sobriedade

Regressado de férias, tenho passado a manhã a analisar a última síntese conjuntural do INE para compreender os últimos números macroeconómicos. E conforme comentei de relance no próprio dia, depois de ter passado os olhos pelas gordas, na minha opinião, o crescimento em cadeia de 1,1% registado no segundo trimestre do ano marca apenas a estabilização da contracção económica (“year-over-year” continuamos com -2,0%…). Assim, sendo os dados positivos, não são ainda motivo para deitar foguetes nem para proclamar que a crise acabou, e uma análise mais detalhada aos números reforça esta minha dose de sobriedade.

Diz-nos o INE que “a evolução do PIB no trimestre de referência traduziu sobretudo a redução menos acentuada do Investimento e a aceleração expressiva das Exportações de Bens e Serviços, em parte associada ao efeito de calendário relativo ao período da Páscoa. (…) O indicador quantitativo do consumo privado registou uma diminuição homóloga menos intensa em junho, refletindo o contributo negativo menos acentuado das duas componentes, consumo corrente e consumo duradouro, destacando-se o último caso. O indicador de FBCF também diminuiu de forma menos expressiva em junho, em resultado da evolução de todas as componentes, salientando-se o contributo negativo menos expressivo da componente de construção.” Em suma, o panorama geral é este, restando acrescentar a redução da taxa de desemprego: de 17,8% no primeiro trimestre do ano para 16,4% no segundo.

As exportações continuam a ser a estrela do firmamento, muito embora o indicador utilizado nesta síntese do INE seja uma coisa chamada “variação homóloga da média móvel dos últimos 3 meses”. O próprio INE se refere à sazonalidade do segundo trimestre para adicionar uma nota quanto ao chamado efeito de base do período da Páscoa. Faltam, pois, dados para percebermos o verdadeiro alcance da variação de 6,3% nesta componente do PIB e para avaliarmos qual o impacto das reexportações de combustíveis (ie, importações que em resultado da contracção não são consumidas, sendo assim reexportadas).

Quanto aos indicadores de actividade económica, apenas dois são realmente positivos: o crescimento da produção industrial e do número de dormidas em unidades hoteleiras. Os restantes continuam todos com sinal negativo, designadamente os volumes de negócios (ie, vendas mais prestações de serviços) em todos os segmentos da economia (indústria incluída) e que atestam a debilidade da situação. Quanto ao consumo privado, neste domínio só há uma rubrica que evidencia alguma robustez e é a rubrica do costume: vendas de automóveis. No investimento passa-se o mesmo: aumentaram as vendas de ligeiros comerciais (de pesados, infelizmente, não…), e tudo o resto continua em forte contracção.

Por fim, o mercado laboral. Tendo a taxa de desemprego diminuído de 17,8% para 16,4%, o emprego total, ao contrário do que seria de esperar, também diminuiu: -4% face ao período homólogo. Ou seja, verdadeiramente, foi a redução da população activa (-2,2% no espaço de um ano, cerca de 100 mil pessoas entre desencorajados, reformados e emigrados) que conduziu à redução da taxa de desemprego. E este é o derradeiro alerta, a propósito de uma estabilização da contracção cuja inversão definitiva não vislumbro ainda à vista. Sem prejuízo de alguns dados positivos que vão saindo.

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3 pensamentos sobre “sobriedade

  1. ocni

    uma coisa apenas:

    porque ninguém fala do faseamento do pagamentos das PPP.
    D. Socrates, de cognome o aldrabão, fez com que este ano em que iria a eleições se entretanto não tivesse caido, esses pagamentos fossem excepcionalmente baixos, para o ano sobem novamente e para valores mais altos que antes.

    Isso e os cortes irão provocar novamente o agravamento da recessão.

  2. Pingback: Economia a contrair, emprego a degradar-se | Fuga de Ideias

  3. Pingback: copo (ainda) meio vazio | O Insurgente

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