássico e não o de raiz francesa, enciclopedista e rousseauniana (para já não falar no jacobinismo…), que fez o seu caminho no século XIX e hoje designa genericamente a social-democracia norte-americana do Partido Democrata. Essa diferença é bem clara e vários autores explicam-na bem, entre eles os próprios Mises e Hayek, e, em Portugal, José Manuel Moreira. Não podemos, por isso, pegar apenas no termo para classificar o seu conteúdo.

    Cumprimentos,

  8. Renato Souza

    Estranho o que muitos esquecem: A grande maioria das crianças pequenas (desde 5 anos) que trabalhavam nas fábricas britânicas, no início da revolução industrial, eram órfãos “sob os cuidados do governo” entregues por esse a industriais que lhes pagavam miséria, e lhes davam condições horríveis. Porque de tudo isso? O governo tirou dos religiosos o trabalho de cuidar dos órfãos, e tomou-o para si. Depois, achou que a conta ficou cara demais.

    Onde tem gente fazendo merda grande, tem sempre o dedo do estado! É ou não é verdade? Todos os grandes genocídios, guerras, escravidão, massacres, engenharias sociais, tudo o que de pior há no mundo, foi feito pelos governos. E aqueles que mais se disseram amigos dos pobres e oprimidos (URSS e China) foram os que cometeram os piores crimes contra eles.

    Não é à toa que a besta do Apocalipse é a representação de um estado hipertrofiado. Compare com as bestas descritas pelo profeta Daniel, e veja que os comentaristas desde os tempos antigos diziam sempre tratar-se de “reinos”, isto é, estados.

  9. Fincapé

    Caro rui a.,
    A sua resposta é inteligente, sem dívida, como habitual. Tanto que, também como habitual, me atrevo a dar-lhe o pedaço de razão que corresponde ao que disse atrás. No entanto, muitos trabalhadores fugiram para a indústria localizada nos centros urbanos ou junto deles porque a mecanização agrícola dispensar mão-de-obra e não por ser melhor vida.
    Mas, de qualquer maneira, a concentração das pessoas nas fábricas permitiu uma organização, essencialmente sindical, que, associada à revolução russa e ao medo que suscitou nos patrões contribuiu para a melhoria das condições de vida. Mesmo Ford que tinha a visão de que não venderia automóveis se as pessoas não os pudessem comprar, lutou brutalmente contra a influência dos sindicatos. Quanto a Máfias sindicais, sem dúvida, e o filme que referi acima trata bem o assunto.

  10. Pinto

    Rui, gosto bastante dos seus textos, tanto aqui como no Blasfémias mas vai-me desculpar a crueza da resposta: o que aqui faz, ao englobar o conservadorismo, o nacionalismo totalitário, o aristocratismo, o mercantilismo, na direita e o jacobinismo, o socialismo, o comunismo, na esquerda, mais não é do que bipolarizar a complexidade da realidade. É uma ideia positivista de querer compartimentar e mensurar ideias para facilitar a compreensão, procurando uma lógica racional e aritmética de uma realidade complexa que não se afigura passível de ser arrumada de forma tão simplista e minimalista.

    Não há justificação razoável para arremessar Vsevolod Eikhenbaum (Volin) e Estaline para o saco da esquerda e Hitler e Thatcher para o saco da direita. Foram pessoas que nada tinham em comum. Procurar elos coincidentes para fundamentar a arrumação preconcebida é dar expressão aos preconceitos de Durkheim e arrastá-los para a área política.

    Cumprimentos

  11. rui a.

    Caro Pinto,

    Agradeço as suas palavras e o seu comentário, mas repare que em momento algum cataloguei os totalitarismos fascistas e comunistas na esquerda ou na direita, embora, no caso do comunismo, ele seja inegavelmente um produto extremo do esquerdismo marxista, como sabe, o que se não passa com o nazismo ou com o fascismo italiano, onde vejo raízes mais socialistas do que de direita e menos ainda do conservadorismo. O percurso ideológico pessoal de Mussolini era socialista, a sua exaltação do estado é completamente adversa de qualquer tradição conservadora ou liberal, ao passo que o nazismo se definia, e bem, como um socialismo nacional, para se contrapor ao internacionalismo proletário sociético.
    Posto isto, o que digo é que no pensamento democrático não é difícil agrupar as ideologias da direita e da esquerda, não ignorando que elas são diferentes entre si, embora tenham uma raíz comum e mais ou menos afinidades. Isto, julgo que não é difícil de demonstrar.

    Cumprimentos,

  12. Rui Cepêda

    Rui

    Realmente a nossa direita nunca foi liberal no passado. É claro que há meia dúzia de pessoas que vivem na lua e se entretêm com arqueologia política. Sendo monárquicos, nem todos são de direita. É um fait divers. O equivalente seria dicutir-se hoje sobre qual a teoria a seguir: se a fisiocracia de Quesnay, se o mercantilismo de Colbert. Como também se pode discutir o sexo dos anjos. Sucede que nada disso representa a direita actual.

    Também não acho que a direita seja sequer anti democrática em geral. Gosta e está habituada ao agasalho estatal. Isso sim, e nesse aspecto embora por razões diferentes concorre com a esquerda, que não sabe pensar e viver de outro modo.

    Cito como exemplo embora não haja muitos, o antigo grupo de Coimbra, depois grupo de Ofir, onde pontificava Lucas Pires e participavam muitos representantes do escol intelectual Português. Nem todos estão vivos infelizmente, outros afastaram-se da política, mas ainda há gente muito capaz e em número suficiente, para que se possa dizer que existe uma direita democrática em Portugal.

  13. O problema é a confusão total. Há duas correntes liberais, a “francesa” ou continental, marcada pela revolução, assente num conceito de liberdade tutelada, positiva, anti-clerical, assente no colectivo como unidade filosófica, pela igualdade material, e a “inglesa”, mais assente na liberdade negativa, isto é, ser-se livre de fazer o que não seja coerção de terceiros, e considerando a igualdade formal com primazia, como igualdade de oportunidades. Eu alinho por esta versão, pois a outra tende para o despotismo iluminado e para o totalitarismo!

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