Em entrevista ao DN, Manuel Alegre afirma:
«A grande resposta que seria dada a esta situação era haver uma solução protagonizada pelos três partidos da esquerda. Infelizmente, as suas direções não estão à altura desta responsabilidade histórica, e é pena, porque era a resposta que esta direita portuguesa estava a precisar – um grande susto com os três partidos da esquerda a entenderem-se.»
O problema não são as “direções” dos três partidos de esquerda. O problema é a natureza inconciliável dos mesmos. O Partido Socialista é um partido que aceita as regras inerentes à democracia. Mesmo que, na minha opinião, tomando opções políticas cronicamente erradas, o PS é ainda assim uma força positiva no panorama político português, na medida em que se bate pela manutenção da ordem pública, pelo respeito pelos resultados eleitorais e pelo cumprimento da lei. (Mesmo que também seja, é verdade, o partido que nos trouxe o lamentável José Sócrates.)
Em contraste, o PCP e o Bloco de Esquerda são partidos que não aceitam as regras democráticas. Vão a eleições, fingindo aceitar as regras, mas batem-se permanentemente nas ruas e por vias nada democráticas com vista a subverter o regime e contradizer na prática os resultados eleitorais, como se os seus votos valessem mais que os dos outros partidos. (Lá está, alguns animais são mais iguais que os outros.) O PCP, particularmente, persiste em ter posições de apoio nada democráticas a causas como os regimes totalitários da Coreia do Norte e Cuba, aos terroristas e traficantes de droga das FARC e, internamente, são vários os episódios dos seus militantes, ou mesmo deputados, a fazerem afirmações de instigação à violência e ao conflito de classes (numa forma física e não meramente figurativa).
No ano 2000, António Guterres, acumulando a chefia do governo português, a presidência rotativa da União Europeia e a presidência da Internacional Socialista, liderou um movimento de repúdio pela inclusão num governo de coligação na Áustria do partido FPO, cujo líder tinha diversas vezes proferido afirmações públicas de apoio ou desculpabilização de acções da Alemanha Nazi. Falou-se na altura de que teria sido ultrapassado o “cordão sanitário” que separava a extrema-direita do mainstream político europeu. Não seria compreensível que o mesmo PS se conciliásse com a extrema-esquerda. O “susto” não seria só para a direita, como sugere Manuel Alegre. Seria mesmo para a maioria dos eleitores do PS.