Marchinha das Vadias

Já tiveram a experiência de entrar numa cerimónia, conferência ou em qualquer evento festivo que não fosse formalmente à porta fechada mas que deixasse subentendido que não seriam ali bem-vindos? Ao ignorar o bom senso que vos alertava previamente para não entrarem, teriam de permanecer num local em que destoariam do grupo e se sentiriam humilhados, durante horas, como verdadeiros intrusos? Confesso que já me aconteceu numa ocasião que ficou bem memorizada. Foi numa cerimónia de encerramento de uns dias de palestras no Mosteiro dos Jerónimos. Na prática, ninguém expulsaria três jovens alunas de um espaço repleto de gente madura e engravatadinha, diplomatas, ministros, seus familiares e afins. Já disse que tinha emissão em directo? Bem, como se costuma dizer, foi um “abre olhos” e louva-se a capacidade de o perceber.     
Já num extremo oposto, encontramos o exemplo de um grupo que faz questão de estar sempre a mais, invadindo, ofendendo e ridicularizando-se, até. No caso brasileiro, a espécie selvagem assume a designação de “a marcha das vadias” e pode ser localizada e observada a olho nu, sobretudo entre grandes ajuntamentos de pessoas, em datas especiais, eventos nacionais, cerimónias de cariz religioso, entre outros. A espécie assume este comportamento parasitário de forma a socorrer-se da visibilidade de outros grupos para ultrapassar a sua inerente pequenez e insignificância. Uma das mais recentes ocorrências pôde ser observada na monumental Jornada Mundial da Juventude que têm decorrido no Rio de Janeiro. Segundo consta, a espécie enfrenta sérias dificuldades de expansão dos valores que preconiza, pois eles não se revelam suficientemente apelativos e convincentes aos olhos de quem prefere a preservação da vida humana à face da Terra.

As pessoas que se mobilizam para o evento apostólico já mostraram estarem interessadas em actividades bem mais edificantes do que dançar de peitaça ao léu avenida abaixo, avenida acima, ir ali abortar, exibirem o facto de terem um corpo com membros e tudo, ofenderem a mãe, a filha e a vizinha ou mostrarem os seios aos fiéis e aos polícias (que vantagem tão exclusiva é essa de ter seios). Dada a indiferença dos católicos perante estas propostas, a espécie protegida recorreu a uma brincadeira tradicional e milenar, recuperando a desesperada atitude iconoclasta. Atitudes cheias de maturidade, como a do menino no infantário que enterra a chucha da amiga na areia porque não consegue chamar a atenção de outra forma. 

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17 pensamentos sobre “Marchinha das Vadias

  1. Gonçalo

    Uhm. Perdi algum do meu interesse pelo ML por achar que a opinião da Daniela Silva (especificamente, por ser das principais redactoras) transborda conservadorismo – é muito mais na onda do conservadorismo liberal que do libertarianismo. Enfim, tem-se um Insurgente num estilo mais Estado Sentido, equilibra-se um bocado as coisas (enquanto não houver um Pedro Quartin Graça a postar das suas terríveis piadas, tudo fino!).

  2. aardvark

    Primeiro, não percebo qual é a preocupação com as ditas vadias. De todos os “problemas” da sociedade actual, não compreendo, a menos que por uma questão de puritanismo que é bastante desajustada a este fórum, que seja exactamente este que merece tanta bilis. Pessoalmente até acho piada que o pessoal fique chocado.
    Segundo, não se percebe muito bem o que escreves, miúda. É um estilo assim um bocado circular e auto-referenciado, que até admito poder ser considerado esteticamente interessante, mas não ajuda à compreensão. Neste caso em particular, não se percebe exactamente qual é a crítica. Depreendemos pela adjectivação e sarcasmo que estas pessoas são, de acordo com a autora, criticáveis, mas fico totalmente à nora sobre o porquê. E eu até gostava de perceber…

  3. Surprese

    Temos uma Maria João Marques 2.

    À 3a retiro O Insurgente dos Favoritos do browser.

    O que é que isto interessa? Agora O Insurgente virou de Libertário para Conservador Puritano?

    Qualquer dia estão a formar o Tea Party de língua portuguesa.

  4. Miguel Noronha

    O Insurgente não “vira” para onde quer que seja. Não permitimos que um amontado de código tenha opiniões próprias. As pessoas que escrevem no Insurgente é que as têm.

    Já agora, o chamado “tea party” também não tem existência formal. É a designação usada para abarcar organizações e individuos sem qualquer tipo de coordenação central.

    Não sei o que se passa noutros blogs mas no Insurgente ninguém é obrigado ter os seus posts pré-aprovados. E também não obrigamos ninguém a lê-los.

  5. Miguel Noronha

    “Neste caso em particular, não se percebe exactamente qual é a crítica”
    Parece-me óbvia. No post em que refiro os insultos a uma ministra italiana ninguém parece ter tido dificuldade em perceber.

  6. aardvark

    falta de inteligência minha certamente. Se no caso italiano, percebo que seja um caso de racismo (eu sei porque é que o racismo é uma coisa negativa, não precisava que me explicasem), no caso das “vadias”, talvez por falta de conhecimento específico da situação (para além da já referida falta de inteligência), não compreendo que mal é que daí vem ao mundo. E tenho mente aberta o suficiente para ouvir o argumento (razão que me faz ler este blog de vez em quando aliás). Mas talvez tudo se explique pelo primeiro ponto sobre a minha até agora desconhecida falta de inteligência (o que aliás é provavelmente um sintoma).

    Noutro tópico, depreendo pelas palavras do Miguel que os critérios para selecção de contribuintes (contributores? às vezes luto contra o português, mais um sintoma, certamente) não passam por uma determinada forma de pensar a sociedade. Pelo tipo de posts que aqui leio estava convencido que sim, mas admito que não seja e nem me parece necessariamente mal. Mas, já agora, quais são os critérios? Se quiserem partilhar, claro.

  7. Miguel Noronha

    “não compreendo que mal é que daí vem ao mundo”
    Isso já eu tinha constatado. A civilidade já viu melhores dias.

    “Mas, já agora, quais são os critérios?”
    O único critério é ser aceite por todos.

    Quanto a inteligências alheias, cada um sabe de si.

  8. António Ramalho

    Cara Daniela,

    Quando afirma ‘Já num extremo oposto, encontramos o exemplo de um grupo que faz questão de estar sempre a mais, invadindo, ofendendo e ridicularizando-se, até.’ suponho que não saiba que tal manifestação estava marcada há já mais de um ano e que a própria vigília da Jornada Mundial da Juventude estava prevista que acontecesse em Guaritiba – foi à última da hora alterada para Copacabana, fruto da chuva que tornou o Campus Fidei (em Guaritiba) num autêntico lamaçal.

    Não lhe peço que seja imparcial, pois não se pode pedir isso a quem faz comentário, mas seria útil que nas suas avaliações futuras expusesse os factos não acessórios que possam enformar devidamente a opinião do leitor.

    Votos de bons posts futuros.
    Saudades do antigo Insurgente…

  9. Bruno Grácio

    Estas vadias lembram uma espécie de piquete de greve a favor do feminismo.

    Eu acho muito bem que as vadias tenham toda a liberdade de vadiar. Pelo que li (transversalmente) de algumas notícias, partilho até algumas opiniões. Mas não me parece que essa liberdade confira direito às vadias de querer impor os seus padrões a quem se rege por valores diferentes. Seja vadia ou beata, a escolha individual deve ser respeitada.

    Não entendo os comentários que julgam este post demasiado conservador. Mesmo que o seja, não me parece o estilo de um blog liberal impor uma corrente de opinião única sobre todos os temas… isso seria muito à Comité Central.

  10. O post é do meu agrado. Acrescentava só que a cobertura que justa ou despropositadamente uma seita têm não se compara com a outra e claro que aproveita a boleia -percebendo nós que a ideia não é chocar aqueles inabalaveis servos da fé mas aparecer na telé. uma oportunidade única de quem não tem dinheiro para mais (como lhes faria jeito as dádivas só dois minutos! entergues em Copacabana). Deixavam logo de fazer aquelas palhaçadas tristes
    Li aí para cima um insurgente contra a nova escriba, tenha torerancia que a arrogancia e intolerancia provoca alzeimar galopante!!.

  11. Daniela Silva

    Caro António Ramalho,
    Agradeço o comentário. Desconhecia que estivesse marcada há um ano mas o facto de ter sido mudado o local onde decorreria a vigília não altera em nada aquilo que eu pretendia dizer e que está implícito no padrão de comportamento destas manifestantes. Parti da ocorrência desta semana para dar um exemplo. A intenção foi (e é sempre, senão nem faria sentido) destabilizar. Neste caso, a intenção era fazer coincidir com a data das Jornadas. Com certeza que nem todos concordarão comigo (e ainda bem que existe discórdia) quando repudio este desrespeito tão acirrado contra, no caso em particular, os peregrinos.

    A todos os que considerarem o presente post demasiado conservador, posso garantir que é propositado e não pretendo mudar. Esses comentários são elogiosos para mim. Não é defeito é feitio. Também nunca disse que era libertária (absolutamente); não nasci com rótulo nem pretendo morrer com rótulo porque isso é bastante reductor. E digo mais, é opressor para a própria pessoa nos raciocínios e opiniões no seu dia-a-dia.

    Como o meu colega Miguel Noronha já referiu, o Insurgente não vira para lado nenhum e estou certa de que alguns dos insurgentes discordam deste ou de outros textos escritos por mim, nomeadamente no Movimento Libertário. Pessoalmente, canso-me de blogs que estejam sempre a abordar os mesmos assuntos, com os mesmos registos, o mesmo tipo de escrita, as mesmas piadas, as mesmas birras. Existem preocupações para todos os gostos e para todo o tipo de diagnósticos que fazemos da sociedade. É isso que se reflecte no Insurgente.

    Quanto à falta de clareza do texto é que vou ter de discordar porque eu até já tive textos bastante encriptados no passado e este não é o caso. Admito é que possa abusar das ironias e que isso atrapalhe o entendimento de muita gente. É questão de moderar.

    Caro Surprese,
    “Temos uma Maria João Marques 2” Também vou tomar isto como elogio, naturalmente. Aviso já que também gosto do Papa. É melhor fugir. 🙂

  12. Surprese

    Daniela,
    Sou Católico praticante, com familiares longínquos na mais alta hierarquia da igreja católica, e levo os meus filhos à catequese.
    O correcto entendimento do cristianismo implica ser tolerante (“que atire a primeira pedra quem nunca pecou”) e separar os temas económicos dos sociais (“a César o que é e de César”).
    Mais ainda, significa aceitar a diferença e as outras formas de ver a sociedade, pois Jesus foi ele mesmo um líder de uma seita radical, no seu contexto.
    Tenho familiares que professam outros tipos de cristianismo (as tais seitas), e tenho amigos muçulmanos com quem estudei e trabalhei.
    Não consigo aceitar de ânimo leve preconceitos contra pessoas que professam outras religiões (esta é para a Maria João Marques), ou que não professam religião nenhuma, até porque também já fui Ateu.
    Da mesma forma, não consigo aceitar de ânimo leve preconceitos contra mulheres que manifestam indignação exactamente por causa de preconceitos quanto à sua forma de vestir. Não conheço o movimento, mas recordo-me de ter aparecido por causa de violações (talvez no Canadá?), em que um Padre teve a infelicidade de afirmar que as jovens tinham sido violadas por vestir roupas provovantes.
    Também gosto do Papa, eventualmenta esta minha atitude deve-se ao facto de eu ser um liberal “radical”, em temas económicos e sociais.
    Seguirei os seus posts, com a habitual liberdade de discordar.

  13. Daniela Silva

    «Também gosto do Papa, eventualmente esta minha atitude deve-se ao facto de eu ser um liberal “radical”, em temas económicos e sociais.
    Seguirei os seus posts, com a habitual liberdade de discordar.»

    Caro Surprese, tem toda a liberdade para discordar e, quiçá, até concordar…o tempo o dirá. As críticas são sempre bem-vindas. Mas ainda só escrevi 2 posts no blog. Mini-posts. Não queiram fazer-me uma biografia com base nisso (nem eu a conseguiria fazer de mim própria).

    * E já agora, não tire o Insurgente dos favoritos por uma coisa destas. É que ainda agora entrei e não queria começar já a dar prejuízo aos meus patrões.

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