Recordar é viver

Dizia um socialista a outro:

“Em Portugal, a liberdade é muito difícil, sobretudo porque não temos liberais. Temos libertinos, demagogos ou ultramontanos de todas as cores, mas pessoas que compreendam a dimensão profunda da liberdade já reparei que há muito poucas.”

— António Alçada Baptista, em carta a Marcelo Caetano.

A liberdade, por si mesmo, é um conceito tão difuso e ambíguo que, em última análise, permitiria justificar toda e qualquer ação. Daí que deva ser circunscrito à mais pequena das minorias, o indivíduo, enquadrando-se assim na esfera individual, onde começa e onde acaba. A dimensão individual concede e limita a liberdade. Responsabiliza quem dela dispõe, também, não fosse a liberdade um fardo de responsabilidade no respeito pelos outros.

A liberdade a que se refere António Alçada Baptista é, mais do que uma liberdade social, que concede ao indivíduo o direito de decidir sobre parte da sua própria vida, a liberdade para que um grupo de illuminatis ponham e disponham sobre a vida dos outros, no que a critérios mais amplos concerne. Libertando-os do pesado fardo que é a sua própria liberdade individual, única, própria, em detrimento da liberdade de impor um bem maior, o comum, mesmo que atropelando os indivíduos. É a máxima consequencialista de Jeremy Bentham, em que os fins justificam os meios, os decretos e os déspotas, agora “livres”.

E, se assim for, só me ocorre dizer que desses está Portugal cheio.

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5 pensamentos sobre “Recordar é viver

  1. Comunista

    “Daí que deva ser circunscrito à mais pequena das minorias, o indivíduo, enquadrando-se assim na esfera individual, onde começa e onde acaba.”

    Você claramente não sabe o que é um indivíduo é por isso que se confia completamente nele. Como disse noutro lado qualquer, quando você tiver um vizinho intratável, que não respeita nada senão a sua própria vontade, que ouça música no volume quem bem entende, às horas que bem entende, que não aceite reclamações e ainda o ameace a si e à sua família se reclamar muito, que não se impressione com a polícia, que inclusive esteja disposto a ir preso se for preciso e o prefira a alguma vez ceder a qualquer reclamação sua, então aí você terá estado perto de ter conhecido um indivíduo.

  2. Esse vizinho está claramente a violar a liberdade individual dos demais. Nesse caso, deverá existir um sistema judicial perene, expedito e eficaz que resolva a contenda.

    Não obstante, nada do que disse vai contra a premissa filosófica que enquadra o conceito de liberdade individual. Esse vizinho está claramente a abusar da sua liberdade individual, violando a dos outros. O meu objectivo era mostrar que o conceito de liberdade individual se define a si mesmo e se limita a si mesmo, o que é precisamente o caso no exemplo que deu.

  3. Comunista

    Afinal você quer um indivíduo que se conforme e obedeça à sua ideia do que deve ser um indivíduo desde logo na base de que a sua ideia é preferida pela maioria, enfim, que a maioria é que deve determinar o alcance da liberdade individual.

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