Todas as violações são iguais, mas umas são mais iguais que outras

O disparate anda em alta no que toca a violações. Há pouco tempo, lá no outro lado do mundo, tivemos um político eleito do Japão considerando uma necessidade de guerra as centenas de milhares de mulheres que os japoneses usaram como escravas sexuais durante a segunda guerra mundial. Um professor de direito chinês afirmou que violar uma prostituta era menos grave do que violar uma mulher que não se protitui, a propósito de um caso de violação de uma prostituta pelo filho de um alto oficial do Exército de Libertação Popular. E um político de Hong Kong sugeriu às senhoras do território que era melhor beberem menos álcool se quisessem evitar serem violadas. Uns tempos antes foram os militares do Egito fazendo testes de virgindade às meninas que protestavam, para que estas depois não os acusassem de violação (pelos vistos também só contam as violações a virgens).Coisas que só podem acontecer no exótico oriente, não é? Não. Ainda hoje, alertada por esta notícia do DN, descobri que um juíz e um procurador britânicos consideraram que um homem de 41 anos, coitadinho, tinha sido forçado a abusar de uma adolescente de 13 anos, que essa galdéria parecia muuuuuuito mais velha (14 ou 15 anos – ui, quase trintona) e era sexualmente experiente (já tinha sido abusada anteriormente, a sedutora peste). Sendo eu do sexo feminino, não percebo destas coisas, mas talvez faça parte das fantasias masculinas serem seduzidos por uma sensual adolescente, qual Lolita. No entanto, lá está, um tribunal não serve para juízes e procuradores publicitarem os seus preconceitos e, menos ainda, as suas fantasias.

E ainda trago para aqui uma questão que, parecendo que não, tem muito a ver com o que esta argumentação judicial e esta sentença revelam. É por ainda haver tanto digno senhor com este profundo desprezo pela mulheres, mesmo na moderna Europa, que se aceita com tanta naturalidade a forma como as mulheres muçulmanas são tratadas dentro das comunidades muçulmanas cá residentes. No fundo, têm uma grande inveja pela forma como os muçulmanos põem o mulherio na ordem.

11 pensamentos sobre “Todas as violações são iguais, mas umas são mais iguais que outras

  1. Paulo M Costa

    Claro que percebo e simpatizo com a ideia: admita-se a diferença entre casos de violação e logo teremos a gravidade deste crime minada por atenuantes várias. Mas será isto razoável ou justo? Afinal, no mais grave de todos os crimes, o homicídio, admitem-se graus de culpa e portanto de punição em função de uma multidão de circunstâncias. O mesmo se aplica a qualquer outro crime, claro. Então porque não neste?

  2. Vítor C.

    Esta entrada, de Maria J. Marques, é de uma clareza tal que não necessitaria de qualquer outro complemento ou comentário. Subscrevo, “quase” integralmente, todo o seu texto; no entanto, detive-me perante a ideia dorida ( a dor é minha) das “fantasias masculinas” serem entendidas como um todo.
    Como ser pensante não me consigo incluir naquelas fantasias, sendo eu homem ou fosse eu mulher.
    Em tudo o resto, um aplauso pela chamada de atenção para a hipocrisia social!
    Vítor C.

  3. Maria João Marques

    Sim, nos homícidios considera-se haver ou não premeditação, o grau de crueldade com que foi cometido o crime e por aí. Não me choca haver critérios semelhantes para a violação. Do que se fala aqui é de maior ou menos gravidade de uma violação consoante a actividade sexual da vítima, se consumiu álcool ou não, se afinal até sorriu de forma insinuante para o violador, porventura se tinha roupa sexy ou se estava ‘decente’. Não são estes os critérios atenuantes para um homicídio. Se não percebe a diferença, não sei que lhe diga.

  4. Maria João Marques

    Vítor, cada um pode ter as fantasias que quiser 🙂 O que é grave não são as fantasias – eu sou católica e acho muito bem o princípio da moral cristã: os pensamentos, desejos, sentimentos, preconceitos, etc. não são pecado; os atos podem ser -, é pôr preconceitos e fantasias a ditarem sentenças que tornam um violador numa vítima e uma vítima numa ‘predadora’.

  5. Maria J. Marques, continuo a aceitar facilmente estas suas ideias, ressalvo apenas o preconceito para com o masculino; no meu entender, não se deve confundir a árvore com a floresta, embora reconheça que há “árvores”, como este juiz, a mais!
    Continue com os seus ideais, que eu continuarei a lê-los interessadamente!
    Vítor C.

  6. Floriano Mongo

    É um absurdo, uma inversão de valores porque a culpa passa a ser da vítima. Então se for prostituta está mesmo a pedi-las!

    Obvio que estes casos, sob qualquer ponto de vista, não configurarão na lista dos grandes momentos da ética da moral e da justiça.

    A culpa é da vítima, o agressor é que é vítima muito provavelmente das “circunstâncias”. É uma coisa assustadora esta forma delinquente de pensar e corre o risco, se levada como uma tese geral do direito, de nos empurrar para um pântano moral — e ético — sem retorno.

    Às mulheres estupradas ou de alguma forma abusadas, caberia, além da superação do trauma, da dor, da humilhação, a tarefa adicional de compreender as circunstâncias sociais do criminoso, que o teriam conduzido, como a um autómato, para o acto violento.

    Há aqueles que estupram e matam. Nos casos em que só há estupro – seguindo a mesma linha de pensamento – eu não sei até onde, não está a suposição de que, ao menos, os seus algozes lhes deixaram a vida, o que evidenciaria uma réstia de generosidade.

    Quem assim pensa tem uma receita para coibir a violência. Está ciente de que o abusador o faz em razão de circunstâncias que não eram da sua escolha. Ora, se a miséria, ou a guerra, enfim as “circunstâncias”, o empurraram para o estupro, tem-se por óbvio, que não empurraram para o homicídio. Se isso não aconteceu, então parece que, todo o sofrimento, raiva e vergonha da vítima deva ser transformado em gratidão pela sua vida.
    Grata a quem? No caso, só pode ser ao seu algoz.

  7. jurista

    Caro Floriano , já vi um despacho de arquivamento em que o burlado foi considerado culpado por se ter deixado burlar !!!
    P.S.
    Má língua : O autor do despacho foi posteriormente beneficiado pelo burlão !!!

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